Livros que li…

É sempre assim… A mesma casa, a mesma escada, o mesmo homem. Mas só porque esse homem ficou mais velho, conheceu outras terras e outras gentes, leu mais livros, a casa e a escada mudaram. E as pessoas da casa também mudaram. —Erico Veríssimo

mafalda

Em relação a leituras, 2018 foi um bocadinho melhor que 2017, mesmo assim não consegui voltar a minha rotina de leitura dos anos anteriores. Aliás, nem sei se um dia voltarei… Apesar de não ter lido uma quantidade exorbitante de livros, posso dizer que fiz leituras interessantíssimas e tocantes. Li com atenção e desfrutando cada página o máximo que pude… Fui deixando pelo meio do caminho vários livros inacabados e, pra ser bem sincera, já não me importo mais com isso, se não gostar abandono mesmo e pronto, porque a vida é curta demais para perdermos tempo com livro chato e que não nos toca de alguma forma.

Os livros que li em 2018:

1- Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa: conta uma história de amor, mas a meu ver, uma história de amor um tanto estranha. É a história de Ricardo e da Menina Má, uma personagem que vai mudar de nome, profissão e nacionalidade várias vezes no decorrer da narrativa. Ele é um romântico; ela, uma aventureira. Com eles passaremos por Londres, Paris, Tóquio e Madri, cidades essas que serão cenários de alegrias, amores e paixões, mas também de mentiras, tristezas e dores..

2- O Estrangeiro, Albert Camus: com pouco mais de oitenta páginas, esse livro é capaz de causar no leitor um turbilhão de sentimentos variados. Em mim, por exemplo, causou um certo desassossego e uma sensação de estranheza, sobretudo ao perceber a apatia de Meursault, o protagonista. A princípio desenvolvi uma grande antipatia por essa personagem, mas, no fim das contas, entendi que Meursault era nada mais nada menos que um estrangeiro para si mesmo… Ele foi condenado não pelo crime que cometeu, mas por não seguir as convenções sociais, por não seguir à risca a manada. E isso é triste, muito triste!

3- Um amor incômodo, Elena Ferrante: é um livro independente, não tem nada a ver com a tão falada série napolitana. Gostei muito da história que tem uma pegada meio de mistério, de romance policial. Neste livro a escritora retrata também a relação mãe/filha de uma maneira bastante crua. Nada aqui é bonitinho, cor de rosa, engraçadinho… A narrativa, como o próprio título já diz, incomoda.

4- Teoria Geral do Esquecimento, José Eduardo Agualusa: conta a história de uma mulher portuguesa que vive em Luanda na época da Independência do país. Em 1975, aterrorizada com os acontecimentos, constrói uma parede separando seu apartamento do resto do edifício. Vive dessa forma, separada do mundo, durante trinta anos, sobrevivendo aos trancos e barrancos, do jeito que pode. Livro ótimo, com um toque de realismo mágico.

5- O conto da ilha desconhecida, José Saramago: um conto lindo de viver. “…se não sais de ti, não chegas a saber quem és. (…) é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.”

6- Terra Sonâmbula, Mia Couto: foi o primeiro livro desse escritor que li, lá em meados de 2008… Lembro-me de ter terminado essa leitura emocionada, não apenas pela história propriamente dita, mas pela escrita tão linda e poética… Reli-o agora, em 2018, e com certeza o lerei outras vezes mais.

7- A Cabeça do Santo, Socorro Acioli: achei o início desse livro bastante parecido com o início de “Pedro Páramo,” de Juan Rulfo. Pelo que sei, García Márquez também bebeu da fonte de Rulfo para escrever seu ‘Cem anos de solidão,’ então não é tão descabido assim que Socorro Accioli tenha seguido esse rumo, já que ela foi aluna de Gabo. Passando essa fase inicial, que me incomodou um bocado devido às tantas semelhanças com o livro de Rulfo, Acioli encontrou seu próprio caminho e desenvolveu bem a história assim como suas personagens. O realismo mágico dessa escritora brasileira por si só se sustenta. Gostei!

8- A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksièvitch: traz relatos reais de mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial. Este livro é diferente de qualquer outro acerca desse tema que eu já li, porque ele mostra a batalha das mulheres, a guerra contada a partir do ponto de vista feminino.

9- A Amiga Genial, Elena Ferrante: o primeiro dos quatro livros da tão falada série napolitana. Terminou deixando um gostinho de quero mais e me fazendo desenvolver uma antipatia nível avançado por Lila, uma das protagonistas.

10- Maomé – uma biografia do profeta, Karen Armstrong: não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou muito, porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente…

11- A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata: eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve e Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Desenvolvi uma repulsa pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha…

12- Canção de ninar, Leïla Slimani: conta a história de uma babá que assassina as duas crianças que toma conta. Calma, isso não é um spoiler, já no primeiro parágrafo do livro a autora nos conta que as crianças foram mortas. É um livro bom que só!

13- A extraordinária viagem do faquir que ficou preso num armário Ikea, Romain Puértolas: é um livro engraçado, serviu para quebrar a tensão e dar uma descansada na mente depois de tantas leituras pesadas.

14- Vale do Encantamento, Amy Tan: um livro de fôlego, são quase 600 páginas de muitas aventuras na Xangai do início do século XX. Vale do Encantamento conta a saga de três gerações de mulheres e suas lutas para sobreviver em um mundo repleto de preconceitos, desigualdades sociais, machismo e violência.. Pra mim, que vivo em Xangai, foi uma sensação muito boa reconhecer os lugares sobre os quais a autora fala e saber que em algum momento já passei por eles. Gostei de conhecer mais sobre os salões de cortesãs de luxo, muito comuns na Xangai do início do século passado, as relações entre chineses e estrangeiros, o declínio do império chinês e a ascensão da Republica Popular da China. Sem falar na conturbada relação mãe/filha muito bem desenvolvida na história. Gostei, gostei mesmo.

15- A mulher na janela, A. J. Finn: eu demorei um tempão pra concluir essa leitura. Achei Anna Fox uma personagem chata, que enche o saco do leitor com seu monólogo repetitivo. O ambiente de clausura no qual a protagonista vive me incomodou bastante, mas não porque remete a uma atmosfera de medo, típica de livros de suspense, mas pelo fato de ter deixado a narrativa arrastada e enfadonha. Além disso, as semelhanças com a Garota no Trem, de Paula Hawkins, me aborreceram também. A. J. Finn – não sei se intencionalmente ou não – praticamente copiou a personalidade da protagonista do livro de Hawkins: bêbada, irresponsável, meio louca, fora de forma, não confiável e com obsessão pela vida dos vizinhos… Foram semelhanças de mais pra meu gosto, já desde o primeiro capítulo. Enfim, A mulher na janela tinha tudo pra ser um bom livro, o autor tinha dois temas muito atuais para desenvolver, depressão e alcoolismo, mas se perdeu no meio do caminho e não me convenceu.

16- Paula, Isabel Allende: é uma história que toca o leitor de uma maneira tão dolorida que é quase impossível escrever qualquer coisa acerca dela sem deixar cair uma lagrimazinha O livro é melancólico, mas é, ao mesmo tempo, um culto ao amor e, principalmente, à vida.

17- Ratos e Homens, John Steinbeck: apesar de ser um livro bem curtinho, Ratos e Homens não fica a dever NADA a certos calhamaços. Steinbeck tinha como principal objetivo fazer uma crítica ao trabalho precário e mal remunerado que era imposto a alguns trabalhadores braçais durante a depressão dos anos 30 nos Estados Unidos, mas esse tema foi ofuscado por outro mais interessante ainda: o valor da verdadeira amizade.
O autor conseguiu desenvolver essa relação de amizade entre as duas personagens principais de uma forma tão bonita que mesmo aquele final trágico não conseguiu apagar a beleza da narrativa. O texto é triste algumas vezes, mas está, ao mesmo tempo, repleto de amor, companheirismo e esperança.

18- Frankenstein, Mary Shelley: essa leitura deixou-me melancólica. Não lembro nunca ter sentido tanta vontade de ninar uma personagem como tive dessa vez… O ‘monstro’, criação do Doutor Frankenstein -, que causa tanta repulsa e medo mundo afora, nada mais é que um ser carente de amor e afeto. A criatura foi rejeitada e abandonada pelo seu próprio criador apenas por causa de sua aparência física, nem mesmo teve a chance de demonstrar o tanto de amor que carregava no coração. Frankenstein completou 200 anos em 2018, mas continua atual até hoje.

19- Os Maias, Eça de Queirós: foi o livro mais amado e querido dentre todos os que li em 2018. Relerei muitas vezes mais, com certeza! Virou meu mais novo livro do coração. ❤

20- A mulher do viajante no tempo, Audrey Niffengger: pior leitura de 2018, só não abandonei porque era a leitura do mês de dezembro de um grupo de leitura do qual participo. Tentei assistir ao filme pra ver se melhorava, mas desgostei igual. Achei confuso e chato. 😦

21- História do novo sobrenome, Elena Ferrante: segundo volume da série napolitana. Gostei mais deste livro que da Amiga Genial, embora minha antipatia por Lila neste volume só tenha aumentado. Não consigo aturar essa menina que, apesar de muito inteligente, é chata, invejosa e voluntariosa pra caraca. Sobre Lenu, a outra personagem principal e também a narradora da história, muitas vezes tive vontade de sentar a mão na cara para que acordasse e aprendesse a agarrar o bode pelos chifres. 🙂

22- Persépolis, Marjane Satrapi: porque eu sempre tive muita curiosidade em saber mais sobre a cultura persa e também porque achei que iria morar no Irã. A ida para o Irã não deu certo, infelizmente, mas a literatura iraniana de Marjane me agradou bastante. Ah, o filme também é excelente.

23- Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur: um livro de poesia bem gostosinho de ler, com teor feminista e alguns poemas com uma pegada um tanto quanto erótica.

24- História de quem foge e quem fica, Elena Ferrante: terceiro volume da série napolitana concluído, já me aproximando da reta final da trajetória de Lila e Lenu. Curiosa para conhecer o desfecho, mas deixei o quarto volume pra 2019.

Feliz 2019 a todos… Que seja um ano de muitas leitura boas!