Impressões de leitura#18: Fuga do campo 14

“Fugi fisicamente, não fugi psicologicamente.”

 

escape-from-camp-14Fuga do Campo 14, do jornalista americano Blaine Harden, conta a angustiante história de Shin In Geun, um sobrevivente de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte.
Li esse livro há bastante tempo, mas por conta de toda essa confusão entre Coreia do Norte e Estados Unidos e aquele tão comentado encontro entre Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, não é possível ficar indiferente já que somos bombardeados a cada dia por uma enxurrada de novas notícias. Além disso, estou lendo para um grupo de Leitura Compartilhada o livro Para poder viver, de Yeonmi Park, que trata do mesmo tema. Então, senti vontade de recuperar este texto, escrito originalmente no meu antigo blog.

Apesar de ser um livro de poucas páginas, precisei de mais tempo que o habitual para concluir a leitura. Por ser um relato pesado e angustiante fiquei meio anestesiada, com um gostinho amargo na boca. Digerir todos os acontecimentos presentes na história foi uma tarefa árdua, algumas vezes precisei parar e desanuviar a cabeça. Em muitos momentos os olhos marejaram e o coração apertou… Que história tão triste!
Fuga do Campo 14 relata a história do coreano Shin In Geun, nascido e criado como prisioneiro em um campo de concentração na Coreia do Norte, o Campo 14uma prisão para inimigos políticos.
Nesse campo, a execução pública e o medo que ela gerava era tremendo. Os prisioneiros que infringiam as regras mereciam a morte. Qualquer pessoa que era pega fugindo ou apenas tramando uma fuga era fuzilada imediatamente. Não havia perdão.
O que mais me chocou na história de Shin In Geun foi saber que ele precisou pagar pelo “crime” do pai -, crime esse que ele só veio a tomar conhecimento depois de adulto. Seu pai havia sido condenado porque um de seus irmãos desertou para a Coreia do Sul. Isso mesmo, o pai de Shin In Geun virou prisioneiro apenas por pertencer à família de alguém que fugiu do país. E Shin, por sua vez, foi condenado a nascer e viver na prisão pelo mesmo motivo.
Ele cresceu numa atmosfera de medo, aprendeu a confiar em tudo aquilo que os guardas lhe diziam: que não podia fugir, que deveria delatar quem planejasse fugir, quem roubasse comida, quem falasse mal do governo -, isso incluía a todos, inclusive sua própria família.
Da mesma forma que confiava nos guardas, desconfiava de qualquer outra pessoa ao seu redor. Foi instruído desde muito pequeno a delatar seus familiares e colegas, sua recompensa por essa prestação de serviço era uma porção a mais de comida. Além disso, ajudava a surrar outras crianças como castigo e não sentia remorso nenhum por isso, não deixava transparecer emoção… havia sido criado para ser assim: duro e frio.

 

“Eu não sabia o que eram compaixão ou tristeza. Eles nos educavam desde o nascimento para que não fôssemos capazes de emoções humanas normais. Agora que saí de lá, estou aprendendo a me emocionar. Aprendi a chorar. Tenho a impressão de que estou me tornando humano.”

 

Shin ignorava completamente a existência de uma vida fora daquele campo, não imaginava nem em seus mais profundos sonhos o quão diferente e interessante o mundo lá fora podia ser. A história desse rapaz é muito triste, mas é também incrível. Até onde se tem notícia ele foi a única pessoa nascida e criada dentro de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte que conseguiu fugir. Sua fuga aconteceu no dia 2 de janeiro de 2005 e até onde é possível averiguar ele ainda é o único que teve êxito.
Aos 23 anos estava sozinho, não conhecia ninguém do outro lado da cerca elétrica, e mesmo assim conseguiu chegar a pé à China e sair do inferno que era o Campo 14. No entanto, Shin não conseguiu se desvencilhar totalmente das marcas, seu corpo é um verdadeiro mapa dos sofrimentos que decorrem de se crescer em um campo de trabalho forçado. Da mesma forma que seu corpo, sua mente também foi gravemente machucada com a lavagem cerebral que lhe foi feita desde o nascimento, daí sua dificuldade em aprender inglês, em chorar, em sentir compaixão e empatia pelo próximo. Shin conseguiu dar a volta por cima, mas ainda se martiriza e se culpa por todas suas atitudes durante a época em que vivia no Campo 14, por todas as coisas que precisou fazer para salvar a própria pele e, dessa forma, sobreviver.

 

blaine harden
Shin In Geun e Blaine Harden

Após a leitura, comecei a pesquisar mais sobre o que acontece na Coreia do Norte e fiquei chocada com a situação. Shin In Geun não foi o único a viver como prisioneiro na Coreia do Norte, como ele há muitos, infelizmente. A leitura foi bastante densa, deu um aperto no peito saber que nada posso fazer a respeito, só me resta mesmo desejar que um dia toda essa violência acabe e que todos possam ser finalmente livres, tratados com igualdade e humanidade. 😦
Atualmente Shin In Geun é um ativista dos direitos humanos.

 

Uma palestra de Blaine Harden sobre Shin In Geun:

Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

chinesas


Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…