Aquela voz inconfundível…

vo jaimeUma das muitas lembranças que guardo carinhosamente da minha infância é a do meu tio-avô. Lembro-me de sua voz marcante e de seu acentuado sotaque maranhense. O velho Jaime, irmão de minha avó materna, vivia em um povoado chamado São Benedito, embrenhado nos confins do Maranhão. Apesar de nunca ter colocado os pés em dito lugar, quando falo dele parece-me tão familiar que é como se eu o conhecesse, deveras!
Lembro-me que ele ia de sua casa até à casa de minha avó a cavalo. Naquela época, o inverno no Maranhão era uma estação marcada pelas chuvas constantes e pelos rios que se formavam mata adentro… Os caminhos ficavam muito difíceis, por causa disso Vô Jaime tinha que madrugar, atravessar igarapés, viajar praticamente o dia inteiro para chegar a Santa Helena, vilarejo onde vivia minha avó. Mas, quando chegava, quase sempre à noite, ninguém mais dormia, porque ele tinha causos pra contar… Era história pra mais de légua!!
Fosse a hora que fosse, minha avó levantava, acendia o fogão a lenha e preparava um bom rango… E eu sabia que durante os dias em que ele ficasse por lá não haveriam broncas nem castigos. Ahhh, era tão bom ser criança!
Outra coisa que muito me lembra meu tio-avô é murici, uma frutinha miúda, amarela, muito comum no Maranhão, usada para fazer suco, que minha avó chamava, vinho. Vô Jaime chegava com uma carga de murici para felicidade geral da garotada. Até hoje consigo me lembrar com grande exatidão dessa fruta, apesar de nunca mais tê-la provado ainda levo comigo seu sabor e aroma.
Eu não consigo lembrar muito bem quando vi Vô Jaime pela última vez, acho que eu tinha uns 16 anos aproximadamente, em uma das muitas viagens de férias que fiz pra casa de minha avó. A imagem que me vem à memória agora é a dele sentado à mesa, comendo qualquer coisa e tomando café com farinha d’água. Jaime falava, falava e falava… com aquela voz inconfundível, aquela voz que quando ouvia, nas madrugadas de minha infância, levantava correndo. Aquela voz que nunca esqueci e que seria capaz de reconhecer em qualquer lugar, de olhos fechados.
A noite passada sonhei com Jaime, me deu uma saudade imensa de tudo que vivi nos tempos de outrora. Ainda bem que as coisas boas a memória registra e não nos permite esquecê-las. Acordei melancólica e levantei saudosa, me veio à cabeça aquele lindo poema de Casimiro de Abreu, Meus oito anos, que tem tudo a ver com o que estou sentindo hoje: Nostalgia. Nostalgia dos bons tempos, tempos esses que passaram e que, infelizmente, não voltam mais.

 

 

Fruta-Murici
Murici

 

Um trechinho do poema de Casimiro de Abreu:

 

Oh! Que saudade que tenho,
Da aurora de minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava as Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

 

Meus oito anos recitado por Paulo Autran:

A cafeteria da esquina…

Encontre-se com o sabor das conversas, com o paladar das histórias, com o aroma das memórias e aqueça a sua alma, e partilhe. Há momentos que têm de ser vividos em grupos. — (Na parede de uma cafeteria, no Cais do Sodré, Lisboa)

 

IMG_0524

 

Um entra e sai de pessoas na cafeteria da esquina. Entre sorrisos e burburinhos, mães arrastam crianças recém-saídas da escola ao mesmo tempo que empurram carrinhos de bebês. Escondem-se na cafeteria quentinha e lotada.
O homem da mesa ao lado, compenetrado, rabisca qualquer coisa em um guardanapo. Será poesia? Ou terá tido ele ideia para um grande romance? Olho-o com bons olhos… Serei sempre uma eterna admiradora daqueles que escrevem, daqueles que simplesmente escrevem.
Observo atentamente o vai e vem das pessoas. Anônimas? Nem tanto! São as mesmas caras, as mesmas de todo dia, do café da tarde, na cafeteria da esquina.
Saboreio mais um café au lait enquanto tomo coragem para enfrentar o frio lá fora… Mas que bobagem a minha, um grau negativo nem é tão frio assim.
Já na rua, sorrio para a senhorinha de sobretudo vermelho e canelas à mostra (em um clima desses, canelas à mostra é uma prova de coragem). A senhorinha sorri de volta. Tem algo de mágico no sorriso de um desconhecido, parece que aquece o coração da gente. ❤