Todas as cartas de amor são ridículas…

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas (…)” Álvaro de Campos

Fernando-Pessoa-Cartas

Eu adoro poesia. E quando falo em poesia me vem logo à cabeça Fernando Pessoa e seus heterônimos, porque eles são os meus poetas preferidos. Além disso, adoro biografias, cartas, diários e tudo mais que me permita bisbilhotar detalhes privados da vida dos escritores que gosto. Então, quando vi na vitrine de uma livraria o livro Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz  publicado pela Editora Assírio & Alvim, em 2012, entrei imediatamente para comprá-lo. Fiquei curiosíssima para conhecer os pormenores do romance dos apaixonados.
O livro traz uma compilação de cartas que foram trocadas por Ofélia e Pessoa durante as duas fases do namoro que mantiveram. Agora ficou muito mais interessante ler essas correspondências, porque nos são apresentadas em forma conjunta e obedecendo um critério cronológico. Uma carta é sempre a resposta de outra, assim os assuntos não ficam mais subentendidos, é possível seguir a leitura como se estivéssemos presenciando o diálogo deles realmente.
As cartas de Ofélia, que até bem pouco tempo não haviam sido publicadas em sua totalidade, quando lidas juntamente com as cartas de Fernando permitem-nos perceber que houve sim uma relação amorosa real, que não se tratou apenas de um amor platônico criado pela imaginação fértil do poeta.
O livro é composto de 185 documentos: 51 cartas de Pessoa e 129 de Ofélia, além de alguns telegramas e postais. As correspondências 
foram transcritas a partir de fotocópias dos manuscritos originais, cedidas pelos familiares de ambos os interlocutores. A nota introdutória informa o leitor que foram feitas algumas correções na ortografia para atualizá-la com o último acordo vigente e também para corrigir alguns pequenos erros. A pontuação, no caso das cartas de Ofélia, foi mantida, só foi mesmo corrigida nos casos em que poderia causar alguma ambiguidade. As datas das cartas, que originalmente são colocadas no final, foram deslocadas para o início para que o leitor pudesse ter uma melhor percepção da sequência cronológica. A edição é bem bonita e caprichada, além disso contém algumas explicações nas notas de rodapé.

cartas

Nas missivas do início da primeira fase do namoro, que durou de novembro de 1919 a dezembro de 1920, Pessoa mostra-se um homem apaixonado, romântico, em alguns momentos até ridiculamente meloso.

Adeus, amor. Beijos, beijinhos, beijões, beijicos, e beijerinzinhos do teu, sempre e muito teu
Fernando

Na segunda fase, que durou de setembro de 1929 a janeiro de 1930, percebemos que a correspondência é muito mais da parte de Ofélia que de Fernando… As cartas dele, quando chegam, são curtas e não apresentam mais aquele tom tão romântico e apaixonado do início da relação, o poeta mostra-se mais seco e distante. Já para o fim do relacionamento o discurso de Pessoa muda mais ainda, aquele tom meloso é substituído por um tom mais racional. O poeta, inclusive, escreve cartas para Ofélia e assina como um dos seus heterônimos, o antipático Álvaro de Campos, que ficamos sabendo por meio das cartas que era o heterônimo que Ofélia mais detestava.
Dessa forma, às vezes brincando e outras vezes falando sério, Pessoa decide dar fim ao relacionamento. No entanto, a culpa do término do namoro não foi unicamente dele, mas dos heterônimos que, segundo o escritor, eram muito exigentes.

O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que nao permitem nem perdoam.

Antes, quando eu lia na internet pequenos trechos das cartas de Pessoa para Ofélia e vice-versa, imaginava que o namoro deles havia sido algo assim meio sem graça, sem paixão. Mas depois de ter lido as cartas em conjunto, entendi que o tal relacionamento foi até bem picante para os parâmetros daquela época. Deu para perceber que o namoro do casal foi além dos olhos nos olhos, pois em seus textos captamos até mesmo pequenos traços de sensualidade e erotismo.

Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo… Meu Bebê pra sentar no colo! Meu Bebê pra dar dentadas! Meu Bebé para… Corpinho de tentação.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; Pões tua boquinha contra a boca do Nininho… Vem… Estou tão só, tão só de beijinhos…

Vou-me deitar Nininho, queres vir fazer óó comigo? Isso há-de ser um dia, mas não me chames descarada não?


Eu adoro as poesias de Pessoa, mas devo admitir que as cartas não me agradaram tanto assim. Achei que a maioria delas é bastante boba e infantil, sobretudo aquelas do início da relação. Além disso, senti pena de Ofélia, pois como deu para perceber ela se entregou demasiado a esse amor e sofreu bastante para superar o fim do relacionamento. Pessoa, como pude notar, foi mais direto e racional e, para encerrar o relacionamento, escreveu clara e friamente sobre o fim do amor.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como nao hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que nao são mais que partes da vida? (…) Quanto a mim… O amor passou.

Apesar de não ter gostado tanto assim das cartas (achei-as um bocado aborrecidas) valeu a pena a leitura, pois pude comprovar mais um vez que Álvaro de Campos tinha razão quando afirmou em seu poema que Todas as cartas de amor são ridículas.

Deixo aqui um vídeo com um poema de Álvaro de Campos, o heterônimo que Ofélia tanto detestava:

*** Texto escrito em 2012, no meu antigo/falecido blog.

Impressões de leitura#1: Livro do Desassossego

“Pasmo sempre quando acabo alguma coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar, acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia”.

 

desassosegoA primeira vez que li o Livro do Desassossego tive bastante dificuldade em manter um ritmo de leitura. Li muito devagar, fazendo pausas e mais pausas… demorei muito até engrenar completamente. Mas, a partir de um certo momento, a leitura me absorveu tanto que foi impossível deixá-la de lado. Foi até esquisito, porque comecei sem muito entusiasmo e acabei completamente extasiada. Logo no início fui bombardeada por uma frase intrigante: “O coração, se pudesse pensar, pararia”. Fiquei com essa frase na cabeça querendo saber se o autor tinha algo mais a dizer, acredito que por isso não desisti, insisti na leitura por mera curiosidade.
Composto por vários fragmentos, o Livro do Desassossego é o relato de um empregado de escritório em Lisboa, uma personagem angustiada, repleta de dúvidas e hesitações, alguém que parece estar sempre à procura de algo, mas não sabe exatamente o quê.
Bernardo Soares é o autor fictício do livro, um semi-heterônimo de Fernando Pessoa, segundo palavras do próprio poeta: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.”

Soares, assim como pessoa, passou sua vida como um simples funcionário de escritório, vivendo em um quarto alugado e dedicando seu tempo à escrita. Porém, o livro não trata apenas sobre Bernardo Soares e seu cotidiano, mas sobre um amontoado de reflexões: sobre a solidão, sobre a literatura, sobre a paixão pela arte de escrever e sobre a nostalgia que sentimos às vezes sem nenhuma razão aparente.
É um livro que brinda sentimentos, sentimentos esses que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já chegamos a experimentar. O pano de fundo é Lisboa, impossível lê-lo e não sentir uma vontade incontrolável de caminhar pela Lisboa de Fernando Pessoa, às margens do Tejo, pela Cidade Baixa, pela Rua dos Douradores…
Alguns dizem que este livro é a autobiografia do próprio Pessoa… Não sei! Acredito que, neste caso, criador e criatura se fundem.
O Livro do Desassossego é um tesouro da literatura, é um livro vivo, intrigante, envolvente, interminável. Para ser lido e relido em qualquer momento da vida, a partir de qualquer página. Obra com um alto valor poético e lírico. É uma prosa que pinga poesia.

 

“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é porque nada tenho a dizer”.

Pois, para mim, ele disse muito. Definitivamente perturbador.

 

Sobre o autor:

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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888. Aos cinco anos de idade foi levado para a África do Sul, onde viveu e estudou. Aos 17 anos regressou a Portugal, desde então nunca mais saiu de sua terra natal. Em vida teve apenas uma obra publicada, Mensagem, um livro de poesia que exalta Portugal. Morreu em 1935, aos 47 anos, vítima de problemas hepáticos.

 

Há uns dois anos o livro foi adaptado para o cinema por João Botelho. Deixo aqui um pedacinho do filme: