Impressões de leitura#5:Miramar, Naguib Mahfuz


“É bom que encontremos alguém com quem compartilhar a solidão”

 

miramar2Eu não sabia quase nada sobre o Egito. Devo ter estudado no colegial alguma coisa sobre as pirâmides, sobre o rio Nilo, sobre Cleópatra e Nefertiti, mas meu conhecimento acerca da História mais recente desse país era praticamente nulo. Estava até um pouco preocupada achando que me faltariam as informações necessárias para entender bem o enredo de Miramar. Mas eis que me deparo com um excelente prefácio da tradutora, Isabel Hervás Jávega – que fez a tradução direta do árabe para o espanhol.

De forma pertinente, Isabel faz um apanhado da História Sócio-Político do Egito, desde a chegada de Napoleão Bonaparte, em 1798, até o governo de Gamal Abdel Nasser. Ela fala sobre a história do país durante o domínio inglês, mostra-nos como a poderosa Inglaterra interferia e controlava assuntos internos, tanto políticos como econômicos e financeiros. É justamente nessa época que são fundados os primeiros partidos políticos do Egito: O Partido Nacionalista e o Partido do Povo. Esses partidos tinham como principal objetivo criar um sistema constitucional assim como expulsar os ingleses do território nacional. Com a iminência da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra declara o Egito território britânico assegurando assim o controle do país e das matérias primas egípcias.

Mais tarde aparece uma nova força política que se transformaria no partido Wafd (Partido Político Nacionalista Liberal). O Wafd tentou expor suas demandas de independência, mas Saad Zaghloul, seu líder, foi punido com o exílio. Anos depois, em 1936,  Saad regressou ao país e conseguiu que fosse declarada a independência do Egito. No entanto, foi só em 1954, após a chegada de Gamal Abdel Nasser ao poder, que as reclamações históricas das massas menos favorecidas começaram a ser levadas em consideração. Nasser implantou um Estado de Corte Socialista e nacionalizou os recursos do país. Ainda assim, Nasser não deixou de ser considerado um personagem obscuro e seu governo, para os próprios egípcios, foi marcado como uma época de repreensão política, censura ideológica e corrupção industrial.
Toda essa história política e social, sobretudo durante o governo de Nasser, é pano de fundo do livro Miramar. Isabel Hervás Jávega colabora com um excelente trabalho, fornecendo informações relevantes que ajudam o leitor a compreender muito bem o contexto histórico em que a obra de Naguib Mahfuz está inserida.

A história se desenrola em Alexandria, na pensão Miramar, onde habitam os sete personagens principais. A ação ocorre nos anos 60 (em um curto período de tempo) e nos mostra, além da interação dos moradores da pensão, a situação em que o país vivia naquela época.
O livro é composto de quatro capítulos, cada um deles tem como título o nome de um personagem. Há, porém, outros três personagens que embora sendo importantes na história não possuem capítulos próprios.

Cada capítulo é narrado em primeira pessoa pelo personagem que o intitula. O narrador-personagem faz pequenas digressões e vai acrescentando pouco a pouco fatos do seu passado, fazendo uma espécie de diálogo entre passado e presente. Como grande parte da história se passa dentro da Pensão Miramar, acredito que essas digressões são estratégias do autor para quebrar a monotonia da narrativa e tornar a leitura mais instigante. Além disso, essas voltas ao passado permitem que o leitor conheça de fato a história de vida dos moradores da pensão e possa, assim, mergulhar mais profundamente nas dores de cada um deles.

Um dos hóspedes da Pensão Miramar aparece morto (isso não é um spoiler, pois já ficamos sabendo nas primeiras páginas do livro). Esse acontecimento muda os ânimos de todos que vivem na pensão e é o ponto de partida da história. À medida que avançamos tomamos conhecimento que o importante não é o crime em si, mas o que realmente aconteceu com os personagens nos dias que antecederam esse crime.
Os detalhes nos são contados pelos quatro personagens principais que possuem capítulos próprios, a partir da perspectiva de cada um deles. O mais interessante é que apesar do tema ser o mesmo – a morte do tal hóspede – os fatos são alterados de acordo com o ponto de vista de cada narrador. Chega um momento que o leitor pensa que já sabe tudo o que aconteceu, como aconteceu e o porquê de ter acontecido, então começa um novo capítulo, o narrador muda, a perspectiva muda e começamos a ver a história a partir de um ângulo completamente novo outra vez.

Mesmo a história girando em torno de um crime, esse não é o tema principal de Miramar, percebemos isso quando entramos em contato com os personagens, conhecemos seus defeitos, suas qualidades, seus medos, seus sonhos… Nos damos conta que cada um deles, à sua maneira, está perdido. Embora física e moralmente diferentes, todos os personagens têm um ponto em comum: estão sós no mundo. Vivem em uma pensão, encontram-se todos os dias, compartilham refeições, mantêm acaloradas conversações, mas são solitários. Acredito que o tema principal de Miramar é justamente esse: a solidão. Os personagens estão acompanhados, mas sentem-se sós. E isso é triste, muito triste!

Sobre o autor:

naguib

Naguib Mahfuz foi um escritor egípcio, nascido no Cairo, em 1911. É considerado um dos primeiros escritores contemporâneos da literatura árabe. Seus romances mais conhecidos são Miramar (1967) e os que compõem A Trilogia do Cairo (1957). Suas obras foram traduzidas para várias línguas. Em 1988 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em 2006.