Impressões de leitura#2: O tempo e o vento (contém spoilers)

“1745. No topo de uma coxilha, uma índia grávida, perdida no imenso deserto verde do Continente. O filho que traz no ventre é de um aventureiro paulista que a preou, emprenhou e abandonou. A criança nasce na redução Jesuítica de São Miguel, onde a bugra busca refúgio. A mãe morre durante o parto, esvaída em sangue. Esse bastardo, um menino, virá a ser um dos troncos da família que vai ocupar o primeiro plano do romance e que bem poderá ser (ou parecer-se com) o clã Terra-Cambará. Veríssimo traçou um ciclo que começou nesse menino e veio a encerrar-se duzentos anos mais tarde.”  

                                                                                         

Há tempos eu tinha vontade de ler na íntegra O Tempo e o Vento, obra-prima de Erico Veríssimo. Já tinha lido alguns trechos avulsos por aí, no entanto o medo de me comprometer com um romance assim tão longo me fez adiar essa empreitada muitas vezes… porque eu tenho tendência a fugir de calhamaços.

Na adolescência assisti a uma minissérie baseada no romance, só que naquela época eu não sabia que essa adaptação era apenas de partes da obra, isso me levou a achar que o Tempo e o Vento contava apenas a história de Ana Terra, Capitão Rodrigo e Bibiana. Mas não, trata-se de uma obra bastante mais extensa, dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Cada uma dessas partes está carregada de informações políticas, históricas e culturais acerca do povo gaúcho.

Erico Veríssimo conta a saga de uma família gaúcha e de sua cidade, Santa Fé, através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo. A narrativa abrange toda a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul, iniciando por volta de 1745 até 1945. Veríssimo nos dá de presente muita informação pertinente e interessante sobre o Brasil. Ele nos mostra – durante 200 anos – as mudanças significativas que ocorreram  e o rumo que o país vai tomando à medida que a história vai sendo contada. Nos mostra as lutas de fronteiras, a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai. Nos apresenta Bento Gonçalves e sua luta em prol de uma república federativa. Fala também, incansavelmente, sobre Getúlio Vargas e seu Estado Novo. Nos presenteia com personagens fictícios inesquecíveis: Capitão Rodrigo Cambará, Bolívar, Licurgo, Fandango, Liroca, Don Pepe García, Tio Bicho, doutor Rodrigo Terra Cambará e seu irmão Toríbio e, finalmente, Floriano. Sem esquecer as personagens femininas, personagens fortes e importantíssimas no romance: Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. E também as personagens mais jovens, porém não menos importantes: Flora Quadros, Luzia e Silvia… As mulheres de Santa Fé, aquelas que não iam para a guerra, mas que viviam a guerra e todos os seus dissabores no corpo e na alma, na exaustante tarefa de rezar e esperar.

“Sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria não existiria o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os herois pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhes davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.”

Apesar de ter demorado mais do que pretendia para concluir a leitura, li com satisfação e alegria, em nenhum momento a leitura ficou arrastada, mesmo longa foi muito agradável e entretida.
Eu sofri com Ana Terra e sua vida tão difícil. Ri alto com o Capitão Rodrigo Cambará e sua célebre frase: “Cambará macho não morre na cama”… Que personagem danado de sensual e destemido!
Senti pena de Flora Quadros e sua vida melancólica. Tive vontade de colocar Floriano no colo e niná-lo. Desejei muitas vezes bater um papo com o espanhol Don Pepe García e passar uma tarde só ouvindo Tio Bicho e suas teorias. Adoraria ficar escutando Toríbio contar sobre suas aventuras na guerra e suas conquistas amorosas. Admirei a perseverança de Bibiana e a postura sempre forte e altiva de Maria Valéria. Quis, mais de uma vez, dar uns tapas na cara do Dr. Rodrigo Terra Cambará… Valha-me Deus, que homenzinho pedante! Mas, apesar de seu pedantismo, seus exageros e cafajestadas, doutor Rodrigo Cambará com seu lado humanitário, sua demonstração de generosidade e sua tendência em ajudar os mais necessitados, me conquistou. Sua morte, no fim do romance, me emocionou muito, por isso ele acabou sendo um dos meus personagens preferidos.

“Com o doutor Rodrigo não morre apenas um homem. Acaba-se uma estirpe. Finda uma época. O que vem por aí não sei se será melhor ou pior… só sei que não será o mesmo. Mas que teu pai era um homem inteiro, Floriano, isso era.”

O romance é maravilhoso. Já estou com saudades.

Sobre o autor:

Erico Veríssimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 1905. Na juventude foi bancário e sócio de uma farmácia. Em 1947, Erico Veríssimo começa a escrever O Tempo e o Vento. Recebeu vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Faleceu em 1975.

Deixo abaixo um vídeo da minissérie, exibida em 1985. Para mim o Capitão Rodrigo terá sempre a cara do Tarcísio Meira. 🙂

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