Da saudade…

“Não importa que a tenham demolido: a gente continua morando na velha casa [em que nasceu].”     (Mario Quintana)

saudadeJá ouvi dizer que ser saudosista é algo negativo, que sentir saudades de épocas passadas é sentir-se incapaz de ser feliz com o presente. Há quem diga que a pessoa saudosista costuma revisitar o passado na esperança de encontrar nele aquilo que não encontra na vida atual. Não sei se concordo muito com isso, pois embora contente com meu presente sou uma saudosista por natureza.

Saudade é uma palavra tão linda, tão carregada de sentimentalidade e que, dizem os entendidos, só existir na doce língua portuguesa; já ouvi dizer, inclusive, que nenhum outro idioma é capaz de dar a essa palavra a conotação tão forte e significativa que lhe é de direito. Não sei se isso é realmente verdade, só sei que pra mim os sentimentos mais doces são justamente aqueles inspirados pela saudade: de uma pessoa querida, de um lugar, de uma época, de uma música, de um cheiro… Das memórias saudosistas que tenho só guardo aquelas que de alguma forma me arrancam um sorriso.

Dia desses, peguei-me “saudadeando” sobre quando eu era moleca, quando ia de férias à casa de minha avó, a Santa Helena, no Maranhão. Naquela época essa cidade nada tinha de moderna, era um lugar pacato como tantos outros do nordeste brasileiro.
Santa Helena não tinha cinema, não tinha shopping, não tinha praia, mas ainda assim lembro-me com muito carinho daquele tempo: o tempo das brincadeiras, das despreocupações, dos cabelos soltos ao vento, dos banhos de rio e das carreiras pelas ruas sem carros. Era o tempo de pular elástico, de jogar pedrinhas na calçada e brincar de roda. Era o tempo de milho assado, de bolo de macaxeira e fogueira de São João.

Lembro-me tão bem da casa de minha avó, ou melhor, de várias casas nas quais ela morou. Porém, a que mais forte ficou na memória era ali, na Rua Doutor Paulo Ramos. Sua casa era a última da rua, depois dela apenas floresta, que nós, crianças, chamávamos ‘mato’.
A casa de minha avó não era tão grande, mas tinha espaço suficiente para abrigar quantas pessoas passassem e precisassem ficar por lá: parentes e conhecidos que vinham de longe. Um dos sinais de que se tinha visita em casa era o monte de redes penduradas e a cangalha na janela… Ah, como eu me lembro da famosa cangalha na janela!

O quintal era gigante, parecia um mundo… Mas, pensando melhor, depois de tantos anos a memória pode ter me enganado, quiçá fosse gigante apenas na minha concepção de criança. Sei, no entanto, que havia de tudo no quintal de minha avó: bananeiras, mangueiras, laranjeiras, limoeiros, cajueiros e um pé de melão. Um único pé de melão, cuidadosamente plantado ao lado da janela da cozinha.

 

– Que fruta é essa? – Perguntavam os vizinhos.
– Fruta de gente rica! – dizíamos em uníssono.
Quase ninguém em Santa Helena comia melão. Éramos uns privilegiados.

 

A Santa Helena daquela época, localizada à margem direita do rio Turiaçu, era tranquila; sua gente, simples; suas paisagens, naturais e bonitas. Pelas ruas era comum vermos os velhos sentados num mocho, à porta de casa, consertando a tarrafa. Escutávamos familiarizados por volta do meio dia a famigerada buzina (feita em uma garrafa com o fundo vazado) que servia para avisar a população de que alguns pescadores tinham chegado da pesca e que havia peixe à venda.
As carroças circulavam sem parar de um lado para o outro fazendo mudanças, servindo de táxis, vendendo frutas e miúdos de animais. Os cachorros soltos nas ruas brincavam no meio da garotada, mas também nos assustavam quando saía a conversa de que tinha cachorro doido à solta. Cachorro doido, fui saber anos mais tarde que nada mais era que cachorro com raiva por falta de vacina… e eu morria de medo de cachorro doido!

As crianças corriam livremente, brincavam de pega-pega, esconde-esconde e empinavam pipas, que lá chamávamos, papagaio. Crianças inocentes que éramos, se bem que naquela época também fazíamos pequenas maldades, colocávamos arapucas e esperávamos que algum passarinho caísse na armadilha… Pensando bem, nem tão inocentes assim, naquele tempo também sabíamos ser cruéis.
As mulheres saíam de manhã cedinho para um dia de trabalho duro, voltavam à tardinha com um cofo na cabeça cheio de coco babaçu que elas passavam o dia inteiro quebrando. Vendiam o coco na quitanda da esquina e lá mesmo já compravam o querosene pra lamparina.

Apesar de toda a simplicidade, o lugar também tinha seu dia de glamour, o dia da Festa de Santa Helena, a santa padroeira que dá nome à cidade. Nesse dia a cidadezinha  inteira se vestia de gala, as mulheres com seus vestidos de cetim brilhoso e mangas bufantes, cada uma querendo se “amostrar” mais que a outra.
Nesse dia, chegava um parque de diversão à cidade, trazendo uma única roda gigante e algumas barquinhas de madeira. Sentávamos nessas barcas, segurávamos numa corda e puxávamos com muita força para fazê-las balançar de um lado para o outro. E elas balançavam – pra lá e pra cá – lá nas alturas.

A cidade inteira se levantava, as crianças se divertiam, as velhas vendiam doces e mingau de milho, a música tocava alto e contagiante, o povo dançava, ria, aproveitava. A festa acabava, a cidade dormia… e acordava outra vez na mesma monotonia.

Eu sinto uma saudade enorme dessa monotonia e naturalidade. Tempo bom esse, quando as pessoas saíam sem medo de voltar tarde da noite. Quando ficávamos sentados à porta de casa até altas horas contando as estrelas do céu. Quando o único medo que nós, crianças, tínhamos, era de amanhecer chovendo e não podermos ir às ruas brincar.

Ah, mas isso foi naquele tempo. Há muito, muito tempo.

Maratona das Águas#1: Qibao

 

Perto de Xangai há pequenas cidades construídas entre rios e canais, cidades essas que são conhecidas como ‘Veneza do Oriente’. Logo que cheguei aqui fiquei bastante animada pra começar a visitar essas cidadezinhas. Como a distância não é tão longa, posso fazer essas pequenas viagens de carro mesmo, saindo de manhã e voltando à noite.
Comecei minha Maratona das águas pelo vilarejo que fica mais perto de Xangai: Qibao, localizado no distrito de Minhang, a aproximadamente 20km do centro da cidade. Pode-se fazer o percurso até lá de metrô (linha 9) ou de táxi.
É um lugar com várias ruelas cheias de barracas que vendem comidas típicas, templos, museus e jardins. O vilarejo foi construído no período das cinco dinastias, há quase mil anos, mas floresceu mesmo durante as dinastias Ming e Qing.

A parte velha é bem pequenina, ocupa aproximadamente 2km quadrados. É cortada pelo rio Puhui e decorada por duas simpáticas pontes. Em Qibao também tem lojinhas que vendem antiguidades, obras de caligrafia chinesa, roupas e uma infinidade de bugigangas.

O que achei mais interessante em Qibao foi perceber que o lugar ainda guarda um pouquinho do charme e encanto das antigas e tradicionais cidades chinesas.

qibao21

Pagoda em Qibao

Procurando e lendo informações sobre esses vilarejos na internet, vi dicas de pessoas que aconselham procurar um hotel pra ficar pelo menos uma noite, pois assim pode-se acordar bem cedo no dia seguinte para andar e fotografar a cidade vazia, sem aquela multidão tão comum dos lugares turísticos na China. Pode ser que em outras “cidades das águas” – aquelas que ficam mais distantes de Xangai, como Suzhou e Hangzhou por exemplo, seja interessante pernoitar, mas em Qibao não vi necessidade alguma de ficar pra dormir, porque além de pertinho do centro a cidade é bem pequenina.

Além de caminhar e fotografar a cidadezinha há outras atividades interessantes que podemos fazer por lá: visitar o Museu do Comércio, a Casa Cricket, onde há milhares de grilos em gaiolas que os chineses costumam usar como animal de estimação e amuleto de sorte (nao me perguntem como eles conseguem isso, porque o ruído que esses bichinhos fazem é extremamente irritante), o Moinho de Algodão e o Museu das Marionetes.
Provar a culinária chinesa em algum dos muitos restaurantes é também uma boa ideia. E pra quem curte comer a tradicional comida de rua, opções não faltarão.
Enfim, pode-se passar umas horas bem agradáveis em Qibao. 
Eu gostei e recomendo fazer um passeio por lá.

O holocausto tão pouco conhecido

“Primeiro levaram os negros, mas eu não me importei com isso, eu não era negro. Em seguida levaram alguns operários, mas não me importei com isso, eu não era operário. Depois prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso, porque eu não sou miserável. Depois agarraram uns desempregados, mas como eu tenho meu emprego, também não me importei. Agora estão me levando, mas já é tarde, como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.” (Bertolt Brecht)

massacre4

Quem aí aprendeu na escola algo relacionado ao Massacre de Nanquim? Eu, pelo menos até vir morar na China, não tinha escutado nada sobre isso. Adquiri conhecimento sobre essa parte horripilante da História por meio de livros de alguns escritores chineses que li.
Sempre tive interesse em ler livros que me levassem a aprender algo mais sobre o mundo. Confesso, no entanto, que saindo da ficção e passando para algo mais verídico alguns fatos me causam muita impressão.
Já tinha tido uma experiência bastante perturbadora anos atrás quando visitei um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial: Buchenwald, na Alemanha. Lembro-me bem que quando saí de lá jurei para mim mesma que nunca mais voltaria a colocar os pés em um lugar assim, porque a sensação que tive foi completamente angustiante, triste e, acima de tudo, vergonhosa.
Os anos passaram e eu decidi visitar outra vez um lugar bastante parecido com Buchenwald: o Museu do Massacre de Nanquim. Apesar da atmosfera no Museu do Massacre ser menos lúgubre que no campo de concentração alemão, a sensação não deixou de ser, também, angustiante.

O Massacre de Nanquim foi um episódio negro da História da China e que, infelizmente, até hoje é pouco conhecido. No dia 13 de dezembro de 1937 tropas do Império Japonês atacaram e dominaram a cidade de Nanquim, naquela época a capital da China. Os japoneses permaneceram na cidade durante seis semanas e, durante todo esse tempo, praticaram as piores atrocidades.
Cometeram assassinatos em massa com requinte de crueldade, estupros coletivos de mulheres jovens, idosas e até crianças, além de saques, roubos e todo tipo de desumanidade. A cidade ficou completamente destruída, as ruas cheias de corpos, um inferno! Foram mortas milhares de pessoas inocentes, completamente desarmadas, rendidas, sem a menor chance de defesa. Os japoneses pintaram e bordaram em Nanquim durante essas seis semanas.
O número de mortos não se pode afirmar com precisão, mas o Museu do Massacre nos informa que essa quantidade é de aproximadamente 300000 vítimas.

massacre5

Eu já planejava uma visita a esse museu há bastante tempo, queria ver as fotografias e os vídeos disponíveis (sim, há vídeos, apesar disso alguns japoneses ainda insistem em dizer que o massacre não ocorreu de fato), assim como os relatos de sobreviventes chineses e estrangeiros que viveram em Nanquim durante a guerra.
Claro que isso tudo pode ser feito por meio do computador, hoje a internet está cheia de fotos e documentários que mostram bem como foi o massacre. Mas eu queria ir lá, sentir pelo menos um pouquinho do desconforto que coisas desse tipo podem causar, porque acredito que esse desconforto é necessário. É preciso de vez em quando um choque de realidade para aprendermos a valorizar o sofrimento alheio.

Dentro daquele lugar me senti desassossegada e envergonhada. Senti uma melancolia quase inexplicável… Dentro daquele lugar me senti pequenina e completamente inútil.
Espero, sinceramente, que os erros do passado não sejam esquecidos, que fiquem na nossa memória para sempre… Que olhando para esses erros tenhamos ainda mais certeza dos atos que nao devem ser repetidos jamais. Que essa brutalidade do passado nos ensine a respeitar a dor alheia e, sobretudo, nos ensine a construir um futuro melhor, livre de qualquer tipo de sofrimento e desumanidade. 😥

Quem tiver interesse em saber um pouco mais sobre o Massacre de Nanquim, indico dois filmes:

Flores do Oriente

City of Life and Death

Além desses dois filmes a internet oferece ainda vários documentários sobre Nanquim, inclusive sobre uma personagem muito importante, John Rabe, um empresário alemão que morou na cidade à época do holocausto e que muito fez pelo povo chinês. Interessante a história dele, vale a pena conhecer.

Um livro e uma rosa pra você!

Parabéns a São Jorge, o destemido cavaleiro que matou o dragão e salvou a princesa!

jordi
Feliç Diada de Sant Jordi

Uma das coisas que eu mais me lembro e tenho saudade do tempo que morei em Barcelona é do dia de Sant Jordi (São Jorge). Quando cheguei por lá, em meados de 1996, não tinha muita ideia sobre esse feriado e as suas diferentes formas de comemoração. Embora eu já tivesse uma relação muito próxima com os livros, antes dessa época eu não sabia que havia um dia comemorativo oficial, por isso foi uma surpresa o modo tão lindo e original como os catalães celebram essa data. 
Na Catalunha, principalmente em Barcelona, homens presenteiam as mulheres com uma rosa e mulheres presenteiam os homens com um livro. A cidade fica bem mais alegre e movimentada, com pequenos quiosques que vendem livros e flores espalhados pelas ruas.

Não se sabe exatamente quando começaram a oferecer rosas às mulheres no dia de São Jorge, mas dizem que esse costume está relacionado com uma lenda muito antiga. Conta a lenda que havia um dragão feroz aterrorizando um vilarejo ao Sul da Catalunha. Para evitar que essa fera atacasse a cidade, cada dia lhe era oferecido uma jovem donzela, escolhida mediante um sorteio. Um dia, a princesa do reino foi a sorteada e precisou ser entregue ao dragão. Quando estava quase a ser devorada, apareceu São Jorge – um valente cavaleiro – que lutou contra o dragão matando-o com sua espada certeira, salvando, dessa forma, a vida da princesa. Do sangue do dragão nasceu uma rosa vermelha. São Jorge, que além de cavaleiro era também cavalheiro (rsr), presenteou a princesa com a rosa.

Já o ato de oferecer livros começou tempos depois, embora algumas pessoas também associem essa parte da tradição à lenda dizendo que foi porque a princesa escreveu um poema de amor ao cavaleiro valente, sabe-se que o dia do livro começou a ser festejado apenas a partir do dia 7 de outubro de 1926 em homenagem ao nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes. No entanto, em 1930 trocaram a data para 23 de abril, dia da morte de Miguel de Cervantes e também de Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega. Creio que essa é na verdade a explicação mais acertada para essa comemoração.
Devido à tradição tão bonita que ocorre na Catalunha a Unesco declarou em 1996 o dia de São Jorge como o Dia Internacional do Livro e também do Direito de Autor.

Parti de Barcelona em meados do ano 2000, mas nunca esqueci e nem deixei de celebrar o dia de São Jorge da forma como o povo da Catalunha celebra. Mesmo quando não encontro ninguém que possa me presentear com um livro ou uma rosa, eu mesma me faço esse mimo.

Meu mimo deste ano:

alegre2
Paulina Chiziane, escritora moçambicana

E, como dizem os catalães: Feliç Diada de Sant Jordi a todos vocês!

Declarando meu amor por Buenos Aires

“A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y el aire.” (Jorge Luis Borges)

Gosto muito de ler blogues de viagem. Gosto mesmo! Embora o objetivo do meu nunca tenha sido fornecer dicas para este ou aquele viajante, de vez em quando eu também acabo meio que entrando nessa onda e menciono alguns lugares que visitei por aí. Dando uma relida nos meus textos antigos, chamou muito a minha atenção o fato de nunca ter falado nada acerca de Buenos Aires, cidade na qual vivi de julho de 2007 a julho de 2011. Só agora, mais de quatro anos após minha partida, posso falar com o coração mais sossegado sobre o tempo tão especial que vivi por lá.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma grande dificuldade em escrever sobre coisas que me marcaram, coisas pelas quais guardo qualquer tipo de sentimento; acho difícil porque quase nunca encontro as palavras certas, não consigo disfarçar a emoção – o que para muitos pode soar como afetação.

baires1
Mi Buenos Aires Querido!
baires2
La Boca

A minha relação com Buenos Aires foi muito estranha, uma relação de amor e ódio. Quando eu soube que me mudaria pra lá e que ficaria por quatro anos a primeira reação foi de irritação. Eu não queria, não tinha a mínima vontade. Sentia uma antipatia pela cidade a ponto de não fazer questão sequer em conhecê-la. Não me perguntem a razão porque não faço a mínima ideia. Às vezes penso que isso podia estar relacionado com a rixa existente no futebol entre Brasil e Argentina. Aí penso melhor e me dou conta que eu nunca fui uma pessoa tão ligada assim a futebol, desse modo, essa não seria uma razão plausível. Outras vezes penso que eu era como aquelas crianças birrentas que nunca provaram certo tipo de comida mas dizem taxativamente que não gostam e pronto… Ah, sei lá, deve ter sido algo do tipo.
Meu desejo era morar em um lugar bem diferente, algum país na África, talvez Austrália ou quem sabe até Inglaterra. Mas me ofereceram Buenos Aires, era pegar ou largar. Peguei.

Não foi difícil a adaptação apesar de achar os argentinos meio fechados (não levem isso tão a sério, talvez a fechada seja mesmo eu… rsr), mas no fim das contas fiz amizades que duram até hoje.
A língua eu já conhecia, então, um problema a menos. O inverno, um tanto rigoroso se comparado ao inverno brasileiro, nem chega perto do inverno alemão (que eu também já conhecia) então, outro problema a menos.

baires3
El Obelisco
baires4
Cemitério de La Recoleta
baires5
Puente de la Mujer

Houve momentos ruins? Claro que sim! Mas o que quero evidenciar aqui são os momentos bons, que foram muito melhores.

Na Argentina comi o verdadeiro alfajor, o típico asado e as deliciosas medialunas. Bebi o tal mate, que para meu paladar é amargo pra caramba, mas dizem que ajuda a emagrecer, gente! Encantei-me com a literatura de Borges e Cortázar. Sonhei acordada com a poesia de Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik. Fui várias vezes a shows de música no Gran Rex e Luna Park. Escutei Gardel vezes sem conta, tanto que aprendi de memória o tango “Por una cabeza”.
Fui ao Show do Spinneta (ainda bem, pois um ano depois ele se foi) e Fito Páez. Encantei-me com os olhos verdes de Ricardo Darín e sua atuação perfeita.
Vivia metida nas livrarias Yenny, Boutique del Libro e El Ateneo, principalmente naquela lindíssima que fica na Av. Santa Fé. Fui assistir a uma apresentação de balé no Teatro Colón, o teatro mais lindo que meus olhos já viram. Tomei meu chazinho no Café Tortoni e tirei fotos com as estátuas dos literatos que lá habitam. Apesar de clichê, eu adorava passear em La Boca – um bairro pitoresco, alegre e colorido – e de quebra ainda fiz aquelas fotos ridículas com os dançarinos de tango que se apresentam na rua (Sim, me julguem…rsr).

Vezes sem conta fiquei sentada no gramado em frente ao Rio de la Plata apenas para admirar a natureza e sentir a brisa no rosto. Encantei-me com as luzes da Avenida 9 de Julio e sempre me fascinava com o imponente Obelisco, monumento que tem a cara da capital porteña. Mesmo tendo medo dos mortos, fui mais de cinco vezes ao Cementerio de la Recoleta, e quando saía de lá sentava-me em algum café para admirar o vai e vem das pessoas do bairro – um lugar tão lindinho e que respira arte.

baires6
Floralis Generica
baires7
Puerto Madero
baires8
Casa Rosada

Perdi-me tantas vezes nas calles antigas de San Telmo, fiquei por horas procurando algum objeto interessante para comprar na feirinha de pulgas. Fui vezes sem conta a Plaza de Mayo e todas as vezes tirei fotos na Casa Rosada, como qualquer turista que se preza, né?!

E Puerto Madero, então? Ah, lugar bonito e moderno, cheio de vida e decorado pela Puente de la Mujer, que com sua arquitetura simples, porém charmosa, encanta quem a visita. Sobre a Calle Florida, falar o quê? Que tem a cara de qualquer turista brasileiro que acha que Buenos Aires é lugar para fazer compras baratas… Ledo engano, minha gente, pois eu estive por lá e nunca comprei nada, só queria mesmo caminhar e tomar um capuccino delicioso nas Galerías Pacífico.

baires9
Jardim Japonês
baires10
Museu de Arte Latino Americano
baires11
El Ateneo, livraria linda

Na hora de bater perna fui inúmeras vezes ao Parque de Palermo, entrei no Zoológico, no Jardín Botánico e no Planetário. Fui ao Jardín Japonés, ao Rosedal e à Floralis Genérica, aquela famosa flor de metal que abre de manhã e fecha à noite. Fiz várias vezes o passeio no Tren de la Costa e também o passeio de barco pelo Rio Tigre… Marquei ponto no Malba (Museu de Arte Latinoamericano) -, que naquela época tinha uma programação literária incrível. Até hoje o museu ainda oferece excelentes atividades literárias, confira o calendário dessas atividades aqui.

Algum arrependimento? Sim, de durante esses quatro anos não ter aproveitado para aprender a bailar un tango caliente.


Às vezes ainda encontro pessoas que me perguntam: então, o que você achou de Buenos Aires? Conseguiu finalmente se acostumar? Voltaria a morar lá de novo?

Acho que nem preciso responder, né?

Revisitando#1: Memorial do Convento

Revisitando é um espaço que criei aqui no blogue para compartilhar com vocês as minhas releituras. Decidi reler livros que fizeram parte da minha vida, livros que por alguma razão voltam sempre à minha memória. Farei uma nova leitura deles, em primeiro lugar, para relembrar detalhes já meio adormecidos, e em segundo, para saber se minha opinião mudou, se com a releitura a obra ganhou ou perdeu o encanto. A intenção é escrever sobre a forma como o livro me tocou, sobre as dificuldades que tive no decorrer da leitura, se gostei, se não gostei e o porquê de ter ou não ter gostado, além de fazer um pequeno resumo da história.

Memorial_do_convento_(48ª_edição)

Neste primeiro revisitando, quero escrever um pouquinho sobre Memorial do Convento, de José Saramago, um romance histórico publicado em 1982.
O livro traz duas narrativas, ora paralelas, ora misturando-se entre si. A primeira narrativa é sobre a construção do palácio-convento de Mafra, a mando de D. João V, monarca português que subiu ao trono em 1681.

D. João vivia angustiado com a continuidade de sua dinastia, ameaçada pela possível esterilidade da rainha Maria Josefa. Por essa razão, o monarca mandou construir o convento, foi uma espécie de oferenda a Deus em troca de um herdeiro.

 

“D. João, quinto de nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura a corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim.”

 

O convento, de uma magnitude impressionante, levou treze anos para ser construído. Foi concluído em 1730 deixando para trás muitos mortos e trabalhadores explorados ao extremo -, mostrando claramente a força, o poder e a tirania que os nobres possuíam naquela época. Para a construção do convento foram convocados todos os homens válidos do país, muitos deles apanhados à força, amarrados e enviados a Mafra. O rei gastou quantias exorbitantes para construir um palácio-convento que tivesse anexo um palácio real e uma basílica, além de capacidade para abrigar trezentos frades franciscanos.

A segunda narrativa, porém, não trata de feitos históricos como é o caso de D. João V e seu Convento de Mafra, conta a fictícia e belíssima história de amor entre Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
Baltasar era um homem de bom caráter, maneta, revolucionário e cristão, foi um dos recrutados por D. João V para trabalhar na construção do convento. Blimunda era uma nova cristã, uma mulher que tinha poderes mágicos, que conseguia enxergar o interior das pessoas.
Baltasar e Blimunda apaixonam-se e, desafiando os rigores da Inquisição, selam seu amor mediante um pacto de sangue. Em um dado momento Baltasar e Blimunda perdem-se um do outro, é então que começa a parte mais bonita e também mais triste da história. Blimunda é fiel ao seu amor e passa nove anos a procurá-lo desesperadamente, ela cruza o país por sete vezes tentando encontrá-lo.

Saramago nos conta também a história da Passarola, uma máquina voadora que existiu realmente. A Passarola foi projetada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, figura essa inspirada em uma personagem real, um sacerdote brasileiro conhecido como “padre voador”. O escritor acrescenta detalhes ficcionais à história verídica, como por exemplo, o fato de que para que a passarola voasse seriam necessárias vontades humanas. Blimunda, por causa de seus poderes mágicos,  foi a escolhida para recolher as vontades humanas necessárias para que a máquina levantasse voo. Baltasar e Blimunda tiveram uma grande e importante participação na construção da Passarola, foram as duas pessoas de confiança do Padre Bartolomeu de Gusmão.

Com muita ironia, Saramago descreve a História de Portugal do Século XVIII: as epidemias, as guerras, os abusos por parte daqueles que estavam no poder, as atrocidades e injustiças cometidas em nome da Santa Inquisição. O narrador faz uma crítica acirrada ao clero e, principalmente, à nobreza, mostrando claramente um D. João V como um rei arrogante, ignorante, megalomaníaco e perdulário. Enquanto o rei é ridicularizado, o povo, que foi quem de fato trabalhou e construiu o convento de Mafra, é mostrado como o verdadeiro heroi.
Saramago descreve ainda o amor puro, as festas religiosas, a esperança, a luta para a concretização de um sonho e a fé naquilo em que se acredita.

Eu fiquei um bocado intrigada com o autor, pois achei difícil me adaptar a seu estilo de linguagem. Quem o conhece sabe que este escritor português tem uma escrita bastante peculiar, muito própria, muito sua, isso acaba gerando um pouco de dificuldade em alguns leitores quando entram em contato com sua obra por primeira vez. A pontuação que ele utiliza é fora dos padrões convencionais. A vírgula, por exemplo, é usada como substituta de quase todos os outros sinais de pontuação, obrigando o leitor a participar intensamente, precisando identificar as frases como interrogativas ou exclamativas à medida que vai lendo. A linguagem escrita aproxima-se muito da linguagem oral… Foi justamente esse estilo diferente e inédito que me fez voltar várias no texto para melhor compreendê-lo. Acredito que essa foi a grande dificuldade que encontrei na primeira leitura.

Nesta segunda leitura, Memorial do Convento me agradou mais ainda, não sei se isso está relacionado com o fato de ter sido o primeiro livro desse escritor que li ou se foi pela história propriamente dita, que eu achei bonita que só! A grande diferença que notei desta vez foi a falta de dificuldade em seguir a narrativa. Agora, mais de dez anos após meu primeiro contato com a literatura de Saramago, a leitura fluiu maravilhosamente bem. Eu, finalmente, me acostumei com o estilo do autor, além disso continuo adorando a bela história de amor de Baltasar e Blimunda.

Com sua escrita crítica, irônica e bem-humorada, Saramago conseguiu me conquistar outra vez, então posso garantir: Memorial do Convento não perdeu nem um pouquinho do seu encanto, será sempre um dos meus livros preferidos.

 

memorial2
Convento de Mafra
memorial3
Eu no Convento de Mafra

 

Sobre o autor:

memorial3

José Saramago foi um escritor português, nascido em Azinhaga, em 1922. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Faleceu em 2010, na Espanha.

 

Um vídeo sobre Memorial do Convento (contém spoilers)

Eu finalmente conheci o Vietnã

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. (Amyr Klink)

 

Quando eu era menina assistia a muitos filmes sobre a guerra no Vietnã, filmes esses que eram repetidos incansavelmente na tv aberta do Brasil. A grande maioria desses filmes mostrava o povo vietnamita como malvado, o grande vilão da história… e eu acreditava piamente na forma como eles eram retratados, por conta disso acabei desenvolvendo uma opinião equivocada sobre essas pessoas, opinião essa criada e estimulada pela televisão e seus filmes hollywoodianos.
Desconhecia praticamente tudo sobre esse país, desconhecia de tal forma que quando ouvia falar em Vietnã, mesmo depois de adulta, minha mente quase sempre associava a bombas, gritos e violência.

Confesso que nunca tinha passado pela minha cabeça fazer férias por lá, não tinha a menor ideia da grande riqueza cultural que o país possui e como o povo vietnamita é amável.

Ponte japonesa em Hoi An
 Lanternas de Hoian

A minha primeira impressão ao chegar no Vietnã foi: Uaauu eles até são simpáticos! Vocês acreditam que eu fui pra lá esperando encontrar um povo carrancudo? Quanta ignorância a minha, pois o que encontrei foi um país bonito, quentinho e pessoas agradáveis.
Os vietnamitas ainda estão se preparando para receber os turistas, pelo menos em Danang, na parte central do Vietnã, o turismo ainda não está assim tão desenvolvido, isso faz com que os preços sejam mais convidativos. E mesmo com essa vantagem em relação ao valor das coisas ainda não há aquela enxurrada desenfreada de turistas.

Eu gostei do que vi, gostei de andar no meio do povão, de comer comida de rua, de passear de canoa e de andar a pé no meio do mato. Gostei de provar as comidas típicas, de fotografar o povo pelas ruas, de entrar no mar calmo e cálido, de aprender um pouco da história do país, de sua cultura e de seus costumes…

Danang, a quarta maior cidade do Vietnã, é bastante movimentada e tem um encanto todo especial. Andei por lá nos mercados de rua, no calçadão ao lado do rio Han, observei as cinco pontes que ajudam a compor a beleza da cidade e fiquei encantada com as praias. No entanto, o lugar que mais gostei de visitar foi Hoi An, uma das cidadezinhas mais charmosas que já vi na vida.
Hoi An tem um casco histórico belíssimo, completamente intacto pelo fato de não ter sido atingido pelos bombardeios durante a guerra. É decorada pela ponte coberta japonesa, uma prova viva da influência que o Japão teve na cidade. É banhada pelo Rio Thu Bon, que foi um porto de pesca importantíssimo.
Por suas ruas circulam muitas motos – aliás nunca vi tantas motos juntas e um trânsito tão caótico quanto vi no Vietnã, mas isso também faz parte da beleza do país e ajuda a compor a atmosfera do lugar.

Hoi An tem uma variedade de edifícios com arquiteturas totalmente diferentes: chinesa, japonesa e francesa. Esses três povos, no passado, influenciaram muito a cidade e deixaram suas marcas. Hoje, podemos notar isso claramente nos edifícios, alguns deles possuem essas três influências combinadas em uma mesma construção. Essa cidadezinha é conhecida também por suas costureiras e por seus artesanatos, sobretudo as famosas lanternas. Hoi An foi declarada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.

 My Son
 Santuário de My Son

Além de Danang e Hoi An fui conhecer também o Santuário de My Son, que são ruínas de uma antiga cidade imperial que existiu entre os séculos IV-XVIII. Essas ruínas se assemelham muito a Angkor Wat, no Camboja (que eu ainda não conheço, mas que está nos meus planos conhecer em breve, já estive lá no Camboja :)). Grande parte do Santuário My Son foi destruído durante a guerra, mas ainda restam vinte monumentos muito bem conservados e que impressionam os visitantes. O lugar é muito bonito, tem muito verde ao redor mas o que mais chamou a minha atenção foram os detalhes das construções. My Son também foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.

Coisas para fazer e conhecer no Vietnã não faltam: há as Montanhas de Mármore, um grupo de cinco montanhas que é na verdade um local de peregrinação, um retiro espiritual; o interessante desse lugar são as muitas cavernas enormes que existem dentro das montanhas e as vistas maravilhosas.

Além disso, é possível alugar bicicletas e fazer passeios pelos campos de arroz, pelas praias, aliás as praias são um caso à parte: bonitas, com águas claras, calmas e quentinhas.

Achei uma delícia visitar o Vietnã, um país de homens e mulheres fortes. As mulheres trabalham muito, não apenas como as famosas costureiras de Hoi An, mas fazendo trabalhos pesados: remam canoas, puxam e empurram carrinhos de mão, carregam cestos pesadíssimos pela cidade vendendo frutas e legumes… Elas trabalham pra valer!

 Non Nuoc Beach – Da Nang

Minha viagem ao Vietnã serviu para me fazer enxergar esse país e seu povo com outros olhos, um olhar completamente distinto daquele de quando eu era moleca e assistia aos filmes na tv – quando nem passava pela minha cabeça andar por estas bandas. E eu percebi que nem sempre o que imaginamos e recriamos na nossa mente sobre um determinado lugar corresponde à realidade. Por isso quando aparecer a oportunidade para conhecer esses lugares não devemos deixar a oportunidade escapar. Viajar e visitar outros países é maravilhoso, pois aumenta nosso conhecimento sobre a cultura alheia, muda a opinião errônea que tínhamos sobre determinadas pessoas e costumes e, sobretudo, nos livra de nossos muitos preconceitos.

Arquitetura no Vietnã/influência chinesa
Uma vendedora de rua

Eu, assim como Amyr Klink, também acho que devemos ver o mundo com nossos próprios olhos. Porém, isso não significa que uma boa leitura não seja válida. É válida, sim senhor! Acredito que um bom livro é um excelente complemento para uma grande viagem. É bom ler e é bom viajar… e quando podemos combinar as duas coisas é melhor ainda, né?!

Amei o Vietnã, uma da melhores viagens da vida.