Impressões de leitura#8: O pintor de Cracóvia

“Não sou responsável do aqui exposto. O copiei diretamente da vida.”


cracoviaUltimamente tenho tido a sorte de fazer boas leituras. Coincidência ou nao, têm caído em minhas mãos livros perturbadores e tocantes. Um desses livros é o
Pintor de Cracóvia, que conta a história real de Joseph Bau, um sobrevivente do Holocausto.
Durante a leitura o leitor se depara com uma história de guerra, de desumanidade, de injustiça e de miséria, mas também com uma história de força, de luta, de esperança e, sobretudo, com uma história de superação.
Além de contar detalhes de sua vida nas ruas de Cracóvia e os horrores da guerra do princípio ao fim, Bau conta-nos também sua linda história de amor: um amor sem limites, um amor incondicional.
Ele fala carinhosamente sobre Rebecca, uma moça que conheceu no Campo de Concentração de Plaszow, na Polônia. Conta o que sentiu quando a viu por primeira vez, de como se apaixonou por ela e de seu casamento clandestino dentro do próprio campo de concentração. Explica-nos como burlou a segurança para consumar o matrimônio no barracão das mulheres. Fala do medo que sentiu ao ser surpreendido por policiais alemães que puniam com violência qualquer tipo de contato sentimental entre um homem e uma mulher. Narra de forma sensível suas dores, seus amores e desamores.
O que mais me tocou na história de Joseph e Rebecca foi perceber que apesar da opressão e do pavor eles não sufocaram o amor que sentiam. Seus corações estavam vivos e apaixonados, o amor que eles viveram foi muito grande, muito maior que a crueldade do nazismo, muito mais forte que  o medo… E isso foi lindo.

 

“Nos casamos às escondidas no Campo de Concentração de Plaszow. Celebramos nossa boda no dia de São Valentino por casualidade, porque no campo não éramos conscientes de que era o dia internacional do amor.”

 

Bau sobreviveu ao Holocausto porque foi trabalhar para Oskar Schindler. Rebecca, que havia sido selecionada para trabalhar na empresa de Oskar, por amor ao marido pediu que seu nome fosse substituído pelo dele. Depois que Joseph partiu, Rebecca Bau foi enviada para Auschwitz, um dos campos de concentração mais temidos. Em Auschwitz a escolheram três vezes para ingressar na câmara de gás, durante as três vezes ela conseguiu uma forma de se salvar.

 

silencio
O mundo se calou!

 

Joseph Bau escreveu este poema para Rebecca pouco antes da separação:

 

La Despedida

Aunque nuestra vida juntos fuera muy corta
Ahora debo partir
Me voy triste y desolado
hacia un destino dispuesto
por estos tiempos desesperados
por un camino sin señalizar
Hacia un destino burlón.
todo está preparado pra darme la bienvenida.
Me voy, pero cuando las puertas se cierren tras de mí
y reine un silencio momentáneo,
cuando el tiempo erosione mis huellas,
no pienses en mi con pesar,
porque atrás dejo muy poco:
el corazón de un poeta chiflado,
unas cuantas cartas, algunas odas dedicadas a ti,
una flor marchita y los sueños que soñamos
sobre los días que pasaríamos juntos,
y planes que, ai de mi, no se hicieron realidad
Recuerda nuestra casa soñada,
la que nunca fue,
tu despacho y el mio?
Querido Dios, por que no puedes ser amable?
Pero si, como predije, las cosas cambian,
y si los recuerdos perviven en tu mente,
piensa en mí a menudo,
sin la pena que ahora nos abate
Nuestros caminos volverán a cruzarse.
Entonces… por qué lloras?
No llores más, nos estés triste…
Porque, mira, yo también resisto…
Bueno, adiós, hasta la vista!
Dame otro beso y otro abrazo
y cuidáte,
mi amor querido y sagrado.

 

A narrativa de Joseph tinha tudo para ser apenas mais um relato triste, como muitos já conhecidos, mas não é. Sua história de vida durante esse período negro da História tocou-me profundamente n’alma.

Além de nos emocionar com sua narrativa tão sensível, Bau também nos presenteia com vários desenhos de sua própria autoria.

 


Sobre o autor:

 

bau

Joseph Bau nasceu em Cracóvia em 1920. Em 1950 emigrou para Israel, onde abriu seu próprio estúdio. Trabalhou em muitos filmes de animação chegando a ser conhecido como o Walt Disney israelita. Morreu em 2002.

** Não sei se o livro foi publicado no Brasil. O título original é Dear Got, Did You Ever Gone Hungry?
A poesia transcrita acima está tal qual encontrei no livro, infelizmente não tenho capacidade para traduzi-la, até porque acho que um poema quando traduzido perde muito de sua beleza e lirismo.

Impressões de leitura#7: Neve, Orhan Pamuk

“(…) o mal do mundo – isto é,  a pobreza e a ignorância dos pobres e a esperteza e dissipação dos ricos – e toda a vulgaridade do mundo, toda a violência, toda a brutalidade – isto é, todas as coisas que nos enchem de culpa – decorrem do fato de todo mundo pensar igual.”

 

neveCaso eu fosse uma pessoa influenciável teria desistido de ler Neve, não teria nem começado, porque entre as muitas opiniões que andei lendo por aí a grande maioria taxava o livro de lento e enfadonho. Porém, como eu prefiro tirar minhas próprias conclusões a respeito dos livros que me interessam, não dei muita importância e comecei a leitura mesmo assim. E tive uma grande surpresa, pois percebi que Neve não só deixa de ser lento e enfadonho como é um livro informativo, instigante e agradável.
Eu gostei muito da história criada por Orhan Pamuk, gostei da temática da obra, da forma como o autor conduz a narrativa e dos muitos dados sobre a Turquia que fornece. O livro tem quase 500 páginas repletas de informações políticas, geográficas e, principalmente, relacionadas à religião. Além disso, é também bastante poético.

A trama, ambientada na Turquia, conta a história de Ka, um poeta e jornalista que regressa a Kars, seu povoado de origem, após muitos anos de exílio político na Alemanha. Mas a cidade que Ka encontra não é mais a mesma de outrora, o vilarejo está diferente, as pessoas mudaram, agora Kars é um lugar repleto de conflitos. Como se não bastasse, há também uma onda de suicídios de garotas adolescentes. O suicídio das meninas é um dos motivos pelos quais Ka decide voltar à cidade, pois precisa escrever um artigo sobre a morte delas… O que mais chama a atenção do protagonista é como essas meninas se matam: “Uma maneira abrupta, sem nenhum aviso prévio, no meio de seus afazeres diários.”
A parte mais interessante da história é quando Pamuk – para explicar as razões que levam as adolescentes a atentar contra a própria vida, adentra o tema da religião, mostrando os conflitos existentes no país: o dilema da Turquia contemporânea; a rinha entre fanáticos religiosos e ateus; a hostilidade existente entre os seguidores do islã e os defensores do Estado.
“O Estado, que proibiu que mulheres entrassem nas salas de aula com a cabeça coberta, afirma que o manto é um símbolo do islã político, que impede que as mulheres gozem dos mesmos direitos dos homens. O islã, que defende o manto, assegura que seu uso é uma forma de protegê-las e valorizá-las.”

O pano de fundo é justamente essa discussão acalorada acerca da necessidade de usar ou não usar o manto, de cobrir ou não cobrir a cabeça. É um tema bem explorado durante toda a narrativa, um assunto bastante controverso, “pois muitas mulheres são a favor de abandonar o manto, porque o consideram uma forma de repreensão religiosa. Outras, no entanto, o defendem, pois acreditam que seu uso é uma forma de proteção contra assédio, estupro e a degradação da mulher. Inclusive há aquelas que acreditam que o manto traz respeito, dignidade e um lugar mais satisfatório na sociedade.”

Ka, apesar de possuir um certo interesse pela religião, não tem muito claro se é ateu ou se tem fé em algo. Algumas vezes sente-se culpado por ter se recusado durante praticamente toda a vida a acreditar no mesmo Deus daquelas pessoas que ele considera não instruídas. Ele mostra-se visivelmente confuso, por isso sua visita a Kars vai servir também como uma forma de aproximação com Deus, um reencontro consigo mesmo, uma nova oportunidade de reavaliar sua fé, de decidir de que lado está realmente.

 

“Não conseguia ver como poderia conciliar essa minha nova identidade europeia com um Deus que exigia que as mulheres se cobrissem com mantos, então tratei de excluir a religião de minha vida. (…) Eu quero um Deus que não me peça para tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para beijar as mãos das pessoas. Eu quero um Deus que entenda a minha necessidade de solidão.”

 

Mas, e as meninas suicidas, por que elas se matam? O suicídio delas tem algo a ver com a proibição de usar o manto? O que elas pretendem com isso, defender o islã ou apenas protestar contra o Estado?
São muitas as perguntas colocadas por Pamuk e, no meio de todo esse turbilhão de contestações, informações e conflitos, o livro ainda se encarrega de relatar uma história de amor: a história de Ka e Ipek.
Ipek foi uma antiga companheira de escola de Ka, revê-la foi outra das razões que fez ele regressar a Kars. A história do casal é bonita, sensual e cheia de encontros e desencontros.

A narrativa é bastante bonita, quando o narrador fala sobre a neve, sobre a claridade da neve e sobre os poemas que Ka escreve inspirado pela neve é bastante comovente, profundo e poético. A brancura da neve é sugestiva, inspiradora e se encarrega de trazer à tona o lado mais lírico do poeta e protagonista Ka.

Neve é um suspense político bem narrado e com informações muito bem amarradas. Recomendo!

 

Sobre o autor:

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Orhan Pamuk nasceu em 1952, em Istambul. Hoje é o principal romancista turco, traduzido em mais de 40 idiomas. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2006.