Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

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Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Maratona das Águas#1: Qibao

 

Perto de Xangai há pequenas cidades construídas entre rios e canais, cidades essas que são conhecidas como ‘Veneza do Oriente’. Logo que cheguei aqui fiquei bastante animada pra começar a visitar essas cidadezinhas. Como a distância não é tão longa, posso fazer essas pequenas viagens de carro mesmo, saindo de manhã e voltando à noite.
Comecei minha Maratona das águas pelo vilarejo que fica mais perto de Xangai: Qibao, localizado no distrito de Minhang, a aproximadamente 20km do centro da cidade. Pode-se fazer o percurso até lá de metrô (linha 9) ou de táxi.
É um lugar com várias ruelas cheias de barracas que vendem comidas típicas, templos, museus e jardins. O vilarejo foi construído no período das cinco dinastias, há quase mil anos, mas floresceu mesmo durante as dinastias Ming e Qing.

A parte velha é bem pequenina, ocupa aproximadamente 2km quadrados. É cortada pelo rio Puhui e decorada por duas simpáticas pontes. Em Qibao também tem lojinhas que vendem antiguidades, obras de caligrafia chinesa, roupas e uma infinidade de bugigangas.

O que achei mais interessante em Qibao foi perceber que o lugar ainda guarda um pouquinho do charme e encanto das antigas e tradicionais cidades chinesas.

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Pagoda em Qibao

Procurando e lendo informações sobre esses vilarejos na internet, vi dicas de pessoas que aconselham procurar um hotel pra ficar pelo menos uma noite, pois assim pode-se acordar bem cedo no dia seguinte para andar e fotografar a cidade vazia, sem aquela multidão tão comum dos lugares turísticos na China. Pode ser que em outras “cidades das águas” – aquelas que ficam mais distantes de Xangai, como Suzhou e Hangzhou por exemplo, seja interessante pernoitar, mas em Qibao não vi necessidade alguma de ficar pra dormir, porque além de pertinho do centro a cidade é bem pequenina.

Além de caminhar e fotografar a cidadezinha há outras atividades interessantes que podemos fazer por lá: visitar o Museu do Comércio, a Casa Cricket, onde há milhares de grilos em gaiolas que os chineses costumam usar como animal de estimação e amuleto de sorte (nao me perguntem como eles conseguem isso, porque o ruído que esses bichinhos fazem é extremamente irritante), o Moinho de Algodão e o Museu das Marionetes.
Provar a culinária chinesa em algum dos muitos restaurantes é também uma boa ideia. E pra quem curte comer a tradicional comida de rua, opções não faltarão.
Enfim, pode-se passar umas horas bem agradáveis em Qibao. 
Eu gostei e recomendo fazer um passeio por lá.

O holocausto tão pouco conhecido

“Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como eu tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” (Bertolt Brecht)

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Quem aí aprendeu na escola algo relacionado ao Massacre de Nanquim? Eu, pelo menos até vir morar na China, não tinha escutado nada sobre isso. Adquiri conhecimento sobre essa parte horripilante da História por meio de livros de alguns escritores chineses que li.
Sempre tive interesse em ler livros que me levassem a aprender algo mais sobre o mundo. Confesso, no entanto, que saindo da ficção e passando para algo mais verídico alguns fatos me causam muita impressão.
Já tinha tido uma experiência bastante perturbadora anos atrás quando visitei um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial: Buchenwald, na Alemanha. Lembro-me bem que quando saí de lá jurei para mim mesma que nunca mais voltaria a colocar os pés em um lugar assim, porque a sensação que tive foi completamente angustiante, triste e, acima de tudo, vergonhosa.
Os anos passaram e eu decidi visitar outra vez um lugar bastante parecido com Buchenwald: o Museu do Massacre de Nanquim. Apesar da atmosfera no Museu do Massacre ser menos lúgubre que no campo de concentração alemão, a sensação não deixou de ser, também, angustiante.

O Massacre de Nanquim foi um episódio negro da História da China e que, infelizmente, até hoje é pouco conhecido. No dia 13 de dezembro de 1937 tropas do Império Japonês atacaram e dominaram a cidade de Nanquim, naquela época a capital da China. Os japoneses permaneceram na cidade durante seis semanas e, durante todo esse tempo, praticaram as piores atrocidades.
Cometeram assassinatos em massa com requinte de crueldade, estupros coletivos de mulheres jovens, idosas e até crianças, além de saques, roubos e todo tipo de desumanidade. A cidade ficou completamente destruída, as ruas cheias de corpos, um inferno! Foram mortas milhares de pessoas inocentes, completamente desarmadas, rendidas, sem a menor chance de defesa. Os japoneses pintaram e bordaram em Nanquim durante essas seis semanas.
O número de mortos não se pode afirmar com precisão, mas o Museu do Massacre nos informa que essa quantidade é de aproximadamente 300000 vítimas.

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Eu já planejava uma visita a esse museu há bastante tempo, queria ver as fotografias e os vídeos disponíveis (sim, há vídeos, apesar disso alguns japoneses ainda insistem em dizer que o massacre não ocorreu de fato), assim como os relatos de sobreviventes chineses e estrangeiros que viveram em Nanquim durante a guerra.
Claro que isso tudo pode ser feito por meio do computador, hoje a internet está cheia de fotos e documentários que mostram bem como foi o massacre. Mas eu queria ir lá, sentir pelo menos um pouquinho do desconforto que coisas desse tipo podem causar, porque acredito que esse desconforto é necessário. É preciso de vez em quando um choque de realidade para aprendermos a valorizar o sofrimento alheio.

Dentro daquele lugar me senti desassossegada e envergonhada. Senti uma melancolia quase inexplicável… Dentro daquele lugar me senti pequenina e completamente inútil.
Espero, sinceramente, que os erros do passado não sejam esquecidos, que fiquem na nossa memória para sempre… Que olhando para esses erros tenhamos ainda mais certeza dos atos que nao devem ser repetidos jamais. Que essa brutalidade do passado nos ensine a respeitar a dor alheia e, sobretudo, nos ensine a construir um futuro melhor, livre de qualquer tipo de sofrimento e desumanidade. 😥

Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o Massacre de Nanquim, indico dois filmes:

Flores do Oriente

City of Life and Death

Além desses dois filmes a internet oferece ainda vários documentários sobre Nanquim, inclusive sobre uma personagem muito importante, John Rabe, um empresário alemão que morou na cidade à época do holocausto e que muito fez pelo povo chinês. Interessante a história dele, vale a pena conhecer.

Declarando meu amor por Buenos Aires

“A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y el aire.” (Jorge Luis Borges)

Gosto muito de ler blogues de viagem. Gosto mesmo! Embora o objetivo do meu nunca tenha sido fornecer dicas para este ou aquele viajante, de vez em quando eu também acabo meio que entrando nessa onda e menciono alguns lugares que visitei por aí. Dando uma relida nos meus textos antigos, chamou muito a minha atenção o fato de nunca ter falado nada acerca de Buenos Aires, cidade na qual vivi de julho de 2007 a julho de 2011. Só agora, mais de quatro anos após minha partida, posso falar com o coração mais sossegado sobre o tempo tão especial que vivi por lá.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma grande dificuldade em escrever sobre coisas que me marcaram, coisas pelas quais guardo qualquer tipo de sentimento; acho difícil porque quase nunca encontro as palavras certas, não consigo disfarçar a emoção – o que para muitos pode soar como afetação.

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Mi Buenos Aires Querido!
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La Boca

A minha relação com Buenos Aires foi muito estranha, uma relação de amor e ódio. Quando eu soube que me mudaria pra lá e que ficaria por quatro anos a primeira reação foi de irritação. Eu não queria, não tinha a mínima vontade. Sentia uma antipatia pela cidade a ponto de não fazer questão sequer em conhecê-la. Não me perguntem a razão porque não faço a mínima ideia. Às vezes penso que isso podia estar relacionado com a rixa existente no futebol entre Brasil e Argentina. Aí penso melhor e me dou conta que eu nunca fui uma pessoa tão ligada assim a futebol, desse modo, essa não seria uma razão plausível. Outras vezes penso que eu era como aquelas crianças birrentas que nunca provaram certo tipo de comida mas dizem taxativamente que não gostam e pronto… Ah, sei lá, deve ter sido algo do tipo.
Meu desejo era morar em um lugar bem diferente, algum país na África, talvez Austrália ou quem sabe até Inglaterra. Mas me ofereceram Buenos Aires, era pegar ou largar. Peguei.

Não foi difícil a adaptação apesar de achar os argentinos meio fechados (não levem isso tão a sério, talvez a fechada seja mesmo eu… rsr), mas no fim das contas fiz amizades que duram até hoje.
A língua eu já conhecia, então, um problema a menos. O inverno, um tanto rigoroso se comparado ao inverno brasileiro, nem chega perto do inverno alemão (que eu também já conhecia) então, outro problema a menos.

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El Obelisco
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Cemitério de La Recoleta
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Puente de la Mujer

Houve momentos ruins? Claro que sim! Mas o que quero evidenciar aqui são os momentos bons, que foram muito melhores.

Na Argentina comi o verdadeiro alfajor, o típico asado e as deliciosas medialunas. Bebi o tal mate, que para meu paladar é amargo pra caramba, mas dizem que ajuda a emagrecer, gente! Encantei-me com a literatura de Borges e Cortázar. Sonhei acordada com a poesia de Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik. Fui várias vezes a shows de música no Gran Rex e Luna Park. Escutei Gardel vezes sem conta, tanto que aprendi de memória o tango “Por una cabeza”.
Fui ao Show do Spinneta (ainda bem, pois um ano depois ele se foi) e Fito Páez. Encantei-me com os olhos verdes de Ricardo Darín e sua atuação perfeita.
Vivia metida nas livrarias Yenny, Boutique del Libro e El Ateneo, principalmente naquela lindíssima que fica na Av. Santa Fé. Fui assistir a uma apresentação de balé no Teatro Colón, o teatro mais lindo que meus olhos já viram. Tomei meu chazinho no Café Tortoni e tirei fotos com as estátuas dos literatos que lá habitam. Apesar de clichê, eu adorava passear em La Boca – um bairro pitoresco, alegre e colorido – e de quebra ainda fiz aquelas fotos ridículas com os dançarinos de tango que se apresentam na rua (Sim, me julguem…rsr).

Vezes sem conta fiquei sentada no gramado em frente ao Rio de la Plata apenas para admirar a natureza e sentir a brisa no rosto. Encantei-me com as luzes da Avenida 9 de Julio e sempre me fascinava com o imponente Obelisco, monumento que tem a cara da capital porteña. Mesmo tendo medo dos mortos, fui mais de cinco vezes ao Cementerio de la Recoleta, e quando saía de lá sentava-me em algum café para admirar o vai e vem das pessoas do bairro – um lugar tão lindinho e que respira arte.

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Floralis Generica
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Puerto Madero
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Casa Rosada

Perdi-me tantas vezes nas calles antigas de San Telmo, fiquei por horas procurando algum objeto interessante para comprar na feirinha de pulgas. Fui vezes sem conta a Plaza de Mayo e todas as vezes tirei fotos na Casa Rosada, como qualquer turista que se preza, né?!

E Puerto Madero, então? Ah, lugar bonito e moderno, cheio de vida e decorado pela Puente de la Mujer, que com sua arquitetura simples, porém charmosa, encanta quem a visita. Sobre a Calle Florida, falar o quê? Que tem a cara de qualquer turista brasileiro que acha que Buenos Aires é lugar para fazer compras baratas… Ledo engano, minha gente, pois eu estive por lá e nunca comprei nada, só queria mesmo caminhar e tomar um capuccino delicioso nas Galerías Pacífico.

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Jardim Japonês
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Museu de Arte Latino Americano
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El Ateneo, livraria linda

Na hora de bater perna fui inúmeras vezes ao Parque de Palermo, entrei no Zoológico, no Jardín Botánico e no Planetário. Fui ao Jardín Japonés, ao Rosedal e à Floralis Genérica, aquela famosa flor de metal que abre de manhã e fecha à noite. Fiz várias vezes o passeio no Tren de la Costa e também o passeio de barco pelo Rio Tigre… Marquei ponto no Malba (Museu de Arte Latinoamericano) -, que naquela época tinha uma programação literária incrível. Até hoje o museu ainda oferece excelentes atividades literárias, confira o calendário dessas atividades aqui.

Algum arrependimento? Sim, de durante esses quatro anos não ter aproveitado para aprender a bailar un tango caliente.


Às vezes ainda encontro pessoas que me perguntam: então, o que você achou de Buenos Aires? Conseguiu finalmente se acostumar? Voltaria a morar lá de novo?

Acho que nem preciso responder, né?