Impressões de leitura#3: A máquina de fazer espanhóis…

“a vida tem dessas coisas, quando não esperamos mete-nos numa grande história. bem, ou num grande poema, que também acaba por contar uma história”.

maquina2A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, conta a história de António Silva, um português de 84 anos que perde a esposa após 48 anos de vida em comum. Logo após a morte da companheira sua vida muda drasticamente, seus filhos nao têm mais tempo para ele e, de certa forma, o obrigam a viver em um asilo.
A história de António Silva tem um quê de melancolia, nos deparamos com um homem letárgico, entristecido pela morte recente da esposa, que sente-se abandonado pelos filhos e que tem como única saída adaptar-se a seu novo e diferente modo de vida. Apesar de viver acompanhado por outras pessoas, na mesma situação que a sua, nao deixa de sentir-se solitário, passa os dias perdido em suas lembranças do passado e suas dúvidas acerca do futuro. No início da narrativa António Silva é um homem avesso a conversas, ensimesmado e entorpecido pela dor da perda.

 

“perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso é preciso que superemos os nossos aniversários, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião. as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia, os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. as sopas que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos, um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis, porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que vai nos dilacerar impiedosamente, porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo”.

 

Porém, no decorrer da história, nosso protagonista sai de seu casulo e vai recuperando o humor e a alegria pouco a pouco. A vontade de viver, perdida a partir da morte da esposa e do abandono dos filhos, é recuperada no momento em que ele decide se relacionar com os outros moradores do asilo. António Silva inicia uma relação de amizade e companheirismo com as outras personagens: o Américo, o Doutor Bernardo e o espetacular Esteves sem metafísica.
Toda a narrativa leva o leitor a refletir sobre a sociedade portuguesa, sobre a política na época da Ditadura de Salazar – que marcou profundamente a vida das personagens -, sobre o amor na terceira idade, sobre a solidão decorrente da senilidade, sobre o valor da amizade e do companheirismo e, sobretudo, sobre a dor da perda. O autor faz um relato brilhante sobre a velhice e sobre a morte que, nessa altura da vida, é inexorável.

 

“um problema com o ser-se velho é o de julgarem que ainda devemos aprender coisas quando, na verdade, estamos a desaprendê-las, e faz todo o sentido que assim seja para que nos afundemos inconscientemente na iminência do desaparecimento. a inconsciência apaga as dores, claro, e apaga as alegrias, mas já não são muitas as alegrias e no resultado da conta é bem visto que a cabeça dos velhos se destitua da razão para que, tão de frente à morte, não entremos em pânico. a repreensão contínua passa por essa esperança imbecil de que amanhã estejamos mais espertos quando, pelas leis mais definidoras da vida, devemos só perder capacidades. a esperança que se deposita na criança tem de ser inversa à que se nos dirige”.

 

Além de escrever sobre a derradeira fase da vida de uma forma admiravelmente bela, Valter Hugo Mãe me conquistou mais ainda por ter dado vida ao Esteves sem metafísica. Sim, ele mesmo, do famoso poema Tabacaria, de Álvaro de Campos. Adorei sua criatividade e coragem para tomar posse de uma personagem de Fernando Pessoa, isso acabou me fazendo lembrar de Saramago que se apropriou de um dos heterônimos de Pessoa para escrever o sensacional “O ano da morte de Ricardo Reis”.

Hugo Mãe tem uma forma bastante peculiar de escrever, ele não costuma utilizar letras maiúsculas, o que dá um charme todo especial à escrita. Aliás, é justamente isso que tanto me agrada nele, pois além da capacidade de emocionar o leitor com a sensibilidade de suas personagens, sua forma tão sua, tão própria de escrever, conquista quem o lê.

Adorei A máquina de fazer espanhóis, me encantei com a forma como é contada a história e indico para todos aqueles que, como eu, gostam de livros delicados e emotivos.

 

Sobre o autor:

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Valter Hugo Mãe é um escritor português, nascido em Angola, em 1971. É ainda jovem, mas com uma carreira literária de causar inveja. Vencedor de vários prêmios literários, como o conhecido Prêmio José Saramago, e com um talento fora do comum para criar personagens fortes e ao mesmo tempo emotivos, Hugo Mãe conquistou respeito, admiração e um lugar respeitável na literatura portuguesa contemporânea.

 

Um vídeo do poema Tabacaria:

 

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.