Impressões de Leitura#19:Terra Sonâmbula, Mia Couto

“Se dizia daquela terra  que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.”    

_terra_sonambulaHouve uma época que quando eu pensava em África as imagens que me vinham à cabeça eram de homens fortes, destemidos e belas mulheres, naturalmente sensuais em suas capulanas coloridas, rodeadas de miúdos barulhentos, no seu ir e vir pelas bonitas paisagens da savana, banhadas pelos raios de um dourado sol de fim de tarde. Não sei explicar muito bem a razão pela qual eu tinha essa concepção tão romântica e idealizada da África, mas o certo é que todo esse colorido que permeava a minha imaginação acerca desse continente ficou meio desbotado depois da leitura de Terra Sonâmbula, de Mia Couto.
Os tons que permeiam a obra desse escritor moçambicano nada têm de suaves ou coloridos, como eu imaginava. As imagens que Mia Couto compartilha conosco são outras. Ele nos apresenta uma Moçambique cinzenta e poeirenta, marcada pela severidade da guerra, pela pobreza, por sofrimento, abandono e devastação, muita devastação.
Como se sabe, esse país africano foi colônia portuguesa do início do século XVI até 1975. Para além de sofrer horrores com a escravidão e a exploração desenfreada, precisou passar por muitas provações durante a Guerra da Libertação. Foi necessário muito derramamento de sangue numa luta que durou dez anos para que só assim conseguissem se ver livres das amarras de Portugal. No entanto, a Independência de Moçambique não significou o início de uma terra pacífica, tampouco solucionou os problemas da nação. Dois anos após a independência, em 1977, o país mergulha outra vez em uma nova batalha: uma sangrenta guerra civil. A guerra civil em Moçambique durou até 1992. A população viveu quinze anos no meio de conflitos armados que deixaram mais de um milhão de mortos.

mia couto
Sou um branco que é africano; um ateu não praticante; um poeta que escreve prosa; um homem que tem nome de mulher; um cientista que tem poucas certezas na ciência; um escritor numa terra de oralidade. — Mia

Mia Couto, autor de Terra Sonâmbula, nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. Filho de pais portugueses, é um dos escritores mais importantes em língua portuguesa da atualidade e também o moçambicano mais traduzido. Comprometido com a causa africana, Mia Couto viveu na pele os horrores da guerra: “tenho 42 anos e passei a metade da minha vida em guerra…” Ele retrata em seus livros a realidade de Moçambique por meio de elementos que pertencem ao próprio folclore moçambicano, servindo-se da literatura oral, crenças, mitos, provérbios etc. Ao entrarmos em contato com a escrita de Mia Couto percebemos logo as muitas semelhanças com a literatura brasileira, sobretudo com Guimarães Rosa. Aliás, o escritor não esconde que sua escrita foi altamente influenciada pela literatura desse brasileiro. Recebeu numerosos prêmios, entre eles, o Prêmio Nacional de Literatura em Portugal (1992), o Prêmio Nacional de Literatura em Moçambique (1995), o Prêmio Africa Hoje em Maputo (2002), o Prêmio Eduardo Loureço (2011), o Prêmio Camões (2013) e o prêmio norte-americano NeustadtAlgumas de suas histórias foram levadas ao cinema, como é o caso de Terra Sonâmbula e, mais recentemente, O Voo do Flamingo. Publicou também poesias e contos. Mia Couto vive em Maputo, onde trabalha como biólogo.

tuahir
Estou farto de viver entre os mortos — Fala de Muidinga

Com dois focos narrativos, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo a guerra civil moçambicana. Começa com o velho Tuahir e o menino Muidinga caminhando sem rumo por uma estrada desolada. Encontram no caminho um machimbombo (ônibus) queimado repleto de corpos. Perto desse machimbombo – que será o refúgio do velho e do menino – encontram também outro corpo. Junto desse corpo estava uma mala, dentro da mala havia onze cadernos: eram os diários de Kindzu.
O primeiro foco narrativo relata em terceira pessoa a peregrinação de Tuahir e Muidinga em busca de paz num mundo devastado pela guerra. O segundo, narrado em primeira pessoa,  é o relato dos diários de Kindzu, que conta sua história de vida.
Muidinga é um menino sem memória, foi resgatado pelo velho Tuahir mais morto que vivo, sonha em encontrar seus pais que o abandonaram logo após o nascimento e, assim, conhecer sua verdadeira identidade.
Tuahir é um homem idoso, já viveu e sobreviveu à outra guerra, a guerra da libertação, sonha com um mundo pacífico e luta para resguardar sua vida e a do pequeno Muidinga. 
Ambos caminham como se fossem sonâmbulos à procura de água e comida, mas procuram, sobretudo, preservar a esperança naquele mundo tão desesperançoso… “Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra.”
Kindzu é um jovem idealista – que tenta ir muito além dos desejos comuns, abandonou sua casa em busca da realização do sonho de se tornar um maparama (guerreiro tradicional de justiça que luta contra os fazedores da guerra). Como podemos perceber, as três personagens são impulsionadas pelo desejo de realizar sonhos.

Após encontrar os cadernos Muidinga começa a lê-los em voz alta para o velho Tuahir. À medida que o menino prossegue a narração o leitor mergulha nas duas histórias, que são contadas de forma intercalada: primeiro a história de Tuahir e Muidinga seguida pelos relatos dos diários de Kindzu. A princípio essas duas narrativas parecem bastante diferentes, mas sem demora percebemos os muitos pontos que têm em comum. Elas caminham lado a lado mas, mais à frente, acabam por fundir-se. As histórias serpenteiam entre a realidade e o sonho, sobretudo a de Kindzu, que é uma história mágica, mítica, que bebe no imaginário do povo africano. As lendas e crendices moçambicanas que permeiam os relatos de Kindzu causam um certo estranhamento e, ao mesmo tempo, fascinação.
A narrativa inteira é recheada de sonhos, todas as personagens, cada qual à sua maneira, sonham com alguma coisa. E todas têm o mesmo objetivo, encontrar a paz que há muito tempo havia deixado de existir naquele lugar desprovido de afeto e humanidade. Chamou muito a minha atenção o fato de algumas personagens continuarem a lutar por sobreviver em um mundo tão destroçado e abandonado, mesmo quando o mais fácil seria desistir, deixar de ter esperança. Percebemos isso claramente quando conhecemos o Fazedor de Rios e o Velho Siqueleto, personagens que, como Tuahir, Muidinga e Kindzu, também sonham e acreditam que o melhor ainda está por vir, apesar das adversidades.

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

– Estou a fazer um rio.
– Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio, fluviando até ao infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas.


O conteúdo dos diários de Kindzu modifica a vida de Muidinga. Por meio dessas histórias ele passa a ter contato com o mágico, com o sobrenatural – e o leitor mergulha junto com essa personagem nos contos do menino que vira galo, do boi que vira garça, do morto que levanta e carrega o próprio caixão, do anão que cai do céu, do mar que seca e volta a encher, da relação entre os vivos e os mortos… A visão do menino sobre o mundo modifica-se também, ele passa a presenciar mudanças na paisagem ao seu redor, que acontecem sempre após cada leitura.
Silviano Santiago, escritor brasileiro, disse certa vez: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário…” É exatamente isso que acontece com Muidinga. Ao ler os relatos de Kindzu o menino, de certa forma, se apropria daquele mundo e o torna seu também. Então, 
nos damos conta do poder de transformação que a leitura tem, é a literatura a transformar o pequeno Muidinga.

À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.

Outro ponto muito interessante é a história de Faridauma personagem de peso. Kindzu a conhece dentro de um navio encalhado em alto mar. Ela conta sua história para o rapaz e por meio de seu relato ficamos conhecendo um pouco mais das tradições e crendices de Moçambique. Farida nasceu gêmea, isso a coloca imediatamente no papel de mulher rejeitada, já que naquela cultura gêmeos é sinal de imensa desgraça e maldição. Mia Couto coloca nessa personagem toda a emotividade que viria a ser costumeira em suas personagens femininas. As palavras com as quais ele descreve Farida são carregadas de encanto. Com delicadeza e às vezes lançando mão de muita sensualidade, o escritor retrata a mulher de uma forma belíssima, e comprova, mais uma vez, a sensibilidade e habilidade que tem para descrever a alma feminina.

A beleza daquela mulher era de fugir o nome das coisas.

Mia Couto escreveu Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, durante os anos da guerra civil moçambicana e o publicou em 1992, mesmo ano em que os conflitos chegaram ao fim. As histórias que ele retrata neste livro fazem uma denúncia social das crueldades dessa guerra, mas contam também os sentimentos, as dores e dissabores daqueles que sobreviveram a ela, daqueles que ainda sofrem as mazelas e tentam cicatrizar as profundas feridas.
O livro é excelente, a meu ver, mais por conta de sua escrita, pois Mia Couto usa uma linguagem muito particular e tem uma grande capacidade de reinventar a língua portuguesa. Ao criar neologismos e mesclá-los com termos das línguas africanas faz com que seu texto se torne ainda mais bonito e cativante, até mesmo quando o que está a ser narrado é triste. O belo nem sempre é aquilo que ele está a narrar, mas a forma como narra.
Terra Sonâmbula caracteriza-se pela paixão de contar: Kindzu que conta suas histórias nos cadernos, Farida que conta suas penas a Kindzu, Muidinga que conta a história de Kindzu ao velho Tuahir, Siqueleto que conta sua história a Muidinga e Tuahir… Tem sempre alguém a contar algo para outro alguém. Terra Sonâmbula é uma “contação” maravilhosa de histórias.

Pode parecer contraditório afirmar que um livro que narra tanta miséria e tristeza possa ser um livro belo, mas é. Terra sonâmbula para além de ser considerado uma das dez melhores obras africanas do século XX, comprova, mais uma vez, que o ato de contar histórias é um verdadeiro bálsamo para os sofrimentos do ser humano… Porque uma boa história nos ajuda a seguir em frente, nos livra das nossas angústias e preconceitos, nos ajuda a espantar a solidão e nos faz ter esperança.
A escrita de Mia Couto é impecável, o escritor conseguiu fundir em uma mesma obra prosa e poesia de uma maneira ímpar – e nos prova que nasceu mesmo para escrever e é um contador de histórias genuíno. ❤

Capas de outras edições de Terra Sonâmbula:

terra1    terra2

terra3    terra4


Entrevista de Mia Couto:

Trailer de Terra Sonâmbula:

Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong…

“É sempre difícil apreciar os livros sagrados de outras culturas.”

Baixar-Livro-Maome-Karen-Armstrong-em-PDF-ePub-e-Mobi-ou-ler-online-370x536Não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião no momento, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. Como eu não sou de fugir da raia, encarei. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou um bocado, não apenas porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente, mas também porque me deu motivação para começar a ler Salman Rushdie, um escritor que já estava na lista de espera há anosSem falar que eu adoro histórias ambientadas na Idade Média, então colocando na balança os prós e contras, posso dizer que Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong, foi uma leitura boa e informativa.
O livro, publicado originalmente no Reino Unido em 1990 (no Brasil em 2002 pela Companhia das Letras), é interessante a começar pelo prefácio, escrito em 2001, apenas um mês após o atentado às torres gêmeas nos Estados Unidos.
Armstrong nos conta que decidiu escrever a biografia de Maomé em 1989, época em que veio à tona o caso Salman Rushdie.
Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana, escreveu Os Versos Satânicos, um romance que descreve um profeta fundador de uma nova religião. A história desse profeta, que foi supostamente inspirada na figura de Maomé, ocupa apenas 70 páginas do livro de Rushdie, mas ainda assim essas poucas páginas foram suficientes para provocar reações furiosas e violentas entre os muçulmanos. O romance ofendeu a comunidade muçulmana que entendeu que seu Profeta e maior representante da fé islâmica havia sido desrespeitado, por conta disso o autor dos Versos Satânicos foi considerado blasfemo. Sua situação agravou-se mais ainda depois que o Ayatolá Ruhollah Khomeini decretou uma fatwa que condenava o escritor e seus editores à morte. Khomeini induziu uma multidão de muçulmanos a queimar os livros de Rushdie em praça pública, apedrejar livrarias e a editora Penguin, responsável pela publicação do romance.

“Faço saber aos orgulhosos muçulmanos de todo o mundo que o autor de Os Versos Satânicos, livro que vai contra o Islã, o Profeta e o Corão, e todos os implicados em sua publicação que eram conscientes do seu conteúdo, foram condenados à morte. Peço a todos os muçulmanos que os executem onde quer que os encontrem. Caso morram na tentativa serão considerados mártires.” (Mensagem do Ayatolá Khomeini transmitida pela rádio Teerã.)

Dias após a transmissão dessa mensagem o Ayatolá Khomeini ofereceu também uma recompensa de três milhões de dólares para quem matasse Salman Rushdie, esse foi o estopim do caso que levou o escritor inglês a ficar por mais de uma década escondido sob forte proteção policial.
Armstrong conta que depois da fatwa o preconceito contra os muçulmanos aumentou ainda mais. A autora afirma que embora no ocidente não tenhamos tomado conhecimento, a fatwa decretada por Khomeini foi condenada e considerada inválida por 44 dos 45 países muçulmanos que reafirmaram que ela violava as leis islâmicas pregadas por Maomé. Segundo a escritora, a decisão tomada por quase todos os países islâmicos não foi levada em consideração e nem colocada em evidência pelos meios de comunicação. Ou seja, o povo no ocidente continuou a acreditar que todos os muçulmanos clamavam pela morte de Rushdie. Foi no auge de toda essa confusão que Armstrong decidiu escrever a biografia de Maomé. Ela diz ter tido receio de que o ocidente nunca chegasse a conhecer de fato a verdadeira história do Profeta.

Escrevi o livro porque lamentava que o retrato de Maomé, apresentado por Rushdie, era o único que a maioria dos ocidentais teria possibilidade de ver.

Karen Armstrong é uma escritora britânica nascida em 1945. Foi freira católica durante sete anos, mas atualmente diz não professar nenhuma fé. É bacharel pela Universidade de Oxford e foi também professora de Literatura na Universidade de Londres. Em 1999 recebeu o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000 o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas. Em 2017 recebeu o Prêmio Princesa de Asturias de Ciências Sociais. Armstrong já é bastante conhecida por seus livros que têm a religião como tema recorrente. Dentre suas obras mais importantes podemos citar Uma história de Deus (1994), Jerusalém, uma cidade, três religiões (2000) e Em nome de Deus (2001).

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Nesta biografia de Maomé, a autora dedica-se a contar sobre a formação do Islã desde os seus primórdios. Primeiro ela fornece ao leitor milhares de informações geográficas, em seguida faz uma excelente contextualização tanto histórica como política, moral e religiosa -, mostra também como era a Arábia nos tempos que antecederam Maomé, quando os habitantes ainda eram politeístas e adoravam a Caaba (o antigo santuário em forma de cubo situado no centro da cidade de Meca) e as três deusas pagãs: al-Lat, al-Uzza e Manat.
Ela fala sobre as tribos beduínas da Arábia no final do século VI, mostra os conflitos existentes e como eram exercidas as leis naquela época.
Maomé nasceu no ano 570 na tribo dos coraixitas e, de acordo com a autora, desde muito jovem mostrou-se bondoso, dedicado, inteligente, honesto e submisso a Deus. Trabalhou como vendedor/comerciante em caravanas no deserto. Armstrong traça o retrato de um Maomé justo e que luta contra uma sociedade politeísta para tentar consolidar a fé islâmica. 

No ano 610, no topo de uma montanha, na décima sétima noite do mês do ramadã, Maomé recebe por meio do Anjo Gabriel a primeira revelação de Deus. O profeta recebeu durante 23 anos seguidos mensagens que, segundo ele, foram ditadas pelo Deus de Abraão, o mesmo Deus dos cristãos e judeus. Esses versículos revelados a Maomé são chamados pelos muçulmanos de Sura. Mais à frente essas suras foram recolhidas e deram origem ao Corão, o livro sagrado do islã. 

Durante dois anos Maomé guardou segredo sobre as revelações recebidas, foi só no ano 612 que ele começa sua missão. No entanto, não foi fácil introduzir a fé monoteísta a um povo pagão, por isso Maomé acabou perseguido e precisou fugir de Meca. Em 622 ele refugia-se em Medina, mas continua em perigo durante alguns anos mais. Foi apenas em 630, após muitas lutas e batalhas sangrentas, que Maomé regressa e finalmente consegue conquistar Meca.
Nota-se claramente que Armstrong fez uma minuciosa pesquisa para escrever seu livro e contextualizar bem a história. Além disso, por ter se dedicado à vida religiosa por muitos anos e conhecer as escrituras sagradas tanto do Cristianismo quanto do Islamismo, tem bagagem cultural para falar a respeito do assunto. A lista bibliográfica que a autora utilizou é bem extensa, além dos dois primeiros biógrafos de Maomé, consultou também Dante Alighieri, Umberto Eco, William Montgorrey Watt, Wilfred Cantwell Smith, entre outros.

Durante toda a narrativa a autora faz comparações entre o Cristianismo e o Islã, principalmente quando tenta amenizar as atitudes violentas cometidas pelo Profeta nos primórdios da nova religião. Quando Maomé decidiu lutar em Badr e dizimou milhares de pessoas ou quando expulsou e massacrou as tribos judaicas, Armstrong justifica as atitudes do profeta afirmando que, naquela época, as posturas violentas e sangrentas eram necessárias para seguir adiante com os planos. Além disso, ela estabelece um comparativo entre esses atos sangrentos cometidos por Maomé e acontecimentos cristãos, como por exemplo, as Cruzadas, os episódios dos Mártires Cristãos de Córdoba e a queima de livros durante a Santa Inquisição.
Armstrong critica a imagem errônea que os ocidentais têm do Islã e seus seguidores e condena as falsas qualidades que a eles são atribuídas: violentos, opressores das mulheres, vingativos e terroristas.

Culpamos a religião da violência, quando na verdade a violência está na natureza humana. As guerras são invenções da civilização e estão presentes em todo tipo de sociedades, muito antes da chegada do monoteísmo.

Nós precisamos da história do Profeta nestes tempos perigosos. Não podemos permitir que os extremistas muçulmanos sequestrem a biografia de Maomé e a distorçam para servir a seus próprios fins.

Quando alguma passagem do Corão retirada do contexto é citada para justificar atos terroristas, Armstrong cita passagens das escrituras sagradas do Cristianismo e Judaísmo para comprovar que essas duas religiões também podem ser igualmente violentas, ela assegura também que a Bíblia tem mais passagens violentas que o Corão. Ela diz que a maioria dos ocidentais não é capaz de julgar o Islã de forma justa por ignorância, porque desconhece a cultura muçulmana. Além disso, mostra-se profundamente incomodada com a forma distorcida e equivocada com que os ocidentais se referem ao islã, principalmente quando é mencionado que essa religião é intolerante e fanática. Segundo a autora, os atentados terroristas cometidos por fundamentalistas não podem ser associados a Maomé, porque o profeta foi, na verdade, um homem que gastou parte de sua vida tentando impedir esse tipo de massacre. A palavra Islã, que significa submissão existencial de todo o ser a Deus, está relacionada à paz (Salam), dessa forma o Islã não poderia jamais ser taxado como uma religião agressiva e que insufla a violência já que seu Profeta pregava a harmonia.
Karen Armstrong diz também que no século XII os muçulmanos conviviam harmoniosamente bem com cristãos e judeus na Península Ibérica, que não foram os seguidores do Islã que começaram a brigar por sua fé, mas os cristãos que decidiram quebrar a relação de concórdia e tranquilidade existente entre as três religiões.

Finalmente foi o Ocidente, e não o islã, que proibiu a discussão de assuntos religiosos. Na Idade Média, os cristãos só foram capazes de ver o islã como uma versão fracassada do cristianismo e criaram mitos para demonstrar que Maomé fora instruído por um herege.

Maomé morreu em 632, mas um pouco antes de sua morte conseguiu unificar a Arábia e as Leis islâmicas. A experiência espiritual pela qual Maomé passou durante esses 23 anos mudou sua vida e de grande parte do povo árabe. O Islã atualmente é seguido por 1,2 bilhão de muçulmanos, um quinto da população mundial.

Eu gostei do livro, principalmente da contextualização histórica, porém não posso deixar de ressaltar que a autora apesar de ter bastante conhecimento sobre o assunto não foi imparcial ao contar a história do profeta. Ela claramente escolheu um lado: o lado dos muçulmanos. Foi uma rasgação de seda o tempo todo. Todas as comparações que Armstrong faz é favorecendo o islamismo em detrimento do cristianismo e judaísmo. Fiquei meio sem entender o porquê… Será que ela teve medo de ofender a comunidade islâmica e ter que passar pela mesma situação pela qual Salman Rushdie passou? O certo é que senti que Armstrong apenas defendeu Maomé, que é mostrado o tempo todo como um homem pacífico, desprovido de defeitos.

Maomé foi um pacifista que reuniu as tribos na tomada de Meca.


Há também passagens em que Armstrong faz comparações entre Maomé e Jesus e, nesses momentos, o profeta islâmico é sempre colocado em uma categoria superior ao profeta cristão.

Nunca lemos sobre Jesus rindo, mas com frequência encontramos Maomé sorrindo e brincando com as pessoas que lhe eram próximas.

Em vez de vagar como extraterrestre pelas montanhas da Galiléia a pregar e a curar, como o Jesus dos Evangelhos, Maomé teve de se engajar numa árdua luta política para reformar a sociedade (…)

É impressão minha ou Karen Armstrong chamou Jesus de alienígena? Que bom para ela que os intolerantes cristãos, que ela tanto criticou em seu livro -, não decidiram criar uma fatwa para castigá-la por essa colocação tão fora de lugar. Por muito menos os pacíficos seguidores do Profeta Maomé, que ela tanto defende, teriam distribuído alguns tabefes (rsr) 🙂

Para finalizar, devo dizer que a leitura mais agradou que desagradou, no entanto eu adoraria mesmo saber a opinião sincera de Karen Armstrong sobre a atual situação do povo muçulmano: sobre os Refugiados na Europa, sobre os recentes ataques terroristas em Paris, Londres, Bélgica, Berlim  e Barcelona.

“Se quiserem melhores resultados no século XXI da era cristã, os ocidentais deveriam aprender a compreender os muçulmanos, com quem dividem o planeta.”

Será mesmo, Sra. Armstrong, que a culpa é dos ocidentais e que apenas eles deveriam aprender a compreender e conviver bem com os muçulmanos? Sei não, tenho cá minhas dúvidas!

Palestra de Karen Armstrong:

Documentário sobre o Caso Salman Rushdie: