Terra Americana, Jeanine Cummins

“Às vezes a experiência de leitura pode ser corrompida por um número excessivo de opiniões.”

 

terra americanaEm Terra Americana a escritora Jeanine Cummins relata a forma pouco convencional e bastante irresponsável como os migrantes mexicanos, hondurenhos e guatemaltecos viajam do Sul do México até à fronteira Norte dos Estados Unidos. Contrariando a norma e o bom senso, homens, mulheres e até mesmo crianças ficam por mais de três mil quilômetros em cima de trens de carga, conhecidos como La Bestia, sem nenhum tipo de segurança ou proteção. Esses viajantes enfrentam além das intempéries, quedas seguidas de amputações, subornos, sequestros, estupros, às vezes perdem até mesmo a vida na tentativa de alcançar o sonho americano.
Cummins, que é norte-americana, não teve seu livro bem recebido pela comunidade latina nos EUA… A escritora, por não ser latina, não foi considerada idônea o suficiente para discorrer acerca desse tema e foi acusada de se apropriar de um lugar de fala que não lhe pertence visando apenas o lucro. Além disso, os latinos consideram que suas personagens são estereotipadas e possuem um teor um tanto quanto racista.
Terra Americana conta a história fictícia de Lydia Quijano Pérez, proprietária de uma livraria em Acapulco, México, que foge para os Estados Unidos com seu filho Luca, de apenas oito anos, no perigoso trem La Bestia, após o assassinato de toda a sua família por um cartel do narcotráfico.
Desde o primeiro capitulo acompanhamos Lydia e Luca ultrapassando diversos obstáculos para escapar do chefe do cartel e alcançar seu destino final: Os Estados Unidos da América… A cada capítulo a tensão aumenta e ambas as personagem ficam cada vez mais exauridas mas, ao mesmo tempo, mais esperançosas também.
O pano de fundo é sem dúvida a problemática dos migrantes mexicanos e o domínio do México pela máfia dos narcotraficantes. Embora se trate de uma história recheada de eventos violentos e doloridos, o livro, pra mim, passou uma mensagem positiva. Vi em Lydia uma mãe amorosa e destemida que, mesmo desesperada, assume perigos inimagináveis com o único objetivo de resguardar a vida do filho. Li uma história de sofrimento, de perdas, de vingança, de ganhos financeiros valorizados em detrimento da vida humana, mas li também uma história de amor, de gratidão, de superação e, sobretudo, de esperança. Esperança de uma vida melhor, de uma vida sem medo, sem violência… Uma vida onde o amor é o ingrediente mais importante: o amor incondicional, o amor sem fronteiras.
Não sei dizer se a história é verossímil ou não… Também não sei se o México é de fato totalmente dominado for facções do narcotráfico e nem se as personagens de Cummins são estereotipadas e caricatas, só sei que a história é super instigante e me agradou que só!
Recomendadíssimo. ❣️

jeanine cummins
Jeanine Cummins

Florbela Espanca, a poetisa do coração!

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”

Florbela_Espanca1Passou já bastante tempo desde que li pela primeira vez um poema de Florbela Espanca. Acho que foi em 2002, quando folheando uma revista literária, encontrei um texto seu. Fiquei tão fascinada com suas palavras que na primeira oportunidade que tive comprei um livro. Desde então, nunca mais consegui me separar desse livro… tenho-o sempre à mão, leio-o, releio-o, rabisco-o.
Os poemas de Florbela são sentimentais e tocantes, quando os leio é impossível não me sentir assim: completamente arrebatada.
Sua poesia trata de amor e paixão de uma forma muito linda e sensual, aliás, o erotismo é uma característica muito forte na obra da escritora. Florbela consegue ser sensual sem perder a feminilidade e a elegância, pois a sensualidade presente em seus poemas é sutil, contida, delicada, não fere a sensibilidade do leitor.
Ela soube viver apaixonadamente e com grande intensidade a sua vida amorosa, percebemos isso claramente quando entramos em contato com sua obra.

 

“(…) se tu viesses quando,
linda e louca,
Traça as linhas
dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e
canta e ri

E é como um cravo ao sol a
minha boca…
Quando os olhos se me
cerram de desejo…
E os meus braços se
estendem para ti…”

 

A tristeza e a morte são também outros temas recorrentes em sua poesia. Alguns poemas possuem um tom lúgubre e se encarregam de revelar a outra faceta da escritora, a de uma mulher atormentada e inconformada. Nesses poemas ela deixa transparecer um certo desespero, uma tristeza profunda, tristeza essa que parece ter acompanhado a escritora durante toda a vida.

 

“(…) Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do mar, toda essa água
Trago-as dentro de mim num mar de mágoa!
E a noite sou eu própria! A noite escura!

 

Apesar desse tom melancólico tão comum em sua escrita, é impossível desgostar da poesia de Florbela, é impossível não se sentir tocado por ela ao entrar em contato com suas palavras.
Florbela é a poetisa do amor, da quimera e da saudade, é uma das figuras femininas mais representativas da poesia portuguesa do século XX.

E para revelar ainda mais esta poetisa, de tal forma que ela não se confunda com outra, nada melhor que um soneto seu, um dos mais belos:

 

Eu quero amar, amar perdidamente
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante toda a vida é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar!…

 

florbela2
Meu primeiro livro. É uma seleção de poemas esparsos

 

Seus poemas são tão admirados que já foram musicados algumas vezes. Deixo aqui dois vídeos: um de Fagner e Zeca Baleiro, cantores brasileiros. Outro de Mariza, fadista portuguesa.

 

 

Há alguns anos foi lançado o filme Perdidamente Florbela de Vicente Alves, sobre  a vida da poetisa. Deixo aqui o trailer pra quem tiver interesse em conhecer um bocadinho mais a escritora:

Florbela Espanca faleceu no dia 8 de dezembro de 1930, dia em que completaria 36 anos.