Impressões de leitura#15: Os Miseráveis…

“Enquanto existir, fundamentada nas leis e nos costumes, uma condenação social que crie artificialmente, em plena civilização, verdadeiros infernos, ampliando com uma fatalidade humana o destino, que é divino; enquanto os três problemas deste século, a degradação do homem no proletariado, o enfraquecimento da mulher pela fome e a atrofia da criança pela escuridão da noite, não forem resolvidos; enquanto, em certas regiões, a asfixia social for possível; em outros termos, e sob um ponto de vista ainda mais abrangente, enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis.”                

 

miseraveis again

Ler ‘Os Miseráveis’ foi minha meta literária de 2013. Comecei a leitura no início de julho daquele ano, mas só consegui concluí-la mais de dois meses depois. A obra, publicada em 1862, é sensacional, mesmo assim não foi uma leitura que eu fiz de uma sentada, não por ter uma linguagem difícil ou por ser enfadonha, mas porque foi necessário tempo e dedicação já que trata-se de três volumes que somam quase 1500 páginas (eu li a edição publicada em 1981 pela já inexistente Círculo do Livro).

Os Miseráveis narra a história da personagem Jean Valjean e sua luta para redimir-se. O protagonista, um ex-prisioneiro das Galés, após ficar mais de vinte anos na prisão apenas por roubar um pedaço de pão para alimentar a família, está endurecido e amargurado pelas circunstâncias da vida, de modo que quando ele finalmente consegue a liberdade é um outro homem, completamente distinto daquele que entrou: bruto, revoltado e desonesto. Mas eis que Jean Valjean conhece o bispo Myriel, uma personagem bondosa, pura e generosa. É justamente esse bispo que vai fazer com que Jean Valjean decida transformar-se em um homem melhor e, sobretudo, em um homem disposto a ajudar aqueles que necessitam. Contudo, seu passado estará sempre batendo à sua porta, Jean Valjean será perseguido durante praticamente toda a vida. Seu perseguidor responde pelo nome de Inspetor Javert, o antagonista da história. Javert não é totalmente mau, mas é severo e tem obsessão por Valjean, pois ele acredita que alguém que cometeu delitos no passado não tem o direito de refazer a vida e não pode transformar-se em uma pessoa boa, por isso dedica-se a fazer a vida do protagonista impossível.

Além da história de Jean Valjean, conhecemos também a história de Fantine, uma jovem de origem humilde que, grávida, se vê abandonada pelo namorado. Conhecemos também Cosette, a filha de Fantine, que ainda menina é deixada a cargo da família Thérnadier, porque sua mãe não tem condições financeiras  para criá-la. Fantine precisa trabalhar em tempo integral para poder enviar dinheiro para que Cosette seja sustentada na casa dos Thérnadier.

A história se desenrola em torno de Jean Valjean e Cosette que em um dado momento têm suas vidas entrelaçadas. Além dessas personagens principais, conhecemos também Marius, o namoradinho de Cosette, o pequeno Gavroche, uma personagem surpreendente, e os Thérnadier, um casal desonesto e odioso.

O enredo é interessantíssimo, no entanto teria lido mais rápido se Victor Hugo tivesse contado apenas a história das personagens principais: sobre o incrível Jean Valjean, sobre a vida tão curta e miserável de Fantine, sobre o persistente Javert e sobre o lindo e inocente amor de Cosette e Marius. Mas o autor além de narrar a vida miserável de suas personagens, junta à história fictícia acontecimentos políticos de um período decisivo da história da França. Ele traça um retrato da sociedade parisiense da época (Século XIX) e faz uma descrição minuciosa da cidade: a pobreza existente, os personagens maltratados, condenados e injustiçados e, à medida que os anos vão passando, vai modificando essa mesma cidade aos olhos do leitor, muitas vezes fazendo digressões para comparar a cidade atual, decrépita e miserável -, àquela de outrora, feliz e opulenta.

 

“Estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que seja apenas para evitá-las. As contrafações do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, costuma falsificar o seu passaporte. Precavenhamo-nos contra o laço, desconfiemos dele. O passado tem um rosto, que é a superstição, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e arranquemos-lhe a máscara.”

 

O livro está recheado de personagens fortes, muito bem caracterizados, humanos, reais. O autor faz questão de colocar em evidência a luta do oprimido contra o opressor, sua vontade de revolucionar, de lutar por ideais, de lutar por bem-estar e por uma vida sem privações. Victor Hugo leva o leitor a fazer uma reflexão sobre os problemas daquela época e também sobre questões transcendentais do bem e do mal. Os Miseráveis é, a meu ver, um livro atemporal, porque se pararmos para pensar chegaremos à conclusão de que a pobreza, o maltrato e as injustiças continuam assombrando nossas vidas até hoje.

A história de Jean Valjean, Fantine, Javert, Marius e Cossete é sem dúvida o que mais prende o leitor… é interessante, é importante, mas não mais que os acontecimentos históricos que ocorrem ou ocorreram no país, isso nos fica bem claro durante toda a leitura. Algumas vezes precisamos ler muitas páginas seguidas apenas sobre esses acontecimentos, como por exemplo, sobre Napoleão Bonaparte e a Batalha de Waterloo e sobre a Revolução Estudantil e suas barricadas… Ah, então por isso foi chato e você demorou tanto para concluir a leitura? Não, demorei porque quis fazer pausas, desanuviar a mente, intercalar com outras leituras e também porque quis procurar mais informações acerca daquilo que o autor estava falando para melhor compreender o contexto histórico no qual a obra está inserida.

O fato de Victor Hugo misturar a história das suas personagens fictícias com personagens e acontecimentos reais faz com que seu livro seja mais interessante ainda. O autor não apenas entretém o leitor, mas o instrui também. As informações históricas que ele nos dá durante toda a narrativa são importantes e relevantes. Victor Hugo praticamente estimula aquele leitor mais curioso a correr atrás de mais e mais informações. Além disso, o escritor faz questão de mencionar várias vezes durante a narrativa que o conhecimento é mesmo a salvação da lavoura, que não somos nada se não nos informamos, se não procuramos aprender e se não buscamos alimento para nosso intelecto.

 

O crescimento intelectual e moral  não é menos indispensável que a melhora material. Saber é um viático; pensar é de primeira necessidade; a verdade é tão alimentar como o fermento. Uma razão jejuna de ciência e sabedoria fenece. Lastimemos, como se fosse, estômagos, os espíritos que não comem.
Se existe alguma coisa mais pungente que um corpo agonizante pela falta de pão, é uma alma que morre de fome de luz.

 


Sobre o autor:

 

Victor Hugo foi um político, poeta, dramaturgo e romancista francês. Nasceu em 1802 e morreu em 1885. Entre suas obras mais conhecidas podemos citar: Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame e Os Trabalhadores do Mar.

Deixo aqui duas adaptações para o cinema. Ambas as adaptações foram inspiradas na peça que, por sua vez, foi inspirada no livro de Victor Hugo:

 

*** Escrevi este texto em 2013 no meu antigo blog.

 

 

 

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