Um vilarejo parado no tempo…

É a segunda vez que visito Tai O, um vilarejo de pescadores localizado na ilha de Lantau, em Hong Kong. A primeira vez que estive por lá foi poucos meses após chegar por estas bandas. Nessa época eu ainda andava fascinada com tudo que via por aqui, só queria mesmo saber de admirar as paisagens, sem o compromisso de fotografar nada. Agora, como pensei em deixar registrado aqui no blogue minha impressão sobre esse vilarejo, decidi voltar para um segundo passeio e também para fazer algumas fotos.

Tai O é chamado a “Veneza de Hong Kong”. Não posso opinar muito sobre isso já que não conheço Veneza, mas pelas fotos que vi da cidade italiana não tem absolutamente nada a ver, nada mesmo! Mas, enfim, se os chineses querem que seja a “Veneza de Hong Kong”, que seja, então!
O vilarejo é completamente diferente da Hong Kong frenética que muita gente conhece, o lugar é mais simples, bastante bagunçado e não muito limpo, mesmo assim dá pra passear numa boa e passar um tempo agradável.

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Um morador de Tai O

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Palafitas em Tai O

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No passado, Tai O vivia completamente da pesca. Atualmente, esse estilo de vida mudou um pouquinho, apesar de muitos moradores ainda continuarem a viver disso. Mesmo bem afastado do centro, o vilarejo atrai muitos turistas estrangeiros, pessoas que têm curiosidade de conhecer o outro lado da vida em Hong Kong. Andando nas ruas encontramos muita gente se locomovendo em bicicletas, pessoas vendendo todo tipo de peixes – secos ou frescos -, há peixes pendurados para secar na rua mesmo, pessoas chamando a turistada para entrar em seus restaurantes, crianças brincando livremente, portas e janelas escancaradas, pequenos altares e seus incensos e muita movimentação.

Outra coisa bem legal que se pode fazer em Tai O é um passeio de barco para ver os golfinhos. Eu fiz o passeio mas não vi golfinho nenhum, tempos depois li alguns comentários de outros turistas que também fizeram o passeio e disseram não ter visto nada. Não sei realmente se os tais golfinhos ainda habitam por lá ou se isso é apenas uma estratégia pra arrancar alguns tostões dos gringos. De qualquer maneira, o passeio de lancha é bem divertido e bonito. É também um excelente lugar para ver o pôr do sol.

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O vilarejo parece que parou no tempo, mesmo com o passar dos anos não evoluiu tanto assim. Algumas pessoas continuam vivendo em palafitas e ganhando a vida com a pesca. E ao contrário de Sam Ka Tsuen (que falei aqui), onde não vemos uma quantidade muito grande de turista, Tai O tem sempre excursões e muitos estrangeiros passeando. Fazer um passeio básico por lá vale muito a pena, pois o estilo de vida se aproxima bastante daquilo que nós imaginamos ser a verdadeira China.

Impressões de leitura#1: Livro do Desassossego

“Pasmo sempre quando acabo alguma coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar, acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia”.

 

desassosegoA primeira vez que li o Livro do Desassossego tive bastante dificuldade em manter um ritmo de leitura. Li muito devagar, fazendo pausas e mais pausas… demorei muito até engrenar completamente. Mas, a partir de um certo momento, a leitura me absorveu tanto que foi impossível deixá-la de lado. Foi até esquisito, porque comecei sem muito entusiasmo e acabei completamente extasiada. Logo no início fui bombardeada por uma frase intrigante: “O coração, se pudesse pensar, pararia”. Fiquei com essa frase na cabeça querendo saber se o autor tinha algo mais a dizer, acredito que por isso não desisti, insisti na leitura por mera curiosidade.
Composto por vários fragmentos, o Livro do Desassossego é o relato de um empregado de escritório em Lisboa, uma personagem angustiada, repleta de dúvidas e hesitações, alguém que parece estar sempre à procura de algo, mas não sabe exatamente o quê.
Bernardo Soares é o autor fictício do livro, um semi-heterônimo de Fernando Pessoa, segundo palavras do próprio poeta: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.”

Soares, assim como pessoa, passou sua vida como um simples funcionário de escritório, vivendo em um quarto alugado e dedicando seu tempo à escrita. Porém, o livro não trata apenas sobre Bernardo Soares e seu cotidiano, mas sobre um amontoado de reflexões: sobre a solidão, sobre a literatura, sobre a paixão pela arte de escrever e sobre a nostalgia que sentimos às vezes sem nenhuma razão aparente.
É um livro que brinda sentimentos, sentimentos esses que todos nós, pelo menos uma vez na vida, já chegamos a experimentar. O pano de fundo é Lisboa, impossível lê-lo e não sentir uma vontade incontrolável de caminhar pela Lisboa de Fernando Pessoa, às margens do Tejo, pela Cidade Baixa, pela Rua dos Douradores…
Alguns dizem que este livro é a autobiografia do próprio Pessoa… Não sei! Acredito que, neste caso, criador e criatura se fundem.
O Livro do Desassossego é um tesouro da literatura, é um livro vivo, intrigante, envolvente, interminável. Para ser lido e relido em qualquer momento da vida, a partir de qualquer página. Obra com um alto valor poético e lírico. É uma prosa que pinga poesia.

 

“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é porque nada tenho a dizer”.

Pois, para mim, ele disse muito. Definitivamente perturbador.

 

Sobre o autor:

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Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888. Aos cinco anos de idade foi levado para a África do Sul, onde viveu e estudou. Aos 17 anos regressou a Portugal, desde então nunca mais saiu de sua terra natal. Em vida teve apenas uma obra publicada, Mensagem, um livro de poesia que exalta Portugal. Morreu em 1935, aos 47 anos, vítima de problemas hepáticos.

 

Há uns dois anos o livro foi adaptado para o cinema por João Botelho. Deixo aqui um pedacinho do filme:

 

 

 

Eu finalmente conheci o Vietnã

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é, que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”. (Amyr Klink)

 

Quando eu era menina assistia a muitos filmes sobre a guerra no Vietnã, filmes esses que eram repetidos incansavelmente na tv aberta do Brasil. A grande maioria desses filmes mostrava o povo vietnamita como malvado, o grande vilão da história… e eu acreditava piamente na forma como eles eram retratados, por conta disso acabei desenvolvendo uma opinião equivocada sobre essas pessoas, opinião essa criada e estimulada pela televisão e seus filmes hollywoodianos.
Desconhecia praticamente tudo sobre esse país, desconhecia de tal forma que quando ouvia falar em Vietnã, mesmo depois de adulta, minha mente quase sempre associava a bombas, gritos e violência.

Confesso que nunca tinha passado pela minha cabeça fazer férias por lá, não tinha a menor ideia da grande riqueza cultural que o país possui e como o povo vietnamita é amável.

Ponte japonesa em Hoi An
 Lanternas de Hoian

A minha primeira impressão ao chegar no Vietnã foi: Uaauu eles até são simpáticos! Vocês acreditam que eu fui pra lá esperando encontrar um povo carrancudo? Quanta ignorância a minha, pois o que encontrei foi um país bonito, quentinho e pessoas agradáveis.
Os vietnamitas ainda estão se preparando para receber os turistas, pelo menos em Danang, na parte central do Vietnã, o turismo ainda não está assim tão desenvolvido, isso faz com que os preços sejam mais convidativos. E mesmo com essa vantagem em relação ao valor das coisas ainda não há aquela enxurrada desenfreada de turistas.

Eu gostei do que vi, gostei de andar no meio do povão, de comer comida de rua, de passear de canoa e de andar a pé no meio do mato. Gostei de provar as comidas típicas, de fotografar o povo pelas ruas, de entrar no mar calmo e cálido, de aprender um pouco da história do país, de sua cultura e de seus costumes…

Danang, a quarta maior cidade do Vietnã, é bastante movimentada e tem um encanto todo especial. Andei por lá nos mercados de rua, no calçadão ao lado do rio Han, observei as cinco pontes que ajudam a compor a beleza da cidade e fiquei encantada com as praias. No entanto, o lugar que mais gostei de visitar foi Hoi An, uma das cidadezinhas mais charmosas que já vi na vida.
Hoi An tem um casco histórico belíssimo, completamente intacto pelo fato de não ter sido atingido pelos bombardeios durante a guerra. É decorada pela ponte coberta japonesa, uma prova viva da influência que o Japão teve na cidade. É banhada pelo Rio Thu Bon, que foi um porto de pesca importantíssimo.
Por suas ruas circulam muitas motos – aliás nunca vi tantas motos juntas e um trânsito tão caótico quanto vi no Vietnã, mas isso também faz parte da beleza do país e ajuda a compor a atmosfera do lugar.

Hoi An tem uma variedade de edifícios com arquiteturas totalmente diferentes: chinesa, japonesa e francesa. Esses três povos, no passado, influenciaram muito a cidade e deixaram suas marcas. Hoje, podemos notar isso claramente nos edifícios, alguns deles possuem essas três influências combinadas em uma mesma construção. Essa cidadezinha é conhecida também por suas costureiras e por seus artesanatos, sobretudo as famosas lanternas. Hoi An foi declarada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.

 My Son
 Santuário de My Son

Além de Danang e Hoi An fui conhecer também o Santuário de My Son, que são ruínas de uma antiga cidade imperial que existiu entre os séculos IV-XVIII. Essas ruínas se assemelham muito a Angkor Wat, no Camboja (que eu ainda não conheço, mas que está nos meus planos conhecer em breve, já estive lá no Camboja :)). Grande parte do Santuário My Son foi destruído durante a guerra, mas ainda restam vinte monumentos muito bem conservados e que impressionam os visitantes. O lugar é muito bonito, tem muito verde ao redor mas o que mais chamou a minha atenção foram os detalhes das construções. My Son também foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.

Coisas para fazer e conhecer no Vietnã não faltam: há as Montanhas de Mármore, um grupo de cinco montanhas que é na verdade um local de peregrinação, um retiro espiritual; o interessante desse lugar são as muitas cavernas enormes que existem dentro das montanhas e as vistas maravilhosas.

Além disso, é possível alugar bicicletas e fazer passeios pelos campos de arroz, pelas praias, aliás as praias são um caso à parte: bonitas, com águas claras, calmas e quentinhas.

Achei uma delícia visitar o Vietnã, um país de homens e mulheres fortes. As mulheres trabalham muito, não apenas como as famosas costureiras de Hoi An, mas fazendo trabalhos pesados: remam canoas, puxam e empurram carrinhos de mão, carregam cestos pesadíssimos pela cidade vendendo frutas e legumes… Elas trabalham pra valer!

 Non Nuoc Beach – Da Nang

Minha viagem ao Vietnã serviu para me fazer enxergar esse país e seu povo com outros olhos, um olhar completamente distinto daquele de quando eu era moleca e assistia aos filmes na tv – quando nem passava pela minha cabeça andar por estas bandas. E eu percebi que nem sempre o que imaginamos e recriamos na nossa mente sobre um determinado lugar corresponde à realidade. Por isso quando aparecer a oportunidade para conhecer esses lugares não devemos deixar a oportunidade escapar. Viajar e visitar outros países é maravilhoso, pois aumenta nosso conhecimento sobre a cultura alheia, muda a opinião errônea que tínhamos sobre determinadas pessoas e costumes e, sobretudo, nos livra de nossos muitos preconceitos.

Arquitetura no Vietnã/influência chinesa
Uma vendedora de rua

Eu, assim como Amyr Klink, também acho que devemos ver o mundo com nossos próprios olhos. Porém, isso não significa que uma boa leitura não seja válida. É válida, sim senhor! Acredito que um bom livro é um excelente complemento para uma grande viagem. É bom ler e é bom viajar… e quando podemos combinar as duas coisas é melhor ainda, né?!

Amei o Vietnã, uma da melhores viagens da vida.