Impressões de Leitura#20: Os Maias…

Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem pra dizer.

— Italo Calvino

 

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Há livros que não consigo ler de uma sentada só, não porque são ruins ou enfadonhos, mas porque me fascinam e cativam de tal maneira que chega a fazer-me pena conhecer o fim. Os Maias é um livro assim, por essa razão não me é possível escrever sobre ele sem me emocionar.
Por causa dos Maias, habitei vários meses o Ramalhete, lá na Rua de S. Francisco de Paula, no Bairro das Janelas Verdes, naquela Lisboa do final do século XIX.
Desfrutei, incansavelmente, da privilegiada vista do Tejo e do Porto de Santos. Vi, vezes sem conta, Dom Afonso da Maia sentar-se frente à lareira para tomar seu cálice de vinho do Porto ao mesmo tempo que aconselha o apaixonado Pedro da Maia, seu filho, a afastar-se da belíssima Maria Monforte. Usufruí dos bons ares de Santa Olávia, ao pé do rio Douro, e observei, quase sempre com um sorriso no rosto, a infância feliz do pequeno Carlos Eduardo da Maia. Foi então que compreendi o orgulho que Afonso da Maia sentia ao ver seu neto crescer saudável e forte como um touro. Anos depois, não tive vergonha de seguir Carlos Eduardo durante suas longas caminhadas pelas ruas do Chiado, à noite, no auge de sua juventude. Quando apareceu Maria Eduarda, senti também um grande encantamento por sua beleza e elegância. Fui testemunha daquele amor impossível. Com eles ri e chorei… Cheguei, inclusive, a insultar a crueldade do destino.
E sobre João da Ega, o que posso dizer? Que é um rapaz interessante, espirituoso e brincalhão! Dei altas risadas com essa personagem que nada mais é que um alter ego do próprio escritor.

Hoje, um dia frio de novembro de 2018, saio do Ramalhete com o coração tranquilo e transbordando de emoção… Emoção por ter finalmente conhecido os Maias, por ter sido espectadora de suas dores e tragédias, mas, sobretudo, de suas alegrias e conquistas.
Meu exemplar já tem um lugar especial reservado na estante. Então, quando a saudade bater com força revisitarei o Ramalhete. Uma e outra vez. E quantas vezes mais sejam necessárias.

O livro conta a história da família Maia ao longo de três gerações, sendo que a mais importante e mais explorada no romance é a última, que trata do amor incestuoso de Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda. Eça de Queirós utiliza essa obra para criticar com bastante ironia a sociedade lisboeta da última metade do século XIX. Esse livro introduziu o realismo em Portugal, rompendo de vez com o romantismo. Foi publicado em 1888, quando Eça de Queirós tinha 43 anos.

 

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Eça de Queirós

José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de novembro de 1845, na Póvoa do Varzim, e morreu a 16 de agosto de 1900, em Neuilly, nos arredores de Paris.

 

Os Maias foi adaptado para a televisão brasileira em 2001:

 

Em Portugal, foi adaptado para o cinema em 2014,  por João Botelho:

 

 

As músicas lindas que foram temas da adaptação brasileira:

 

Acorda, filha, por favor acorda!

“Neste 8 de janeiro de 1992 escrevo para você, Paula, para trazê-la de volta à vida.”

 

Paula

Paula, da escritora chilena Isabel Allende, é um livro que toca o leitor de uma maneira tão profunda que é quase impossível escrever qualquer coisa acerca dele sem deixar transparecer um quê de emoção… Talvez por eu já conhecer o teor da história tenha ficado por muito tempo com o livro à espera sem coragem de pegá-lo para ler. Quando finalmente decidi que era a hora de mergulhar nessa leitura, fui surpreendida por uma escrita que, embora muito triste e dolorosa, transmite um bocado de esperança.
Isabel Allende começa sua narrativa assim: “Ouve, Paula, vou contar-te uma história para que, quando acordares, não te sintas perdida…”
Paula, uma jovem de apenas 28 anos, padece de porfiria, uma rara enfermidade. Após uma crise, entra em coma e assim permanece por quase doze meses.
Durante o período em que Paula permaneceu em coma, Allende começa a escrever uma carta que, mais tarde, se transformaria neste livro, uma espécie de autobiografia que ela dedica à filha. O processo de escrita do livro ajuda Isabel a vencer seus medos e dúvidas acerca do futuro da filha e também a exorcizar a dor de uma possível perda. Em Paula, Allende intercala a história da doença da filha e a história da sua própria família, que começa no início do século passado quando um imigrante basco, ascendente seu, desembarca na costa do Chile. Conhecemos episódios muito pessoais da vida da escritora, desde o seu nascimento, no Peru, em 1945, até o momento da partida da filha, em dezembro de 1992. Sob o seu olhar entramos em contato com o Chile Pré e Pós-Ditadura do General Pinochet, passando pela Morte do Presidente Salvador Allende, tio da escritora, e o exílio da própria Isabel e sua família na Venezuela… Isabel se abre sem reservas e nos conta, também, como se deu a criação do seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, um dos seus livros mais conhecidos e emblemáticos.
A narrativa de Isabel Allende é de uma sensibilidade ímpar… Em nenhum momento sua escrita é desprovida de dor, no entanto, à medida que avançamos, percebemos que a autora consegue passar de desesperada a resignada, conseguindo em alguns momentos levar o leitor da tristeza ao riso. 
Algumas lágrimas rolaram por aqui, mas valeu muito a pena conhecer a história de Paula e, principalmente, a história de Isabel, uma mulher forte que, apesar de passar por uma das piores situações, a perda de um filho, não perdeu em nenhum momento a esperança.
O livro é melancólico, mas é, ao mesmo tempo, um culto ao amor e, principalmente, à vida.

 


“Se tu resistes, Paula, eu também.”

 

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Isabel Allende

 

** Em dezembro de 1992 morreu Paula. Este livro foi publicado dois anos depois.

Impressões de leitura#18: Fuga do campo 14

“Fugi fisicamente, não fugi psicologicamente.”

 

escape-from-camp-14Fuga do Campo 14, do jornalista americano Blaine Harden, conta a angustiante história de Shin In Geun, um sobrevivente de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte.
Li esse livro há bastante tempo, mas por conta de toda essa confusão entre Coreia do Norte e Estados Unidos e aquele tão comentado encontro entre Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, não é possível ficar indiferente já que somos bombardeados a cada dia por uma enxurrada de novas notícias. Além disso, estou lendo para um grupo de Leitura Compartilhada o livro Para poder viver, de Yeonmi Park, que trata do mesmo tema. Então, senti vontade de recuperar este texto, escrito originalmente no meu antigo blog.

Apesar de ser um livro de poucas páginas, precisei de mais tempo que o habitual para concluir a leitura. Por ser um relato pesado e angustiante fiquei meio anestesiada, com um gostinho amargo na boca. Digerir todos os acontecimentos presentes na história foi uma tarefa árdua, algumas vezes precisei parar e desanuviar a cabeça. Em muitos momentos os olhos marejaram e o coração apertou… Que história tão triste!
Fuga do Campo 14 relata a história do coreano Shin In Geun, nascido e criado como prisioneiro em um campo de concentração na Coreia do Norte, o Campo 14uma prisão para inimigos políticos.
Nesse campo, a execução pública e o medo que ela gerava era tremendo. Os prisioneiros que infringiam as regras mereciam a morte. Qualquer pessoa que era pega fugindo ou apenas tramando uma fuga era fuzilada imediatamente. Não havia perdão.
O que mais me chocou na história de Shin In Geun foi saber que ele precisou pagar pelo “crime” do pai -, crime esse que ele só veio a tomar conhecimento depois de adulto. Seu pai havia sido condenado porque um de seus irmãos desertou para a Coreia do Sul. Isso mesmo, o pai de Shin In Geun virou prisioneiro apenas por pertencer à família de alguém que fugiu do país. E Shin, por sua vez, foi condenado a nascer e viver na prisão pelo mesmo motivo.
Ele cresceu numa atmosfera de medo, aprendeu a confiar em tudo aquilo que os guardas lhe diziam: que não podia fugir, que deveria delatar quem planejasse fugir, quem roubasse comida, quem falasse mal do governo -, isso incluía a todos, inclusive sua própria família.
Da mesma forma que confiava nos guardas, desconfiava de qualquer outra pessoa ao seu redor. Foi instruído desde muito pequeno a delatar seus familiares e colegas, sua recompensa por essa prestação de serviço era uma porção a mais de comida. Além disso, ajudava a surrar outras crianças como castigo e não sentia remorso nenhum por isso, não deixava transparecer emoção… havia sido criado para ser assim: duro e frio.

 

“Eu não sabia o que eram compaixão ou tristeza. Eles nos educavam desde o nascimento para que não fôssemos capazes de emoções humanas normais. Agora que saí de lá, estou aprendendo a me emocionar. Aprendi a chorar. Tenho a impressão de que estou me tornando humano.”

 

Shin ignorava completamente a existência de uma vida fora daquele campo, não imaginava nem em seus mais profundos sonhos o quão diferente e interessante o mundo lá fora podia ser. A história desse rapaz é muito triste, mas é também incrível. Até onde se tem notícia ele foi a única pessoa nascida e criada dentro de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte que conseguiu fugir. Sua fuga aconteceu no dia 2 de janeiro de 2005 e até onde é possível averiguar ele ainda é o único que teve êxito.
Aos 23 anos estava sozinho, não conhecia ninguém do outro lado da cerca elétrica, e mesmo assim conseguiu chegar a pé à China e sair do inferno que era o Campo 14. No entanto, Shin não conseguiu se desvencilhar totalmente das marcas, seu corpo é um verdadeiro mapa dos sofrimentos que decorrem de se crescer em um campo de trabalho forçado. Da mesma forma que seu corpo, sua mente também foi gravemente machucada com a lavagem cerebral que lhe foi feita desde o nascimento, daí sua dificuldade em aprender inglês, em chorar, em sentir compaixão e empatia pelo próximo. Shin conseguiu dar a volta por cima, mas ainda se martiriza e se culpa por todas suas atitudes durante a época em que vivia no Campo 14, por todas as coisas que precisou fazer para salvar a própria pele e, dessa forma, sobreviver.

 

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Shin In Geun e Blaine Harden

Após a leitura, comecei a pesquisar mais sobre o que acontece na Coreia do Norte e fiquei chocada com a situação. Shin In Geun não foi o único a viver como prisioneiro na Coreia do Norte, como ele há muitos, infelizmente. A leitura foi bastante densa, deu um aperto no peito saber que nada posso fazer a respeito, só me resta mesmo desejar que um dia toda essa violência acabe e que todos possam ser finalmente livres, tratados com igualdade e humanidade. 😦
Atualmente Shin In Geun é um ativista dos direitos humanos.

 

Uma palestra de Blaine Harden sobre Shin In Geun:

Impressões de leitura#17: A trilogia 1Q84…

“Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem.”

 

1Q84Acho que não é mais novidade para ninguém que eu gosto pra caramba do escritor japonês Haruki Murakami. Até agora todos os livros dele que li, de uma forma ou de outra, me agradaram. Por isso, quando escutei falar sobre o lançamento de 1Q84, seu novo livro, fiquei morrendo de vontade de lê-lo.
Quando comecei a leitura eu nada sabia sobre o enredo, evitei até mesmo bisbilhotar resenhas e comentários a respeito para não saber detalhes que pudessem comprometer minha leitura. Por um lado isso foi bom, pois fui surpreendida pelos acontecimentos à medida que me envolvia com os personagens. Mas por outro, foi ruim, já que eu não sabia que a história é longuíssima, que a edição em português está dividida em três volumes e que não é possível lê-los de forma independente. Resulta que fui ficando cada vez mais envolvida com o tema e cada vez mais curiosa para saber o desfecho, mas, para minha surpresa, o primeiro livro terminou deixando um monte de perguntas sem respostas. Então, não teve outro jeito, foi preciso encarar os dois volumes restantes.

A história se passa em Tóquio, em 1984. Logo no início conhecemos os dois personagens principais: Aomame e Tengo. Ela, uma mulher bonita, independente, professora de ginástica e assassina profissional, uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos. Ele, professor de matemática e aspirante a escritor.

 

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É o mundo real, onde os cortes fazem correr sangue real, onde a dor é verdadeira e a dor é dor real. A lua no céu não é de papel. É uma lua real, são duas luas reais.

 

Com uma narrativa fantástica, Murakami cria um mundo paralelo a 1984, o qual chama 1Q84. Esse título é, na verdade, uma homenagem ao livro 1984, do escritor George Orwell. Nesse mundo completamente novo há duas luas – uma grande e outra pequena – flutuando lado a lado no céu. Existe também um tal de Povo Pequeno que domina as pessoas aí nesse mundo paralelo. O Povo Pequeno criou uma crisálida de ar que por sua vez teve sua história transformada em livro por Fuka Eri, uma escritora adolescente e disléxica. O livro de Fuka Eri apesar de ter um enredo envolvente é muito mal escrito; precisa, portanto, ser corrigido para poder participar e ter a chance de ganhar um importante prêmio literário. É aí que entra Tengo, o nosso aspirante a escritor, que tem como principal função reescrever o livro da adolescente disléxica.

A trama criada por Murakami mistura-se àquela criada por Fuka Eri, e todos aqueles componentes fantásticos que bem no início nos pareceram bastante bizarros, começam a fazer mais sentido. 1Q84 tem um enredo que desperta interesse, personagens bem desenvolvidos, sinistros e solitários. Murakami criou um mundo em que a fronteira entre o real e o imaginário é completamente imprecisa. Ele ousa, mistura fatos reais com ficção, tornando assim a narrativa ainda mais instigante e enigmática… E o leitor fica a princípio um bocado confuso, meio sem saber onde e quando acaba o Tóquio de 1984 e começa o de 1Q84.

Há também a relação amorosa entre Aomame e Tengo, que foram colegas de escola quando crianças, mas que ficaram quase duas décadas sem saber nada um do outro. Aliás, a parte mais esperada por mim foi justamente o reencontro deles. Fiquei durante toda a leitura desejando que isso acontecesse para saber o que passaria depois, pois os caminhos de ambos os personagens estão interligados desde o início da história e estão também altamente relacionados com os acontecimentos sinistros do livro. 1Q84 é uma ficção interessantíssima e inteligente que faz com que não tenhamos vontade de parar até sabermos em qual dos mundos os personagens estão de fato a viver.

 

Que sentido faz continuar a viver completamente sozinha num mundo absurdo… um mundo com duas luas, uma grande e uma pequena, e onde seres que fazem parte de um tal Povo Pequeno controlam o destino dos humanos?

 

A leitura foi muito agradável, mas vou confessar pra vocês, depois de dois volumes de quase 500 páginas cada um, comecei a achar que o autor estava a dar voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum. Quando comecei o terceiro volume já estava um pouco cansada, percebi que nada avançava, que o autor estava meio que ‘enchendo linguiça’. No terceiro livro, além dos dois personagens principais, Aomame e Tengo, velhos conhecidos do leitor desde o início da trama, aparece um terceiro personagem, o sinistro e misterioso Ushikawa. Deu-me a impressão de que o autor colocou este personagem extra exatamente para dar uma animada na narrativa, que já havia ficado bastante repetitiva. E foi, de verdade, uma jogada de mestre, porque ele conseguiu recuperar o meu interesse.

O terceiro volume foi de fato o que menos gostei. Apesar de ter gostado do tema, apesar de achar que este escritor tem uma grande capacidade de criar enredos criativos e personagens bem construídos e interessantes, dessa vez o autor esticou a trama além da conta. A história estaria perfeita com apenas dois volumes, porque no final das contas acabaram ficando várias informações completamente perdidas e sem relevância nenhuma para o desfecho. Mesmo assim, com todas as suas imperfeições, esse autor consegue me agradar a cada livro. Gostei!

E Murakami continua narrando exageradamente bem as cenas de sexo, mais explicadinho impossível. Após ler 1Q84 cheguei à conclusão de que o erotismo exacerbado é realmente um tema recorrente na literatura desse japonês fora de série.

 

Sobre o escritor:

 

Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestigio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O’Connor.
Recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Como música também não pode faltar em um livro de Murakami, deixo aqui um vídeo da Sinfonietta de Janácek, canção que o autor menciona bem no comecinho da história. Para mim, virou trilha sonora.

 

Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong…

“É sempre difícil apreciar os livros sagrados de outras culturas.”

Baixar-Livro-Maome-Karen-Armstrong-em-PDF-ePub-e-Mobi-ou-ler-online-370x536Não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião no momento, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. Como eu não sou de fugir da raia, encarei. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou um bocado, não apenas porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente, mas também porque me deu motivação para começar a ler Salman Rushdie, um escritor que já estava na lista de espera há anosSem falar que eu adoro histórias ambientadas na Idade Média, então colocando na balança os prós e contras, posso dizer que Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong, foi uma leitura boa e informativa.
O livro, publicado originalmente no Reino Unido em 1990 (no Brasil em 2002 pela Companhia das Letras), é interessante a começar pelo prefácio, escrito em 2001, apenas um mês após o atentado às torres gêmeas nos Estados Unidos.
Armstrong nos conta que decidiu escrever a biografia de Maomé em 1989, época em que veio à tona o caso Salman Rushdie.
Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana, escreveu Os Versos Satânicos, um romance que descreve um profeta fundador de uma nova religião. A história desse profeta, que foi supostamente inspirada na figura de Maomé, ocupa apenas 70 páginas do livro de Rushdie, mas ainda assim essas poucas páginas foram suficientes para provocar reações furiosas e violentas entre os muçulmanos. O romance ofendeu a comunidade muçulmana que entendeu que seu Profeta e maior representante da fé islâmica havia sido desrespeitado, por conta disso o autor dos Versos Satânicos foi considerado blasfemo. Sua situação agravou-se mais ainda depois que o Ayatolá Ruhollah Khomeini decretou uma fatwa que condenava o escritor e seus editores à morte. Khomeini induziu uma multidão de muçulmanos a queimar os livros de Rushdie em praça pública, apedrejar livrarias e a editora Penguin, responsável pela publicação do romance.

“Faço saber aos orgulhosos muçulmanos de todo o mundo que o autor de Os Versos Satânicos, livro que vai contra o Islã, o Profeta e o Corão, e todos os implicados em sua publicação que eram conscientes do seu conteúdo, foram condenados à morte. Peço a todos os muçulmanos que os executem onde quer que os encontrem. Caso morram na tentativa serão considerados mártires.” (Mensagem do Ayatolá Khomeini transmitida pela rádio Teerã.)

Dias após a transmissão dessa mensagem o Ayatolá Khomeini ofereceu também uma recompensa de três milhões de dólares para quem matasse Salman Rushdie, esse foi o estopim do caso que levou o escritor inglês a ficar por mais de uma década escondido sob forte proteção policial.
Armstrong conta que depois da fatwa o preconceito contra os muçulmanos aumentou ainda mais. A autora afirma que embora no ocidente não tenhamos tomado conhecimento, a fatwa decretada por Khomeini foi condenada e considerada inválida por 44 dos 45 países muçulmanos que reafirmaram que ela violava as leis islâmicas pregadas por Maomé. Segundo a escritora, a decisão tomada por quase todos os países islâmicos não foi levada em consideração e nem colocada em evidência pelos meios de comunicação. Ou seja, o povo no ocidente continuou a acreditar que todos os muçulmanos clamavam pela morte de Rushdie. Foi no auge de toda essa confusão que Armstrong decidiu escrever a biografia de Maomé. Ela diz ter tido receio de que o ocidente nunca chegasse a conhecer de fato a verdadeira história do Profeta.

Escrevi o livro porque lamentava que o retrato de Maomé, apresentado por Rushdie, era o único que a maioria dos ocidentais teria possibilidade de ver.

Karen Armstrong é uma escritora britânica nascida em 1945. Foi freira católica durante sete anos, mas atualmente diz não professar nenhuma fé. É bacharel pela Universidade de Oxford e foi também professora de Literatura na Universidade de Londres. Em 1999 recebeu o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000 o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas. Em 2017 recebeu o Prêmio Princesa de Asturias de Ciências Sociais. Armstrong já é bastante conhecida por seus livros que têm a religião como tema recorrente. Dentre suas obras mais importantes podemos citar Uma história de Deus (1994), Jerusalém, uma cidade, três religiões (2000) e Em nome de Deus (2001).

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Nesta biografia de Maomé, a autora dedica-se a contar sobre a formação do Islã desde os seus primórdios. Primeiro ela fornece ao leitor milhares de informações geográficas, em seguida faz uma excelente contextualização tanto histórica como política, moral e religiosa -, mostra também como era a Arábia nos tempos que antecederam Maomé, quando os habitantes ainda eram politeístas e adoravam a Caaba (o antigo santuário em forma de cubo situado no centro da cidade de Meca) e as três deusas pagãs: al-Lat, al-Uzza e Manat.
Ela fala sobre as tribos beduínas da Arábia no final do século VI, mostra os conflitos existentes e como eram exercidas as leis naquela época.
Maomé nasceu no ano 570 na tribo dos coraixitas e, de acordo com a autora, desde muito jovem mostrou-se bondoso, dedicado, inteligente, honesto e submisso a Deus. Trabalhou como vendedor/comerciante em caravanas no deserto. Armstrong traça o retrato de um Maomé justo e que luta contra uma sociedade politeísta para tentar consolidar a fé islâmica. 

No ano 610, no topo de uma montanha, na décima sétima noite do mês do ramadã, Maomé recebe por meio do Anjo Gabriel a primeira revelação de Deus. O profeta recebeu durante 23 anos seguidos mensagens que, segundo ele, foram ditadas pelo Deus de Abraão, o mesmo Deus dos cristãos e judeus. Esses versículos revelados a Maomé são chamados pelos muçulmanos de Sura. Mais à frente essas suras foram recolhidas e deram origem ao Corão, o livro sagrado do islã. 

Durante dois anos Maomé guardou segredo sobre as revelações recebidas, foi só no ano 612 que ele começa sua missão. No entanto, não foi fácil introduzir a fé monoteísta a um povo pagão, por isso Maomé acabou perseguido e precisou fugir de Meca. Em 622 ele refugia-se em Medina, mas continua em perigo durante alguns anos mais. Foi apenas em 630, após muitas lutas e batalhas sangrentas, que Maomé regressa e finalmente consegue conquistar Meca.
Nota-se claramente que Armstrong fez uma minuciosa pesquisa para escrever seu livro e contextualizar bem a história. Além disso, por ter se dedicado à vida religiosa por muitos anos e conhecer as escrituras sagradas tanto do Cristianismo quanto do Islamismo, tem bagagem cultural para falar a respeito do assunto. A lista bibliográfica que a autora utilizou é bem extensa, além dos dois primeiros biógrafos de Maomé, consultou também Dante Alighieri, Umberto Eco, William Montgorrey Watt, Wilfred Cantwell Smith, entre outros.

Durante toda a narrativa a autora faz comparações entre o Cristianismo e o Islã, principalmente quando tenta amenizar as atitudes violentas cometidas pelo Profeta nos primórdios da nova religião. Quando Maomé decidiu lutar em Badr e dizimou milhares de pessoas ou quando expulsou e massacrou as tribos judaicas, Armstrong justifica as atitudes do profeta afirmando que, naquela época, as posturas violentas e sangrentas eram necessárias para seguir adiante com os planos. Além disso, ela estabelece um comparativo entre esses atos sangrentos cometidos por Maomé e acontecimentos cristãos, como por exemplo, as Cruzadas, os episódios dos Mártires Cristãos de Córdoba e a queima de livros durante a Santa Inquisição.
Armstrong critica a imagem errônea que os ocidentais têm do Islã e seus seguidores e condena as falsas qualidades que a eles são atribuídas: violentos, opressores das mulheres, vingativos e terroristas.

Culpamos a religião da violência, quando na verdade a violência está na natureza humana. As guerras são invenções da civilização e estão presentes em todo tipo de sociedades, muito antes da chegada do monoteísmo.

Nós precisamos da história do Profeta nestes tempos perigosos. Não podemos permitir que os extremistas muçulmanos sequestrem a biografia de Maomé e a distorçam para servir a seus próprios fins.

Quando alguma passagem do Corão retirada do contexto é citada para justificar atos terroristas, Armstrong cita passagens das escrituras sagradas do Cristianismo e Judaísmo para comprovar que essas duas religiões também podem ser igualmente violentas, ela assegura também que a Bíblia tem mais passagens violentas que o Corão. Ela diz que a maioria dos ocidentais não é capaz de julgar o Islã de forma justa por ignorância, porque desconhece a cultura muçulmana. Além disso, mostra-se profundamente incomodada com a forma distorcida e equivocada com que os ocidentais se referem ao islã, principalmente quando é mencionado que essa religião é intolerante e fanática. Segundo a autora, os atentados terroristas cometidos por fundamentalistas não podem ser associados a Maomé, porque o profeta foi, na verdade, um homem que gastou parte de sua vida tentando impedir esse tipo de massacre. A palavra Islã, que significa submissão existencial de todo o ser a Deus, está relacionada à paz (Salam), dessa forma o Islã não poderia jamais ser taxado como uma religião agressiva e que insufla a violência já que seu Profeta pregava a harmonia.
Karen Armstrong diz também que no século XII os muçulmanos conviviam harmoniosamente bem com cristãos e judeus na Península Ibérica, que não foram os seguidores do Islã que começaram a brigar por sua fé, mas os cristãos que decidiram quebrar a relação de concórdia e tranquilidade existente entre as três religiões.

Finalmente foi o Ocidente, e não o islã, que proibiu a discussão de assuntos religiosos. Na Idade Média, os cristãos só foram capazes de ver o islã como uma versão fracassada do cristianismo e criaram mitos para demonstrar que Maomé fora instruído por um herege.

Maomé morreu em 632, mas um pouco antes de sua morte conseguiu unificar a Arábia e as Leis islâmicas. A experiência espiritual pela qual Maomé passou durante esses 23 anos mudou sua vida e de grande parte do povo árabe. O Islã atualmente é seguido por 1,2 bilhão de muçulmanos, um quinto da população mundial.

Eu gostei do livro, principalmente da contextualização histórica, porém não posso deixar de ressaltar que a autora apesar de ter bastante conhecimento sobre o assunto não foi imparcial ao contar a história do profeta. Ela claramente escolheu um lado: o lado dos muçulmanos. Foi uma rasgação de seda o tempo todo. Todas as comparações que Armstrong faz é favorecendo o islamismo em detrimento do cristianismo e judaísmo. Fiquei meio sem entender o porquê… Será que ela teve medo de ofender a comunidade islâmica e ter que passar pela mesma situação pela qual Salman Rushdie passou? O certo é que senti que Armstrong apenas defendeu Maomé, que é mostrado o tempo todo como um homem pacífico, desprovido de defeitos.

Maomé foi um pacifista que reuniu as tribos na tomada de Meca.


Há também passagens em que Armstrong faz comparações entre Maomé e Jesus e, nesses momentos, o profeta islâmico é sempre colocado em uma categoria superior ao profeta cristão.

Nunca lemos sobre Jesus rindo, mas com frequência encontramos Maomé sorrindo e brincando com as pessoas que lhe eram próximas.

Em vez de vagar como extraterrestre pelas montanhas da Galiléia a pregar e a curar, como o Jesus dos Evangelhos, Maomé teve de se engajar numa árdua luta política para reformar a sociedade (…)

É impressão minha ou Karen Armstrong chamou Jesus de alienígena? Que bom para ela que os intolerantes cristãos, que ela tanto criticou em seu livro -, não decidiram criar uma fatwa para castigá-la por essa colocação tão fora de lugar. Por muito menos os pacíficos seguidores do Profeta Maomé, que ela tanto defende, teriam distribuído alguns tabefes (rsr) 🙂

Para finalizar, devo dizer que a leitura mais agradou que desagradou, no entanto eu adoraria mesmo saber a opinião sincera de Karen Armstrong sobre a atual situação do povo muçulmano: sobre os Refugiados na Europa, sobre os recentes ataques terroristas em Paris, Londres, Bélgica, Berlim  e Barcelona.

“Se quiserem melhores resultados no século XXI da era cristã, os ocidentais deveriam aprender a compreender os muçulmanos, com quem dividem o planeta.”

Será mesmo, Sra. Armstrong, que a culpa é dos ocidentais e que apenas eles deveriam aprender a compreender e conviver bem com os muçulmanos? Sei não, tenho cá minhas dúvidas!

Palestra de Karen Armstrong:

Documentário sobre o Caso Salman Rushdie:

Impressões de leitura #16: A casa das belas adormecidas…

 

” A mais bela das mulheres não poderia, durante o sono, dissimular a sua idade. Um rosto jovem é agradável durante o sono, mesmo que a mulher não seja uma beleza. Talvez não pudesse escolher, naquela casa, senão raparigas agradáveis de ver enquanto dormiam.”

 

casadasbelas3A primeira vez que escutei falar em Yasunari Kawabata foi em dezembro de 2005. Naquela época acabava de ser publicado no Brasil o livro “Memória de minhas putas tristes,” do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Muito se falava a respeito desse novo livro, pois foi a partir dele que Gabo colocava fim a um jejum de dez longos anos longe dos romances. Foi nessa onda de novidade e curiosidade que comecei a leitura. Já na orelha da capa fiquei sabendo que Memória de minhas putas tristes havia sido inspirado em A casa das belas adormecidas, do escritor japonês Yasunari Kawabata. García Márquez começa sua história com uma epígrafe retirada da própria história de Kawabata:
“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”
O livro de Gabo não me agradou muito porque seu tema remete à pedofilia, um assunto que me causa repulsa e estranhamento, no entanto, a epígrafe deixou-me curiosa.

Conversando com algumas pessoas acerca dessa leitura frustrada, sugeriram-me ler o livro de Kawabata que, na opinião da maioria, é superior ao de Gabo. Passaram-se os anos e eu acabei descobrindo que García Márquez havia escrito também um conto baseado nesse livro (para ler o conto, clique aqui). Então, outra vez, a vontade de conhecer a história das Belas Adormecidas, voltou. Mas só agora, mais de uma década após aquela epígrafe, eu finalmente encarei o livro do escritor japonês.

A casa das belas adormecidas foi publicado originalmente no Japão em 1961. Li a edição portuguesa com tradução de Luís Pignatelli feita a partir da tradução francesa. Essa edição traz um prólogo estupendo do também escritor e amigo íntimo de Kawabata, Yukio Mishima. Pesquisando mais sobre o escritor, descobri que ele teve uma vida bastante conturbada e marcada por tragédias familiares. Aos dois anos ficou orfão e foi viver com os avós paternos; tempos depois, perdeu a irmã; mais à frente, os avós e, alguns anos mais tarde, seu íntimo amigo, Yukio Mishima, cometeu suicídio. Lendo sobre todas essas situações trágicas pelas quais o escritor passou e pela vida repleta de perdas, não é por acaso que o autor coloca em seus livros tanta melancolia e até um quê de desespero.
Yasunari Kawabata nasceu em Osaka em 1899. Foi cineasta em sua juventude, um leitor voraz tanto dos clássicos como das vanguardas europeias. Foi um solitário durante praticamente toda a vida e uma pessoa torturada pela insônia. Escreveu novelas, contos, romances e é um dos escritores japoneses mais populares dentro e fora de seu país. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1968. A maioria de suas obras está marcada pela solidão e pelo erotismo, se destacam além de A casa das belas adormecidas, também Beleza e Tristeza e País da Neve. Apesar do seu discurso na cerimônia de entrega do Premio Nobel de Literatura ter sido contra o suicídio, Kawabata tirou a própria vida em 1972. 

 

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Yasunari Kawabata

 

A casa das belas adormecidas é um livro bem curtinho, apenas 128 páginas divididas em cinco capítulos. Narrado em terceira pessoa, conta a história de Eguchi, um idoso de 67 anos que influenciado por um amigo decide visitar uma casa clandestina, uma espécie de bordel japonês do final do século passado. Nessa casa é possível passar a noite ao lado de meninas jovens, lindas, nuas, virgens e adormecidas por meio de narcóticos. O amigo de Eguchi, Kiga, conta-lhe que os idosos uma vez ao lado dessas jovens passam a sentir-se vivos e vigorosos -, algo bastante incomum na idade em que eles se encontram, pois é justamente nessa altura da vida que a manifestação da morte tende a se repetir de maneira contínua, por isso a casa das belas adormecidas vai servir como uma espécie de refúgio sempre que o desespero de envelhecer se tornar insuportável.

Eguchi teve uma vida aparentemente normal, casou-se, teve filhas e netos e, à sua maneira, foi feliz. Contudo, sua velhice é repleta de melancolia, solidão e nostalgia. As partes que achei mais interessantes são justamente aquelas que remetem às lembranças remotas de sua juventude, lembranças essas que retornam com muita força durante os momentos em que ele permanece ao lado das jovens adormecidas. Mas, apesar de estar na companhia dessas jovens, ainda assim continua a sentir-se solitário, pois não pode compartilhar absolutamente nada com elas. O livro de Kawabata ao mesmo tempo que mostra a realidade de um homem idoso, solitário, inquieto e desprovido de virilidade, concede também ao protagonista um momento de reflexão sobre si próprio, sobre seus sentimentos, sobre sua capacidade de se emocionar e de se comover diante da proximidade da velhice. A realidade do velho Eguchi o incomoda, seu repúdio à situação em que se encontra é visceral, tanto que ele considera-se um ridículo por estar a dormir ao lado de meninas desmaiadas, quase mortas.

 

“E, contudo, poderia haver coisa mais horrível do que um velho que se dispunha  a deitar-se uma noite inteira ao lado de uma rapariga que tinham adormecido por todo esse tempo e que não abriria os olhos? Eguchi não teria por acaso vindo a essa casa para procurar esse absoluto no horror da velhice?”

 

Os idosos, frequentadores assíduos da casa, precisam seguir algumas normas restritas -, dentre essas normas está o fato de que é terminantemente proibido praticar relações sexuais com as meninas e, de forma alguma, é permitido despertá-las: “Não procure acordar a pequena. Porque, faça o que fizer para a acordar, ela nunca abrirá os olhos…” Eguchi, embora também seja um cliente da casa, acha que não faz parte do seleto grupo de ‘homens inativos’ -, aqueles que já não são capazes de satisfazer sexualmente a uma mulher… Ele acredita que apesar de sua idade ainda não está completamente desprovido de masculinidade.
A presença das jovens adormecidas desperta em Eguchi pensamentos eróticos, agressivos e violentos, a tal ponto de fazê-lo desrespeitar as normas estabelecidas pelo bordel.

 

“Na esperança de, antes de mais, acordar a rapariga, tratou-a brutalmente.”

 

Para o protagonista, infringir as regras significava vingar os outros velhotes que, segundo ele, passavam pela humilhação de dormir ao lado de meninas drogadas, quase mortas, inanimadas. Além disso, desobedecer poderia ser também uma forma de mostrar que não é ainda um ‘homem inativo’, um ‘não-homem,’ como os outros frequentadores da casa e, assim, comprovar a si mesmo que ainda é capaz de cometer atos viris. Ao decidir manter relação sexual com uma das meninas apercebe-se de que ela ainda é virgem, então chega à conclusão de que a virgindade da menina apenas confirma a incapacidade dos clientes; a virgindade dela corrobora não que os clientes respeitam a ferro e fogo as regras impostas pelo bordel, mas a impossibilidade que eles têm de consumar o ato sexual, por essa razão são chamados pela dona da casa de ‘clientes confiáveis’, ou seja, eram confiáveis pelo simples fato de serem desprovidos de virilidade.
Dormir ao lado de meninas tão jovens leva Eguchi ao caminho da autorreflexão. Ele passa durante as cinco visitas que faz à casa das belas adormecidas a analisar sua própria existência… A presença das jovens, a nudez delas, mas, sobretudo, a juventude delas, faz com que a personagem relembre fatos importantes e marcantes pelos quais passou no decorrer da vida.

 

 

Capa da edição portuguesa:

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imagem da capa: Close-up of a woman sleeping on the bed, por Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892)

 

A casa das belas adormecidas é, a meu ver, um livro triste, incômodo, um livro que causa perturbação e confusão. A presença da morte dá uma aura de tristeza ainda maior à história, além disso, aborreceu-me um bocado ler sobre um homem/idoso que se relaciona com mulheres jovens, nuas, narcotizadas, adormecidas e completamente vulneráveis, desprovidas de todas as suas defesas… meninas à mercê de atos libidinosos.

 

“Está profundamente adormecida e não dá conta de nada. Porque a rapariga dorme de um sono só e do princípio ao fim ignora tudo. Mesmo com quem passou a noite…”

 

Senti, mais uma vez, que a objetificação do corpo feminino é, infelizmente, um tema recorrente. Mais uma vez a mulher é colocada como a responsável pelos atos nefastos cometidos por homens, mais uma vez a mulher é responsabilizada pelos desejos incontidos de homens.

 

“esta era uma jovem que tanto dormida como acordada incitava o homem com tal força que se agora Eguchi violava as regras da casa só ela teria a culpa do delito.”

 

Incomodou-me muito o narrador atribuir às meninas o sentido de algo inanimado, a natureza de um objeto, tratando-as como um brinquedo. Não me causou boa impressão, deveras!

 

“mas tinham feito dela um brinquedo vivo a fim de evitar qualquer sentimento de vergonha a velhotes que já nada tinham de homens. Ou, quem sabe, mais do que um brinquedo, para os velhotes desse tipo ela era a própria vida.  Uma vida que, assim, podia ser tocada com toda a segurança.”

 

Eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve e Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Criei uma antipatia quase repulsiva pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha. Entretanto, o mérito de Kawabata está mesmo na beleza de sua escrita; entre os recursos empregados pelo autor, posso dizer que a descrição cuidadosa que ele utiliza ajuda a dar um toque poético à história… Por exemplo, quando ele fala sobre o vermelho das cortinas refletido nas tezes adormecidas das garotas, a posição em que elas dormem, onde colocam suas mãos, como é o formato de seus seios, a cor de seus cabelos… Sua bela descrição não limita-se apenas ao aspecto físico das meninas, mas também ao aroma delas. Ele fala sobre o cheiro do leite que sente em uma das jovens e que remete às lembranças do passado… Descreve de uma forma muito bonita as cores, uma camélia desfolhada, o espaço físico onde se encontra a casa, o barulho do mar quando bate nas falésias… tudo isso acaba por dar uma atmosfera quase lírica ao texto.
Os incidentes registrados pelo autor convergem todos para uma estrutura narrativa cujo ponto de sustentação principal é a solidão, decorrente da senilidade. Essa solidão constitui um estado real e concreto de carência, algo que o protagonista no auge de seu contentamento por usufruir da companhia das jovens, não se dará conta. No entanto, esse contentamento é efêmero, pois no decorrer da história ele perceberá sua decrepitude e tentará resgatar por meio da juventude das meninas sua própria juventude perdida.
A melancolia permeia todo o texto de Kawabata e, ao mesmo tempo que o autor mostra de uma forma bonita os momentos de reflexão da personagem, mostra também um estado de carência afetiva contra a qual o protagonista – apesar de suas limitações – tenta lutar. Contudo, essa luta é inútil, pois para o velho ficará claro o contraste existente entre a juventude das meninas e o horror de sua própria velhice. Ele comparará sua idade à das meninas, e a mocidade delas, ao invés de fortalecê-lo, o fará ter mais certeza de sua debilidade e da efemeridade da vida. Eguchi terá a noção exata de sua própria existência e entenderá, finalmente, que a juventude das moças não poderá retardar a passagem do tempo, apenas comprovará que a morte, nessa altura da vida, é inexorável.

“(…) as próprias belas adormecidas são fragmentos de seres humanos avivando o desejo na sua maior intensidade…”  (Yukio Mishima)

 

Outras capas de edições em português:

 

 

 

Impressões de leitura#14: A guerra não tem rosto de mulher…

“Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma.” (Svetlana Aleksiévitch)”

rosto de mulher2018 começou bem, já no primeiro mês do ano tive o prazer de fazer uma ótima leitura: A guerra não tem rosto de mulher da escritora Svetlana Aleksiévitch, livro publicado originalmente em 1985. No Brasil foi publicado em 2016 pela Companhia das Letras.
A guerra não tem rosto de mulher traz relatos reais de mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial.
Este livro é diferente de qualquer outro acerca desse tema que eu já li, porque ele mostra a batalha das mulheres, a guerra contada a partir do ponto de vista feminino.
Bem no início ficamos sabendo que a União Soviética enviou aproximadamente 1 milhão de mulheres para lutar na Segunda Guerra Mundial, o dobro que a Alemanha enviou, por exemplo. Então, o que Svetlana faz é nos apresentar algumas dessas mulheres, permitindo-nos conhecer a história de vida de cada uma delas.

A autora dedicou-se durante anos a colher depoimentos de ex-combatentes – não sem muitas dificuldades – pois muitas delas mesmo quase quarenta anos após o fim da guerra não se sentiam à vontade para falar abertamente sobre o assunto. Quando elas começam a contar, Svetlana percebe que narram uma história completamente distinta da história masculina: elas falam de violência, de dor, de sangue,  de lágrimas, mas falam também acerca do amor, da amizade, de sabores, de cores, de música, de flores… Na guerra, apesar de lutarem, exercerem atividades militares perigosas, apesar de usarem roupas de homem e corte de cabelo masculino, o feminino delas está sempre lá, camuflado, mas sempre presente.

 

“Eram necessários soldados… Mas também queríamos ser bonitas.”

 

Chama muito a atenção o fato de que essas mulheres não se sentiam cômodas o suficiente para falar abertamente sobre a guerra. A autora diz que os relatos delas variavam e dependiam muito de quem estava presente no momento em que contavam suas memórias. As próprias mulheres assumiram que os maridos não permitiam que elas chorassem, eles diziam que elas não podiam “florear” a história. Elas afirmaram também que na noite anterior ao encontro com a autora receberam aulas de História e Geografia para que pudessem falar o que de fato ocorreu, ou seja, para que elas pudessem contar a guerra deles, a guerra dos homens, a que eles consideravam verdadeira e relevante… Elas só conseguiram se libertar do tabu que a guerra se transformou quando se perceberam longe dos olhares masculinos.
Alguns homens também sentiram-se ofendidos e diminuídos por Svetlana ouvir  e contar a história das mulheres, por isso questionaram:

 

“Por acaso falta homem para isso? Para que você quer essas histórias de mulher? Fantasias de mulher…
Guerra é coisa de homem. O que foi, por acaso tem pouco homem sobre quem escrever no seu livro?”
Os homens tinham medo de que elas não contassem direito a guerra.

 

O livro é triste não apenas por tratar de um tema que dói, mas porque percebemos que essas mulheres, que foram de suma importância para sua pátria, não tiveram seu valor reconhecido e valorizado. Os homens quando voltaram da guerra foram recebidos como heróis, foram ouvidos, puderam falar à vontade, contar suas experiências e seus feitos heróicos. Já as mulheres, porém, foram obrigadas a calar. Seu trabalho, tão importante para o desfecho da batalha, não foi valorizado como deveria. Elas sofreram preconceitos pelos veteranos de guerra quando chegaram no campo de batalha e sofreram preconceitos quando deixaram a batalha, até mesmo pelas próprias mulheres, que achavam que elas haviam ido para a guerra para se prostituir, por isso precisaram silenciar para não envergonhar a família. A vida delas foi triste no decorrer da guerra e para muitas continuou triste depois.

 

“Fique calada! Fique calada! Não confesse!

 

A guerra para essas mulheres foi algo com o qual elas sempre conviveram. Desde crianças ouviram histórias de grandes batalhas, viram seus pais, tios e irmãos se preparando para lutar, portanto, cresceram com o desejo de também defender a pátria. A guerra não tem rosto de mulher é um livro que retrata muito bem o “ser patriótico,” como a própria autora diz, os soviéticos consideravam-se todos “Filhos da Vitória.”

O livro de Svetlana tem a guerra como pano de fundo, mas ela diz escrever, sobretudo, sobre a história da alma humana, a história dos sentimentos… e é exatamente isso que lemos nessas 392 páginas: a história dos sentimentos dessas mulheres, a história da alma dessas mulheres, percebemos que elas humanizam a guerra, pois seus relatos, de uma certa forma, aproximam e igualam todos os seres vivos, até mesmo aqueles que embora alheios aos acontecimentos também sofriam os horrores da guerra.

 

“Lembro como as pessoas gritavam… As vacas gritavam… As galinhas gritavam… Eu achava… Eu achava que todos gritavam… Eu achava que todos gritavam com voz de gente. Tudo o que era vivo.”

 

Antes de ler o livro de Svetlana eu tinha uma ideia bastante equivocada sobre as mulheres que foram enviadas para o campo de batalha. Sempre achei que elas receberam incumbências mais compatíveis com o gênero feminino, como por exemplo, enfermeiras, cozinheiras, lavadeiras, médicas. Mas não, elas foram enviadas para exercer também atividades consideradas masculinas, como soldados de infantaria, francoatiradoras, comandantes de canhão antiaéreo, pilotos, atiradoras de fuzil, tanquistas, sapadoras… A autora diz, inclusive, que durante a guerra houve até um problema linguístico, pois naquela época não haviam termos que designassem essas profissões no gênero feminino; ela conta que foi durante a guerra que esses termos surgiram.

Outro ponto interessante é saber que nem todas as mulheres foram convocadas oficialmente, a maioria delas foi pelo simples fato de desejar servir a Pátria. Algumas, inclusive, fugiram de casa para se alistar, meninas muito jovens, adolescentes entre 16 e 18 anos.

O que Svetlana busca nos mostrar com esses relatos não é apenas como essas mulheres venceram, quais foram os seus feitos heróicos, quantas medalhas e condecorações receberam, quais foram as estratégias utilizadas e quantos inimigos cada uma conseguiu abater. O que ela compartilha conosco é o sentimento mais genuíno dessas mulheres, o que elas sentiram e ainda guardam dentro de si. A autora nos mostra que apesar de tudo elas não perderam a capacidade de se comover, de se emocionar… e falam, a todo momento, sobre o amor e o respeito que se deve ter em relação ao ser humano.

 

“O caminho é um só: amar o ser humano. Compreendê-lo pelo amor.”

 

Svetlana conseguiu dar voz a essas mulheres que, de igual pra igual, lutaram na mesma batalha que os homens, mas que após a vitória foram preteridas, condenadas ao papel de coadjuvantes.

A leitura é muito forte e dolorida, não é um livro que eu li de uma sentada, precisei fazer pausas e mais pausas para poder digerir o assunto e aliviar o coração. É uma leitura que perturba e fica martelando dentro da gente.

 

Sobre a autora:
Svetlana Aleksiévitch é uma jornalista e escritora nascida na Ucrânia em 1948. Recebeu o Nobel de Literatura em 2015.

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Impressões de Leitura#12: Mudanças

“Um grande vilão tem sempre algo de heróico, e um grande herói tem sempre algo de vil.”

 

mudançaHá tempos eu tinha vontade de ler algo de Mo Yan, o escritor chinês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2012. Como para mim ele era um mero desconhecido, acabei por escolher um livro ao acaso.
Decidi-me por Mudança, que não foi o primeiro livro que ele escreveu mas que veio bem a calhar com o que eu estava buscando: conhecer mais a fundo o escritor assim como o país no qual ele vive. 🙂

Mudança é um livro bem fininho, entretanto, suas poucas páginas se encarregam de contar um pouco sobre a trajetória de Mo Yan e de como ele enveredou pelo caminho da literatura.
O autor se dispõe a relatar de forma relaxada e bem-humorada, baseada em memórias de sua vida privada, as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas.

Mo Yan vivia em um vilarejo, estudava em uma boa escola, uma das melhores da província de Shandong – e da qual foi expulso quando era apenas um estudante da quinta série. Trabalhou em uma fábrica de algodão e tempos depois entrou para o exército porque achava que apesar de difícil era muito mais fácil que ser admitido em uma universidade. Ele conta como foi colocar os pés na capital Pequim, mesmo naquela época a cidade não sendo nem um décimo do que é hoje, ainda assim já lhe parecia monstruosa e assustadora. Relata sua visita ao mausoléu do Presidente Mao e da emoção que sentiu na ocasião de seu falecimento, pois ele e grande parte dos chineses acreditavam que com sua morte seria o fim da China. Porém, alguns anos após esse acontecimento, era possível constatar que a China não apenas havia sobrevivido, mas melhorava e crescia dia após dia. Além disso, após o desaparecimento do Presidente Mao, proprietários de terra deixaram de ser estigmatizados, agricultores passaram a ter mais grãos em casa e até as universidades mudaram seu sistema educacional, passando a adotar o exame de admissão, facilitando assim a vida daqueles que desejavam estudar. Tudo o que o autor conta ilustra muito bem como as coisas mudaram na China e continuam mudando.

Eu, particularmente, acredito que este livro não mostra claramente como é de fato a literatura de Mo Yan, seria preciso ter contato com sua escrita ficcional também, mas reconheço que foi uma boa introdução, foi a porta de entrada para conhecer o caminho que ele trilhou até ser considerado e reconhecido como um escritor de sucesso. Ademais, pude perceber um pouquinho mais as peculiaridades da China – este país gigantesco, enigmático e tão cheio de nuances.

Sobre o autor:


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Mo Yan nasceu na província de Shandong, China, em 1956. É autor de romances, novelas e contos. Ganhou vários prêmios literários nacionais e é o escritor chinês mais elogiado de sua geração. Mo Yan é seu pseudônimo, que significa “não fale”, um nome bastante curioso para alguém que se dedica a escrever e criar vozes para debater acerca de diversos assuntos.

Impressões de leitura#11: Fama

“Uma novela em nove histórias”

 

famaEu adoro descobrir novos nomes da literatura. Gosto de pegar dicas com amigos, ler indicações e resenhas em revistas literárias e, sempre que possível, leio livros de escritores completamente desconhecidos.
A verdade é que não costumo limitar minhas leituras a um gênero ou autor específico, claro que tenho meus escritores preferidos, mas sou também muito curiosa e aberta a novas leituras. Por conta dessa minha curiosidade, já conheci escritores sensacionais.
O escolhido da vez é Daniel Kehlmann, um escritor alemão muito talentoso que me conquistou desde o primeiro momento que entrei em contato com seus escritos. Talvez para muita gente Kehlmann não seja mais novidade nenhuma, mas pra mim, que nunca tinha escutado falar nada sobre ele, foi um achado surpreendente.
Conheci esse escritor fuçando informações em uma rede social sobre literatura, acabei chegando em seu livro Fama (Ruhm, no original) e fiquei encantada com seu estilo de escrever.

Fama é composto de nove relatos. No primeiro, o leitor entra em contato com uma personagem que decide por primeira vez adquirir um telefone celular; assim que começa a utilizá-lo começa também a receber ligações que seriam para outra pessoa: uma celebridade, um astro de cinema muito solicitado por mulheres e com uma vida bastante interessante. Essa primeira personagem passa, então, a adotar a identidade dessa celebridade.
Mais adiante o leitor conhece outra personagem, um ator muito famoso que de uma hora para outra deixa de receber ligações, deixa de ser solicitado para trabalhos e também por mulheres. Por causa disso, ele começa a duvidar do seu talento e da importância de sua carreira.

À medida que avançamos vão sendo-nos apresentadas outras personagens: um escritor brasileiro que escreve livros de auto-ajuda, vive em um enorme e luxuoso apartamento no Rio de Janeiro, sofre de depressão e encontra no suicídio a solução para seus problemas; uma mulher de quase 70 anos que ao descobrir que tem câncer decide viajar para a Suíça e se internar em uma clínica que pratica a eutanásia; uma escritora de novelas policiais que se perde na Ásia, fica com o celular descarregado sem poder entrar em contato com ninguém para pedir ajuda; um blogueiro que sonha em ser protagonista de uma novela e, por último,  um diretor de uma grande companhia telefônica que leva uma vida dupla e se entrega a autodestruição.
Com muita ironia, Kehlmann toma a história de cada uma dessas personagens e vai montando sua trama. Ele constrói uma espécie de novela em que os nove episódios se entrelaçam, mas sem criar um protagonista.

 

“Uma novela sem personagem principal! Compreendes? A composição, as conexões, o arco narrativo, mas sem nenhum protagonista, nenhum herói que recorra todo o livro”.

 

Na verdade, todas as personagens – de uma forma ou de outra -, acabam tendo algum tipo de relação entre si. Histórias que se entrelaçam, personagens que se misturam, se relacionam, que desaparecem de um relato para reaparecer em outro, mais adiante. Kehlmann monta um enredo que tem como pano de fundo a sociedade atual, a tecnologia, o mundo virtual e a globalização. Ele fala de situações e objetos da vida moderna, como por exemplo, aparelhos celulares, computadores, baterias descarregadas, telefonemas equivocados, linhas cruzadas, encontros inusitados etc. Retrata situações em que celulares e computadores, objetos tão comuns e práticos nos dias atuais, que servem (ou pelo menos deveriam servir) para facilitar a vida, podem ser capazes de gerar problemas e mal-entendidos gravíssimos.
Fama trabalha temas como suicídio, desaparecimento, traição, eutanásia, verdades, enganos e a perda da identidade.

O livro tem uma narrativa muito agradável e flui maravilhosamente bem, é uma excelente mistura de ficção e realidade. Um livro com poucas páginas mas com a incrível capacidade de prender o leitor do princípio ao fim. Eu gostei tanto que fui atrás de saber mais sobre o autor. As informações que encontrei por aí dizem que Fama, entre os livros de Kehlmann, é um dos mais fracos. Então fiquei aqui pensando, se este que não é considerado assim tão bom me agradou, já posso imaginar a delícia que será ler aquele que a crítica especializada considera o melhor. Até já coloquei aqui na minha lista outros títulos desse escritor.

 

Sobre o autor:
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Daniel Kehlmann nasceu em Munich, em 1975. Reside atualmente em Viena e Berlim. Sua obra recebeu vários prestigiosos prêmios, como o Prêmio de Literatura da Fundação Konrad Adenauer, o Prêmio Kleist e o Prêmio Thomas Mann. Sua novela “A medida do mundo”, traduzida para mais de quarenta línguas, é um dos maiores êxitos da recente literatura alemã. Entre outros títulos cabe destacar também “Eu e Kaminski.”
Vale a pena ler. Kehlmann é ótimo!

Impressão de leitura#9: A sul da fronteira, a oeste do Sol.

 

murakami1Este foi o terceiro livro de Haruki Murakami que li. O primeiro foi Minha Querida Sputnik, logo depois li também Norwegian Wood, ambos muito bons diga-se de passagem. Entrei em contato com os livros de Murakami em 2009, desde então não deixei de admirar cada vez mais este escritor japonês.
Assim como Norwegian Wood,  A sul da fronteira tem também como título o nome de uma famosa canção:
South of the Border, de Nat King Cole.
O enredo, apesar de simples, consegue ser bastante instigante, além disso não é nada previsível.
Murakami retrata o Japão da primeira metade do século XX, conta a história de Hajime, um menino de 12 anos que ainda criança se encanta com a graça de Shimamoto, uma menina da mesma idade. Entre eles nasce uma amizade sincera, e à medida que percebem as inúmeras coisas que têm em comum, a amizade fica ainda mais forte. Separam-se na juventude e por muitos anos não voltam a saber nada mais um do outro.

Hajime segue sua vida e começa a fazer suas descobertas: namora uma menina aqui, outra ali, magoa mais uma acolá e assim segue… Tempos depois, já dono de um conhecido clube de jazz, casado e pai de duas filhas, reencontra Shimamoto e atração renasce.
Completamente encantado com a reaparição dessa mulher – agora madura e misteriosa – seus desejos, outrora reprimidos, desabrocham com maior intensidade. Embora contente de reencontrar Shimamoto, Hajime fica indeciso entre a vida tranquila com a família e a possibilidade de recuperar os sentimentos que acreditava perdidos.

No decorrer da narrativa, o autor mostra as transformações pelas quais o protagonista passa, desde sua infância/adolescência até chegar à idade adulta, e o leitor torna-se cúmplice de suas dúvidas, de sua melancolia, de sua nostalgia e compartilha suas afeições, culpas e remorsos.
É uma história sobre a adolescência e suas descobertas, sobre perdas e renúncias, sobre amores perdidos e recuperados e sobre a importância de dar ou não uma nova oportunidade a esses amores interrompidos.

A Sul da Fronteira tem algumas semelhanças com as outras duas obras de Murakami que li, os três trazem triângulos amorosos e muita referência musical; o texto de Murakami está recheado de artistas, como por exemplo, Rossini, Beethoven, Nat King Cole e Bing Crosby.
O autor, também conhecido por suas pitadas de erotismo, neste livro utiliza muito mais que apenas toques eróticos. De repente dá uma louca e o narrador começa a descrever cenas sexuais que deixaria qualquer um de queixo caído. Confesso que até gosto quando o autor ousa um pouquinho, mas, neste caso, Murakami exagerou na dose; são páginas e mais páginas narrando um ato sexual e seus pormenores. E ele conta tudo, tudinho mesmo, não deixa nada pra imaginação do leitor.
Eu prefiro quando o autor aborda esse tema com cuidado, até pode revelar, mas sem ser tão explícito. Na minha opinião, esse erotismo exacerbado nada acrescentou à história, apenas aumentou o número de páginas.

Apesar desse pequeno detalhe negativo, é um bom livro. Gostei.

Sobre o autor:

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Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestígio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O,Connor. Murakami recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Deixo aqui a música South of the Border, de Nat King Cole, que dá título ao livro:

Deixo também Pretendoutra canção que Hajime e Shimamoto escutavam:

“Pretend you’re happy when you’re blue. It isn’t very hard to do.”