Impressões de leitura#8: O pintor de Cracóvia

“Não sou responsável do aqui exposto. O copiei diretamente da vida.”


cracoviaUltimamente tenho tido a sorte de fazer boas leituras. Coincidência ou nao, têm caído em minhas mãos livros perturbadores e tocantes. Um desses livros é o
Pintor de Cracóvia, que conta a história real de Joseph Bau, um sobrevivente do Holocausto.
Durante a leitura o leitor se depara com uma história de guerra, de desumanidade, de injustiça e de miséria, mas também com uma história de força, de luta, de esperança e, sobretudo, com uma história de superação.
Além de contar detalhes de sua vida nas ruas de Cracóvia e os horrores da guerra do princípio ao fim, Bau conta-nos também sua linda história de amor: um amor sem limites, um amor incondicional.
Ele fala carinhosamente sobre Rebecca, uma moça que conheceu no Campo de Concentração de Plaszow, na Polônia. Conta o que sentiu quando a viu por primeira vez, de como se apaixonou por ela e de seu casamento clandestino dentro do próprio campo de concentração. Explica-nos como burlou a segurança para consumar o matrimônio no barracão das mulheres. Fala do medo que sentiu ao ser surpreendido por policiais alemães que puniam com violência qualquer tipo de contato sentimental entre um homem e uma mulher. Narra de forma sensível suas dores, seus amores e desamores.
O que mais me tocou na história de Joseph e Rebecca foi perceber que apesar da opressão e do pavor eles não sufocaram o amor que sentiam. Seus corações estavam vivos e apaixonados, o amor que eles viveram foi muito grande, muito maior que a crueldade do nazismo, muito mais forte que  o medo… E isso foi lindo.

 

“Nos casamos às escondidas no Campo de Concentração de Plaszow. Celebramos nossa boda no dia de São Valentino por casualidade, porque no campo não éramos conscientes de que era o dia internacional do amor.”

 

Bau sobreviveu ao Holocausto porque foi trabalhar para Oskar Schindler. Rebecca, que havia sido selecionada para trabalhar na empresa de Oskar, por amor ao marido pediu que seu nome fosse substituído pelo dele. Depois que Joseph partiu, Rebecca Bau foi enviada para Auschwitz, um dos campos de concentração mais temidos. Em Auschwitz a escolheram três vezes para ingressar na câmara de gás, durante as três vezes ela conseguiu uma forma de se salvar.

 

silencio
O mundo se calou!

 

Joseph Bau escreveu este poema para Rebecca pouco antes da separação:

 

La Despedida

Aunque nuestra vida juntos fuera muy corta
Ahora debo partir
Me voy triste y desolado
hacia un destino dispuesto
por estos tiempos desesperados
por un camino sin señalizar
Hacia un destino burlón.
todo está preparado pra darme la bienvenida.
Me voy, pero cuando las puertas se cierren tras de mí
y reine un silencio momentáneo,
cuando el tiempo erosione mis huellas,
no pienses en mi con pesar,
porque atrás dejo muy poco:
el corazón de un poeta chiflado,
unas cuantas cartas, algunas odas dedicadas a ti,
una flor marchita y los sueños que soñamos
sobre los días que pasaríamos juntos,
y planes que, ai de mi, no se hicieron realidad
Recuerda nuestra casa soñada,
la que nunca fue,
tu despacho y el mio?
Querido Dios, por que no puedes ser amable?
Pero si, como predije, las cosas cambian,
y si los recuerdos perviven en tu mente,
piensa en mí a menudo,
sin la pena que ahora nos abate
Nuestros caminos volverán a cruzarse.
Entonces… por qué lloras?
No llores más, nos estés triste…
Porque, mira, yo también resisto…
Bueno, adiós, hasta la vista!
Dame otro beso y otro abrazo
y cuidáte,
mi amor querido y sagrado.

 

A narrativa de Joseph tinha tudo para ser apenas mais um relato triste, como muitos já conhecidos, mas não é. Sua história de vida durante esse período negro da História tocou-me profundamente n’alma.

Além de nos emocionar com sua narrativa tão sensível, Bau também nos presenteia com vários desenhos de sua própria autoria.

 


Sobre o autor:

 

bau

Joseph Bau nasceu em Cracóvia em 1920. Em 1950 emigrou para Israel, onde abriu seu próprio estúdio. Trabalhou em muitos filmes de animação chegando a ser conhecido como o Walt Disney israelita. Morreu em 2002.

** Não sei se o livro foi publicado no Brasil. O título original é Dear Got, Did You Ever Gone Hungry?
A poesia transcrita acima está tal qual encontrei no livro, infelizmente não tenho capacidade para traduzi-la, até porque acho que um poema quando traduzido perde muito de sua beleza e lirismo.

Impressões de leitura#7: Neve, Orhan Pamuk

“(…) o mal do mundo – isto é,  a pobreza e a ignorância dos pobres e a esperteza e dissipação dos ricos – e toda a vulgaridade do mundo, toda a violência, toda a brutalidade – isto é, todas as coisas que nos enchem de culpa – decorrem do fato de todo mundo pensar igual.”

 

neveCaso eu fosse uma pessoa influenciável teria desistido de ler Neve, não teria nem começado, porque entre as muitas opiniões que andei lendo por aí a grande maioria taxava o livro de lento e enfadonho. Porém, como eu prefiro tirar minhas próprias conclusões a respeito dos livros que me interessam, não dei muita importância e comecei a leitura mesmo assim. E tive uma grande surpresa, pois percebi que Neve não só deixa de ser lento e enfadonho como é um livro informativo, instigante e agradável.
Eu gostei muito da história criada por Orhan Pamuk, gostei da temática da obra, da forma como o autor conduz a narrativa e dos muitos dados sobre a Turquia que fornece. O livro tem quase 500 páginas repletas de informações políticas, geográficas e, principalmente, relacionadas à religião. Além disso, é também bastante poético.

A trama, ambientada na Turquia, conta a história de Ka, um poeta e jornalista que regressa a Kars, seu povoado de origem, após muitos anos de exílio político na Alemanha. Mas a cidade que Ka encontra não é mais a mesma de outrora, o vilarejo está diferente, as pessoas mudaram, agora Kars é um lugar repleto de conflitos. Como se não bastasse, há também uma onda de suicídios de garotas adolescentes. O suicídio das meninas é um dos motivos pelos quais Ka decide voltar à cidade, pois precisa escrever um artigo sobre a morte delas… O que mais chama a atenção do protagonista é como essas meninas se matam: “Uma maneira abrupta, sem nenhum aviso prévio, no meio de seus afazeres diários.”
A parte mais interessante da história é quando Pamuk – para explicar as razões que levam as adolescentes a atentar contra a própria vida, adentra o tema da religião, mostrando os conflitos existentes no país: o dilema da Turquia contemporânea; a rinha entre fanáticos religiosos e ateus; a hostilidade existente entre os seguidores do islã e os defensores do Estado.
“O Estado, que proibiu que mulheres entrassem nas salas de aula com a cabeça coberta, afirma que o manto é um símbolo do islã político, que impede que as mulheres gozem dos mesmos direitos dos homens. O islã, que defende o manto, assegura que seu uso é uma forma de protegê-las e valorizá-las.”

O pano de fundo é justamente essa discussão acalorada acerca da necessidade de usar ou não usar o manto, de cobrir ou não cobrir a cabeça. É um tema bem explorado durante toda a narrativa, um assunto bastante controverso, “pois muitas mulheres são a favor de abandonar o manto, porque o consideram uma forma de repreensão religiosa. Outras, no entanto, o defendem, pois acreditam que seu uso é uma forma de proteção contra assédio, estupro e a degradação da mulher. Inclusive há aquelas que acreditam que o manto traz respeito, dignidade e um lugar mais satisfatório na sociedade.”

Ka, apesar de possuir um certo interesse pela religião, não tem muito claro se é ateu ou se tem fé em algo. Algumas vezes sente-se culpado por ter se recusado durante praticamente toda a vida a acreditar no mesmo Deus daquelas pessoas que ele considera não instruídas. Ele mostra-se visivelmente confuso, por isso sua visita a Kars vai servir também como uma forma de aproximação com Deus, um reencontro consigo mesmo, uma nova oportunidade de reavaliar sua fé, de decidir de que lado está realmente.

 

“Não conseguia ver como poderia conciliar essa minha nova identidade europeia com um Deus que exigia que as mulheres se cobrissem com mantos, então tratei de excluir a religião de minha vida. (…) Eu quero um Deus que não me peça para tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para beijar as mãos das pessoas. Eu quero um Deus que entenda a minha necessidade de solidão.”

 

Mas, e as meninas suicidas, por que elas se matam? O suicídio delas tem algo a ver com a proibição de usar o manto? O que elas pretendem com isso, defender o islã ou apenas protestar contra o Estado?
São muitas as perguntas colocadas por Pamuk e, no meio de todo esse turbilhão de contestações, informações e conflitos, o livro ainda se encarrega de relatar uma história de amor: a história de Ka e Ipek.
Ipek foi uma antiga companheira de escola de Ka, revê-la foi outra das razões que fez ele regressar a Kars. A história do casal é bonita, sensual e cheia de encontros e desencontros.

A narrativa é bastante bonita, quando o narrador fala sobre a neve, sobre a claridade da neve e sobre os poemas que Ka escreve inspirado pela neve é bastante comovente, profundo e poético. A brancura da neve é sugestiva, inspiradora e se encarrega de trazer à tona o lado mais lírico do poeta e protagonista Ka.

Neve é um suspense político bem narrado e com informações muito bem amarradas. Recomendo!

 

Sobre o autor:

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Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2006.

Impressões de leitura#4: Grande Sertão: Veredas

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão”.

grande sertao

Sempre tive uma vontade muito grande de ler Grande Sertão. Tantas vezes escutei que era uma obra sem igual, que valia muito a pena, por isso em duas ocasiões comecei a leitura, mas lamentavelmente foram tentativas fracassadas, pois eu sempre parei no meio do caminho ou, para ser mais sincera, muito antes do meio do caminho. A leitura não fluía como eu esperava, eu perdia a motivação e, quando percebia, já tinha deixado o livro de lado e estava a ler outras coisas.
Finalmente, em agosto de 2011, decidi insistir no livro e fiz disso uma meta. Só que dessa vez fui muito além das primeiras páginas, fui conquistada pelo encanto da narrativa de Rosa e consegui concluí-la com lágrimas nos olhos.

Acho que escrever aqui que amei a história seria muito pouco, pois Grande Sertão é um livro esplêndido e encantador… não digo isso apenas porque se trata de um clássico da literatura brasileira, mas pela emoção que senti durante toda a leitura.
Confesso que no início tive uma certa dificuldade em entender a linguagem tão peculiar de Guimarães, porque seu texto recheado de neologismos e invencionices tornou a leitura muito lenta. No entanto, essa dificuldade foi desaparecendo no decorrer da narrativa… À medida que fui entrando em contato com as muitas reflexões de Riobaldo, o protagonista, essa mesma linguagem passou a soar quase familiar.

Grande Sertão é narrado em primeira pessoa por Riobaldo – um jagunço idoso – que conta para um interlocutor (que desconhecemos) seus feitos heróicos ocorridos durante sua juventude. Em uma narrativa totalmente não linear e tendo como pano de fundo as guerras de jagunços no sertão mineiro, Riobaldo, nosso personagem/narrador, vai colocando pra fora, como uma espécie de catarse, todas as suas inquietudes: ora causadas pela possibilidade de ter ou não ter feito um pacto com o Diabo, ora causadas por suas dúvidas sobre existência do Diabo e ora causadas por seu amor proibido por um outro homem.

Como se fosse uma viagem psicológica, vamos adentrando nesse Sertão De Guimarães Rosa e conhecendo um homem atormentado e contraditório,  que crê em Deus, mas precisa fazer um pacto com o Diabo para poder sentir-se forte o suficiente. Passou-me a impressão de que, ao contar sua história para  o forasteiro, Riobaldo experimenta uma libertação de todos aqueles sentimentos que foram reprimidos no passado, mas que, ‘presentemente,’ estavam ainda ali, causando desassossego. Riobaldo sente alívio em se libertar desses fantasmas do passado, mas age como se esperasse o tempo todo ouvir do seu interlocutor algo que de fato comprove a não existência do Diabo e a impossibilidade “de com o demônio tratar pacto,” porque ele próprio não sabe, não tem certeza, está confuso e atormentado por essas dúvidas.

Deveras? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é.”


No início, Riobaldo luta com a tropa de Medeiros Vaz e Joca Ramiro contra os homens do governo, contra as leis que, segundo eles, só beneficiavam aqueles que são bem-nascidos, que faziam parte da panelinha. Depois, Vencer Hermógenes, outro jagunço de um bando rival e o antagonista da história, tornou-se o objetivo e a fixação do protagonista. O jagunço Riobaldo acreditava que Hermógenes tinha o corpo fechado por haver feito um pacto com o Demo, foi por conta disso que Riobaldo, lá na encruzilhada das Veredas Mortas, fez, também, o tão terrível pacto com o Demo. Riobaldo luta para derrotar seu rival e, assim, vingar Joca Ramiro, o antigo chefe do seu bando que foi assassinado à traição por esse jagunço.



“O Hermógenes fez o pauto. é o demônio rabudo quem pune por ele.”


A escrita de Guimarães apesar de difícil, é também inovadora e cativante: O  jeito de ser do sertanejo e sua singular sabedoria, as paisagens do sertão tão sabiamente descritas e a forma como o autor aborda dilemas existenciais fizeram com que eu me encantasse ainda mais com a história e compreendesse melhor o drama interior de Riobaldo. Suas reflexões, suas dúvidas e medos, de alguma forma, enriquecem a perspectiva do leitor. Cada causo por ele contado nos leva a refletir também. Então, sonhamos com ele, lutamos com ele, amamos com ele.

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”



O seu amor proibido/reprimido por Diadorim, outro jagunço que também fazia parte do seu bando, é também um tema forte no romance… Guimarães nos brinda com uma sublime história de amor: triste e impossível é bem verdade, mas nem por isso menos bela.
Quem não seria capaz de ficar tocado em uma passagem como esta?

“(…) meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, as muitas demais vezes, sempre”.Seu amor proibido/reprimido por Diadorim, um outro jagunço que também fazia parte do seu bando, é também outro tema forte no romance.



Enquanto lia Grande Sertão não cansava de pensar a respeito daqueles leitores que não conseguem ler a obra no original. Sempre tive muita curiosidade em saber mais sobre as traduções dessa obra para outras línguas. Como será que traduziram os neologismos, a fala do sertanejo, as invencionices de Rosa? Será que foi possível captar a essência das personagens? Será que a linguagem criada por Rosa não perdeu seu encanto quando transportada para outro idioma? Será que o leitor consegue se sentir cativado da mesma forma que nós, falantes da língua portuguesa, nos sentimos? Depois de todos esses questionamentos cheguei a uma única conclusão: Sou mesmo uma grande privilegiada por poder ler Grande Sertão no original.

Grande Sertão é, finalmente, um poço de sensibilidade e lirismo… Ah, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Zé Bebelo, Hermógenes, Medeiro Vaz… Já estou mesmo a “saudadear”.

Sobre o autor:

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Joao Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, a 27 de junho de 1908. Formou-se em Medicina em 1930, clinicou em Itaguara e mais tarde serviu como médico voluntário durante e Revolução de 32. Era poliglota. Seguiu a carreira diplomática e foi nomeado cônsul em Hamburgo, na Alemanha. Exerceu outras atividades diplomáticas na Colômbia e França. É autor de vários livros, entre eles, Sagarana, Corpo de Baile, Primeiras Estórias e Tutaméia – Terceiras Estórias.

Um vídeo excelente sobre Grande Sertão (contém spoilers)

sertao
O diabo na rua, no meio do redemoinho

Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.

 
 

                                                                                     ***

** A foto acima foi retirada da net. Não sei quem é o autor, mas sei que fez parte de uma exposição exibida no Grupo de Gravura Cidade de Florianópolis.

Impressões de leitura#3: A máquina de fazer espanhóis…

“a vida tem dessas coisas, quando não esperamos mete-nos numa grande história. bem, ou num grande poema, que também acaba por contar uma história”.

maquina2A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, conta a história de António Silva, um português de 84 anos que perde a esposa após 48 anos de vida em comum. Logo após a morte da companheira sua vida muda drasticamente, seus filhos nao têm mais tempo para ele e, de certa forma, o obrigam a viver em um asilo.
A história de António Silva tem um quê de melancolia, nos deparamos com um homem letárgico, entristecido pela morte recente da esposa, que sente-se abandonado pelos filhos e que tem como única saída adaptar-se a seu novo e diferente modo de vida. Apesar de viver acompanhado por outras pessoas, na mesma situação que a sua, nao deixa de sentir-se solitário, passa os dias perdido em suas lembranças do passado e suas dúvidas acerca do futuro. No início da narrativa António Silva é um homem avesso a conversas, ensimesmado e entorpecido pela dor da perda.

 

“perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião. as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia, os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. as sopas que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos, um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis, porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que vai nos dilacerar impiedosamente, porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo”.

 

Porém, no decorrer da história, nosso protagonista sai de seu casulo e vai recuperando o humor e a alegria pouco a pouco. A vontade de viver, perdida a partir da morte da esposa e do abandono dos filhos, é recuperada no momento em que ele decide se relacionar com os outros moradores do asilo. António Silva inicia uma relação de amizade e companheirismo com as outras personagens: o Américo, o Doutor Bernardo e o espetacular Esteves sem metafísica.
Toda a narrativa leva o leitor a refletir sobre a sociedade portuguesa, sobre a política na época da Ditadura de Salazar – que marcou profundamente a vida das personagens -, sobre o amor na terceira idade, sobre a solidão decorrente da senilidade, sobre o valor da amizade e do companheirismo e, sobretudo, sobre a dor da perda. O autor faz um relato brilhante sobre a velhice e sobre a morte que, nessa altura da vida, é inexorável.

 

“um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige”.

 

Além de escrever sobre a derradeira fase da vida de uma forma admiravelmente bela, Valter Hugo Mãe me conquistou mais ainda por ter dado vida ao Esteves sem metafísica. Sim, ele mesmo, do famoso poema Tabacaria, de Álvaro de Campos. Adorei sua criatividade e coragem para tomar posse de uma personagem de Fernando Pessoa, isso acabou me fazendo lembrar de Saramago que se apropriou de um dos heterônimos de Pessoa para escrever o sensacional “O ano da morte de Ricardo Reis”.

Hugo Mãe tem uma forma bastante peculiar de escrever, ele não costuma utilizar letras maiúsculas, o que dá um charme todo especial à escrita. Aliás, é justamente isso que tanto me agrada nele, pois além da capacidade de emocionar o leitor com a sensibilidade de suas personagens, sua forma tão sua, tão própria de escrever, conquista quem o lê.

Adorei A máquina de fazer espanhóis, me encantei com a forma como é contada a história e indico para todos aqueles que, como eu, gostam de livros delicados e emotivos.

 

Sobre o autor:

valter


Valter Hugo Mãe é um escritor português, nascido em Angola, em 1971. É ainda jovem, mas com uma carreira literária de causar inveja. Vencedor de vários prêmios literários, como o conhecido Prêmio José Saramago, e com um talento fora do comum para criar personagens fortes e ao mesmo tempo emotivos, Hugo Mãe conquistou respeito, admiração e um lugar respeitável na literatura portuguesa contemporânea.

 

Um vídeo do poema Tabacaria:

 

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Florbela Espanca, a poetisa do coração!

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”

Florbela_Espanca1Passou já bastante tempo desde que li pela primeira vez um poema de Florbela Espanca. Acho que foi em 2002, quando folheando uma revista literária, encontrei um texto seu. Fiquei tão fascinada com suas palavras que na primeira oportunidade que tive comprei um livro. Desde então, nunca mais consegui me separar desse livro… tenho-o sempre à mão, leio-o, releio-o, rabisco-o.
Os poemas de Florbela são sentimentais e tocantes, quando os leio é impossível não me sentir assim: completamente arrebatada.
Sua poesia trata de amor e paixão de uma forma muito linda e sensual, aliás, o erotismo é uma característica muito forte na obra da escritora. Florbela consegue ser sensual sem perder a feminilidade e a elegância, pois a sensualidade presente em seus poemas é sutil, contida, delicada, não fere a sensibilidade do leitor.
Ela soube viver apaixonadamente e com grande intensidade a sua vida amorosa, percebemos isso claramente quando entramos em contato com sua obra.

 

“(…) se tu viesses quando,
linda e louca,
Traça as linhas
dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e
canta e ri

E é como um cravo ao sol a
minha boca…
Quando os olhos se me
cerram de desejo…
E os meus braços se
estendem para ti…”

 

A tristeza e a morte são também outros temas recorrentes em sua poesia. Alguns poemas possuem um tom lúgubre e se encarregam de revelar a outra faceta da escritora, a de uma mulher atormentada e inconformada. Nesses poemas ela deixa transparecer um certo desespero, uma tristeza profunda, tristeza essa que parece ter acompanhado a escritora durante toda a vida.

 

“(…) Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do mar, toda essa água
Trago-as dentro de mim num mar de mágoa!
E a noite sou eu própria! A noite escura!

 

Apesar desse tom melancólico tão comum em sua escrita, é impossível desgostar da poesia de Florbela, é impossível não se sentir tocado por ela ao entrar em contato com suas palavras.
Florbela é a poetisa do amor, da quimera e da saudade, é uma das figuras femininas mais representativas da poesia portuguesa do século XX.

E para revelar ainda mais esta poetisa, de tal forma que ela não se confunda com outra, nada melhor que um soneto seu, um dos mais belos:

 

Eu quero amar, amar perdidamente
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante toda a vida é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar!…

 

florbela2
Meu primeiro livro. É uma seleção de poemas esparsos

 

Seus poemas são tão admirados que já foram musicados algumas vezes. Deixo aqui dois vídeos: um de Fagner e Zeca Baleiro, cantores brasileiros. Outro de Mariza, fadista portuguesa.

 

 

Há alguns anos foi lançado o filme Perdidamente Florbela de Vicente Alves, sobre  a vida da poetisa. Deixo aqui o trailer pra quem tiver interesse em conhecer um bocadinho mais a escritora:

Florbela Espanca faleceu no dia 8 de dezembro de 1930, dia em que completaria 36 anos.

Revisitando#1: Memorial do Convento

Revisitando é um espaço que criei aqui no blogue para compartilhar com vocês as minhas releituras. Decidi reler livros que fizeram parte da minha vida, livros que por alguma razão voltam sempre à minha memória. Farei uma nova leitura deles, em primeiro lugar, para relembrar detalhes já meio adormecidos, e em segundo, para saber se minha opinião mudou, se com a releitura a obra ganhou ou perdeu o encanto. A intenção é escrever sobre a forma como o livro me tocou, sobre as dificuldades que tive no decorrer da leitura, se gostei, se não gostei e o porquê de ter ou não ter gostado, além de fazer um pequeno resumo da história.

Memorial_do_convento_(48ª_edição)

Neste primeiro revisitando, quero escrever um pouquinho sobre Memorial do Convento, de José Saramago, um romance histórico publicado em 1982.
O livro traz duas narrativas, ora paralelas, ora misturando-se entre si. A primeira narrativa é sobre a construção do palácio-convento de Mafra, a mando de D. João V, monarca português que subiu ao trono em 1681.

D. João vivia angustiado com a continuidade de sua dinastia, ameaçada pela possível esterilidade da rainha Maria Josefa. Por essa razão, o monarca mandou construir o convento, foi uma espécie de oferenda a Deus em troca de um herdeiro.

 

“D. João, quinto de nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura a corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim.”

 

O convento, de uma magnitude impressionante, levou treze anos para ser construído. Foi concluído em 1730 deixando para trás muitos mortos e trabalhadores explorados ao extremo -, mostrando claramente a força, o poder e a tirania que os nobres possuíam naquela época. Para a construção do convento foram convocados todos os homens válidos do país, muitos deles apanhados à força, amarrados e enviados a Mafra. O rei gastou quantias exorbitantes para construir um palácio-convento que tivesse anexo um palácio real e uma basílica, além de capacidade para abrigar trezentos frades franciscanos.

A segunda narrativa, porém, não trata de feitos históricos como é o caso de D. João V e seu Convento de Mafra, conta a fictícia e belíssima história de amor entre Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
Baltasar era um homem de bom caráter, maneta, revolucionário e cristão, foi um dos recrutados por D. João V para trabalhar na construção do convento. Blimunda era uma nova cristã, uma mulher que tinha poderes mágicos, que conseguia enxergar o interior das pessoas.
Baltasar e Blimunda apaixonam-se e, desafiando os rigores da Inquisição, selam seu amor mediante um pacto de sangue. Em um dado momento Baltasar e Blimunda perdem-se um do outro, é então que começa a parte mais bonita e também mais triste da história. Blimunda é fiel ao seu amor e passa nove anos a procurá-lo desesperadamente, ela cruza o país por sete vezes tentando encontrá-lo.

Saramago nos conta também a história da Passarola, uma máquina voadora que existiu realmente. A Passarola foi projetada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, figura essa inspirada em uma personagem real, um sacerdote brasileiro conhecido como “padre voador”. O escritor acrescenta detalhes ficcionais à história verídica, como por exemplo, o fato de que para que a passarola voasse seriam necessárias vontades humanas. Blimunda, por causa de seus poderes mágicos,  foi a escolhida para recolher as vontades humanas necessárias para que a máquina levantasse voo. Baltasar e Blimunda tiveram uma grande e importante participação na construção da Passarola, foram as duas pessoas de confiança do Padre Bartolomeu de Gusmão.

Com muita ironia, Saramago descreve a História de Portugal do Século XVIII: as epidemias, as guerras, os abusos por parte daqueles que estavam no poder, as atrocidades e injustiças cometidas em nome da Santa Inquisição. O narrador faz uma crítica acirrada ao clero e, principalmente, à nobreza, mostrando claramente um D. João V como um rei arrogante, ignorante, megalomaníaco e perdulário. Enquanto o rei é ridicularizado, o povo, que foi quem de fato trabalhou e construiu o convento de Mafra, é mostrado como o verdadeiro heroi.
Saramago descreve ainda o amor puro, as festas religiosas, a esperança, a luta para a concretização de um sonho e a fé naquilo em que se acredita.

Eu fiquei um bocado intrigada com o autor, pois achei difícil me adaptar a seu estilo de linguagem. Quem o conhece sabe que este escritor português tem uma escrita bastante peculiar, muito própria, muito sua, isso acaba gerando um pouco de dificuldade em alguns leitores quando entram em contato com sua obra por primeira vez. A pontuação que ele utiliza é fora dos padrões convencionais. A vírgula, por exemplo, é usada como substituta de quase todos os outros sinais de pontuação, obrigando o leitor a participar intensamente, precisando identificar as frases como interrogativas ou exclamativas à medida que vai lendo. A linguagem escrita aproxima-se muito da linguagem oral… Foi justamente esse estilo diferente e inédito que me fez voltar várias no texto para melhor compreendê-lo. Acredito que essa foi a grande dificuldade que encontrei na primeira leitura.

Nesta segunda leitura, Memorial do Convento me agradou mais ainda, não sei se isso está relacionado com o fato de ter sido o primeiro livro desse escritor que li ou se foi pela história propriamente dita, que eu achei bonita que só! A grande diferença que notei desta vez foi a falta de dificuldade em seguir a narrativa. Agora, mais de dez anos após meu primeiro contato com a literatura de Saramago, a leitura fluiu maravilhosamente bem. Eu, finalmente, me acostumei com o estilo do autor, além disso continuo adorando a bela história de amor de Baltasar e Blimunda.

Com sua escrita crítica, irônica e bem-humorada, Saramago conseguiu me conquistar outra vez, então posso garantir: Memorial do Convento não perdeu nem um pouquinho do seu encanto, será sempre um dos meus livros preferidos.

 

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Convento de Mafra

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Eu no Convento de Mafra

 

Sobre o autor:

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José Saramago foi um escritor português, nascido em Azinhaga, em 1922. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Faleceu em 2010, na Espanha.

 

Um vídeo sobre Memorial do Convento (contém spoilers)

Impressões de leitura#2: O tempo e o vento (contém spoilers)

“1745. No topo de uma coxilha, uma índia grávida, perdida no imenso deserto verde do Continente. O filho que traz no ventre é de um aventureiro paulista que a preou, emprenhou e abandonou. A criança nasce na redução Jesuítica de São Miguel, onde a bugra busca refúgio. A mãe morre durante o parto, esvaída em sangue. Esse bastardo, um menino, virá a ser um dos troncos da família que vai ocupar o primeiro plano do romance e que bem poderá ser (ou parecer-se com) o clã Terra-Cambará. Veríssimo traçou um ciclo que começou nesse menino e veio a encerrar-se duzentos anos mais tarde.”  

                                                                                         

Há tempos eu tinha vontade de ler na íntegra O Tempo e o Vento, obra-prima de Erico Veríssimo. Já tinha lido alguns trechos avulsos por aí, no entanto o medo de me comprometer com um romance assim tão longo me fez adiar essa empreitada muitas vezes… porque eu tenho tendência a fugir de calhamaços.

Na adolescência assisti a uma minissérie baseada no romance, só que naquela época eu não sabia que essa adaptação era apenas de partes da obra, isso me levou a achar que o Tempo e o Vento contava apenas a história de Ana Terra, Capitão Rodrigo e Bibiana. Mas não, trata-se de uma obra bastante mais extensa, dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Cada uma dessas partes está carregada de informações políticas, históricas e culturais acerca do povo gaúcho.

Erico Veríssimo conta a saga de uma família gaúcha e de sua cidade, Santa Fé, através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo. A narrativa abrange toda a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul, iniciando por volta de 1745 até 1945. Veríssimo nos dá de presente muita informação pertinente e interessante sobre o Brasil. Ele nos mostra – durante 200 anos – as mudanças significativas que ocorreram  e o rumo que o país vai tomando à medida que a história vai sendo contada. Nos mostra as lutas de fronteiras, a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai. Nos apresenta Bento Gonçalves e sua luta em prol de uma república federativa. Fala também, incansavelmente, sobre Getúlio Vargas e seu Estado Novo. Nos presenteia com personagens fictícios inesquecíveis: Capitão Rodrigo Cambará, Bolívar, Licurgo, Fandango, Liroca, Don Pepe García, Tio Bicho, doutor Rodrigo Terra Cambará e seu irmão Toríbio e, finalmente, Floriano. Sem esquecer as personagens femininas, personagens fortes e importantíssimas no romance: Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. E também as personagens mais jovens, porém não menos importantes: Flora Quadros, Luzia e Silvia… As mulheres de Santa Fé, aquelas que não iam para a guerra, mas que viviam a guerra e todos os seus dissabores no corpo e na alma, na exaustante tarefa de rezar e esperar.

“Sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria não existiria o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os herois pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhes davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.”

Apesar de ter demorado mais do que pretendia para concluir a leitura, li com satisfação e alegria, em nenhum momento a leitura ficou arrastada, mesmo longa foi muito agradável e entretida.
Eu sofri com Ana Terra e sua vida tão difícil. Ri alto com o Capitão Rodrigo Cambará e sua célebre frase: “Cambará macho não morre na cama”… Que personagem danado de sensual e destemido!
Senti pena de Flora Quadros e sua vida melancólica. Tive vontade de colocar Floriano no colo e niná-lo. Desejei muitas vezes bater um papo com o espanhol Don Pepe García e passar uma tarde só ouvindo Tio Bicho e suas teorias. Adoraria ficar escutando Toríbio contar sobre suas aventuras na guerra e suas conquistas amorosas. Admirei a perseverança de Bibiana e a postura sempre forte e altiva de Maria Valéria. Quis, mais de uma vez, dar uns tapas na cara do Dr. Rodrigo Terra Cambará… Valha-me Deus, que homenzinho pedante! Mas, apesar de seu pedantismo, seus exageros e cafajestadas, doutor Rodrigo Cambará com seu lado humanitário, sua demonstração de generosidade e sua tendência em ajudar os mais necessitados, me conquistou. Sua morte, no fim do romance, me emocionou muito, por isso ele acabou sendo um dos meus personagens preferidos.

“Com o doutor Rodrigo não morre apenas um homem. Acaba-se uma estirpe. Finda uma época. O que vem por aí não sei se será melhor ou pior… só sei que não será o mesmo. Mas que teu pai era um homem inteiro, Floriano, isso era.”

O romance é maravilhoso. Já estou com saudades.

Sobre o autor:

Erico Veríssimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 1905. Na juventude foi bancário e sócio de uma farmácia. Em 1947, Erico Veríssimo começa a escrever O Tempo e o Vento. Recebeu vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Faleceu em 1975.

Deixo abaixo um vídeo da minissérie, exibida em 1985. Para mim o Capitão Rodrigo terá sempre a cara do Tarcísio Meira. 🙂

Impressões de leitura#1: Livro do Desassossego

“Pasmo sempre quando acabo alguma coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar, acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia”.

 

desassosegoA primeira vez que li o Livro do Desassossego tive bastante dificuldade em manter um ritmo de leitura. Li muito devagar, fazendo pausas e mais pausas… demorei muito até engrenar completamente. Mas, a partir de um certo momento, a leitura me absorveu tanto que foi impossível deixá-la de lado. Foi até esquisito, porque comecei sem muito entusiasmo e acabei completamente extasiada. Logo no início fui bombardeada por uma frase intrigante: “O coração, se pudesse pensar, pararia”. Fiquei com essa frase na cabeça querendo saber se o autor tinha algo mais a dizer, acredito que por isso não desisti, insisti na leitura por mera curiosidade.
Composto por vários fragmentos, o Livro do Desassossego é o relato de um empregado de escritório em Lisboa, uma personagem angustiada, repleta de dúvidas e hesitações, alguém que parece estar sempre à procura de algo, mas não sabe exatamente o quê.
Bernardo Soares é o autor fictício do livro, um semi-heterônimo de Fernando Pessoa, segundo palavras do próprio poeta: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.”

Soares, assim como pessoa, passou sua vida como um simples funcionário de escritório, vivendo em um quarto alugado e dedicando seu tempo à escrita. Porém, o livro não trata apenas sobre Bernardo Soares e seu cotidiano, mas sobre um amontoado de reflexões: sobre a solidão, sobre a literatura, sobre a paixão pela arte de escrever e sobre a nostalgia que sentimos às vezes sem nenhuma razão aparente.
É um livro que brinda sentimentos, sentimentos esses que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já chegamos a experimentar. O pano de fundo é Lisboa, impossível lê-lo e não sentir uma vontade incontrolável de caminhar pela Lisboa de Fernando Pessoa, às margens do Tejo, pela Cidade Baixa, pela Rua dos Douradores…
Alguns dizem que este livro é a autobiografia do próprio Pessoa… Não sei! Acredito que, neste caso, criador e criatura se fundem.
O Livro do Desassossego é um tesouro da literatura, é um livro vivo, intrigante, envolvente, interminável. Para ser lido e relido em qualquer momento da vida, a partir de qualquer página. Obra com um alto valor poético e lírico. É uma prosa que pinga poesia.

 

“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é porque nada tenho a dizer”.

Pois, para mim, ele disse muito. Definitivamente perturbador.

 

Sobre o autor:

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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888. Aos cinco anos de idade foi levado para a África do Sul, onde viveu e estudou. Aos 17 anos regressou a Portugal, desde então nunca mais saiu de sua terra natal. Em vida teve apenas uma obra publicada, Mensagem, um livro de poesia que exalta Portugal. Morreu em 1935, aos 47 anos, vítima de problemas hepáticos.

 

Há uns dois anos o livro foi adaptado para o cinema por João Botelho. Deixo aqui um pedacinho do filme: