Impressões de Leitura#12: Mudanças

“Um grande vilão tem sempre algo de heróico, e um grande herói tem sempre algo de vil.”

 

mudançaHá tempos eu tinha vontade de ler algo de Mo Yan, o escritor chinês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2012. Como para mim ele era um mero desconhecido, acabei por escolher um livro ao acaso.
Decidi-me por Mudança, que não foi o primeiro livro que ele escreveu mas que veio bem a calhar com o que eu estava buscando: conhecer mais a fundo o escritor assim como o país no qual ele vive. 🙂

Mudança é um livro bem fininho, entretanto, suas poucas páginas se encarregam de contar um pouco sobre a trajetória de Mo Yan e de como ele enveredou pelo caminho da literatura.
O autor se dispõe a relatar de forma relaxada e bem-humorada, baseada em memórias de sua vida privada, as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas.

Mo Yan vivia em um vilarejo, estudava em uma boa escola, uma das melhores da província de Shandong – e da qual foi expulso quando era apenas um estudante da quinta série. Trabalhou em uma fábrica de algodão e tempos depois entrou para o exército porque achava que apesar de difícil era muito mais fácil que ser admitido em uma universidade. Ele conta como foi colocar os pés na capital Pequim, mesmo naquela época a cidade não sendo nem um décimo do que é hoje, ainda assim já lhe parecia monstruosa e assustadora. Relata sua visita ao mausoléu do Presidente Mao e da emoção que sentiu na ocasião de seu falecimento, pois ele e grande parte dos chineses acreditavam que com sua morte seria o fim da China. Porém, alguns anos após esse acontecimento, era possível constatar que a China não apenas havia sobrevivido, mas melhorava e crescia dia após dia. Além disso, após o desaparecimento do Presidente Mao, proprietários de terra deixaram de ser estigmatizados, agricultores passaram a ter mais grãos em casa e até as universidades mudaram seu sistema educacional, passando a adotar o exame de admissão, facilitando assim a vida daqueles que desejavam estudar. Tudo o que o autor conta ilustra muito bem como as coisas mudaram na China e continuam mudando.

Eu, particularmente, acredito que este livro não mostra claramente como é de fato a literatura de Mo Yan, seria preciso ter contato com sua escrita ficcional também, mas reconheço que foi uma boa introdução, foi a porta de entrada para conhecer o caminho que ele trilhou até ser considerado e reconhecido como um escritor de sucesso. Ademais, pude perceber um pouquinho mais as peculiaridades da China – este país gigantesco, enigmático e tão cheio de nuances.

Sobre o autor:


Mo-Yan

Mo Yan nasceu na província de Shandong, China, em 1956. É autor de romances, novelas e contos. Ganhou vários prêmios literários nacionais e é o escritor chinês mais elogiado de sua geração. Mo Yan é seu pseudônimo, que significa “não fale”, um nome bastante curioso para alguém que se dedica a escrever e criar vozes para debater acerca de diversos assuntos.

Impressões de leitura#11: Fama

“Uma novela em nove histórias”

 

famaEu adoro descobrir novos nomes da literatura. Gosto de pegar dicas com amigos, ler indicações e resenhas em revistas literárias e, sempre que possível, leio livros de escritores completamente desconhecidos.
A verdade é que não costumo limitar minhas leituras a um gênero ou autor específico, claro que tenho meus escritores preferidos, mas sou também muito curiosa e aberta a novas leituras. Por conta dessa minha curiosidade, já conheci escritores sensacionais.
O escolhido da vez é Daniel Kehlmann, um escritor alemão muito talentoso que me conquistou desde o primeiro momento que entrei em contato com seus escritos. Talvez para muita gente Kehlmann não seja mais novidade nenhuma, mas pra mim, que nunca tinha escutado falar nada sobre ele, foi um achado surpreendente.
Conheci esse escritor fuçando informações em uma rede social sobre literatura, acabei chegando em seu livro Fama (Ruhm, no original) e fiquei encantada com seu estilo de escrever.

Fama é composto de nove relatos. No primeiro, o leitor entra em contato com uma personagem que decide por primeira vez adquirir um telefone celular; assim que começa a utilizá-lo começa também a receber ligações que seriam para outra pessoa: uma celebridade, um astro de cinema muito solicitado por mulheres e com uma vida bastante interessante. Essa primeira personagem passa, então, a adotar a identidade dessa celebridade.
Mais adiante o leitor conhece outra personagem, um ator muito famoso que de uma hora para outra deixa de receber ligações, deixa de ser solicitado para trabalhos e também por mulheres. Por causa disso, ele começa a duvidar do seu talento e da importância de sua carreira.

À medida que avançamos vão sendo-nos apresentadas outras personagens: um escritor brasileiro que escreve livros de auto-ajuda, vive em um enorme e luxuoso apartamento no Rio de Janeiro, sofre de depressão e encontra no suicídio a solução para seus problemas; uma mulher de quase 70 anos que ao descobrir que tem câncer decide viajar para a Suíça e se internar em uma clínica que pratica a eutanásia; uma escritora de novelas policiais que se perde na Ásia, fica com o celular descarregado sem poder entrar em contato com ninguém para pedir ajuda; um blogueiro que sonha em ser protagonista de uma novela e, por último,  um diretor de uma grande companhia telefônica que leva uma vida dupla e se entrega a autodestruição.
Com muita ironia, Kehlmann toma a história de cada uma dessas personagens e vai montando sua trama. Ele constrói uma espécie de novela em que os nove episódios se entrelaçam, mas sem criar um protagonista.

 

“Uma novela sem personagem principal! Compreendes? A composição, as conexões, o arco narrativo, mas sem nenhum protagonista, nenhum herói que recorra todo o livro”.

 

Na verdade, todas as personagens – de uma forma ou de outra -, acabam tendo algum tipo de relação entre si. Histórias que se entrelaçam, personagens que se misturam, se relacionam, que desaparecem de um relato para reaparecer em outro, mais adiante. Kehlmann monta um enredo que tem como pano de fundo a sociedade atual, a tecnologia, o mundo virtual e a globalização. Ele fala de situações e objetos da vida moderna, como por exemplo, aparelhos celulares, computadores, baterias descarregadas, telefonemas equivocados, linhas cruzadas, encontros inusitados etc. Retrata situações em que celulares e computadores, objetos tão comuns e práticos nos dias atuais, que servem (ou pelo menos deveriam servir) para facilitar a vida, podem ser capazes de gerar problemas e mal-entendidos gravíssimos.
Fama trabalha temas como suicídio, desaparecimento, traição, eutanásia, verdades, enganos e a perda da identidade.

O livro tem uma narrativa muito agradável e flui maravilhosamente bem, é uma excelente mistura de ficção e realidade. Um livro com poucas páginas mas com a incrível capacidade de prender o leitor do princípio ao fim. Eu gostei tanto que fui atrás de saber mais sobre o autor. As informações que encontrei por aí dizem que Fama, entre os livros de Kehlmann, é um dos mais fracos. Então fiquei aqui pensando, se este que não é considerado assim tão bom me agradou, já posso imaginar a delícia que será ler aquele que a crítica especializada considera o melhor. Até já coloquei aqui na minha lista outros títulos desse escritor.

 

Sobre o autor:
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Daniel Kehlmann nasceu em Munich, em 1975. Reside atualmente em Viena e Berlim. Sua obra recebeu vários prestigiosos prêmios, como o Prêmio de Literatura da Fundação Konrad Adenauer, o Prêmio Kleist e o Prêmio Thomas Mann. Sua novela “A medida do mundo”, traduzida para mais de quarenta línguas, é um dos maiores êxitos da recente literatura alemã. Entre outros títulos cabe destacar também “Eu e Kaminski.”
Vale a pena ler. Kehlmann é ótimo!

Impressões de leitura#10: Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida…

“Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza.”

 

mensagem de uma maeLogo que terminei a leitura de Xu Xiaobin, A Serpente Emplumada, quis dar continuidade a minha empreitada de conhecer mais a fundo a literatura chinesa. Pesquisei sobre vários livros e decidi ler Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran. A história tocou-me bastante, provavelmente por trazer relatos reais de mulheres chinesas que devido aos percalços da vida precisaram abandonar suas filhas à própria sorte. Os depoimentos são tão reveladores que não tem como lê-los sem sentir um nó na garganta, sem imaginar como reagiríamos caso fosse conosco. Não tem como não nos colocarmos no lugar dessas mães e sofrermos com elas. Confesso que por vezes chorei… É triste, muito triste!

Xinran começa nos explicando o porquê de haver na China tantas meninas orfãs. Ela diz que isso acontece, “em primeiro lugar, porque é um costume arraigado na cultura do povo, pois desde os tempos antigos bebês do sexo feminino são considerados inferiores e abandonados em comunidades rurais do oriente; em segundo lugar, porque há uma combinação de ignorância e liberdade sexual; e por último, por causa da existência da política do filho único.”

Nas zonas rurais, onde os habitantes tiravam o sustento de métodos mais primitivos como a agricultura e a pesca, a preferência por crianças do sexo masculino era mais comum; por causa de sua força física e capacidade para trabalhos pesados elas eram mais desejadas. Além disso, a tradição que diz que apenas o filho homem tem o direito de herdar o nome do clã, que apenas ele pode dar continuidade a linhagem familiar e acender o incenso no altar dos ancestrais, fez com que algumas pessoas, sobretudo aquelas com pouca ou nenhuma instrução, começassem a abandonar ou asfixiar a criança logo após o nascimento, caso fosse menina.
Eu já tinha escutado falar sobre a desvalorização da criança do sexo feminino na China, mas a verdade é que nunca havia entrado em contato com histórias que me revelassem de fato como tudo acontece. Todas as vezes que tomei conhecimento de algum caso de abandono de menininhas, achava que os pais faziam isso por falta de compaixão, por falta de amor propriamente dito; hoje, após ler o livro de Xinran e conhecer as circunstâncias que levaram muitas mães ao ato de abandonar suas meninas, compreendi que elas agiram assim mais por falta de opção que por falta de amor.

Muitas mães, por conta do abandono de suas filhas, acabaram tristes, deprimidas, algumas enlouqueceram, outras, se suicidaram. Após ler todos esses relatos, o sentimento que restou é o de completa tristeza.
A autora de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida recebeu inúmeras cartas de meninas que foram adotadas por famílias estrangeiras; essas meninas têm suas vidas repletas de dúvidas, por isso muitas mães adotivas aproximaram-se da literatura de Xinran em busca de respostas para os questionamentos das filhas. Dentre todas as perguntas que foram feitas a Xinran, a mais recorrente foi: Por que minha mamãe chinesa não me quis? No livro, a autora tenta responder à pergunta e mostrar para essas meninas chinesas – que perderam suas mães biológicas – o quanto essas mães sofreram e o quanto elas as amavam.

No final, a autora ainda pergunta: com todas as dramáticas mudanças pelas quais a China passou, será que as mulheres que pela tradição foram forçadas a abandonar suas menininhas terão algum dia a chance de abraçá-las novamente?
Adoraria acreditar que sim!

 

“Uma mulher era como um seixo desgastado e arredondado pela água e pelo tempo. Nossa aparência externa é alterada pelo destino que nos cabe na vida, mas água alguma poderia alterar o coração da mulher chinesa e seus instintos maternos.”

 

Sobre a autora:

 


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Xinran é uma jornalista e escritora chinesa. Nasceu em Beijing, em 1958. Em 2004 fundou uma ONG, The Mother’s Bridge of Love, que busca auxiliar órfãos chineses e estreitar a compreensão entre Ocidente e China.

Impressão de leitura#9: A sul da fronteira, a oeste do Sol.

 

murakami1Este foi o terceiro livro de Haruki Murakami que li. O primeiro foi Minha Querida Sputnik, logo depois li também Norwegian Wood, ambos muito bons diga-se de passagem. Entrei em contato com os livros de Murakami em 2009, desde então não deixei de admirar cada vez mais este escritor japonês.
Assim como Norwegian Wood,  A sul da fronteira tem também como título o nome de uma famosa canção:
South of the Border, de Nat King Cole.
O enredo, apesar de simples, consegue ser bastante instigante, além disso não é nada previsível.
Murakami retrata o Japão da primeira metade do século XX, conta a história de Hajime, um menino de 12 anos que ainda criança se encanta com a graça de Shimamoto, uma menina da mesma idade. Entre eles nasce uma amizade sincera, e à medida que percebem as inúmeras coisas que têm em comum, a amizade fica ainda mais forte. Separam-se na juventude e por muitos anos não voltam a saber nada mais um do outro.

Hajime segue sua vida e começa a fazer suas descobertas: namora uma menina aqui, outra ali, magoa mais uma acolá e assim segue… Tempos depois, já dono de um conhecido clube de jazz, casado e pai de duas filhas, reencontra Shimamoto e atração renasce.
Completamente encantado com a reaparição dessa mulher – agora madura e misteriosa – seus desejos, outrora reprimidos, desabrocham com maior intensidade. Embora contente de reencontrar Shimamoto, Hajime fica indeciso entre a vida tranquila com a família e a possibilidade de recuperar os sentimentos que acreditava perdidos.

No decorrer da narrativa, o autor mostra as transformações pelas quais o protagonista passa, desde sua infância/adolescência até chegar à idade adulta, e o leitor torna-se cúmplice de suas dúvidas, de sua melancolia, de sua nostalgia e compartilha suas afeições, culpas e remorsos.
É uma história sobre a adolescência e suas descobertas, sobre perdas e renúncias, sobre amores perdidos e recuperados e sobre a importância de dar ou não uma nova oportunidade a esses amores interrompidos.

A Sul da Fronteira tem algumas semelhanças com as outras duas obras de Murakami que li, os três trazem triângulos amorosos e muita referência musical; o texto de Murakami está recheado de artistas, como por exemplo, Rossini, Beethoven, Nat King Cole e Bing Crosby.
O autor, também conhecido por suas pitadas de erotismo, neste livro utiliza muito mais que apenas toques eróticos. De repente dá uma louca e o narrador começa a descrever cenas sexuais que deixaria qualquer um de queixo caído. Confesso que até gosto quando o autor ousa um pouquinho, mas, neste caso, Murakami exagerou na dose; são páginas e mais páginas narrando um ato sexual e seus pormenores. E ele conta tudo, tudinho mesmo, não deixa nada pra imaginação do leitor.
Eu prefiro quando o autor aborda esse tema com cuidado, até pode revelar, mas sem ser tão explícito. Na minha opinião, esse erotismo exacerbado nada acrescentou à história, apenas aumentou o número de páginas.

Apesar desse pequeno detalhe negativo, é um bom livro. Gostei.

Sobre o autor:

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Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestígio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O,Connor. Murakami recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Deixo aqui a música South of the Border, de Nat King Cole, que dá título ao livro:

Deixo também Pretendoutra canção que Hajime e Shimamoto escutavam:

“Pretend you’re happy when you’re blue. It isn’t very hard to do.”

Impressões de leitura#8: O pintor de Cracóvia

“Não sou responsável do aqui exposto. O copiei diretamente da vida.”


cracoviaUltimamente tenho tido a sorte de fazer boas leituras. Coincidência ou nao, têm caído em minhas mãos livros perturbadores e tocantes. Um desses livros é o
Pintor de Cracóvia, que conta a história real de Joseph Bau, um sobrevivente do Holocausto.
Durante a leitura o leitor se depara com uma história de guerra, de desumanidade, de injustiça e de miséria, mas também com uma história de força, de luta, de esperança e, sobretudo, com uma história de superação.
Além de contar detalhes de sua vida nas ruas de Cracóvia e os horrores da guerra do princípio ao fim, Bau conta-nos também sua linda história de amor: um amor sem limites, um amor incondicional.
Ele fala carinhosamente sobre Rebecca, uma moça que conheceu no Campo de Concentração de Plaszow, na Polônia. Conta o que sentiu quando a viu por primeira vez, de como se apaixonou por ela e de seu casamento clandestino dentro do próprio campo de concentração. Explica-nos como burlou a segurança para consumar o matrimônio no barracão das mulheres. Fala do medo que sentiu ao ser surpreendido por policiais alemães que puniam com violência qualquer tipo de contato sentimental entre um homem e uma mulher. Narra de forma sensível suas dores, seus amores e desamores.
O que mais me tocou na história de Joseph e Rebecca foi perceber que apesar da opressão e do pavor eles não sufocaram o amor que sentiam. Seus corações estavam vivos e apaixonados, o amor que eles viveram foi muito grande, muito maior que a crueldade do nazismo, muito mais forte que  o medo… E isso foi lindo.

 

“Nos casamos às escondidas no Campo de Concentração de Plaszow. Celebramos nossa boda no dia de São Valentino por casualidade, porque no campo não éramos conscientes de que era o dia internacional do amor.”

 

Bau sobreviveu ao Holocausto porque foi trabalhar para Oskar Schindler. Rebecca, que havia sido selecionada para trabalhar na empresa de Oskar, por amor ao marido pediu que seu nome fosse substituído pelo dele. Depois que Joseph partiu, Rebecca Bau foi enviada para Auschwitz, um dos campos de concentração mais temidos. Em Auschwitz a escolheram três vezes para ingressar na câmara de gás, durante as três vezes ela conseguiu uma forma de se salvar.

 

silencio
O mundo se calou!

 

Joseph Bau escreveu este poema para Rebecca pouco antes da separação:

 

La Despedida

Aunque nuestra vida juntos fuera muy corta
Ahora debo partir
Me voy triste y desolado
hacia un destino dispuesto
por estos tiempos desesperados
por un camino sin señalizar
Hacia un destino burlón.
todo está preparado pra darme la bienvenida.
Me voy, pero cuando las puertas se cierren tras de mí
y reine un silencio momentáneo,
cuando el tiempo erosione mis huellas,
no pienses en mi con pesar,
porque atrás dejo muy poco:
el corazón de un poeta chiflado,
unas cuantas cartas, algunas odas dedicadas a ti,
una flor marchita y los sueños que soñamos
sobre los días que pasaríamos juntos,
y planes que, ai de mi, no se hicieron realidad
Recuerda nuestra casa soñada,
la que nunca fue,
tu despacho y el mio?
Querido Dios, por que no puedes ser amable?
Pero si, como predije, las cosas cambian,
y si los recuerdos perviven en tu mente,
piensa en mí a menudo,
sin la pena que ahora nos abate
Nuestros caminos volverán a cruzarse.
Entonces… por qué lloras?
No llores más, nos estés triste…
Porque, mira, yo también resisto…
Bueno, adiós, hasta la vista!
Dame otro beso y otro abrazo
y cuidáte,
mi amor querido y sagrado.

 

A narrativa de Joseph tinha tudo para ser apenas mais um relato triste, como muitos já conhecidos, mas não é. Sua história de vida durante esse período negro da História tocou-me profundamente n’alma.

Além de nos emocionar com sua narrativa tão sensível, Bau também nos presenteia com vários desenhos de sua própria autoria.

 


Sobre o autor:

 

bau

Joseph Bau nasceu em Cracóvia em 1920. Em 1950 emigrou para Israel, onde abriu seu próprio estúdio. Trabalhou em muitos filmes de animação chegando a ser conhecido como o Walt Disney israelita. Morreu em 2002.

** Não sei se o livro foi publicado no Brasil. O título original é Dear Got, Did You Ever Gone Hungry?
A poesia transcrita acima está tal qual encontrei no livro, infelizmente não tenho capacidade para traduzi-la, até porque acho que um poema quando traduzido perde muito de sua beleza e lirismo.

Impressões de leitura#7: Neve, Orhan Pamuk

“(…) o mal do mundo – isto é,  a pobreza e a ignorância dos pobres e a esperteza e dissipação dos ricos – e toda a vulgaridade do mundo, toda a violência, toda a brutalidade – isto é, todas as coisas que nos enchem de culpa – decorrem do fato de todo mundo pensar igual.”

 

neveCaso eu fosse uma pessoa influenciável teria desistido de ler Neve, não teria nem começado, porque entre as muitas opiniões que andei lendo por aí a grande maioria taxava o livro de lento e enfadonho. Porém, como eu prefiro tirar minhas próprias conclusões a respeito dos livros que me interessam, não dei muita importância e comecei a leitura mesmo assim. E tive uma grande surpresa, pois percebi que Neve não só deixa de ser lento e enfadonho como é um livro informativo, instigante e agradável.
Eu gostei muito da história criada por Orhan Pamuk, gostei da temática da obra, da forma como o autor conduz a narrativa e dos muitos dados sobre a Turquia que fornece. O livro tem quase 500 páginas repletas de informações políticas, geográficas e, principalmente, relacionadas à religião. Além disso, é também bastante poético.

A trama, ambientada na Turquia, conta a história de Ka, um poeta e jornalista que regressa a Kars, seu povoado de origem, após muitos anos de exílio político na Alemanha. Mas a cidade que Ka encontra não é mais a mesma de outrora, o vilarejo está diferente, as pessoas mudaram, agora Kars é um lugar repleto de conflitos. Como se não bastasse, há também uma onda de suicídios de garotas adolescentes. O suicídio das meninas é um dos motivos pelos quais Ka decide voltar à cidade, pois precisa escrever um artigo sobre a morte delas… O que mais chama a atenção do protagonista é como essas meninas se matam: “Uma maneira abrupta, sem nenhum aviso prévio, no meio de seus afazeres diários.”
A parte mais interessante da história é quando Pamuk – para explicar as razões que levam as adolescentes a atentar contra a própria vida, adentra o tema da religião, mostrando os conflitos existentes no país: o dilema da Turquia contemporânea; a rinha entre fanáticos religiosos e ateus; a hostilidade existente entre os seguidores do islã e os defensores do Estado.
“O Estado, que proibiu que mulheres entrassem nas salas de aula com a cabeça coberta, afirma que o manto é um símbolo do islã político, que impede que as mulheres gozem dos mesmos direitos dos homens. O islã, que defende o manto, assegura que seu uso é uma forma de protegê-las e valorizá-las.”

O pano de fundo é justamente essa discussão acalorada acerca da necessidade de usar ou não usar o manto, de cobrir ou não cobrir a cabeça. É um tema bem explorado durante toda a narrativa, um assunto bastante controverso, “pois muitas mulheres são a favor de abandonar o manto, porque o consideram uma forma de repreensão religiosa. Outras, no entanto, o defendem, pois acreditam que seu uso é uma forma de proteção contra assédio, estupro e a degradação da mulher. Inclusive há aquelas que acreditam que o manto traz respeito, dignidade e um lugar mais satisfatório na sociedade.”

Ka, apesar de possuir um certo interesse pela religião, não tem muito claro se é ateu ou se tem fé em algo. Algumas vezes sente-se culpado por ter se recusado durante praticamente toda a vida a acreditar no mesmo Deus daquelas pessoas que ele considera não instruídas. Ele mostra-se visivelmente confuso, por isso sua visita a Kars vai servir também como uma forma de aproximação com Deus, um reencontro consigo mesmo, uma nova oportunidade de reavaliar sua fé, de decidir de que lado está realmente.

 

“Não conseguia ver como poderia conciliar essa minha nova identidade europeia com um Deus que exigia que as mulheres se cobrissem com mantos, então tratei de excluir a religião de minha vida. (…) Eu quero um Deus que não me peça para tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para beijar as mãos das pessoas. Eu quero um Deus que entenda a minha necessidade de solidão.”

 

Mas, e as meninas suicidas, por que elas se matam? O suicídio delas tem algo a ver com a proibição de usar o manto? O que elas pretendem com isso, defender o islã ou apenas protestar contra o Estado?
São muitas as perguntas colocadas por Pamuk e, no meio de todo esse turbilhão de contestações, informações e conflitos, o livro ainda se encarrega de relatar uma história de amor: a história de Ka e Ipek.
Ipek foi uma antiga companheira de escola de Ka, revê-la foi outra das razões que fez ele regressar a Kars. A história do casal é bonita, sensual e cheia de encontros e desencontros.

A narrativa é bastante bonita, quando o narrador fala sobre a neve, sobre a claridade da neve e sobre os poemas que Ka escreve inspirado pela neve é bastante comovente, profundo e poético. A brancura da neve é sugestiva, inspiradora e se encarrega de trazer à tona o lado mais lírico do poeta e protagonista Ka.

Neve é um suspense político bem narrado e com informações muito bem amarradas. Recomendo!

 

Sobre o autor:

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Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2006.

Impressões de leitura#6: A serpente emplumada

“Às vezes, as flores colocadas para secar ao sol têm melhor aroma que as flores frescas”.

 

a-serpente-emplumada-1418714388.184x273Meu primeiro contato com a literatura chinesa foi em 2012, quando o Prêmio Nobel de Literatura saiu para Mo Yan, um escritor chinês. Até então eu nunca tinha escutado falar nada sobre esse escritor, por isso me senti um pouco desatualizada; na verdade, desatualizada não por desconhecer o ganhador de tal prêmio, mas por não conhecer absolutamente nada da literatura chinesa. Mesmo já morando na China há quase um ano, se alguém me perguntasse o nome de algum escritor daqui eu não seria capaz de citar um sequer.
No intuito de mudar esse quadro, fui pesquisar mais acerca de Mo Yan, mas acabei mesmo foi lembrando que há muito tempo comprei um livro de uma escritora com um nome que soava meio oriental. Sai remexendo tudo por aqui à procura do tal livro e me deparei com A serpente emplumada, de Xu Xiaobin.

Fiquei surpreendida não apenas pela autora ser de fato chinesa, mas por ter comprado o livro em uma época em que nem imaginava que viria morar na China. Conclusão, deixei o ganhador do Nobel de lado (por um tempo) e decidi começar o meu caminho pela literatura chinesa através da escrita de Xu Xiaobin.
Lendo alguns comentários na orelha da capa, descobri que A serpente emplumada foi comparada ao livro Cem anos de Solidão, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Não vou negar que esse pequeno detalhe me impulsionou a lê-lo imediatamente, pois Cem Anos de Solidão é um dos meus livros preferidos da vida. Gosto tanto dessa obra que mesmo muitos anos após a leitura ainda guardo na memória detalhes da triste história dos Buendía e da fictícia Macondo.

O certo é que fiquei muito curiosa para saber se o livro da escritora chinesa era tão parecido assim com o do colombiano, mas resulta que ao encerrar a leitura cheguei à conclusão de que além do fato de se tratar de uma épica história familiar e contar a saga de cinco gerações de mulheres no decorrer de cem anos, outras semelhanças não há. Independente disso, posso dizer que a Serpente emplumada me conquistou. O livro de Xu Xiaobin é bom o suficiente para agradar e chamar a atenção do leitor sem precisar, necessariamente, ter semelhanças com outras obras literárias conhecidas.

A autora desenvolveu muito bem o enredo, criou personagens fortes e marcantes, o que faz com que seu livro por si só se sustente. Eu gostei, me emocionei no decorrer da leitura e recomendo a todos que, como eu, gostam de histórias nas quais se descrevem sentimentos profundos e intensos.

Sinopse:

“Yu She é a protagonista. Sua experiência se tece através das vidas de sua avó, sua mãe, suas irmãs e uma sobrinha. Várias gerações de mulheres com personalidades e temperamentos muito distintos cujas vidas sofrem grandes mudanças através do tempo: desde a década de 1890, durante a última etapa da Dinastia Qing, até a década de 1990. Yu She ama seus pais, mas desde muito menina se dá conta de que seus pais não a amam. Depois de cometer dois pecados imperdoáveis, é enviada a viver em outra cidade onde logo será abandonada. Desde então sua vida se transformará em uma viagem em busca do amor. É uma menina frágil e delicada, mas ao mesmo tempo dotada de uma grande resistência. É uma menina solitária, mas sabe se defender de forma firme e desenvolta.
Quando chega a década de 1980, Yu She se envolve em uma confusão política, e se encontrará mais perto do amor que nunca. Sua última oportunidade de conseguir o que deseja se apresentará, mas em troca disso ela deverá pagar um preço muito alto. Nesta história misteriosa, Xu Xiaobin nos mostra os contrastes da vida, onde as diferenças são foscas, as recordações do passado e do presente se misturam e os desejos e a realidade se fundem sem uma linha clara de separação. É uma história maravilhosa, como um rolo de pintura chinesa, em que se plasmam imagem em relevo da História. É rica, penetrante, profunda e, sobretudo, bonita.”

 

Sobre a autora:


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Xu Xiaobin nasceu em 1953, em Pequim. Passou nove anos entre o campo e uma fábrica durante a Revolução Cultural, até que em 1978 ingressou na Universidade Central de Ciências Econômicas. Seus primeiros livros apareceram em 1981 e, desde então, publicou muitas obras de ficção.

Maratona das Águas#1: Qibao

 

Perto de Xangai há pequenas cidades construídas entre rios e canais, cidades essas que são conhecidas como ‘Veneza do Oriente’. Logo que cheguei aqui fiquei bastante animada pra começar a visitar essas cidadezinhas. Como a distância não é tão longa, posso fazer essas pequenas viagens de carro mesmo, saindo de manhã e voltando à noite.
Comecei minha Maratona das águas pelo vilarejo que fica mais perto de Xangai: Qibao, localizado no distrito de Minhang, a aproximadamente 20km do centro da cidade. Pode-se fazer o percurso até lá de metrô (linha 9) ou de táxi.
É um lugar com várias ruelas cheias de barracas que vendem comidas típicas, templos, museus e jardins. O vilarejo foi construído no período das cinco dinastias, há quase mil anos, mas floresceu mesmo durante as dinastias Ming e Qing.

A parte velha é bem pequenina, ocupa aproximadamente 2km quadrados. É cortada pelo rio Puhui e decorada por duas simpáticas pontes. Em Qibao também tem lojinhas que vendem antiguidades, obras de caligrafia chinesa, roupas e uma infinidade de bugigangas.

O que achei mais interessante em Qibao foi perceber que o lugar ainda guarda um pouquinho do charme e encanto das antigas e tradicionais cidades chinesas.

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Pagoda em Qibao

Procurando e lendo informações sobre esses vilarejos na internet, vi dicas de pessoas que aconselham procurar um hotel pra ficar pelo menos uma noite, pois assim pode-se acordar bem cedo no dia seguinte para andar e fotografar a cidade vazia, sem aquela multidão tão comum dos lugares turísticos na China. Pode ser que em outras “cidades das águas” – aquelas que ficam mais distantes de Xangai, como Suzhou e Hangzhou por exemplo, seja interessante pernoitar, mas em Qibao não vi necessidade alguma de ficar pra dormir, porque além de pertinho do centro a cidade é bem pequenina.

Além de caminhar e fotografar a cidadezinha há outras atividades interessantes que podemos fazer por lá: visitar o Museu do Comércio, a Casa Cricket, onde há milhares de grilos em gaiolas que os chineses costumam usar como animal de estimação e amuleto de sorte (nao me perguntem como eles conseguem isso, porque o ruído que esses bichinhos fazem é extremamente irritante), o Moinho de Algodão e o Museu das Marionetes.
Provar a culinária chinesa em algum dos muitos restaurantes é também uma boa ideia. E pra quem curte comer a tradicional comida de rua, opções não faltarão.
Enfim, pode-se passar umas horas bem agradáveis em Qibao. 
Eu gostei e recomendo fazer um passeio por lá.

Impressões de leitura#5:Miramar, Naguib Mahfuz


“É bom que encontremos alguém com quem compartilhar a solidão”

 

miramar2Eu não sabia quase nada sobre o Egito. Devo ter estudado no colegial alguma coisa sobre as pirâmides, sobre o rio Nilo, sobre Cleópatra e Nefertiti, mas meu conhecimento acerca da História mais recente desse país era praticamente nulo. Estava até um pouco preocupada achando que me faltariam as informações necessárias para entender bem o enredo de Miramar. Mas eis que me deparo com um excelente prefácio da tradutora, Isabel Hervás Jávega – que fez a tradução direta do árabe para o espanhol.

De forma pertinente, Isabel faz um apanhado da História Sócio-Político do Egito, desde a chegada de Napoleão Bonaparte, em 1798, até o governo de Gamal Abdel Nasser. Ela fala sobre a história do país durante o domínio inglês, mostra-nos como a poderosa Inglaterra interferia e controlava assuntos internos, tanto políticos como econômicos e financeiros. É justamente nessa época que são fundados os primeiros partidos políticos do Egito: O Partido Nacionalista e o Partido do Povo. Esses partidos tinham como principal objetivo criar um sistema constitucional assim como expulsar os ingleses do território nacional. Com a iminência da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra declara o Egito território britânico assegurando assim o controle do país e das matérias primas egípcias.

Mais tarde aparece uma nova força política que se transformaria no partido Wafd (Partido Político Nacionalista Liberal). O Wafd tentou expor suas demandas de independência, mas Saad Zaghloul, seu líder, foi punido com o exílio. Anos depois, em 1936,  Saad regressou ao país e conseguiu que fosse declarada a independência do Egito. No entanto, foi só em 1954, após a chegada de Gamal Abdel Nasser ao poder, que as reclamações históricas das massas menos favorecidas começaram a ser levadas em consideração. Nasser implantou um Estado de Corte Socialista e nacionalizou os recursos do país. Ainda assim, Nasser não deixou de ser considerado um personagem obscuro e seu governo, para os próprios egípcios, foi marcado como uma época de repreensão política, censura ideológica e corrupção industrial.
Toda essa história política e social, sobretudo durante o governo de Nasser, é pano de fundo do livro Miramar. Isabel Hervás Jávega colabora com um excelente trabalho, fornecendo informações relevantes que ajudam o leitor a compreender muito bem o contexto histórico em que a obra de Naguib Mahfuz está inserida.

A história se desenrola em Alexandria, na pensão Miramar, onde habitam os sete personagens principais. A ação ocorre nos anos 60 (em um curto período de tempo) e nos mostra, além da interação dos moradores da pensão, a situação em que o país vivia naquela época.
O livro é composto de quatro capítulos, cada um deles tem como título o nome de um personagem. Há, porém, outros três personagens que embora sendo importantes na história não possuem capítulos próprios.

Cada capítulo é narrado em primeira pessoa pelo personagem que o intitula. O narrador-personagem faz pequenas digressões e vai acrescentando pouco a pouco fatos do seu passado, fazendo uma espécie de diálogo entre passado e presente. Como grande parte da história se passa dentro da Pensão Miramar, acredito que essas digressões são estratégias do autor para quebrar a monotonia da narrativa e tornar a leitura mais instigante. Além disso, essas voltas ao passado permitem que o leitor conheça de fato a história de vida dos moradores da pensão e possa, assim, mergulhar mais profundamente nas dores de cada um deles.

Um dos hóspedes da Pensão Miramar aparece morto (isso não é um spoiler, pois já ficamos sabendo nas primeiras páginas do livro). Esse acontecimento muda os ânimos de todos que vivem na pensão e é o ponto de partida da história. À medida que avançamos tomamos conhecimento que o importante não é o crime em si, mas o que realmente aconteceu com os personagens nos dias que antecederam esse crime.
Os detalhes nos são contados pelos quatro personagens principais que possuem capítulos próprios, a partir da perspectiva de cada um deles. O mais interessante é que apesar do tema ser o mesmo – a morte do tal hóspede – os fatos são alterados de acordo com o ponto de vista de cada narrador. Chega um momento que o leitor pensa que já sabe tudo o que aconteceu, como aconteceu e o porquê de ter acontecido, então começa um novo capítulo, o narrador muda, a perspectiva muda e começamos a ver a história a partir de um ângulo completamente novo outra vez.

Mesmo a história girando em torno de um crime, esse não é o tema principal de Miramar, percebemos isso quando entramos em contato com os personagens, conhecemos seus defeitos, suas qualidades, seus medos, seus sonhos… Nos damos conta que cada um deles, à sua maneira, está perdido. Embora física e moralmente diferentes, todos os personagens têm um ponto em comum: estão sós no mundo. Vivem em uma pensão, encontram-se todos os dias, compartilham refeições, mantêm acaloradas conversações, mas são solitários. Acredito que o tema principal de Miramar é justamente esse: a solidão. Os personagens estão acompanhados, mas sentem-se sós. E isso é triste, muito triste!

Sobre o autor:

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Naguib Mahfuz foi um escritor egípcio, nascido no Cairo, em 1911. É considerado um dos primeiros escritores contemporâneos da literatura árabe. Seus romances mais conhecidos são Miramar (1967) e os que compõem A Trilogia do Cairo (1957). Suas obras foram traduzidas para várias línguas. Em 1988 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em 2006.

O holocausto tão pouco conhecido

“Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como eu tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” (Bertolt Brecht)

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Quem aí aprendeu na escola algo relacionado ao Massacre de Nanquim? Eu, pelo menos até vir morar na China, não tinha escutado nada sobre isso. Adquiri conhecimento sobre essa parte horripilante da História por meio de livros de alguns escritores chineses que li.
Sempre tive interesse em ler livros que me levassem a aprender algo mais sobre o mundo. Confesso, no entanto, que saindo da ficção e passando para algo mais verídico alguns fatos me causam muita impressão.
Já tinha tido uma experiência bastante perturbadora anos atrás quando visitei um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial: Buchenwald, na Alemanha. Lembro-me bem que quando saí de lá jurei para mim mesma que nunca mais voltaria a colocar os pés em um lugar assim, porque a sensação que tive foi completamente angustiante, triste e, acima de tudo, vergonhosa.
Os anos passaram e eu decidi visitar outra vez um lugar bastante parecido com Buchenwald: o Museu do Massacre de Nanquim. Apesar da atmosfera no Museu do Massacre ser menos lúgubre que no campo de concentração alemão, a sensação não deixou de ser, também, angustiante.

O Massacre de Nanquim foi um episódio negro da História da China e que, infelizmente, até hoje é pouco conhecido. No dia 13 de dezembro de 1937 tropas do Império Japonês atacaram e dominaram a cidade de Nanquim, naquela época a capital da China. Os japoneses permaneceram na cidade durante seis semanas e, durante todo esse tempo, praticaram as piores atrocidades.
Cometeram assassinatos em massa com requinte de crueldade, estupros coletivos de mulheres jovens, idosas e até crianças, além de saques, roubos e todo tipo de desumanidade. A cidade ficou completamente destruída, as ruas cheias de corpos, um inferno! Foram mortas milhares de pessoas inocentes, completamente desarmadas, rendidas, sem a menor chance de defesa. Os japoneses pintaram e bordaram em Nanquim durante essas seis semanas.
O número de mortos não se pode afirmar com precisão, mas o Museu do Massacre nos informa que essa quantidade é de aproximadamente 300000 vítimas.

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Eu já planejava uma visita a esse museu há bastante tempo, queria ver as fotografias e os vídeos disponíveis (sim, há vídeos, apesar disso alguns japoneses ainda insistem em dizer que o massacre não ocorreu de fato), assim como os relatos de sobreviventes chineses e estrangeiros que viveram em Nanquim durante a guerra.
Claro que isso tudo pode ser feito por meio do computador, hoje a internet está cheia de fotos e documentários que mostram bem como foi o massacre. Mas eu queria ir lá, sentir pelo menos um pouquinho do desconforto que coisas desse tipo podem causar, porque acredito que esse desconforto é necessário. É preciso de vez em quando um choque de realidade para aprendermos a valorizar o sofrimento alheio.

Dentro daquele lugar me senti desassossegada e envergonhada. Senti uma melancolia quase inexplicável… Dentro daquele lugar me senti pequenina e completamente inútil.
Espero, sinceramente, que os erros do passado não sejam esquecidos, que fiquem na nossa memória para sempre… Que olhando para esses erros tenhamos ainda mais certeza dos atos que nao devem ser repetidos jamais. Que essa brutalidade do passado nos ensine a respeitar a dor alheia e, sobretudo, nos ensine a construir um futuro melhor, livre de qualquer tipo de sofrimento e desumanidade. 😥

Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o Massacre de Nanquim, indico dois filmes:

Flores do Oriente

City of Life and Death

Além desses dois filmes a internet oferece ainda vários documentários sobre Nanquim, inclusive sobre uma personagem muito importante, John Rabe, um empresário alemão que morou na cidade à época do holocausto e que muito fez pelo povo chinês. Interessante a história dele, vale a pena conhecer.