Xangai é especial!

 

 

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Sempre que bate aquela vontade incontrolável de ficar enfiada dentro de casa, lembro que cada dia que passa é um dia a menos que me resta para aproveitar as coisas bonitas da cidade onde moro. Mesmo quando o tempo fica com a poluição lá nas alturas e insuportavelmente quente, uma quentura capaz de tirar o raciocínio de qualquer ser vivente, me obrigo a sair de casa e dar umas voltinhas pelas redondezas. Às vezes acho que vou só perder meu tempo, que não verei nada de interessante, mas aí me dou conta que daqui a dois meses não estarei mais caminhando pelas ruas desta cidade, no meio desta multidão de chineses, escutando esta língua tão enigmática… Então, pego minha máquina fotográfica e vou passear. Enquanto caminho pelas ruas de Xangai percebo que o que vejo aqui não verei nunca mais, em nenhuma cidade do mundo. Por isso, não me permito ficar enfiada dentro de casa esperando o tempo passar, saio por aí em busca das peculiaridades do lugar. No início, apenas passeava tranquilamente. Agora, comecei a fotografar também. Fotografar do meu jeito, meio torto, meio cortando uma perna aqui e um abraço acolá… Mas dizem que a intenção é que vale, não é mesmo?!
Pra mim, o mais interessante de morar por um longo tempo em uma cidade tão grande e diferente é que por mais que eu conheça esse lugar sempre terá algo novo esperando para ser visto. E, por incrível que pareça, cada vez que saio às ruas vejo algo especial… É especial deixar-se surpreender por situações do cotidiano e permitir que nosso olhar busque e encontre a beleza daquelas coisas que, muitas vezes, vemos todos os dias mas não prestamos suficiente atenção. Algumas vezes sento em um parque qualquer e fico a observar os passantes… Sim, é bom reparar nos rostos das pessoas, como li em uma crônica de Rubem Alves há poucos dias: “rostos revelam o mundo.” É verdade, por isso gosto tanto de observar pessoas, reparar na forma como caminham, se apressadas ou com calma. Gosto  também de imaginar como se sentem, se estão alegres ou tristes…

Os chineses são inquietos por natureza, falam alto demais, querem o tempo todo passar na frente, como se estivessem sempre atrasados, como se o mundo fosse acabar amanhã. Isso me irritava de uma certa maneira no início, lá em meados de 2011 quando cheguei por estas bandas, mas por fim compreendi que esse jeito meio brusco e ruidoso faz parte da essência deles e, claro, ajuda a compor a atmosfera desta cidade que tanto gosto, dando a ela charme e graça. Xangai não seria a mesma sem essa maneira tão peculiar de sua gente.

Além de observar pessoas, gosto também de observar lugares, imaginar como foi determinado lugar anos atrás, antes de eu chegar por aqui, e como esse mesmo lugar será anos mais tarde, depois que eu já tiver partido. Deixo a minha imaginação voar solta e simplesmente desfruto.
Sinto-me feliz e privilegiada por ter morado aqui tantos anos, por ter conhecido tantas pessoas legais e pelas coisas que vi. Acho que por saber que meu tempo em Xangai já está praticamente no fim, que daqui a dois meses estarei indo embora, procuro aproveitar ao máximo e guardar na lembrança aquilo que vivenciei, porque no fim das contas, quando tudo passar, serão apenas as memórias das coisinhas especiais que vi e vivi, que ficarão.
Foram oito maravilhosos anos. Obrigada, China, por tudo!
Amo-te, Xangai ❤

 

Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

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Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Da saudade…

“Não importa que a tenham demolido: a gente continua morando na velha casa [em que nasceu].”     (Mario Quintana)

saudadeJá ouvi dizer que ser saudosista é algo negativo, que sentir saudades de épocas passadas é sentir-se incapaz de ser feliz com o presente. Há quem diga que a pessoa saudosista costuma revisitar o passado na esperança de encontrar nele aquilo que não encontra na vida atual. Não sei se concordo muito com isso, pois embora contente com meu presente sou uma saudosista por natureza.

Saudade é uma palavra tão linda, tão carregada de sentimentalidade e que, dizem os entendidos, só existir na doce língua portuguesa; já ouvi dizer, inclusive, que nenhum outro idioma é capaz de dar a essa palavra a conotação tão forte e significativa que lhe é de direito. Não sei se isso é realmente verdade, só sei que pra mim os sentimentos mais doces são justamente aqueles inspirados pela saudade: de uma pessoa querida, de um lugar, de uma época, de uma música, de um cheiro… Das memórias saudosistas que tenho só guardo aquelas que de alguma forma me arrancam um sorriso.

Dia desses, peguei-me “saudadeando” sobre quando eu era moleca, quando ia de férias à casa de minha avó, a Santa Helena, no Maranhão. Naquela época essa cidade nada tinha de moderna, era um lugar pacato como tantos outros do nordeste brasileiro.
Santa Helena não tinha cinema, não tinha shopping, não tinha praia, mas ainda assim lembro-me com muito carinho daquele tempo: o tempo das brincadeiras, das despreocupações, dos cabelos soltos ao vento, dos banhos de rio e das carreiras pelas ruas sem carros. Era o tempo de pular elástico, de jogar pedrinhas na calçada e brincar de roda. Era o tempo de milho assado, de bolo de macaxeira e fogueira de São João.

Lembro-me tão bem da casa de minha avó, ou melhor, de várias casas nas quais ela morou. Porém, a que mais forte ficou na memória era ali, na Rua Doutor Paulo Ramos. Sua casa era a última da rua, depois dela apenas floresta, que nós, crianças, chamávamos ‘mato’.
A casa de minha avó não era tão grande, mas tinha espaço suficiente para abrigar quantas pessoas passassem e precisassem ficar por lá: parentes e conhecidos que vinham de longe. Um dos sinais de que se tinha visita em casa era o monte de redes penduradas e a cangalha na janela… Ah, como eu me lembro da famosa cangalha na janela!

O quintal era gigante, parecia um mundo… Mas, pensando melhor, depois de tantos anos a memória pode ter me enganado, quiçá fosse gigante apenas na minha concepção de criança. Sei, no entanto, que havia de tudo no quintal de minha avó: bananeiras, mangueiras, laranjeiras, limoeiros, cajueiros e um pé de melão. Um único pé de melão, cuidadosamente plantado ao lado da janela da cozinha.

 

– Que fruta é essa? – Perguntavam os vizinhos.
– Fruta de gente rica! – dizíamos em uníssono.
Quase ninguém em Santa Helena comia melão. Éramos uns privilegiados.

 

A Santa Helena daquela época, localizada à margem direita do rio Turiaçu, era tranquila; sua gente, simples; suas paisagens, naturais e bonitas. Pelas ruas era comum vermos os velhos sentados num mocho, à porta de casa, consertando a tarrafa. Escutávamos familiarizados por volta do meio dia a famigerada buzina (feita em uma garrafa com o fundo vazado) que servia para avisar a população de que alguns pescadores tinham chegado da pesca e que havia peixe à venda.
As carroças circulavam sem parar de um lado para o outro fazendo mudanças, servindo de táxis, vendendo frutas e miúdos de animais. Os cachorros soltos nas ruas brincavam no meio da garotada, mas também nos assustavam quando saía a conversa de que tinha cachorro doido à solta. Cachorro doido, fui saber anos mais tarde que nada mais era que cachorro com raiva por falta de vacina… e eu morria de medo de cachorro doido!

As crianças corriam livremente, brincavam de pega-pega, esconde-esconde e empinavam pipas, que lá chamávamos, papagaio. Crianças inocentes que éramos, se bem que naquela época também fazíamos pequenas maldades, colocávamos arapucas e esperávamos que algum passarinho caísse na armadilha… Pensando bem, nem tão inocentes assim, naquele tempo também sabíamos ser cruéis.
As mulheres saíam de manhã cedinho para um dia de trabalho duro, voltavam à tardinha com um cofo na cabeça cheio de coco babaçu que elas passavam o dia inteiro quebrando. Vendiam o coco na quitanda da esquina e lá mesmo já compravam o querosene pra lamparina.

Apesar de toda a simplicidade, o lugar também tinha seu dia de glamour, o dia da Festa de Santa Helena, a santa padroeira que dá nome à cidade. Nesse dia a cidadezinha  inteira se vestia de gala, as mulheres com seus vestidos de cetim brilhoso e mangas bufantes, cada uma querendo se “amostrar” mais que a outra.
Nesse dia, chegava um parque de diversão à cidade, trazendo uma única roda gigante e algumas barquinhas de madeira. Sentávamos nessas barcas, segurávamos numa corda e puxávamos com muita força para fazê-las balançar de um lado para o outro. E elas balançavam – pra lá e pra cá – lá nas alturas.

A cidade inteira se levantava, as crianças se divertiam, as velhas vendiam doces e mingau de milho, a música tocava alto e contagiante, o povo dançava, ria, aproveitava. A festa acabava, a cidade dormia… e acordava outra vez na mesma monotonia.

Eu sinto uma saudade enorme dessa monotonia e naturalidade. Tempo bom esse, quando as pessoas saíam sem medo de voltar tarde da noite. Quando ficávamos sentados à porta de casa até altas horas contando as estrelas do céu. Quando o único medo que nós, crianças, tínhamos, era de amanhecer chovendo e não podermos ir às ruas brincar.

Ah, mas isso foi naquele tempo. Há muito, muito tempo.