Um livro e uma rosa pra você!

Parabéns a São Jorge, o destemido cavaleiro que matou o dragão e salvou a princesa!

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Feliç Diada de Sant Jordi

Uma das coisas que eu mais me lembro e tenho saudade do tempo que morei em Barcelona é do dia de Sant Jordi (São Jorge). Quando cheguei por lá, em meados de 1996, não tinha muita ideia sobre esse feriado e as suas diferentes formas de comemoração. Embora eu já tivesse uma relação muito próxima com os livros, antes dessa época eu não sabia que havia um dia comemorativo oficial, por isso foi uma surpresa o modo tão lindo e original como os catalães celebram essa data. 
Na Catalunha, principalmente em Barcelona, homens presenteiam as mulheres com uma rosa e mulheres presenteiam os homens com um livro. A cidade fica bem mais alegre e movimentada, com pequenos quiosques que vendem livros e flores espalhados pelas ruas.

Não se sabe exatamente quando começaram a oferecer rosas às mulheres no dia de São Jorge, mas dizem que esse costume está relacionado com uma lenda muito antiga. Conta a lenda que havia um dragão feroz aterrorizando um vilarejo ao Sul da Catalunha. Para evitar que essa fera atacasse a cidade, cada dia lhe era oferecido uma jovem donzela, escolhida mediante um sorteio. Um dia, a princesa do reino foi a sorteada e precisou ser entregue ao dragão. Quando estava quase a ser devorada, apareceu São Jorge – um valente cavaleiro – que lutou contra o dragão matando-o com sua espada certeira, salvando, dessa forma, a vida da princesa. Do sangue do dragão nasceu uma rosa vermelha. São Jorge, que além de cavaleiro era também cavalheiro (rsr), presenteou a princesa com a rosa.

Já o ato de oferecer livros começou tempos depois, embora algumas pessoas também associem essa parte da tradição à lenda dizendo que foi porque a princesa escreveu um poema de amor ao cavaleiro valente, sabe-se que o dia do livro começou a ser festejado apenas a partir do dia 7 de outubro de 1926 em homenagem ao nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes. No entanto, em 1930 trocaram a data para 23 de abril, dia da morte de Miguel de Cervantes e também de Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega. Creio que essa é na verdade a explicação mais acertada para essa comemoração.
Devido à tradição tão bonita que ocorre na Catalunha a Unesco declarou em 1996 o dia de São Jorge como o Dia Internacional do Livro e também do Direito de Autor.

Parti de Barcelona em meados do ano 2000, mas nunca esqueci e nem deixei de celebrar o dia de São Jorge da forma como o povo da Catalunha celebra. Mesmo quando não encontro ninguém que possa me presentear com um livro ou uma rosa, eu mesma me faço esse mimo.

Meu mimo deste ano:

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Paulina Chiziane, escritora moçambicana

E, como dizem os catalães: Feliç Diada de Sant Jordi a todos vocês!

Florbela Espanca, a poetisa do coração!

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”

Florbela_Espanca1Passou já bastante tempo desde que li pela primeira vez um poema de Florbela Espanca. Acho que foi em 2002, quando folheando uma revista literária, encontrei um texto seu. Fiquei tão fascinada com suas palavras que na primeira oportunidade que tive comprei um livro. Desde então, nunca mais consegui me separar desse livro… tenho-o sempre à mão, leio-o, releio-o, rabisco-o.
Os poemas de Florbela são sentimentais e tocantes, quando os leio é impossível não me sentir assim: completamente arrebatada.
Sua poesia trata de amor e paixão de uma forma muito linda e sensual, aliás, o erotismo é uma característica muito forte na obra da escritora. Florbela consegue ser sensual sem perder a feminilidade e a elegância, pois a sensualidade presente em seus poemas é sutil, contida, delicada, não fere a sensibilidade do leitor.
Ela soube viver apaixonadamente e com grande intensidade a sua vida amorosa, percebemos isso claramente quando entramos em contato com sua obra.

 

“(…) se tu viesses quando,
linda e louca,
Traça as linhas
dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e
canta e ri

E é como um cravo ao sol a
minha boca…
Quando os olhos se me
cerram de desejo…
E os meus braços se
estendem para ti…”

 

A tristeza e a morte são também outros temas recorrentes em sua poesia. Alguns poemas possuem um tom lúgubre e se encarregam de revelar a outra faceta da escritora, a de uma mulher atormentada e inconformada. Nesses poemas ela deixa transparecer um certo desespero, uma tristeza profunda, tristeza essa que parece ter acompanhado a escritora durante toda a vida.

 

“(…) Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do mar, toda essa água
Trago-as dentro de mim num mar de mágoa!
E a noite sou eu própria! A noite escura!

 

Apesar desse tom melancólico tão comum em sua escrita, é impossível desgostar da poesia de Florbela, é impossível não se sentir tocado por ela ao entrar em contato com suas palavras.
Florbela é a poetisa do amor, da quimera e da saudade, é uma das figuras femininas mais representativas da poesia portuguesa do século XX.

E para revelar ainda mais esta poetisa, de tal forma que ela não se confunda com outra, nada melhor que um soneto seu, um dos mais belos:

 

Eu quero amar, amar perdidamente
Amar só por amar: aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda gente…
Amar! Amar! E não amar ninguém

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante toda a vida é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar!…

 

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Meu primeiro livro. É uma seleção de poemas esparsos

 

Seus poemas são tão admirados que já foram musicados algumas vezes. Deixo aqui dois vídeos: um de Fagner e Zeca Baleiro, cantores brasileiros. Outro de Mariza, fadista portuguesa.

 

 

Há alguns anos foi lançado o filme Perdidamente Florbela de Vicente Alves, sobre  a vida da poetisa. Deixo aqui o trailer pra quem tiver interesse em conhecer um bocadinho mais a escritora:

Florbela Espanca faleceu no dia 8 de dezembro de 1930, dia em que completaria 36 anos.

Declarando meu amor por Buenos Aires

“A mí se me hace cuento que empezó Buenos Aires: La juzgo tan eterna como el agua y el aire.” (Jorge Luis Borges)

Gosto muito de ler blogues de viagem. Gosto mesmo! Embora o objetivo do meu nunca tenha sido fornecer dicas para este ou aquele viajante, de vez em quando eu também acabo meio que entrando nessa onda e menciono alguns lugares que visitei por aí. Dando uma relida nos meus textos antigos, chamou muito a minha atenção o fato de nunca ter falado nada acerca de Buenos Aires, cidade na qual vivi de julho de 2007 a julho de 2011. Só agora, mais de quatro anos após minha partida, posso falar com o coração mais sossegado sobre o tempo tão especial que vivi por lá.

Eu não sei vocês, mas eu tenho uma grande dificuldade em escrever sobre coisas que me marcaram, coisas pelas quais guardo qualquer tipo de sentimento; acho difícil porque quase nunca encontro as palavras certas, não consigo disfarçar a emoção – o que para muitos pode soar como afetação.

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Mi Buenos Aires Querido!
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La Boca

A minha relação com Buenos Aires foi muito estranha, uma relação de amor e ódio. Quando eu soube que me mudaria pra lá e que ficaria por quatro anos a primeira reação foi de irritação. Eu não queria, não tinha a mínima vontade. Sentia uma antipatia pela cidade a ponto de não fazer questão sequer em conhecê-la. Não me perguntem a razão porque não faço a mínima ideia. Às vezes penso que isso podia estar relacionado com a rixa existente no futebol entre Brasil e Argentina. Aí penso melhor e me dou conta que eu nunca fui uma pessoa tão ligada assim a futebol, desse modo, essa não seria uma razão plausível. Outras vezes penso que eu era como aquelas crianças birrentas que nunca provaram certo tipo de comida mas dizem taxativamente que não gostam e pronto… Ah, sei lá, deve ter sido algo do tipo.
Meu desejo era morar em um lugar bem diferente, algum país na África, talvez Austrália ou quem sabe até Inglaterra. Mas me ofereceram Buenos Aires, era pegar ou largar. Peguei.

Não foi difícil a adaptação apesar de achar os argentinos meio fechados (não levem isso tão a sério, talvez a fechada seja mesmo eu… rsr), mas no fim das contas fiz amizades que duram até hoje.
A língua eu já conhecia, então, um problema a menos. O inverno, um tanto rigoroso se comparado ao inverno brasileiro, nem chega perto do inverno alemão (que eu também já conhecia) então, outro problema a menos.

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El Obelisco
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Cemitério de La Recoleta
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Puente de la Mujer

Houve momentos ruins? Claro que sim! Mas o que quero evidenciar aqui são os momentos bons, que foram muito melhores.

Na Argentina comi o verdadeiro alfajor, o típico asado e as deliciosas medialunas. Bebi o tal mate, que para meu paladar é amargo pra caramba, mas dizem que ajuda a emagrecer, gente! Encantei-me com a literatura de Borges e Cortázar. Sonhei acordada com a poesia de Alfonsina Storni e Alejandra Pizarnik. Fui várias vezes a shows de música no Gran Rex e Luna Park. Escutei Gardel vezes sem conta, tanto que aprendi de memória o tango “Por una cabeza”.
Fui ao Show do Spinneta (ainda bem, pois um ano depois ele se foi) e Fito Páez. Encantei-me com os olhos verdes de Ricardo Darín e sua atuação perfeita.
Vivia metida nas livrarias Yenny, Boutique del Libro e El Ateneo, principalmente naquela lindíssima que fica na Av. Santa Fé. Fui assistir a uma apresentação de balé no Teatro Colón, o teatro mais lindo que meus olhos já viram. Tomei meu chazinho no Café Tortoni e tirei fotos com as estátuas dos literatos que lá habitam. Apesar de clichê, eu adorava passear em La Boca – um bairro pitoresco, alegre e colorido – e de quebra ainda fiz aquelas fotos ridículas com os dançarinos de tango que se apresentam na rua (Sim, me julguem…rsr).

Vezes sem conta fiquei sentada no gramado em frente ao Rio de la Plata apenas para admirar a natureza e sentir a brisa no rosto. Encantei-me com as luzes da Avenida 9 de Julio e sempre me fascinava com o imponente Obelisco, monumento que tem a cara da capital porteña. Mesmo tendo medo dos mortos, fui mais de cinco vezes ao Cementerio de la Recoleta, e quando saía de lá sentava-me em algum café para admirar o vai e vem das pessoas do bairro – um lugar tão lindinho e que respira arte.

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Floralis Generica
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Puerto Madero
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Casa Rosada

Perdi-me tantas vezes nas calles antigas de San Telmo, fiquei por horas procurando algum objeto interessante para comprar na feirinha de pulgas. Fui vezes sem conta a Plaza de Mayo e todas as vezes tirei fotos na Casa Rosada, como qualquer turista que se preza, né?!

E Puerto Madero, então? Ah, lugar bonito e moderno, cheio de vida e decorado pela Puente de la Mujer, que com sua arquitetura simples, porém charmosa, encanta quem a visita. Sobre a Calle Florida, falar o quê? Que tem a cara de qualquer turista brasileiro que acha que Buenos Aires é lugar para fazer compras baratas… Ledo engano, minha gente, pois eu estive por lá e nunca comprei nada, só queria mesmo caminhar e tomar um capuccino delicioso nas Galerías Pacífico.

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Jardim Japonês
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Museu de Arte Latino Americano
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El Ateneo, livraria linda

Na hora de bater perna fui inúmeras vezes ao Parque de Palermo, entrei no Zoológico, no Jardín Botánico e no Planetário. Fui ao Jardín Japonés, ao Rosedal e à Floralis Genérica, aquela famosa flor de metal que abre de manhã e fecha à noite. Fiz várias vezes o passeio no Tren de la Costa e também o passeio de barco pelo Rio Tigre… Marquei ponto no Malba (Museu de Arte Latinoamericano) -, que naquela época tinha uma programação literária incrível. Até hoje o museu ainda oferece excelentes atividades literárias, confira o calendário dessas atividades aqui.

Algum arrependimento? Sim, de durante esses quatro anos não ter aproveitado para aprender a bailar un tango caliente.


Às vezes ainda encontro pessoas que me perguntam: então, o que você achou de Buenos Aires? Conseguiu finalmente se acostumar? Voltaria a morar lá de novo?

Acho que nem preciso responder, né?

Revisitando#1: Memorial do Convento

Revisitando é um espaço que criei aqui no blogue para compartilhar com vocês as minhas releituras. Decidi reler livros que fizeram parte da minha vida, livros que por alguma razão voltam sempre à minha memória. Farei uma nova leitura deles, em primeiro lugar, para relembrar detalhes já meio adormecidos, e em segundo, para saber se minha opinião mudou, se com a releitura a obra ganhou ou perdeu o encanto. A intenção é escrever sobre a forma como o livro me tocou, sobre as dificuldades que tive no decorrer da leitura, se gostei, se não gostei e o porquê de ter ou não ter gostado, além de fazer um pequeno resumo da história.

Memorial_do_convento_(48ª_edição)

Neste primeiro revisitando, quero escrever um pouquinho sobre Memorial do Convento, de José Saramago, um romance histórico publicado em 1982.
O livro traz duas narrativas, ora paralelas, ora misturando-se entre si. A primeira narrativa é sobre a construção do palácio-convento de Mafra, a mando de D. João V, monarca português que subiu ao trono em 1681.

D. João vivia angustiado com a continuidade de sua dinastia, ameaçada pela possível esterilidade da rainha Maria Josefa. Por essa razão, o monarca mandou construir o convento, foi uma espécie de oferenda a Deus em troca de um herdeiro.

 

“D. João, quinto de nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura a corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim.”

 

O convento, de uma magnitude impressionante, levou treze anos para ser construído. Foi concluído em 1730 deixando para trás muitos mortos e trabalhadores explorados ao extremo -, mostrando claramente a força, o poder e a tirania que os nobres possuíam naquela época. Para a construção do convento foram convocados todos os homens válidos do país, muitos deles apanhados à força, amarrados e enviados a Mafra. O rei gastou quantias exorbitantes para construir um palácio-convento que tivesse anexo um palácio real e uma basílica, além de capacidade para abrigar trezentos frades franciscanos.

A segunda narrativa, porém, não trata de feitos históricos como é o caso de D. João V e seu Convento de Mafra, conta a fictícia e belíssima história de amor entre Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas.
Baltasar era um homem de bom caráter, maneta, revolucionário e cristão, foi um dos recrutados por D. João V para trabalhar na construção do convento. Blimunda era uma nova cristã, uma mulher que tinha poderes mágicos, que conseguia enxergar o interior das pessoas.
Baltasar e Blimunda apaixonam-se e, desafiando os rigores da Inquisição, selam seu amor mediante um pacto de sangue. Em um dado momento Baltasar e Blimunda perdem-se um do outro, é então que começa a parte mais bonita e também mais triste da história. Blimunda é fiel ao seu amor e passa nove anos a procurá-lo desesperadamente, ela cruza o país por sete vezes tentando encontrá-lo.

Saramago nos conta também a história da Passarola, uma máquina voadora que existiu realmente. A Passarola foi projetada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, figura essa inspirada em uma personagem real, um sacerdote brasileiro conhecido como “padre voador”. O escritor acrescenta detalhes ficcionais à história verídica, como por exemplo, o fato de que para que a passarola voasse seriam necessárias vontades humanas. Blimunda, por causa de seus poderes mágicos,  foi a escolhida para recolher as vontades humanas necessárias para que a máquina levantasse voo. Baltasar e Blimunda tiveram uma grande e importante participação na construção da Passarola, foram as duas pessoas de confiança do Padre Bartolomeu de Gusmão.

Com muita ironia, Saramago descreve a História de Portugal do Século XVIII: as epidemias, as guerras, os abusos por parte daqueles que estavam no poder, as atrocidades e injustiças cometidas em nome da Santa Inquisição. O narrador faz uma crítica acirrada ao clero e, principalmente, à nobreza, mostrando claramente um D. João V como um rei arrogante, ignorante, megalomaníaco e perdulário. Enquanto o rei é ridicularizado, o povo, que foi quem de fato trabalhou e construiu o convento de Mafra, é mostrado como o verdadeiro heroi.
Saramago descreve ainda o amor puro, as festas religiosas, a esperança, a luta para a concretização de um sonho e a fé naquilo em que se acredita.

Eu fiquei um bocado intrigada com o autor, pois achei difícil me adaptar a seu estilo de linguagem. Quem o conhece sabe que este escritor português tem uma escrita bastante peculiar, muito própria, muito sua, isso acaba gerando um pouco de dificuldade em alguns leitores quando entram em contato com sua obra por primeira vez. A pontuação que ele utiliza é fora dos padrões convencionais. A vírgula, por exemplo, é usada como substituta de quase todos os outros sinais de pontuação, obrigando o leitor a participar intensamente, precisando identificar as frases como interrogativas ou exclamativas à medida que vai lendo. A linguagem escrita aproxima-se muito da linguagem oral… Foi justamente esse estilo diferente e inédito que me fez voltar várias no texto para melhor compreendê-lo. Acredito que essa foi a grande dificuldade que encontrei na primeira leitura.

Nesta segunda leitura, Memorial do Convento me agradou mais ainda, não sei se isso está relacionado com o fato de ter sido o primeiro livro desse escritor que li ou se foi pela história propriamente dita, que eu achei bonita que só! A grande diferença que notei desta vez foi a falta de dificuldade em seguir a narrativa. Agora, mais de dez anos após meu primeiro contato com a literatura de Saramago, a leitura fluiu maravilhosamente bem. Eu, finalmente, me acostumei com o estilo do autor, além disso continuo adorando a bela história de amor de Baltasar e Blimunda.

Com sua escrita crítica, irônica e bem-humorada, Saramago conseguiu me conquistar outra vez, então posso garantir: Memorial do Convento não perdeu nem um pouquinho do seu encanto, será sempre um dos meus livros preferidos.

 

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Convento de Mafra
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Eu no Convento de Mafra

 

Sobre o autor:

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José Saramago foi um escritor português, nascido em Azinhaga, em 1922. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Faleceu em 2010, na Espanha.

 

Um vídeo sobre Memorial do Convento (contém spoilers)

Weimar, uma cidade que respira cultura!

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Centro de Weimar

 

Eu adoro fazer passeios culturais, sobretudo aqueles que estão relacionados com livros, escritores, bibliotecas e todo esse universo da literatura. Por isso, não sosseguei até arranjar um tempinho para conhecer Weimar, uma linda cidadezinha na Alemanha. O que me motivou a visitá-la não foi apenas a beleza de sua arquitetura Bauhaus, seus parques, seu famoso Rio Ilm, suas casinhas com flores nas janelas tão tipicamente alemãs, mas o fato de ter relação com o Romantismo, uma escola literária da qual gosto muito. Outra razão que me levou a essa cidade foi saber que lá viveram dois dos mais importantes nomes da literatura alemã: Goethe e Schiller.

Não, minha gente, eu nunca li absolutamente nada de Schiller, tentei certa vez ler a Noiva de Messina (traduzido para o português, obviamente), mas achei a leitura tão difícil que abandonei pouquíssimo tempo depois de começar. De Goethe li Os Sofrimentos do Jovem Werther, algumas poesias e só. Até tenho na minha estante o Fausto, mas ando postergando a leitura por ainda não me sentir capaz de ler algo assim tão complexo… Quem sabe um dia.

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Estátuas de Schiller e Goethe  no centro da cidade


A cidadezinha simplesmente me encantou, não só por sua beleza mas pela atmosfera agradável do lugar e pela memória viva e pulsante das personalidades que ali viveram. Além dos dois escritores já citados, em Weimar viveram também Lutero, Sebastian Bach, Marlene Dietrich, Wagner, Strauss, Nietzsche, Rudolf Steiner, Shopenhauer, entre outros. A cidade é um amontoado de recordações para onde quer que nos viremos, é como se todas essas personalidades – de uma forma ou de outra – tivessem deixado suas marcas, dando assim um toque especial ao lugar.

Pra começar bem o passeio fui conhecer a Casa de Campo de Goethe, uma casinha simpática que mais parece ter saído de uma história do próprio escritor. A casinha – que está localizada dentro do belíssimo Parque de Goethe – foi onde ele escreveu seu romance mais conhecido, Os Sofrimentos do Jovem Werther, obra que deu origem ao Romantismo (pessoal, estive há pouquíssimo tempo na Casa de Goethe, em Frankfurt, e lá consta que foi nessa casa que ele escreveu Os Sofrimentos do Jovem Werther. Desculpem as informações desencontradas). Só o percurso do meu hotel até lá já foi suficiente para amar o lugar, pois a área é muito linda e bem cuidada. Por dentro, a casinha permanece praticamente igual que era na época em que o poeta vivia (pelo menos assim dizem os entendidos no assunto) seu quarto, sua salinha, sua biblioteca e uma mesa de pernas bem altas onde o poeta escrevia o tempo todo de pé, acreditem! Do lado de fora a paisagem também encanta, muitas árvores, muitas flores, muito verde… tudo tranquilo, uma atmosfera assim meio bucólica.

 

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Casa de Campo de Goethe
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Em um lugar assim nem tinha como não ter inspiração…


Outra coisa que parece ser muito interessante de se ver em Weimar é a Biblioteca Anna Amália. Eu não dei muita sorte porque na época em que fui estava em processo de restauração, após ter sofrido um incêndio no qual perdeu aproximadamente 50.0000 títulos, dois quintos de seu espólio. Mas quem for por lá agora não pode perder a oportunidade de visitá-la, deve ser uma maravilha adentrar um local onde estão guardadas obras importantíssimas da literatura. É justamente na Biblioteca Anna Amália que se encontra a primeira Bíblia traduzida por Lutero, que graça a Deus escapou do fogo.

No centro da cidade estão localizadas as duas maiores atrações: as casas principais onde viveram os poetas Goethe e Schiller. A casa de Schiller é bonita, mas não muito grande, tem uma fachada amarela bem chamativa e por dentro está decorada com réplicas no lugar dos móveis originais. Já a casa de Goethe impressiona não só pelo tamanho mas pela beleza e bom gosto. A casa era residência oficial do escritor que também exerceu os cargos de Ministro e diretor da Biblioteca Anna Amália. É mantida ainda com algumas peças originais, inclusive o quarto onde o poeta morreu, aos 82 anos, está completamente intacto. Hoje, ambas as casas funcionam como museus e estão abertas ao público diariamente.

 

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Casa de Schiller
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Casa de Goethe


Eu fui no verão, uma época com temperaturas agradáveis, as ruas estavam lotadas de turistas assim como de artistas, até peça teatral estava sendo encenada ao ar livre… Um charme!
O turista chega lá e não tem mais vontade de sair, acaba se entusiasmando e querendo ficar mais tempo que o previsto, que foi o meu caso.
Foi um passeio muito divertido, eu recomendo pra quem gosta de literatura, pra quem gosta de arquitetura, pra quem gosta de História, pra quem gosta de Arte de um modo geral e pra quem gosta apenas de bater perna por aí.

Weimar é uma belezura de cidade, é tão tipicamente cultural que foi escolhida como Capital Europeia da Cultura em 1999.

*** Pessoal, quando eu digo que Weimar tem relação com o Romantismo estou me referindo ao fato de Goethe, um dos integrantes do movimento romântico na Alemanha, ter vivido por muitos anos nessa cidade, razão pela qual eu fui visitá-la. Na verdade, Weimar foi o berço do Classicismo Alemão.

 

Impressões de leitura#2: O tempo e o vento (contém spoilers)

“1745. No topo de uma coxilha, uma índia grávida, perdida no imenso deserto verde do Continente. O filho que traz no ventre é de um aventureiro paulista que a preou, emprenhou e abandonou. A criança nasce na redução Jesuítica de São Miguel, onde a bugra busca refúgio. A mãe morre durante o parto, esvaída em sangue. Esse bastardo, um menino, virá a ser um dos troncos da família que vai ocupar o primeiro plano do romance e que bem poderá ser (ou parecer-se com) o clã Terra-Cambará. Veríssimo traçou um ciclo que começou nesse menino e veio a encerrar-se duzentos anos mais tarde.”  

                                                                                         

Há tempos eu tinha vontade de ler na íntegra O Tempo e o Vento, obra-prima de Erico Veríssimo. Já tinha lido alguns trechos avulsos por aí, no entanto o medo de me comprometer com um romance assim tão longo me fez adiar essa empreitada muitas vezes… porque eu tenho tendência a fugir de calhamaços.

Na adolescência assisti a uma minissérie baseada no romance, só que naquela época eu não sabia que essa adaptação era apenas de partes da obra, isso me levou a achar que o Tempo e o Vento contava apenas a história de Ana Terra, Capitão Rodrigo e Bibiana. Mas não, trata-se de uma obra bastante mais extensa, dividida em três partes: O Continente, O Retrato e O Arquipélago. Cada uma dessas partes está carregada de informações políticas, históricas e culturais acerca do povo gaúcho.

Erico Veríssimo conta a saga de uma família gaúcha e de sua cidade, Santa Fé, através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo. A narrativa abrange toda a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul, iniciando por volta de 1745 até 1945. Veríssimo nos dá de presente muita informação pertinente e interessante sobre o Brasil. Ele nos mostra – durante 200 anos – as mudanças significativas que ocorreram  e o rumo que o país vai tomando à medida que a história vai sendo contada. Nos mostra as lutas de fronteiras, a Guerra dos Farrapos e a Guerra do Paraguai. Nos apresenta Bento Gonçalves e sua luta em prol de uma república federativa. Fala também, incansavelmente, sobre Getúlio Vargas e seu Estado Novo. Nos presenteia com personagens fictícios inesquecíveis: Capitão Rodrigo Cambará, Bolívar, Licurgo, Fandango, Liroca, Don Pepe García, Tio Bicho, doutor Rodrigo Terra Cambará e seu irmão Toríbio e, finalmente, Floriano. Sem esquecer as personagens femininas, personagens fortes e importantíssimas no romance: Ana Terra, Bibiana e Maria Valéria. E também as personagens mais jovens, porém não menos importantes: Flora Quadros, Luzia e Silvia… As mulheres de Santa Fé, aquelas que não iam para a guerra, mas que viviam a guerra e todos os seus dissabores no corpo e na alma, na exaustante tarefa de rezar e esperar.

“Sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria não existiria o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os herois pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhes davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.”

Apesar de ter demorado mais do que pretendia para concluir a leitura, li com satisfação e alegria, em nenhum momento a leitura ficou arrastada, mesmo longa foi muito agradável e entretida.
Eu sofri com Ana Terra e sua vida tão difícil. Ri alto com o Capitão Rodrigo Cambará e sua célebre frase: “Cambará macho não morre na cama”… Que personagem danado de sensual e destemido!
Senti pena de Flora Quadros e sua vida melancólica. Tive vontade de colocar Floriano no colo e niná-lo. Desejei muitas vezes bater um papo com o espanhol Don Pepe García e passar uma tarde só ouvindo Tio Bicho e suas teorias. Adoraria ficar escutando Toríbio contar sobre suas aventuras na guerra e suas conquistas amorosas. Admirei a perseverança de Bibiana e a postura sempre forte e altiva de Maria Valéria. Quis, mais de uma vez, dar uns tapas na cara do Dr. Rodrigo Terra Cambará… Valha-me Deus, que homenzinho pedante! Mas, apesar de seu pedantismo, seus exageros e cafajestadas, doutor Rodrigo Cambará com seu lado humanitário, sua demonstração de generosidade e sua tendência em ajudar os mais necessitados, me conquistou. Sua morte, no fim do romance, me emocionou muito, por isso ele acabou sendo um dos meus personagens preferidos.

“Com o doutor Rodrigo não morre apenas um homem. Acaba-se uma estirpe. Finda uma época. O que vem por aí não sei se será melhor ou pior… só sei que não será o mesmo. Mas que teu pai era um homem inteiro, Floriano, isso era.”

O romance é maravilhoso. Já estou com saudades.

Sobre o autor:

Erico Veríssimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 1905. Na juventude foi bancário e sócio de uma farmácia. Em 1947, Erico Veríssimo começa a escrever O Tempo e o Vento. Recebeu vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Faleceu em 1975.

Deixo abaixo um vídeo da minissérie, exibida em 1985. Para mim o Capitão Rodrigo terá sempre a cara do Tarcísio Meira. 🙂