Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

chinesas


Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Uma lenda chinesa…

“Jingwei aterra o mar”

JingweiO deus Sol tinha uma filha muito amada, Nüwa, tão linda que até mesmo o Imperador Amarelo era cheio de admiração por ela. Quando o deus Sol não estava em casa, Nüwa brincava sozinha. Porém, ela queria muito que o pai a levasse consigo em suas viagens para o mar do Leste, onde o sol nasce.
O deus Sol, entretanto, estava todos os dias muito ocupado dirigindo o curso da aurora, a cada manhã, até ele se pôr, à noite, e não podia levar a filha consigo.
Um dia, Nüwa remou secretamente atrás do pai, num barco, mas infelizmente uma tempestade se levantou e ondas do tamanho de montanhas viraram a pequena embarcação. Nüwa foi engolida pelo cruel mar, para nunca mais voltar.

Seu pai foi tomado de tristeza, incapaz de mandar que os raios de sol brilhassem sobre ela e a trouxessem de volta à vida, ele foi deixado sozinho para prantear a sua perda. Entretanto, Nüwa renasceu como um pássaro de cabeça listrada, garras vermelhas e bico branco. Foi-lhe dado o nome de Jing-Wei, por causa de seu choro lamentoso: jingwei, jingwei.

Jingwei não conseguiu perdoar a crueldade do mar por ter lhe arrebatado sua jovem vida e prometeu vingança. Ela aterraria o mar e o transformaria em terra seca. Jingwei começou a catar seixos com o bico, voando de um lado para o outro, entre sua casa na montanha de Fajiu e o mar do Leste. Incontáveis vezes ela fez a viagem, carregando   um seixo ou um graveto por vez, voejando sobre as ondas irregulares e chorando lamentosamente, então deixando cair o que fosse que houvesse trazido. O mar encapelava-se e ribombava derramando escárnio sobre os esforços de Jingwei.

 

Pequeno pássaro, desista! Mesmo se trabalhar por um milhão de anos você nunca vai me transformar numa planície deserta!
Mas Jingwei respondia, lá do alto do céu: Mesmo que eu leve dez milhões de anos ou cem milhões de anos, até o final do mundo, vou tratar de aterrá-lo e fazer de você terra seca!
Por que me odeia tanto?, perguntou o mar.
Porque você roubou minha jovem vida e vai fazer o mesmo com outros jovens inocentes. Vou continuar pelo tempo que for necessário, até terminar meu trabalho.

 

E lá se foi ela para o alto gritando jingwei, jingwei, e dirigiu-se à montanha Fajiu para buscar mais seixos e gravetos. Para lá e para cá ela voou incansável, derrubando mais e mais gravetos no mar. Meses e anos se passaram até que um dia uma andorinha-do-mar apareceu. Ela ficou estupefata com o que o outro pássaro estava fazendo. Mas quando ouviu a história de Jingwei, a andorinha-do-mar comoveu-se com sua persistência. Eles se casaram e chocaram uma bela ninhada de filhotes – os machos puxaram o pai andorinha-do-mar, enquanto as fêmeas puxaram à mãe, Jingwei, e juntaram-se a ela na interminável tarefa de buscar seixos e gravetos para aterrar o mar.

Os chineses respeitam enormemente Jingwei por seu altruísmo, sua determinação férrea e sua força de vontade. Tao Yuamming, poeta da dinastia Ming, celebrou em versos a brava luta daquele pequeno pássaro contra as ondas do oceano, e a história se tornou sinônimo de idealismo invencível e de empenho árduo. A admiração das pessoas simples por Jingwei pode ser vista em vários monumentos a ela dedicados, que levam inscrições como “Jingwei aterra o mar”, que ainda podem ser vistos em vários locais às margens da costa leste da China.

** História retirada de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, da escritora Xinran. Livro tristíssimo que me fez chorar um bocado.
Desejo que em 2018 tenhamos todos pelo menos um pouquinho da persistência e força de vontade de Jingwei. 🙂
 

Impressões de Leitura#12: Mudanças

“Um grande vilão tem sempre algo de heróico, e um grande herói tem sempre algo de vil.”

 

mudançaHá tempos eu tinha vontade de ler algo de Mo Yan, o escritor chinês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2012. Como para mim ele era um mero desconhecido, acabei por escolher um livro ao acaso.
Decidi-me por Mudança, que não foi o primeiro livro que ele escreveu mas que veio bem a calhar com o que eu estava buscando: conhecer mais a fundo o escritor assim como o país no qual ele vive. 🙂

Mudança é um livro bem fininho, entretanto, suas poucas páginas se encarregam de contar um pouco sobre a trajetória de Mo Yan e de como ele enveredou pelo caminho da literatura.
O autor se dispõe a relatar de forma relaxada e bem-humorada, baseada em memórias de sua vida privada, as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas.

Mo Yan vivia em um vilarejo, estudava em uma boa escola, uma das melhores da província de Shandong – e da qual foi expulso quando era apenas um estudante da quinta série. Trabalhou em uma fábrica de algodão e tempos depois entrou para o exército porque achava que apesar de difícil era muito mais fácil que ser admitido em uma universidade. Ele conta como foi colocar os pés na capital Pequim, mesmo naquela época a cidade não sendo nem um décimo do que é hoje, ainda assim já lhe parecia monstruosa e assustadora. Relata sua visita ao mausoléu do Presidente Mao e da emoção que sentiu na ocasião de seu falecimento, pois ele e grande parte dos chineses acreditavam que com sua morte seria o fim da China. Porém, alguns anos após esse acontecimento, era possível constatar que a China não apenas havia sobrevivido, mas melhorava e crescia dia após dia. Além disso, após o desaparecimento do Presidente Mao, proprietários de terra deixaram de ser estigmatizados, agricultores passaram a ter mais grãos em casa e até as universidades mudaram seu sistema educacional, passando a adotar o exame de admissão, facilitando assim a vida daqueles que desejavam estudar. Tudo o que o autor conta ilustra muito bem como as coisas mudaram na China e continuam mudando.

Eu, particularmente, acredito que este livro não mostra claramente como é de fato a literatura de Mo Yan, seria preciso ter contato com sua escrita ficcional também, mas reconheço que foi uma boa introdução, foi a porta de entrada para conhecer o caminho que ele trilhou até ser considerado e reconhecido como um escritor de sucesso. Ademais, pude perceber um pouquinho mais as peculiaridades da China – este país gigantesco, enigmático e tão cheio de nuances.

Sobre o autor:


Mo-Yan

Mo Yan nasceu na província de Shandong, China, em 1956. É autor de romances, novelas e contos. Ganhou vários prêmios literários nacionais e é o escritor chinês mais elogiado de sua geração. Mo Yan é seu pseudônimo, que significa “não fale”, um nome bastante curioso para alguém que se dedica a escrever e criar vozes para debater acerca de diversos assuntos.

Impressões de leitura#10: Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida…

“Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza.”

 

mensagem de uma maeLogo que terminei a leitura de Xu Xiaobin, A Serpente Emplumada, quis dar continuidade a minha empreitada de conhecer mais a fundo a literatura chinesa. Pesquisei sobre vários livros e decidi ler Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran. A história tocou-me bastante, provavelmente por trazer relatos reais de mulheres chinesas que devido aos percalços da vida precisaram abandonar suas filhas à própria sorte. Os depoimentos são tão reveladores que não tem como lê-los sem sentir um nó na garganta, sem imaginar como reagiríamos caso fosse conosco. Não tem como não nos colocarmos no lugar dessas mães e sofrermos com elas. Confesso que por vezes chorei… É triste, muito triste!

Xinran começa nos explicando o porquê de haver na China tantas meninas orfãs. Ela diz que isso acontece, “em primeiro lugar, porque é um costume arraigado na cultura do povo, pois desde os tempos antigos bebês do sexo feminino são considerados inferiores e abandonados em comunidades rurais do oriente; em segundo lugar, porque há uma combinação de ignorância e liberdade sexual; e por último, por causa da existência da política do filho único.”

Nas zonas rurais, onde os habitantes tiravam o sustento de métodos mais primitivos como a agricultura e a pesca, a preferência por crianças do sexo masculino era mais comum; por causa de sua força física e capacidade para trabalhos pesados elas eram mais desejadas. Além disso, a tradição que diz que apenas o filho homem tem o direito de herdar o nome do clã, que apenas ele pode dar continuidade a linhagem familiar e acender o incenso no altar dos ancestrais, fez com que algumas pessoas, sobretudo aquelas com pouca ou nenhuma instrução, começassem a abandonar ou asfixiar a criança logo após o nascimento, caso fosse menina.
Eu já tinha escutado falar sobre a desvalorização da criança do sexo feminino na China, mas a verdade é que nunca havia entrado em contato com histórias que me revelassem de fato como tudo acontece. Todas as vezes que tomei conhecimento de algum caso de abandono de menininhas, achava que os pais faziam isso por falta de compaixão, por falta de amor propriamente dito; hoje, após ler o livro de Xinran e conhecer as circunstâncias que levaram muitas mães ao ato de abandonar suas meninas, compreendi que elas agiram assim mais por falta de opção que por falta de amor.

Muitas mães, por conta do abandono de suas filhas, acabaram tristes, deprimidas, algumas enlouqueceram, outras, se suicidaram. Após ler todos esses relatos, o sentimento que restou é o de completa tristeza.
A autora de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida recebeu inúmeras cartas de meninas que foram adotadas por famílias estrangeiras; essas meninas têm suas vidas repletas de dúvidas, por isso muitas mães adotivas aproximaram-se da literatura de Xinran em busca de respostas para os questionamentos das filhas. Dentre todas as perguntas que foram feitas a Xinran, a mais recorrente foi: Por que minha mamãe chinesa não me quis? No livro, a autora tenta responder à pergunta e mostrar para essas meninas chinesas – que perderam suas mães biológicas – o quanto essas mães sofreram e o quanto elas as amavam.

No final, a autora ainda pergunta: com todas as dramáticas mudanças pelas quais a China passou, será que as mulheres que pela tradição foram forçadas a abandonar suas menininhas terão algum dia a chance de abraçá-las novamente?
Adoraria acreditar que sim!

 

“Uma mulher era como um seixo desgastado e arredondado pela água e pelo tempo. Nossa aparência externa é alterada pelo destino que nos cabe na vida, mas água alguma poderia alterar o coração da mulher chinesa e seus instintos maternos.”

 

Sobre a autora:

 


xinran

 

Xinran é uma jornalista e escritora chinesa. Nasceu em Beijing, em 1958. Em 2004 fundou uma ONG, The Mother’s Bridge of Love, que busca auxiliar órfãos chineses e estreitar a compreensão entre Ocidente e China.

Impressões de leitura#7: Neve, Orhan Pamuk

“(…) o mal do mundo – isto é,  a pobreza e a ignorância dos pobres e a esperteza e dissipação dos ricos – e toda a vulgaridade do mundo, toda a violência, toda a brutalidade – isto é, todas as coisas que nos enchem de culpa – decorrem do fato de todo mundo pensar igual.”

 

neveCaso eu fosse uma pessoa influenciável teria desistido de ler Neve, não teria nem começado, porque entre as muitas opiniões que andei lendo por aí a grande maioria taxava o livro de lento e enfadonho. Porém, como eu prefiro tirar minhas próprias conclusões a respeito dos livros que me interessam, não dei muita importância e comecei a leitura mesmo assim. E tive uma grande surpresa, pois percebi que Neve não só deixa de ser lento e enfadonho como é um livro informativo, instigante e agradável.
Eu gostei muito da história criada por Orhan Pamuk, gostei da temática da obra, da forma como o autor conduz a narrativa e dos muitos dados sobre a Turquia que fornece. O livro tem quase 500 páginas repletas de informações políticas, geográficas e, principalmente, relacionadas à religião. Além disso, é também bastante poético.

A trama, ambientada na Turquia, conta a história de Ka, um poeta e jornalista que regressa a Kars, seu povoado de origem, após muitos anos de exílio político na Alemanha. Mas a cidade que Ka encontra não é mais a mesma de outrora, o vilarejo está diferente, as pessoas mudaram, agora Kars é um lugar repleto de conflitos. Como se não bastasse, há também uma onda de suicídios de garotas adolescentes. O suicídio das meninas é um dos motivos pelos quais Ka decide voltar à cidade, pois precisa escrever um artigo sobre a morte delas… O que mais chama a atenção do protagonista é como essas meninas se matam: “Uma maneira abrupta, sem nenhum aviso prévio, no meio de seus afazeres diários.”
A parte mais interessante da história é quando Pamuk – para explicar as razões que levam as adolescentes a atentar contra a própria vida, adentra o tema da religião, mostrando os conflitos existentes no país: o dilema da Turquia contemporânea; a rinha entre fanáticos religiosos e ateus; a hostilidade existente entre os seguidores do islã e os defensores do Estado.
“O Estado, que proibiu que mulheres entrassem nas salas de aula com a cabeça coberta, afirma que o manto é um símbolo do islã político, que impede que as mulheres gozem dos mesmos direitos dos homens. O islã, que defende o manto, assegura que seu uso é uma forma de protegê-las e valorizá-las.”

O pano de fundo é justamente essa discussão acalorada acerca da necessidade de usar ou não usar o manto, de cobrir ou não cobrir a cabeça. É um tema bem explorado durante toda a narrativa, um assunto bastante controverso, “pois muitas mulheres são a favor de abandonar o manto, porque o consideram uma forma de repreensão religiosa. Outras, no entanto, o defendem, pois acreditam que seu uso é uma forma de proteção contra assédio, estupro e a degradação da mulher. Inclusive há aquelas que acreditam que o manto traz respeito, dignidade e um lugar mais satisfatório na sociedade.”

Ka, apesar de possuir um certo interesse pela religião, não tem muito claro se é ateu ou se tem fé em algo. Algumas vezes sente-se culpado por ter se recusado durante praticamente toda a vida a acreditar no mesmo Deus daquelas pessoas que ele considera não instruídas. Ele mostra-se visivelmente confuso, por isso sua visita a Kars vai servir também como uma forma de aproximação com Deus, um reencontro consigo mesmo, uma nova oportunidade de reavaliar sua fé, de decidir de que lado está realmente.

 

“Não conseguia ver como poderia conciliar essa minha nova identidade europeia com um Deus que exigia que as mulheres se cobrissem com mantos, então tratei de excluir a religião de minha vida. (…) Eu quero um Deus que não me peça para tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para beijar as mãos das pessoas. Eu quero um Deus que entenda a minha necessidade de solidão.”

 

Mas, e as meninas suicidas, por que elas se matam? O suicídio delas tem algo a ver com a proibição de usar o manto? O que elas pretendem com isso, defender o islã ou apenas protestar contra o Estado?
São muitas as perguntas colocadas por Pamuk e, no meio de todo esse turbilhão de contestações, informações e conflitos, o livro ainda se encarrega de relatar uma história de amor: a história de Ka e Ipek.
Ipek foi uma antiga companheira de escola de Ka, revê-la foi outra das razões que fez ele regressar a Kars. A história do casal é bonita, sensual e cheia de encontros e desencontros.

A narrativa é bastante bonita, quando o narrador fala sobre a neve, sobre a claridade da neve e sobre os poemas que Ka escreve inspirado pela neve é bastante comovente, profundo e poético. A brancura da neve é sugestiva, inspiradora e se encarrega de trazer à tona o lado mais lírico do poeta e protagonista Ka.

Neve é um suspense político bem narrado e com informações muito bem amarradas. Recomendo!

 

Sobre o autor:

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Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2006.

Impressões de leitura#6: A serpente emplumada

“Às vezes, as flores colocadas para secar ao sol têm melhor aroma que as flores frescas”.

 

a-serpente-emplumada-1418714388.184x273Meu primeiro contato com a literatura chinesa foi em 2012, quando o Prêmio Nobel de Literatura saiu para Mo Yan, um escritor chinês. Até então eu nunca tinha escutado falar nada sobre esse escritor, por isso me senti um pouco desatualizada; na verdade, desatualizada não por desconhecer o ganhador de tal prêmio, mas por não conhecer absolutamente nada da literatura chinesa. Mesmo já morando na China há quase um ano, se alguém me perguntasse o nome de algum escritor daqui eu não seria capaz de citar um sequer.
No intuito de mudar esse quadro, fui pesquisar mais acerca de Mo Yan, mas acabei mesmo foi lembrando que há muito tempo comprei um livro de uma escritora com um nome que soava meio oriental. Sai remexendo tudo por aqui à procura do tal livro e me deparei com A serpente emplumada, de Xu Xiaobin.

Fiquei surpreendida não apenas pela autora ser de fato chinesa, mas por ter comprado o livro em uma época em que nem imaginava que viria morar na China. Conclusão, deixei o ganhador do Nobel de lado (por um tempo) e decidi começar o meu caminho pela literatura chinesa através da escrita de Xu Xiaobin.
Lendo alguns comentários na orelha da capa, descobri que A serpente emplumada foi comparada ao livro Cem anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Não vou negar que esse pequeno detalhe me impulsionou a lê-lo imediatamente, pois Cem Anos de Solidão é um dos meus livros preferidos da vida. Gosto tanto dessa obra que mesmo muitos anos após a leitura ainda guardo na memória detalhes da triste história dos Buendía e da fictícia Macondo.

O certo é que fiquei muito curiosa para saber se o livro da escritora chinesa era tão parecido assim com o do colombiano, mas resulta que ao encerrar a leitura cheguei à conclusão de que além do fato de se tratar de uma épica história familiar e contar a saga de cinco gerações de mulheres no decorrer de cem anos, outras semelhanças não há. Independente disso, posso dizer que a Serpente emplumada me conquistou. O livro de Xu Xiaobin é bom o suficiente para agradar e chamar a atenção do leitor sem precisar, necessariamente, ter semelhanças com outras obras literárias conhecidas.

A autora desenvolveu muito bem o enredo, criou personagens fortes e marcantes, o que faz com que seu livro por si só se sustente. Eu gostei, me emocionei no decorrer da leitura e recomendo a todos que, como eu, gostam de histórias nas quais se descrevem sentimentos profundos e intensos.

Sinopse:

“Yu She é a protagonista. Sua experiência se tece através das vidas de sua avó, sua mãe, suas irmãs e uma sobrinha. Várias gerações de mulheres com personalidades e temperamentos muito distintos cujas vidas sofrem grandes mudanças através do tempo: desde a década de 1890, durante a última etapa da Dinastia Qing, até a década de 1990. Yu She ama seus pais, mas desde muito menina se dá conta de que seus pais não a amam. Depois de cometer dois pecados imperdoáveis, é enviada a viver em outra cidade onde logo será abandonada. Desde então sua vida se transformará em uma viagem em busca do amor. É uma menina frágil e delicada, mas ao mesmo tempo dotada de uma grande resistência. É uma menina solitária, mas sabe se defender de forma firme e desenvolta.
Quando chega a década de 1980, Yu She se envolve em uma confusão política, e se encontrará mais perto do amor que nunca. Sua última oportunidade de conseguir o que deseja se apresentará, mas em troca disso ela deverá pagar um preço muito alto. Nesta história misteriosa, Xu Xiaobin nos mostra os contrastes da vida, onde as diferenças são foscas, as recordações do passado e do presente se misturam e os desejos e a realidade se fundem sem uma linha clara de separação. É uma história maravilhosa, como um rolo de pintura chinesa, em que se plasmam imagem em relevo da História. É rica, penetrante, profunda e, sobretudo, bonita.”

 

Sobre a autora:


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Xu Xiaobin nasceu em 1953, em Pequim. Passou nove anos entre o campo e uma fábrica durante a Revolução Cultural, até que em 1978 ingressou na Universidade Central de Ciências Econômicas. Seus primeiros livros apareceram em 1981 e, desde então, publicou muitas obras de ficção.

Maratona das Águas#1: Qibao

 

Perto de Xangai há pequenas cidades construídas entre rios e canais, cidades essas que são conhecidas como ‘Veneza do Oriente’. Logo que cheguei aqui fiquei bastante animada pra começar a visitar essas cidadezinhas. Como a distância não é tão longa, posso fazer essas pequenas viagens de carro mesmo, saindo de manhã e voltando à noite.
Comecei minha Maratona das águas pelo vilarejo que fica mais perto de Xangai: Qibao, localizado no distrito de Minhang, a aproximadamente 20km do centro da cidade. Pode-se fazer o percurso até lá de metrô (linha 9) ou de táxi.
É um lugar com várias ruelas cheias de barracas que vendem comidas típicas, templos, museus e jardins. O vilarejo foi construído no período das cinco dinastias, há quase mil anos, mas floresceu mesmo durante as dinastias Ming e Qing.

A parte velha é bem pequenina, ocupa aproximadamente 2km quadrados. É cortada pelo rio Puhui e decorada por duas simpáticas pontes. Em Qibao também tem lojinhas que vendem antiguidades, obras de caligrafia chinesa, roupas e uma infinidade de bugigangas.

O que achei mais interessante em Qibao foi perceber que o lugar ainda guarda um pouquinho do charme e encanto das antigas e tradicionais cidades chinesas.

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Pagoda em Qibao

Procurando e lendo informações sobre esses vilarejos na internet, vi dicas de pessoas que aconselham procurar um hotel pra ficar pelo menos uma noite, pois assim pode-se acordar bem cedo no dia seguinte para andar e fotografar a cidade vazia, sem aquela multidão tão comum dos lugares turísticos na China. Pode ser que em outras “cidades das águas” – aquelas que ficam mais distantes de Xangai, como Suzhou e Hangzhou por exemplo, seja interessante pernoitar, mas em Qibao não vi necessidade alguma de ficar pra dormir, porque além de pertinho do centro a cidade é bem pequenina.

Além de caminhar e fotografar a cidadezinha há outras atividades interessantes que podemos fazer por lá: visitar o Museu do Comércio, a Casa Cricket, onde há milhares de grilos em gaiolas que os chineses costumam usar como animal de estimação e amuleto de sorte (nao me perguntem como eles conseguem isso, porque o ruído que esses bichinhos fazem é extremamente irritante), o Moinho de Algodão e o Museu das Marionetes.
Provar a culinária chinesa em algum dos muitos restaurantes é também uma boa ideia. E pra quem curte comer a tradicional comida de rua, opções não faltarão.
Enfim, pode-se passar umas horas bem agradáveis em Qibao. 
Eu gostei e recomendo fazer um passeio por lá.

O holocausto tão pouco conhecido

“Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como eu tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” (Bertolt Brecht)

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Quem aí aprendeu na escola algo relacionado ao Massacre de Nanquim? Eu, pelo menos até vir morar na China, não tinha escutado nada sobre isso. Adquiri conhecimento sobre essa parte horripilante da História por meio de livros de alguns escritores chineses que li.
Sempre tive interesse em ler livros que me levassem a aprender algo mais sobre o mundo. Confesso, no entanto, que saindo da ficção e passando para algo mais verídico alguns fatos me causam muita impressão.
Já tinha tido uma experiência bastante perturbadora anos atrás quando visitei um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial: Buchenwald, na Alemanha. Lembro-me bem que quando saí de lá jurei para mim mesma que nunca mais voltaria a colocar os pés em um lugar assim, porque a sensação que tive foi completamente angustiante, triste e, acima de tudo, vergonhosa.
Os anos passaram e eu decidi visitar outra vez um lugar bastante parecido com Buchenwald: o Museu do Massacre de Nanquim. Apesar da atmosfera no Museu do Massacre ser menos lúgubre que no campo de concentração alemão, a sensação não deixou de ser, também, angustiante.

O Massacre de Nanquim foi um episódio negro da História da China e que, infelizmente, até hoje é pouco conhecido. No dia 13 de dezembro de 1937 tropas do Império Japonês atacaram e dominaram a cidade de Nanquim, naquela época a capital da China. Os japoneses permaneceram na cidade durante seis semanas e, durante todo esse tempo, praticaram as piores atrocidades.
Cometeram assassinatos em massa com requinte de crueldade, estupros coletivos de mulheres jovens, idosas e até crianças, além de saques, roubos e todo tipo de desumanidade. A cidade ficou completamente destruída, as ruas cheias de corpos, um inferno! Foram mortas milhares de pessoas inocentes, completamente desarmadas, rendidas, sem a menor chance de defesa. Os japoneses pintaram e bordaram em Nanquim durante essas seis semanas.
O número de mortos não se pode afirmar com precisão, mas o Museu do Massacre nos informa que essa quantidade é de aproximadamente 300000 vítimas.

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Eu já planejava uma visita a esse museu há bastante tempo, queria ver as fotografias e os vídeos disponíveis (sim, há vídeos, apesar disso alguns japoneses ainda insistem em dizer que o massacre não ocorreu de fato), assim como os relatos de sobreviventes chineses e estrangeiros que viveram em Nanquim durante a guerra.
Claro que isso tudo pode ser feito por meio do computador, hoje a internet está cheia de fotos e documentários que mostram bem como foi o massacre. Mas eu queria ir lá, sentir pelo menos um pouquinho do desconforto que coisas desse tipo podem causar, porque acredito que esse desconforto é necessário. É preciso de vez em quando um choque de realidade para aprendermos a valorizar o sofrimento alheio.

Dentro daquele lugar me senti desassossegada e envergonhada. Senti uma melancolia quase inexplicável… Dentro daquele lugar me senti pequenina e completamente inútil.
Espero, sinceramente, que os erros do passado não sejam esquecidos, que fiquem na nossa memória para sempre… Que olhando para esses erros tenhamos ainda mais certeza dos atos que nao devem ser repetidos jamais. Que essa brutalidade do passado nos ensine a respeitar a dor alheia e, sobretudo, nos ensine a construir um futuro melhor, livre de qualquer tipo de sofrimento e desumanidade. 😥

Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o Massacre de Nanquim, indico dois filmes:

Flores do Oriente

City of Life and Death

Além desses dois filmes a internet oferece ainda vários documentários sobre Nanquim, inclusive sobre uma personagem muito importante, John Rabe, um empresário alemão que morou na cidade à época do holocausto e que muito fez pelo povo chinês. Interessante a história dele, vale a pena conhecer.

Um livro e uma rosa pra você!

Parabéns a São Jorge, o destemido cavaleiro que matou o dragão e salvou a princesa!

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Feliç Diada de Sant Jordi

Uma das coisas que eu mais me lembro e tenho saudade do tempo que morei em Barcelona é do dia de Sant Jordi (São Jorge). Quando cheguei por lá, em meados de 1996, não tinha muita ideia sobre esse feriado e as suas diferentes formas de comemoração. Embora eu já tivesse uma relação muito próxima com os livros, antes dessa época eu não sabia que havia um dia comemorativo oficial, por isso foi uma surpresa o modo tão lindo e original como os catalães celebram essa data. 
Na Catalunha, principalmente em Barcelona, homens presenteiam as mulheres com uma rosa e mulheres presenteiam os homens com um livro. A cidade fica bem mais alegre e movimentada, com pequenos quiosques que vendem livros e flores espalhados pelas ruas.

Não se sabe exatamente quando começaram a oferecer rosas às mulheres no dia de São Jorge, mas dizem que esse costume está relacionado com uma lenda muito antiga. Conta a lenda que havia um dragão feroz aterrorizando um vilarejo ao Sul da Catalunha. Para evitar que essa fera atacasse a cidade, cada dia lhe era oferecido uma jovem donzela, escolhida mediante um sorteio. Um dia, a princesa do reino foi a sorteada e precisou ser entregue ao dragão. Quando estava quase a ser devorada, apareceu São Jorge – um valente cavaleiro – que lutou contra o dragão matando-o com sua espada certeira, salvando, dessa forma, a vida da princesa. Do sangue do dragão nasceu uma rosa vermelha. São Jorge, que além de cavaleiro era também cavalheiro (rsr), presenteou a princesa com a rosa.

Já o ato de oferecer livros começou tempos depois, embora algumas pessoas também associem essa parte da tradição à lenda dizendo que foi porque a princesa escreveu um poema de amor ao cavaleiro valente, sabe-se que o dia do livro começou a ser festejado apenas a partir do dia 7 de outubro de 1926 em homenagem ao nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes. No entanto, em 1930 trocaram a data para 23 de abril, dia da morte de Miguel de Cervantes e também de Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega. Creio que essa é na verdade a explicação mais acertada para essa comemoração.
Devido à tradição tão bonita que ocorre na Catalunha a Unesco declarou em 1996 o dia de São Jorge como o Dia Internacional do Livro e também do Direito de Autor.

Parti de Barcelona em meados do ano 2000, mas nunca esqueci e nem deixei de celebrar o dia de São Jorge da forma como o povo da Catalunha celebra. Mesmo quando não encontro ninguém que possa me presentear com um livro ou uma rosa, eu mesma me faço esse mimo.

Meu mimo deste ano:

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Paulina Chiziane, escritora moçambicana

E, como dizem os catalães: Feliç Diada de Sant Jordi a todos vocês!

Declarando meu amor por Buenos Aires

“A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y el aire.” (Jorge Luis Borges)

Gosto muito de ler blogues de viagem. Gosto mesmo! Embora o objetivo do meu nunca tenha sido fornecer dicas para este ou aquele viajante, de vez em quando eu também acabo meio que entrando nessa onda e menciono alguns lugares que visitei por aí. Dando uma relida nos meus textos antigos, chamou muito a minha atenção o fato de nunca ter falado nada acerca de Buenos Aires, cidade na qual vivi de julho de 2007 a julho de 2011. Só agora, mais de quatro anos após minha partida, posso falar com o coração mais sossegado sobre o tempo tão especial que vivi por lá.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma grande dificuldade em escrever sobre coisas que me marcaram, coisas pelas quais guardo qualquer tipo de sentimento; acho difícil porque quase nunca encontro as palavras certas, não consigo disfarçar a emoção – o que para muitos pode soar como afetação.

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Mi Buenos Aires Querido!
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La Boca

A minha relação com Buenos Aires foi muito estranha, uma relação de amor e ódio. Quando eu soube que me mudaria pra lá e que ficaria por quatro anos a primeira reação foi de irritação. Eu não queria, não tinha a mínima vontade. Sentia uma antipatia pela cidade a ponto de não fazer questão sequer em conhecê-la. Não me perguntem a razão porque não faço a mínima ideia. Às vezes penso que isso podia estar relacionado com a rixa existente no futebol entre Brasil e Argentina. Aí penso melhor e me dou conta que eu nunca fui uma pessoa tão ligada assim a futebol, desse modo, essa não seria uma razão plausível. Outras vezes penso que eu era como aquelas crianças birrentas que nunca provaram certo tipo de comida mas dizem taxativamente que não gostam e pronto… Ah, sei lá, deve ter sido algo do tipo.
Meu desejo era morar em um lugar bem diferente, algum país na África, talvez Austrália ou quem sabe até Inglaterra. Mas me ofereceram Buenos Aires, era pegar ou largar. Peguei.

Não foi difícil a adaptação apesar de achar os argentinos meio fechados (não levem isso tão a sério, talvez a fechada seja mesmo eu… rsr), mas no fim das contas fiz amizades que duram até hoje.
A língua eu já conhecia, então, um problema a menos. O inverno, um tanto rigoroso se comparado ao inverno brasileiro, nem chega perto do inverno alemão (que eu também já conhecia) então, outro problema a menos.

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El Obelisco
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Cemitério de La Recoleta
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Puente de la Mujer

Houve momentos ruins? Claro que sim! Mas o que quero evidenciar aqui são os momentos bons, que foram muito melhores.

Na Argentina comi o verdadeiro alfajor, o típico asado e as deliciosas medialunas. Bebi o tal mate, que para meu paladar é amargo pra caramba, mas dizem que ajuda a emagrecer, gente! Encantei-me com a literatura de Borges e Cortázar. Sonhei acordada com a poesia de Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik. Fui várias vezes a shows de música no Gran Rex e Luna Park. Escutei Gardel vezes sem conta, tanto que aprendi de memória o tango “Por una cabeza”.
Fui ao Show do Spinneta (ainda bem, pois um ano depois ele se foi) e Fito Páez. Encantei-me com os olhos verdes de Ricardo Darín e sua atuação perfeita.
Vivia metida nas livrarias Yenny, Boutique del Libro e El Ateneo, principalmente naquela lindíssima que fica na Av. Santa Fé. Fui assistir a uma apresentação de balé no Teatro Colón, o teatro mais lindo que meus olhos já viram. Tomei meu chazinho no Café Tortoni e tirei fotos com as estátuas dos literatos que lá habitam. Apesar de clichê, eu adorava passear em La Boca – um bairro pitoresco, alegre e colorido – e de quebra ainda fiz aquelas fotos ridículas com os dançarinos de tango que se apresentam na rua (Sim, me julguem…rsr).

Vezes sem conta fiquei sentada no gramado em frente ao Rio de la Plata apenas para admirar a natureza e sentir a brisa no rosto. Encantei-me com as luzes da Avenida 9 de Julio e sempre me fascinava com o imponente Obelisco, monumento que tem a cara da capital porteña. Mesmo tendo medo dos mortos, fui mais de cinco vezes ao Cementerio de la Recoleta, e quando saía de lá sentava-me em algum café para admirar o vai e vem das pessoas do bairro – um lugar tão lindinho e que respira arte.

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Floralis Generica
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Puerto Madero
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Casa Rosada

Perdi-me tantas vezes nas calles antigas de San Telmo, fiquei por horas procurando algum objeto interessante para comprar na feirinha de pulgas. Fui vezes sem conta a Plaza de Mayo e todas as vezes tirei fotos na Casa Rosada, como qualquer turista que se preza, né?!

E Puerto Madero, então? Ah, lugar bonito e moderno, cheio de vida e decorado pela Puente de la Mujer, que com sua arquitetura simples, porém charmosa, encanta quem a visita. Sobre a Calle Florida, falar o quê? Que tem a cara de qualquer turista brasileiro que acha que Buenos Aires é lugar para fazer compras baratas… Ledo engano, minha gente, pois eu estive por lá e nunca comprei nada, só queria mesmo caminhar e tomar um capuccino delicioso nas Galerías Pacífico.

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Jardim Japonês
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Museu de Arte Latino Americano
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El Ateneo, livraria linda

Na hora de bater perna fui inúmeras vezes ao Parque de Palermo, entrei no Zoológico, no Jardín Botánico e no Planetário. Fui ao Jardín Japonés, ao Rosedal e à Floralis Genérica, aquela famosa flor de metal que abre de manhã e fecha à noite. Fiz várias vezes o passeio no Tren de la Costa e também o passeio de barco pelo Rio Tigre… Marquei ponto no Malba (Museu de Arte Latinoamericano) -, que naquela época tinha uma programação literária incrível. Até hoje o museu ainda oferece excelentes atividades literárias, confira o calendário dessas atividades aqui.

Algum arrependimento? Sim, de durante esses quatro anos não ter aproveitado para aprender a bailar un tango caliente.


Às vezes ainda encontro pessoas que me perguntam: então, o que você achou de Buenos Aires? Conseguiu finalmente se acostumar? Voltaria a morar lá de novo?

Acho que nem preciso responder, né?