Revisitando#1: Memorial do Convento

Revisitando é um espaço que criei aqui no blogue para compartilhar com vocês as minhas releituras. Decidi reler livros que fizeram parte da minha vida, livros que por alguma razão voltam sempre à minha memória. Farei uma nova leitura deles, em primeiro lugar, para relembrar detalhes já meio adormecidos, e em segundo, para saber se minha opinião mudou, se com a releitura a obra ganhou ou perdeu o encanto. A intenção é escrever sobre a forma como o livro me tocou, sobre as dificuldades que tive no decorrer da leitura, se gostei, se não gostei e o porquê de ter ou não ter gostado, além de fazer um pequeno resumo da história.

Memorial_do_convento_(48ª_edição)

Neste primeiro revisitando, quero escrever um pouquinho sobre Memorial do Convento, de José Saramago, um romance histórico publicado em 1982.
O livro traz duas narrativas, ora paralelas, ora misturando-se entre si. A primeira narrativa é sobre a construção do palácio-convento de Mafra, a mando de D. João V, monarca português que subiu ao trono em 1681.

D. João vivia angustiado com a continuidade de sua dinastia, ameaçada pela possível esterilidade da rainha Maria Josefa. Por essa razão, o monarca mandou construir o convento, foi uma espécie de oferenda a Deus em troca de um herdeiro.

 

“D. João, quinto de nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura a corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim.”

 

O convento, de uma magnitude impressionante, levou treze anos para ser construído. Foi concluído em 1730 deixando para trás muitos mortos e trabalhadores explorados ao extremo -, mostrando claramente a força, o poder e a tirania que os nobres possuíam naquela época. Para a construção do convento foram convocados todos os homens válidos do país, muitos deles apanhados à força, amarrados e enviados a Mafra. O rei gastou quantias exorbitantes para construir um palácio-convento que tivesse anexo um palácio real e uma basílica, além de capacidade para abrigar trezentos frades franciscanos.

A segunda narrativa, porém, não trata de feitos históricos como é o caso de D. João V e seu Convento de Mafra, conta a fictícia e belíssima história de amor entre Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
Baltasar era um homem de bom caráter, maneta, revolucionário e cristão, foi um dos recrutados por D. João V para trabalhar na construção do convento. Blimunda era uma nova cristã, uma mulher que tinha poderes mágicos, que conseguia enxergar o interior das pessoas.
Baltasar e Blimunda apaixonam-se e, desafiando os rigores da Inquisição, selam seu amor mediante um pacto de sangue. Em um dado momento Baltasar e Blimunda perdem-se um do outro, é então que começa a parte mais bonita e também mais triste da história. Blimunda é fiel ao seu amor e passa nove anos a procurá-lo desesperadamente, ela cruza o país por sete vezes tentando encontrá-lo.

Saramago nos conta também a história da Passarola, uma máquina voadora que existiu realmente. A Passarola foi projetada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, figura essa inspirada em uma personagem real, um sacerdote brasileiro conhecido como “padre voador”. O escritor acrescenta detalhes ficcionais à história verídica, como por exemplo, o fato de que para que a passarola voasse seriam necessárias vontades humanas. Blimunda, por causa de seus poderes mágicos,  foi a escolhida para recolher as vontades humanas necessárias para que a máquina levantasse voo. Baltasar e Blimunda tiveram uma grande e importante participação na construção da Passarola, foram as duas pessoas de confiança do Padre Bartolomeu de Gusmão.

Com muita ironia, Saramago descreve a História de Portugal do Século XVIII: as epidemias, as guerras, os abusos por parte daqueles que estavam no poder, as atrocidades e injustiças cometidas em nome da Santa Inquisição. O narrador faz uma crítica acirrada ao clero e, principalmente, à nobreza, mostrando claramente um D. João V como um rei arrogante, ignorante, megalomaníaco e perdulário. Enquanto o rei é ridicularizado, o povo, que foi quem de fato trabalhou e construiu o convento de Mafra, é mostrado como o verdadeiro heroi.
Saramago descreve ainda o amor puro, as festas religiosas, a esperança, a luta para a concretização de um sonho e a fé naquilo em que se acredita.

Eu fiquei um bocado intrigada com o autor, pois achei difícil me adaptar a seu estilo de linguagem. Quem o conhece sabe que este escritor português tem uma escrita bastante peculiar, muito própria, muito sua, isso acaba gerando um pouco de dificuldade em alguns leitores quando entram em contato com sua obra por primeira vez. A pontuação que ele utiliza é fora dos padrões convencionais. A vírgula, por exemplo, é usada como substituta de quase todos os outros sinais de pontuação, obrigando o leitor a participar intensamente, precisando identificar as frases como interrogativas ou exclamativas à medida que vai lendo. A linguagem escrita aproxima-se muito da linguagem oral… Foi justamente esse estilo diferente e inédito que me fez voltar várias no texto para melhor compreendê-lo. Acredito que essa foi a grande dificuldade que encontrei na primeira leitura.

Nesta segunda leitura, Memorial do Convento me agradou mais ainda, não sei se isso está relacionado com o fato de ter sido o primeiro livro desse escritor que li ou se foi pela história propriamente dita, que eu achei bonita que só! A grande diferença que notei desta vez foi a falta de dificuldade em seguir a narrativa. Agora, mais de dez anos após meu primeiro contato com a literatura de Saramago, a leitura fluiu maravilhosamente bem. Eu, finalmente, me acostumei com o estilo do autor, além disso continuo adorando a bela história de amor de Baltasar e Blimunda.

Com sua escrita crítica, irônica e bem-humorada, Saramago conseguiu me conquistar outra vez, então posso garantir: Memorial do Convento não perdeu nem um pouquinho do seu encanto, será sempre um dos meus livros preferidos.

 

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Convento de Mafra
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Eu no Convento de Mafra

 

Sobre o autor:

memorial3

José Saramago foi um escritor português, nascido em Azinhaga, em 1922. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Faleceu em 2010, na Espanha.

 

Um vídeo sobre Memorial do Convento (contém spoilers)

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