Impressões de Leitura#21: Os sofrimentos do jovem Werther… (contém spoilers)

“O que pude encontrar da história do pobre Werther reuni com disciplina, e aqui vos apresento, e sei que me agradecereis. Não podeis negar vossa admiração e amor ao seu espírito e seu caráter, e vossas lágrimas ao seu destino. E tu, boa alma, que sentes o mesmo ímpeto que ele, toma como consolo seu sofrimento, e deixa o livrinho ser teu amigo, se não puderes, por destino ou própria culpa, encontrar alguém mais próximo.” — O editor

4F035099-0F65-48C7-9936-953A4691A17EOs sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang Goethe, é um romance epistolar com traços autobiográficos. Escrito em apenas quatro semanas quando Goethe tinha 25 anos, o livro conta a história de um jovem e sua paixão não correspondida por uma mulher comprometida. Foi publicado em 1774, causando furor e rebuliço na sociedade alemã daquela época. O livro de Goethe foi um divisor de águas na literatura alemã, foi justamente esse romance que deu origem à prosa moderna e iniciou o romantismo na Alemanha.
Para melhor compreendermos a importância de Os sofrimentos do jovem Werther na literatura, é necessário conhecermos um pouquinho o contexto histórico no qual a obra está inserida.
O movimento romântico foi um período de vida e arte que compreendeu o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX. Está associado às mudanças sociais e políticas que derivam da Revolução Industrial iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e a Revolução Francesa de 1789. Com seu tríplice Ideal de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a revolução quebra o império do absolutismo e difunde na Europa um clima favorável à ascensão da burguesia
. O Romantismo coincidiu justamente com essa ascensão econômica/política e expressa os sentimentos das pessoas que viviam insatisfeitas com as novas estruturas e relações sociais. De um lado estava a nobreza que já não desfrutava dos mesmos privilégios de outrora e, por outro, a pequena burguesia que ascendia e ia conquistando seu espaço pouco a pouco.

Na Literatura, o Movimento Romântico foi marcado por três fatos fundamentais. Primeiro, o aparecimento de um novo público leitor, resultado de uma literatura feita de forma simples, com uma linguagem mais popular, totalmente oposta ao neoclassicismo -, que prezava por uma linguagem clássica. Segundo, o surgimento do romance moderno, os conhecidos folhetins, como forma mais difundida e acessível de comunicação literária. E, por último, a liberdade de expressão. Os escritores românticos tinham aversão pelos modelos clássicos e queriam sentir-se livres para escrever da forma que melhor lhes conviessem, deixando para trás as exigências do neoclassicismo e adotando uma narrativa na qual predominasse mais o sentimento, a emoção, a evasão e o sonho. Os românticos preferiam fugir da realidade para um mundo imaginário criado a partir de sonhos e lançavam mão de um sentimentalismo exacerbado, que passou a predominar sobre a razão. Essa liberdade criadora, para os românticos, é um ato de liberdade e desprendimento.
Outro fator que foi muito importante e colaborou para o surgimento dessa nova literatura foi o movimento pré-romântico, conhecido como Sturm und Drang (tempestade e Ímpeto). Esse movimento, surgido na Alemanha, tinha acentuado caráter nacionalista e foi o responsável por desencadear o Romantismo.
Os Sofrimentos do jovem Werther é uma cria do Sturm und Drang, apesar de ter sido escrito e publicado em 1774 é considerado o precursor do Romantismo, embora essa escola literária só tenha iniciado oficialmente alguns anos mais tarde.

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Werther, nosso protagonista, inicia seu relato contando por meio de cartas a Guilherme, um amigo, seu cotidiano em Wahlheim, um pequeno vilarejo na Alemanha, para onde se muda. Durante as primeiras missivas notamos um Werther calmo e alegre. O rapaz sente-se bem em conviver com as pessoas simples do lugar e desfruta de tudo que o rodea. Seu discurso é um turbilhão de sentimentos, um misto de poesia e culto à natureza: cada árvore, cada moita é um ramo de flores, e a gente faria gosto em se transformar num besouro para esvoaçar nesse mar de perfumes e poder sugar todos os seus alimentos.”

Mas eis que Werther conhece Carlota, uma jovem culta e de refinada beleza, que para infelicidade do jovem está comprometida com Alberto, um homem bom e correto, segundo palavras do próprio Werther: “Alberto é um homem honesto e bom, que merece toda a simpatia. É um homem sensível e parece pouco sujeito a maus humores. Não há dúvida de que Alberto é o melhor homem da face da terra.”
Werther desenvolve uma relação de admiração, respeito e amizade por Alberto, apesar disso não consegue controlar os sentimentos em relação à sua noiva. O jovem apaixona-se perdidamente por Carlota, porém quando se dá conta da impossibilidade de a ter para si esse amor se torna um fardo insuportável.

Quando lemos as primeiras cartas de Werther a Guillerme percebemos que o discurso do protagonista é muito bonito, no qual ele faz odes a Carlota, que é vista como uma mulher perfeita, um anjo, quase uma santa. Embora lá no início do romance seu discurso já esteja carregado de expressividade e emotividade, é, ainda assim, leve. Entretanto, os exageros nas seguintes missivas de Werther intensificam-se à medida que o amor de Carlota se torna mais distante e impossível. O amor cortês que Werther sente por sua amada transforma-se claramente em arrebatador e completamente exagerado.

 

Hoje não pude ir ver a Carlota, uma visita inesperada me segurou em casa. Que havia a fazer? Mandei meu criado ao encontro dela, só para ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença. Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos. A lembrança de que o rosto de Carlota havia pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença…

 

Werther percebe que existe apenas uma solução para o seu mal de amor: fugir da inalcançável e perfeita Carlota. Nosso protagonista decide partir de Wahlheim sem sequer se despedir de sua amada, pois acredita que a distância o fará esquecê-la. No entanto, mesmo longe, o pobre rapaz continua a se martirizar… e o sofrimento de seu espírito o transforma cada vez mais em uma figura atormentada, um apaixonado à deriva de seus próprios sentimentos, um ser completamente desprovido de esperança.
Quando Werther compreende que o amor que nutre por Carlota não se modificou apesar da distância, decide retornar a Wahlheim… A partir daí, entramos em contato com um Werther completamente diferente daquele do início do romance, um jovem com tendência natural a falar sobre assuntos mórbidos e a enxergar tudo pelo pior lado. Seu pessimismo é cada vez mais e mais evidente, o que acaba por desencadear o desfecho trágico. A forma como o apaixonado discorre sobre o suicídio, sobre a morte por amor e sobre o seu próprio sofrimento nos mostra claramente o seu ímpeto e arrebatamento indomáveis. O jovem Werther transforma-se cada vez mais em um homem ultra-romântico, passional, subjetivo, pessimista e triste. Ele se apega a valores decadentes e tem propensão à melancolia e a sobrevalorizar o amor que sente por Carlota. “Toda minha alma estava presa em sua feição, sua voz, seu aspecto. Ela é sagrada para mim. Todo meu desejo emudece em sua presença.”
O sentimentalismo exacerbado, o pessimismo e a melancolia extrema levam o pobre Werther, o sofredor não correspondido, a buscar saída e subterfúgios para o seu mal de amor, nesse caso, a morte.

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Ao entramos em contato com a biografia de Goethe nos damos conta de algumas similaridades com a história de Werther. Goethe nasceu no seio de uma família burguesa em 1749, em Frankfurt am Main. Estudou direito, história e filosofia em Leipzig. Além de escritor, exerceu também atividades teatrais e artísticas de todo tipo e foi por vários anos diretor da Biblioteca Anna Amalia, em Weimar… Sabe-se também que Goethe na sua juventude foi apaixonado por uma mulher casada, cujo nome era o mesmo que o escritor escolheu para a protagonista de seu livro. Passou-me a impressão de que Os sofrimentos do jovem Werther foi uma espécie de catarse para o escritor, catarse essa que não agradou a todos, principalmente ao casal Carlota/Alberto – amigos do escritor que se viram retratados na obra. O suicídio de Werther também foi inspirado em uma personagem real, Karl Wilhelm Jerusalem, um rapaz que fazia parte do círculo de amizades do escritor e que cometeu suicídio por não ter seu amor por uma mulher casada correspondido. É sabido que Goethe também teve vontade de tirar a própria vida, no entanto, foi mais forte que Werther, pois o escritor só veio a falecer em 1832, em Weimar, aos 82 anos.
O livro de Goethe foi o responsável por uma onda de emotividade e desespero que em muitos casos terminou em suicídio. Essa onda de desespero por partes dos jovens europeus ficou conhecido na Alemanha como Efeito Werther. Isso fez com que o livro de Goethe fosse proibido na Alemanha por muitos anos, tudo por conta da sua conotação negativa e, segundo alguns entendidos da época, porque fazia apologia ao suicídio.

 

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É preciso abraçar a volúpia, fartar-se de prazeres e não ter medo da morte. — Goethe

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