A cafeteria da esquina…

Encontre-se com o sabor das conversas, com o paladar das histórias, com o aroma das memórias e aqueça a sua alma, e partilhe. Há momentos que têm de ser vividos em grupos. — (Na parede de uma cafeteria, no Cais do Sodré, Lisboa)

 

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Um entra e sai de pessoas na cafeteria da esquina. Entre sorrisos e burburinhos, mães arrastam crianças recém-saídas da escola ao mesmo tempo que empurram carrinhos de bebês. Escondem-se na cafeteria quentinha e lotada.
O homem da mesa ao lado, compenetrado, rabisca qualquer coisa em um guardanapo. Será poesia? Ou terá tido ele ideia para um grande romance? Olho-o com bons olhos… Serei sempre uma eterna admiradora daqueles que escrevem, daqueles que simplesmente escrevem.
Observo atentamente o vai e vem das pessoas. Anônimas? Nem tanto! São as mesmas caras, as mesmas de todo dia, do café da tarde, na cafeteria da esquina.
Saboreio mais um café au lait enquanto tomo coragem para enfrentar o frio lá fora… Mas que bobagem a minha, um grau negativo nem é tão frio assim.
Já na rua, sorrio para a senhorinha de sobretudo vermelho e canelas à mostra (em um clima desses, canelas à mostra é uma prova de coragem). A senhorinha sorri de volta. Tem algo de mágico no sorriso de um desconhecido, parece que aquece o coração da gente. ❤

Impressões de Leitura#20: Os Maias…

Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem pra dizer.

— Italo Calvino

 

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Há livros que não consigo ler de uma sentada só, não porque são ruins ou enfadonhos, mas porque me fascinam e cativam de tal maneira que chega a fazer-me pena conhecer o fim. Os Maias é um livro assim, por essa razão não me é possível escrever sobre ele sem me emocionar.
Por causa dos Maias, habitei vários meses o Ramalhete, lá na Rua de S. Francisco de Paula, no Bairro das Janelas Verdes, naquela Lisboa do final do século XIX.
Desfrutei, incansavelmente, da privilegiada vista do Tejo e do Porto de Santos. Vi, vezes sem conta, Dom Afonso da Maia sentar-se frente à lareira para tomar seu cálice de vinho do Porto ao mesmo tempo que aconselha o apaixonado Pedro da Maia, seu filho, a afastar-se da belíssima Maria Monforte. Usufruí dos bons ares de Santa Olávia, ao pé do rio Douro, e observei, quase sempre com um sorriso no rosto, a infância feliz do pequeno Carlos Eduardo da Maia. Foi então que compreendi o orgulho que Afonso da Maia sentia ao ver seu neto crescer saudável e forte como um touro. Anos depois, não tive vergonha de seguir Carlos Eduardo durante suas longas caminhadas pelas ruas do Chiado, à noite, no auge de sua juventude. Quando apareceu Maria Eduarda, senti também um grande encantamento por sua beleza e elegância. Fui testemunha daquele amor impossível. Com eles ri e chorei… Cheguei, inclusive, a insultar a crueldade do destino.
E sobre João da Ega, o que posso dizer? Que é um rapaz interessante, espirituoso e brincalhão! Dei altas risadas com essa personagem que nada mais é que um alter ego do próprio escritor.

Hoje, um dia frio de novembro de 2018, saio do Ramalhete com o coração tranquilo e transbordando de emoção… Emoção por ter finalmente conhecido os Maias, por ter sido espectadora de suas dores e tragédias, mas, sobretudo, de suas alegrias e conquistas.
Meu exemplar já tem um lugar especial reservado na estante. Então, quando a saudade bater com força, revisitarei o Ramalhete. Uma e outra vez… E quantas vezes mais sejam necessárias.

O livro conta a história da família Maia ao longo de três gerações, sendo que a mais importante e mais explorada no romance é a última, que trata do amor incestuoso de Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda. Eça de Queirós utiliza essa obra para criticar com bastante ironia a sociedade lisboeta da última metade do século XIX. Esse livro introduziu o realismo em Portugal, rompendo de vez com o romantismo. Foi publicado em 1888, quando Eça de Queirós tinha 43 anos.

 

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Eça de Queirós

José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de novembro de 1845, na Póvoa do Varzim, e morreu a 16 de agosto de 1900, em Neuilly, nos arredores de Paris.

 

Os Maias foi adaptado para a televisão brasileira em 2001:

 

Em Portugal, foi adaptado para o cinema em 2014,  por João Botelho:

 

 

As músicas lindas que foram temas da adaptação brasileira:

 

Impressões de Leitura#19:Terra Sonâmbula, Mia Couto

“Se dizia daquela terra  que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.”    

_terra_sonambulaHouve uma época que quando eu pensava em África as imagens que me vinham à cabeça eram de homens fortes, destemidos e belas mulheres, naturalmente sensuais em suas capulanas coloridas, rodeadas de miúdos felizes e barulhentos, no seu ir e vir pelas bonitas paisagens da savana, banhadas pelos raios de um dourado sol de fim de tarde. Não sei explicar muito bem a razão pela qual eu tinha essa concepção tão romântica e idealizada da África, mas o certo é que todo esse colorido que permeava a minha imaginação acerca desse continente ficou meio desbotado depois da leitura de Terra Sonâmbula, de Mia Couto.
Os tons que permeiam a obra desse escritor moçambicano nada têm de suaves ou coloridos, como eu imaginava. As imagens que Mia Couto compartilha conosco são outras. Ele nos apresenta uma Moçambique cinzenta e poeirenta, marcada pela severidade da guerra, pela pobreza, por sofrimento, abandono e devastação, muita devastação.
Como se sabe, esse país africano foi colônia portuguesa do início do século XVI até 1975. Para além de sofrer horrores com a escravidão e a exploração desenfreada, precisou passar por muitas provações durante a Guerra da Libertação. Foi necessário muito derramamento de sangue numa luta que durou dez anos para que só assim conseguissem se ver livres das amarras de Portugal. No entanto, a Independência de Moçambique não significou o início de uma terra pacífica, tampouco solucionou os problemas da nação. Dois anos após a independência, em 1977, o país mergulha outra vez em uma nova batalha: uma sangrenta guerra civil. A guerra civil em Moçambique durou até 1992. A população viveu quinze anos no meio de conflitos armados que deixaram mais de um milhão de mortos.

 

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Sou um branco que é africano; um ateu não praticante; um poeta que escreve prosa; um homem que tem nome de mulher; um cientista que tem poucas certezas na ciência; um escritor numa terra de oralidade. — Mia

 

Mia Couto, autor de Terra Sonâmbula, nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. Filho de pais portugueses, é um dos escritores mais importantes em língua portuguesa da atualidade e também o moçambicano mais traduzido. Comprometido com a causa africana, Mia Couto viveu na pele os horrores da guerra: “tenho 42 anos e passei a metade da minha vida em guerra…” Ele retrata em seus livros a realidade de Moçambique por meio de elementos que pertencem ao próprio folclore moçambicano, servindo-se da literatura oral, crenças, mitos, provérbios etc. Ao entrarmos em contato com a escrita de Mia Couto, percebemos logo as muitas semelhanças com a literatura brasileira, sobretudo com Guimarães Rosa. Aliás, o escritor não esconde que sua escrita foi altamente influenciada pela literatura desse brasileiro. Recebeu numerosos prêmios, entre eles, o Prêmio Nacional de Literatura em Portugal (1992), o Prêmio Nacional de Literatura em Moçambique (1995), o Prêmio Africa Hoje em Maputo (2002), o Prêmio Eduardo Loureço (2011), o Prêmio Camões (2013) e o prêmio norte-americano NeustadtAlgumas de suas histórias foram levadas ao cinema, como é o caso de Terra Sonâmbula e, mais recentemente, O Voo do Flamingo. Publicou também poesias e contos. Mia Couto vive em Maputo, onde trabalha como biólogo.

 

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Estou farto de viver entre os mortos — Fala de Muidinga

 

Com dois focos narrativos, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo a guerra civil moçambicana. Começa com o velho Tuahir e o menino Muidinga caminhando sem rumo por uma estrada desolada. Encontram no caminho um machimbombo (ônibus) queimado repleto de corpos. Perto desse machimbombo – que será o refúgio do velho e do menino – encontram também outro corpo. Junto desse corpo estava uma mala, dentro da mala havia onze cadernos, eram os diários de Kindzu.
O primeiro foco narrativo, relata em terceira pessoa a peregrinação de Tuahir e Muidinga em busca de paz num mundo devastado pela guerra. O segundo, narrado em primeira pessoa,  é o relato dos diários de Kindzu, que conta sua história de vida.
Muidinga é um menino sem memória, foi resgatado pelo velho Tuahir mais morto que vivo, sonha em encontrar seus pais que o abandonaram logo após o nascimento e, assim, conhecer sua verdadeira identidade.
Tuahir é um homem idoso, já viveu e sobreviveu à outra guerra, a guerra da libertação, sonha com um mundo pacífico e luta para resguardar sua vida e a do pequeno Muidinga. 
Ambos caminham como se fossem sonâmbulos à procura de água e comida, mas procuram, sobretudo, preservar a esperança naquele mundo tão desesperançoso… “Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra.”
Kindzu é um jovem idealista – que tenta ir muito além dos desejos comuns, abandonou sua casa em busca da realização do sonho de se tornar um maparamaguerreiro tradicional de justiça que luta contra os fazedores da guerra. Como podemos perceber, as três personagens são impulsionadas pelo desejo de realizar sonhos.

Após encontrar os cadernos, Muidinga começa a lê-los em voz alta para o velho Tuahir. À medida que o menino prossegue a narração, o leitor mergulha nas duas histórias, que são contadas de forma intercalada: primeiro a história de Tuahir e Muidinga seguida pelos relatos dos diários de Kindzu. A princípio essas duas narrativas parecem bastante diferentes, mas sem demora percebemos os muitos pontos que têm em comum… Elas caminham lado a lado mas, mais à frente, acabam por fundir-se. As histórias  serpenteiam entre a realidade e o sonho, sobretudo a de Kindzu, que é uma história mágica, mítica, que bebe no imaginário do povo africano. As lendas e crendices moçambicanas que permeiam os relatos de Kindzu causam um certo estranhamento mas, ao mesmo tempo, fascinação.
A narrativa inteira é recheada de sonhos, aliás, todas as personagens, cada qual à sua maneira, sonham com alguma coisa. E todas têm o mesmo objetivo, encontrar a paz que há muito tempo havia deixado de existir naquele lugar desprovido de afeto e humanidade. Chamou muito a minha atenção o fato de algumas personagens continuarem a lutar por sobreviver em um mundo tão destroçado e abandonado, mesmo quando o mais fácil seria desistir, deixar de ter esperança. Percebemos isso quando conhecemos o Fazedor de Rios e o Velho Siqueleto, personagens que, como Tuahir, Muidinga e Kindzu, também sonham e acreditam que o melhor ainda está por vir, apesar das adversidades.

 

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

– Estou a fazer um rio.
– Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio, fluviando até ao infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas.

 


O conteúdo dos diários de Kindzu modifica a vida de Muidinga. Por meio dessas histórias ele passa a ter contato com o mágico, com o sobrenatural – e o leitor mergulha junto com ele nos contos do menino que vira galo, do boi que vira garça, do morto que levanta e carrega o próprio caixão, do anão que cai do céu, do mar que seca e volta a encher, da relação entre os vivos e os mortos… A visão do menino sobre o mundo modifica-se também, ele passa a presenciar mudanças na paisagem ao seu redor, que acontecem sempre após cada leitura.
Silviano Santiago, escritor brasileiro, disse certa vez: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário…” É exatamente isso que acontece com o menino. Ao ler os relatos de Kindzu, ele, de certa forma, se apropria daquele mundo e o torna seu também. Então, 
nos damos conta do poder de transformação que a leitura tem, é a literatura a transformar o pequeno Muidinga.

 

À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.

 

Outro ponto muito interessante é a história de Faridauma personagem de peso. Kindzu a conhece dentro de um navio encalhado em alto mar. Ela conta sua história para o rapaz – e por meio de seu relato ficamos conhecendo um pouco mais das tradições e crendices de Moçambique. Farida nasceu gêmea, isso a coloca imediatamente no papel de mulher rejeitada, já que naquela cultura gêmeos é sinal de imensa desgraça e maldição. Mia Couto coloca nessa personagem toda a emotividade que viria a ser costumeira em suas personagens femininas. As palavras com as quais ele descreve Farida são carregadas de encanto. Com delicadeza e às vezes lançando mão de muita sensualidade, o escritor retrata a mulher de uma forma belíssima, e comprova, mais uma vez, a sensibilidade e habilidade que tem para descrever a alma feminina.

 

A beleza daquela mulher era de fugir o nome das coisas.

 

Mia Couto escreveu Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, durante os anos da guerra civil moçambicana e o publicou em 1992, mesmo ano em que os conflitos chegaram ao fim. As histórias que ele retrata nesse livro fazem uma denúncia social das crueldades dessa guerra, mas contam também os sentimentos, as dores e dissabores daqueles que sobreviveram a ela, daqueles que ainda sofrem as mazelas e tentam cicatrizar as profundas feridas.
O livro é excelente, a meu ver, mais por conta de sua escrita, pois Mia Couto usa uma linguagem muito particular e tem uma grande capacidade de reinventar a língua portuguesa. Ao criar neologismos e mesclá-los com termos das línguas africanas, faz com que seu texto se torne ainda mais bonito e cativante, até mesmo quando o que está a ser narrado é triste. O belo nem sempre é aquilo que ele está a narrar, mas a forma como narra.
Terra Sonâmbula caracteriza-se pela paixão de contar: Kindzu que conta suas histórias nos cadernos, Farida que conta sua vida a Kindzu, Muidinga que conta a história de Kindzu ao velho Tuahir, Siqueleto que conta sua história a Muidinga e Tuahir… Tem sempre alguém a contar algo para outro alguém. Terra Sonâmbula é uma “contação” maravilhosa de histórias.

Pode parecer contraditório afirmar que um livro que narra tanta miséria e tristeza possa ser um livro belo, mas é. Terra sonâmbula para além de ser considerado uma das dez melhores obras africanas do século XX, comprova, mais uma vez, que o ato de contar histórias é um verdadeiro bálsamo para os sofrimentos do ser humano… Porque uma boa história nos ajuda a seguir em frente, nos livra das nossas angústias e preconceitos, nos ajuda a espantar a solidão e nos faz ter esperança…
A escrita de Mia Couto é impecável, o escritor conseguiu fundir em uma mesma obra prosa e poesia de uma maneira ímpar – e nos prova que ele nasceu mesmo para escrever e é um contador de histórias genuíno. ❤

 

Capas de outras edições de Terra Sonâmbula:

terra1    terra2

terra3    terra4


Entrevista de Mia Couto:

Trailer de Terra Sonâmbula:

Acorda, filha, por favor acorda!

“Neste 8 de janeiro de 1992 escrevo para você, Paula, para trazê-la de volta à vida.”

 

Paula

Paula, da escritora chilena Isabel Allende, é um livro que toca o leitor de uma maneira tão profunda que é quase impossível escrever qualquer coisa acerca dele sem deixar transparecer um quê de emoção… Talvez por eu já conhecer o teor da história tenha ficado por muito tempo com o livro à espera sem coragem de pegá-lo para ler. Quando finalmente decidi que era a hora de mergulhar nessa leitura, fui surpreendida por uma escrita que, embora muito triste e dolorosa, transmite um bocado de esperança.
Isabel Allende começa sua narrativa assim: “Ouve, Paula, vou contar-te uma história para que, quando acordares, não te sintas perdida…”
Paula, uma jovem de apenas 28 anos, padece de porfiria, uma rara enfermidade. Após uma crise, entra em coma e assim permanece por quase doze meses.
Durante o período em que Paula permaneceu em coma, Allende começa a escrever uma carta que, mais tarde, se transformaria neste livro, uma espécie de autobiografia que ela dedica à filha. O processo de escrita do livro ajuda Isabel a vencer seus medos e dúvidas acerca do futuro da filha e também a exorcizar a dor de uma possível perda. Em Paula, Allende intercala a história da doença da filha e a história da sua própria família, que começa no início do século passado quando um imigrante basco, ascendente seu, desembarca na costa do Chile. Conhecemos episódios muito pessoais da vida da escritora, desde o seu nascimento, no Peru, em 1945, até o momento da partida da filha, em dezembro de 1992. Sob o seu olhar entramos em contato com o Chile Pré e Pós-Ditadura do General Pinochet, passando pela Morte do Presidente Salvador Allende, tio da escritora, e o exílio da própria Isabel e sua família na Venezuela… Isabel se abre sem reservas e nos conta, também, como se deu a criação do seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, um dos seus livros mais conhecidos e emblemáticos.
A narrativa de Isabel Allende é de uma sensibilidade ímpar… Em nenhum momento sua escrita é desprovida de dor, no entanto, à medida que avançamos, percebemos que a autora consegue passar de desesperada a resignada, conseguindo em alguns momentos levar o leitor da tristeza ao riso. 
Algumas lágrimas rolaram por aqui, mas valeu muito a pena conhecer a história de Paula e, principalmente, a história de Isabel, uma mulher forte que, apesar de passar por uma das piores situações, a perda de um filho, não perdeu em nenhum momento a esperança.
O livro é melancólico, mas é, ao mesmo tempo, um culto ao amor e, principalmente, à vida.

 


“Se tu resistes, Paula, eu também.”

 

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Isabel Allende

 

** Em dezembro de 1992 morreu Paula. Este livro foi publicado dois anos depois.

Impressões de leitura#18: Fuga do campo 14

“Fugi fisicamente, não fugi psicologicamente.”

 

escape-from-camp-14Fuga do Campo 14, do jornalista americano Blaine Harden, conta a angustiante história de Shin In Geun, um sobrevivente de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte.
Li esse livro há bastante tempo, mas por conta de toda essa confusão entre Coreia do Norte e Estados Unidos e aquele tão comentado encontro entre Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, não é possível ficar indiferente já que somos bombardeados a cada dia por uma enxurrada de novas notícias. Além disso, estou lendo para um grupo de Leitura Compartilhada o livro Para poder viver, de Yeonmi Park, que trata do mesmo tema. Então, senti vontade de recuperar este texto, escrito originalmente no meu antigo blog.

Apesar de ser um livro de poucas páginas, precisei de mais tempo que o habitual para concluir a leitura. Por ser um relato pesado e angustiante fiquei meio anestesiada, com um gostinho amargo na boca. Digerir todos os acontecimentos presentes na história foi uma tarefa árdua, algumas vezes precisei parar e desanuviar a cabeça. Em muitos momentos os olhos marejaram e o coração apertou… Que história tão triste!
Fuga do Campo 14 relata a história do coreano Shin In Geun, nascido e criado como prisioneiro em um campo de concentração na Coreia do Norte, o Campo 14uma prisão para inimigos políticos.
Nesse campo, a execução pública e o medo que ela gerava era tremendo. Os prisioneiros que infringiam as regras mereciam a morte. Qualquer pessoa que era pega fugindo ou apenas tramando uma fuga era fuzilada imediatamente. Não havia perdão.
O que mais me chocou na história de Shin In Geun foi saber que ele precisou pagar pelo “crime” do pai -, crime esse que ele só veio a tomar conhecimento depois de adulto. Seu pai havia sido condenado porque um de seus irmãos desertou para a Coreia do Sul. Isso mesmo, o pai de Shin In Geun virou prisioneiro apenas por pertencer à família de alguém que fugiu do país. E Shin, por sua vez, foi condenado a nascer e viver na prisão pelo mesmo motivo.
Ele cresceu numa atmosfera de medo, aprendeu a confiar em tudo aquilo que os guardas lhe diziam: que não podia fugir, que deveria delatar quem planejasse fugir, quem roubasse comida, quem falasse mal do governo -, isso incluía a todos, inclusive sua própria família.
Da mesma forma que confiava nos guardas, desconfiava de qualquer outra pessoa ao seu redor. Foi instruído desde muito pequeno a delatar seus familiares e colegas, sua recompensa por essa prestação de serviço era uma porção a mais de comida. Além disso, ajudava a surrar outras crianças como castigo e não sentia remorso nenhum por isso, não deixava transparecer emoção… havia sido criado para ser assim: duro e frio.

 

“Eu não sabia o que eram compaixão ou tristeza. Eles nos educavam desde o nascimento para que não fôssemos capazes de emoções humanas normais. Agora que saí de lá, estou aprendendo a me emocionar. Aprendi a chorar. Tenho a impressão de que estou me tornando humano.”

 

Shin ignorava completamente a existência de uma vida fora daquele campo, não imaginava nem em seus mais profundos sonhos o quão diferente e interessante o mundo lá fora podia ser. A história desse rapaz é muito triste, mas é também incrível. Até onde se tem notícia ele foi a única pessoa nascida e criada dentro de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte que conseguiu fugir. Sua fuga aconteceu no dia 2 de janeiro de 2005 e até onde é possível averiguar ele ainda é o único que teve êxito.
Aos 23 anos estava sozinho, não conhecia ninguém do outro lado da cerca elétrica, e mesmo assim conseguiu chegar a pé à China e sair do inferno que era o Campo 14. No entanto, Shin não conseguiu se desvencilhar totalmente das marcas, seu corpo é um verdadeiro mapa dos sofrimentos que decorrem de se crescer em um campo de trabalho forçado. Da mesma forma que seu corpo, sua mente também foi gravemente machucada com a lavagem cerebral que lhe foi feita desde o nascimento, daí sua dificuldade em aprender inglês, em chorar, em sentir compaixão e empatia pelo próximo. Shin conseguiu dar a volta por cima, mas ainda se martiriza e se culpa por todas suas atitudes durante a época em que vivia no Campo 14, por todas as coisas que precisou fazer para salvar a própria pele e, dessa forma, sobreviver.

 

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Shin In Geun e Blaine Harden

Após a leitura, comecei a pesquisar mais sobre o que acontece na Coreia do Norte e fiquei chocada com a situação. Shin In Geun não foi o único a viver como prisioneiro na Coreia do Norte, como ele há muitos, infelizmente. A leitura foi bastante densa, deu um aperto no peito saber que nada posso fazer a respeito, só me resta mesmo desejar que um dia toda essa violência acabe e que todos possam ser finalmente livres, tratados com igualdade e humanidade. 😦
Atualmente Shin In Geun é um ativista dos direitos humanos.

 

Uma palestra de Blaine Harden sobre Shin In Geun:

Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

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Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Impressões de leitura#17: A trilogia 1Q84…

“Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem.”

 

1Q84Acho que não é mais novidade para ninguém que eu gosto pra caramba do escritor japonês Haruki Murakami. Até agora todos os livros dele que li, de uma forma ou de outra, me agradaram. Por isso, quando escutei falar sobre o lançamento de 1Q84, seu novo livro, fiquei morrendo de vontade de lê-lo.
Quando comecei a leitura eu nada sabia sobre o enredo, evitei até mesmo bisbilhotar resenhas e comentários a respeito para não saber detalhes que pudessem comprometer minha leitura. Por um lado isso foi bom, pois fui surpreendida pelos acontecimentos à medida que me envolvia com os personagens. Mas por outro, foi ruim, já que eu não sabia que a história é longuíssima, que a edição em português está dividida em três volumes e que não é possível lê-los de forma independente. Resulta que fui ficando cada vez mais envolvida com o tema e cada vez mais curiosa para saber o desfecho, mas, para minha surpresa, o primeiro livro terminou deixando um monte de perguntas sem respostas. Então, não teve outro jeito, foi preciso encarar os dois volumes restantes.

A história se passa em Tóquio, em 1984. Logo no início conhecemos os dois personagens principais: Aomame e Tengo. Ela, uma mulher bonita, independente, professora de ginástica e assassina profissional, uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos. Ele, professor de matemática e aspirante a escritor.

 

1Q84 3
É o mundo real, onde os cortes fazem correr sangue real, onde a dor é verdadeira e a dor é dor real. A lua no céu não é de papel. É uma lua real, são duas luas reais.

 

Com uma narrativa fantástica, Murakami cria um mundo paralelo a 1984, o qual chama 1Q84. Esse título é, na verdade, uma homenagem ao livro 1984, do escritor George Orwell. Nesse mundo completamente novo há duas luas – uma grande e outra pequena – flutuando lado a lado no céu. Existe também um tal de Povo Pequeno que domina as pessoas aí nesse mundo paralelo. O Povo Pequeno criou uma crisálida de ar que por sua vez teve sua história transformada em livro por Fuka Eri, uma escritora adolescente e disléxica. O livro de Fuka Eri apesar de ter um enredo envolvente é muito mal escrito. Precisa, portanto, ser corrigido para poder participar e ter a chance de ganhar um importante prêmio literário. É aí que entra Tengo, o nosso aspirante a escritor, que tem como principal função reescrever o livro da adolescente disléxica.

A trama criada por Murakami mistura-se àquela criada por Fuka Eri, e todos aqueles componentes fantásticos que bem no início nos pareceram bastante bizarros, começam a fazer mais sentido. 1Q84 tem um enredo que desperta interesse, personagens bem desenvolvidos, sinistros e solitários. Murakami criou um mundo em que a fronteira entre o real e o imaginário é completamente imprecisa. Ele ousa, mistura fatos reais com ficção, tornando assim a narrativa ainda mais instigante e enigmática… E o leitor fica a princípio um bocado confuso, meio sem saber onde e quando acaba o Tóquio de 1984 e começa o de 1Q84.

Há também a relação amorosa entre Aomame e Tengo, que foram colegas de escola quando crianças, mas que ficaram quase duas décadas sem saber nada um do outro. Aliás, a parte mais esperada por mim foi justamente o reencontro deles. Fiquei durante toda a leitura desejando que isso acontecesse para saber o que passaria depois, pois os caminhos de ambos os personagens estão interligados desde o início da história e estão também altamente relacionados com os acontecimentos sinistros do livro. 1Q84 é uma ficção interessantíssima e inteligente que faz com que não tenhamos vontade de parar até sabermos em qual dos mundos os personagens estão de fato a viver.

 

Que sentido faz continuar a viver completamente sozinha num mundo absurdo… um mundo com duas luas, uma grande e uma pequena, e onde seres que fazem parte de um tal Povo Pequeno controlam o destino dos humanos?

 

A leitura foi muito agradável, mas vou confessar pra vocês, depois de dois volumes de quase 500 páginas cada um, comecei a achar que o autor estava a dar voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum. Quando comecei o terceiro volume já estava um pouco cansada, percebi que nada avançava, que o autor estava meio que ‘enchendo linguiça’. No terceiro livro, além dos dois personagens principais, Aomame e Tengo, velhos conhecidos do leitor desde o início da trama, aparece um terceiro personagem, o sinistro e misterioso Ushikawa. Deu-me a impressão de que o autor colocou este personagem extra exatamente para dar uma animada na narrativa, que já havia ficado bastante repetitiva. E foi, de verdade, uma jogada de mestre, porque ele conseguiu recuperar o meu interesse.

O terceiro volume foi de fato o que menos gostei. Apesar de ter gostado do tema, apesar de achar que este escritor tem uma grande capacidade de criar enredos criativos e personagens bem construídos e interessantes, dessa vez o autor esticou a trama além da conta. A história estaria perfeita com apenas dois volumes, porque no final das contas acabaram ficando várias informações completamente perdidas e sem relevância nenhuma para o desfecho. Mesmo assim, com todas as suas imperfeições, esse autor consegue me agradar a cada livro. Gostei!

E Murakami continua narrando exageradamente bem as cenas de sexo, mais explicadinho impossível. Após ler 1Q84 cheguei à conclusão de que o erotismo exacerbado é realmente um tema recorrente na literatura desse japonês fora de série.

 

Sobre o escritor:

 

Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestigio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O’Connor.
Recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Como música também não pode faltar em um livro de Murakami, deixo aqui um vídeo da Sinfonietta de Janácek, canção que o autor menciona bem no comecinho da história. Para mim, virou trilha sonora.

 

Todas as cartas de amor são ridículas…

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas (…)” Álvaro de Campos

 

Fernando-Pessoa-Cartas

 

Eu adoro poesia. E quando falo em poesia me vem logo à cabeça Fernando Pessoa e seus heterônimos, porque eles são os meus poetas preferidos. Além disso, adoro biografias, cartas, diários e tudo mais que me permita bisbilhotar detalhes privados da vida dos escritores que gosto. Então, quando vi na vitrine de uma livraria o livro Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz  publicado pela Editora Assírio & Alvim, em 2012, entrei imediatamente para comprá-lo. Fiquei curiosíssima para conhecer os pormenores do romance dos apaixonados.
O livro traz uma compilação de cartas que foram trocadas por Ofélia e Pessoa durante as duas fases do namoro que mantiveram. Agora ficou muito mais interessante ler essas correspondências, porque nos são apresentadas em forma conjunta e obedecendo um critério cronológico. Uma carta é sempre a resposta de outra, assim os assuntos não ficam mais subentendidos, é possível seguir a leitura como se estivéssemos presenciando o diálogo deles realmente.
As cartas de Ofélia, que até bem pouco tempo não haviam sido publicadas em sua totalidade, quando lidas juntamente com as cartas de Fernando permitem-nos perceber que houve sim uma relação amorosa real, que não se tratou apenas de um amor platônico criado pela imaginação fértil do poeta.
O livro é composto de 185 documentos: 51 cartas de Pessoa e 129 de Ofélia, além de alguns telegramas e postais. As correspondências 
foram transcritas a partir de fotocópias dos manuscritos originais, cedidas pelos familiares de ambos os interlocutores. A nota introdutória informa o leitor que foram feitas algumas correções na ortografia para atualizá-la de acordo com o último acordo vigente e também para corrigir alguns pequenos erros. A pontuação, no caso das cartas de Ofélia, foi mantida, só foi mesmo corrigida nos casos em que poderia causar alguma ambiguidade. As datas das cartas, que originalmente são colocadas no final, foram deslocadas para o início para que o leitor pudesse ter uma melhor percepção da sequência cronológica. A edição é bem bonita e caprichada, além disso contém algumas explicações nas notas de rodapé.

 

cartas

 

Nas missivas do início da primeira fase do namoro, que durou de novembro de 1919 a dezembro de 1920, Pessoa mostra-se um homem apaixonado, romântico, em alguns momentos até ridiculamente meloso.

 

Adeus, amor. Beijos, beijinhos, beijões, beijicos, e beijerinzinhos do teu, sempre e muito teu
Fernando

 

Na segunda fase, que durou de setembro de 1929 a janeiro de 1930, percebemos que a correspondência é muito mais da parte de Ofélia que de Fernando… As cartas dele, quando chegam, são curtas e não apresentam mais aquele tom tão romântico e apaixonado do início da relação, o poeta mostra-se mais seco e distante. Já para o fim do relacionamento o discurso de Pessoa muda mais ainda, aquele tom meloso é substituído por um tom mais racional. O poeta, inclusive, escreve cartas para Ofélia e assina como um dos seus heterônimos, o antipático Álvaro de Campos, que ficamos sabendo por meio das cartas que era o heterônimo que Ofélia mais detestava.
Dessa forma, às vezes brincando e outras vezes falando sério, Pessoa decide dar fim ao relacionamento. No entanto, a culpa do término do namoro não foi unicamente dele, mas dos heterônimos que, segundo o escritor, eram muito exigentes.

 

O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que nao permitem nem perdoam.

 

Antes, quando eu lia na internet pequenos trechos das cartas de Pessoa para Ofélia e vice-versa, imaginava que o namoro deles havia sido algo assim meio sem graça, sem paixão. Mas depois de ter lido as cartas em conjunto, entendi que o tal relacionamento foi até bem picante para os parâmetros daquela época. Deu para perceber que o namoro do casal foi além dos olhos nos olhos, pois em seus textos captamos até mesmo pequenos traços de sensualidade e erotismo.

 

Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo… Meu Bebê pra sentar no colo! Meu Bebê pra dar dentadas! Meu Bebé para… Corpinho de tentação.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; Pões tua boquinha contra a boca do Nininho… Vem… Estou tão só, tão só de beijinhos…

Vou-me deitar Nininho, queres vir fazer óó comigo? Isso há-de ser um dia, mas não me chames descarada não?


Eu adoro as poesias de Pessoa, mas devo admitir que as cartas não me agradaram tanto assim. Achei que a maioria delas é bastante boba e infantil, sobretudo aquelas do início da relação. Além disso, senti pena de Ofélia, pois como deu para perceber ela se entregou demasiado a esse amor e sofreu bastante para superar o fim do relacionamento. Pessoa, como pude notar, foi mais direto e racional e, para encerrar o relacionamento, escreveu clara e friamente sobre o fim do amor.

 

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como nao hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que nao são mais que partes da vida? (…) Quanto a mim… O amor passou.

 

Apesar de não ter gostado tanto assim das cartas (achei-as um bocado aborrecidas) valeu a pena a leitura, pois pude comprovar mais um vez que Álvaro de Campos tinha razão quando afirmou em seu poema que Todas as cartas de amor são ridículas.

 

 

Deixo aqui um vídeo com um poema de Álvaro de Campos, o heterônimo que Ofélia tanto detestava:

 

 

*** Texto escrito em 2012, no meu antigo/falecido blog.

Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong…

“É sempre difícil apreciar os livros sagrados de outras culturas.”

 

Baixar-Livro-Maome-Karen-Armstrong-em-PDF-ePub-e-Mobi-ou-ler-online-370x536Não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião no momento, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. Como eu não sou de fugir da raia, encarei. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou um bocado, não apenas porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente, mas também porque me deu motivação para começar a ler Salman Rushdie, um escritor que já estava na lista de espera há anosSem falar que eu adoro histórias ambientadas na Idade Média, então colocando na balança os prós e contras, posso dizer que Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong, foi uma leitura boa e informativa.
O livro, publicado originalmente no Reino Unido em 1990 (no Brasil em 2002 pela Companhia das Letras), é interessante a começar pelo prefácio, escrito em 2001, apenas um mês após o atentado às torres gêmeas nos Estados Unidos.
Armstrong nos conta que decidiu escrever a biografia de Maomé em 1989, época em que veio à tona o caso Salman Rushdie.
Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana, escreveu Os Versos Satânicos, um romance que descreve um profeta fundador de uma nova religião. A história desse profeta, que foi supostamente inspirada na figura de Maomé, ocupa apenas 70 páginas do livro de Rushdie, mas ainda assim essas poucas páginas foram suficientes para provocar reações furiosas e violentas entre os muçulmanos. O romance ofendeu a comunidade muçulmana que entendeu que seu Profeta e maior representante da fé islâmica havia sido desrespeitado, por conta disso o autor dos Versos Satânicos foi considerado blasfemo. Sua situação agravou-se mais ainda depois que o Ayatolá Ruhollah Khomeini decretou uma fatwa que condenava o escritor e seus editores à morte. Khomeini induziu uma multidão de muçulmanos a queimar os livros de Rushdie em praça pública, apedrejar livrarias e a editora Penguin, responsável pela publicação do romance.

“Faço saber aos orgulhosos muçulmanos de todo o mundo que o autor de Os Versos Satânicos, livro que vai contra o Islã, o Profeta e o Corão, e todos os implicados em sua publicação que eram conscientes do seu conteúdo, foram condenados à morte. Peço a todos os muçulmanos que os executem onde quer que os encontrem. Caso morram na tentativa serão considerados mártires.” (Mensagem do Ayatolá Khomeini transmitida pela rádio Teerã.)

Dias após a transmissão dessa mensagem o Ayatolá Khomeini ofereceu também uma recompensa de três milhões de dólares para quem matasse Salman Rushdie, esse foi o estopim do caso que levou o escritor inglês a ficar por mais de uma década escondido sob forte proteção policial.
Armstrong conta que depois da fatwa o preconceito contra os muçulmanos aumentou ainda mais. A autora afirma que embora no ocidente não tenhamos tomado conhecimento, a fatwa decretada por Khomeini foi condenada e considerada inválida por 44 dos 45 países muçulmanos que reafirmaram que ela violava as leis islâmicas pregadas por Maomé. Segundo a escritora, a decisão tomada por quase todos os países islâmicos não foi levada em consideração e nem colocada em evidência pelos meios de comunicação. Ou seja, o povo no ocidente continuou a acreditar que todos os muçulmanos clamavam pela morte de Rushdie. Foi no auge de toda essa confusão que Armstrong decidiu escrever a biografia de Maomé. Ela diz ter tido receio de que o ocidente nunca chegasse a conhecer de fato a verdadeira história do Profeta.

 

Escrevi o livro porque lamentava que o retrato de Maomé, apresentado por Rushdie, era o único que a maioria dos ocidentais teria possibilidade de ver.

 

Karen Armstrong é uma escritora britânica nascida em 1945. Foi freira católica durante sete anos, mas atualmente diz não professar nenhuma fé. É bacharel pela Universidade de Oxford e foi também professora de Literatura na Universidade de Londres. Em 1999 recebeu o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000 o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas. Em 2017 recebeu o Prêmio Princesa de Asturias de Ciências Sociais. Armstrong já é bastante conhecida por seus livros que têm a religião como tema recorrente. Dentre suas obras mais importantes podemos citar Uma história de Deus (1994), Jerusalém, uma cidade, três religiões (2000) e Em nome de Deus (2001).

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Nesta biografia de Maomé, a autora dedica-se a contar sobre a formação do Islã desde os seus primórdios. Primeiro ela fornece ao leitor milhares de informações geográficas, em seguida faz uma excelente contextualização tanto histórica como política, moral e religiosa -, mostra também como era a Arábia nos tempos que antecederam Maomé, quando os habitantes ainda eram politeístas e adoravam a Caaba (o antigo santuário em forma de cubo situado no centro da cidade de Meca) e as três deusas pagãs: al-Lat, al-Uzza e Manat.
Ela fala sobre as tribos beduínas da Arábia no final do século VI, mostra os conflitos existentes e como eram exercidas as leis naquela época.
Maomé nasceu no ano 570 na tribo dos coraixitas e, de acordo com a autora, desde muito jovem mostrou-se bondoso, dedicado, inteligente, honesto e submisso a Deus. Trabalhou como vendedor/comerciante em caravanas no deserto. Armstrong traça o retrato de um Maomé justo e que luta contra uma sociedade politeísta para tentar consolidar a fé islâmica. 

No ano 610, no topo de uma montanha, na décima sétima noite do mês do ramadã, Maomé recebe por meio do Anjo Gabriel a primeira revelação de Deus. O profeta recebeu durante 23 anos seguidos mensagens que, segundo ele, foram ditadas pelo Deus de Abraão, o mesmo Deus dos cristãos e judeus. Esses versículos revelados a Maomé são chamados pelos muçulmanos de Sura. Mais à frente essas suras foram recolhidas e deram origem ao Corão, o livro sagrado do islã. 

Durante dois anos Maomé guardou segredo sobre as revelações recebidas, foi só no ano 612 que ele começa sua missão. No entanto, não foi fácil introduzir a fé monoteísta a um povo pagão, por isso Maomé acabou perseguido e precisou fugir de Meca. Em 622 ele refugia-se em Medina, mas continua em perigo durante alguns anos mais. Foi apenas em 630, após muitas lutas e batalhas sangrentas, que Maomé regressa e finalmente consegue conquistar Meca.
Nota-se claramente que Armstrong fez uma minuciosa pesquisa para escrever seu livro e contextualizar bem a história. Além disso, por ter se dedicado à vida religiosa por muitos anos e conhecer as escrituras sagradas tanto do Cristianismo quanto do Islamismo, tem bagagem cultural para falar a respeito do assunto. A lista bibliográfica que a autora utilizou é bem extensa, além dos dois primeiros biógrafos de Maomé, consultou também Dante Alighieri, Umberto Eco, William Montgorrey Watt, Wilfred Cantwell Smith, entre outros.

Durante toda a narrativa a autora faz comparações entre o Cristianismo e o Islã, principalmente quando tenta amenizar as atitudes violentas cometidas pelo Profeta nos primórdios da nova religião. Quando Maomé decidiu lutar em Badr e dizimou milhares de pessoas ou quando expulsou e massacrou as tribos judaicas, Armstrong justifica as atitudes do profeta afirmando que, naquela época, as posturas violentas e sangrentas eram necessárias para seguir adiante com os planos. Além disso, ela estabelece um comparativo entre esses atos sangrentos cometidos por Maomé e acontecimentos cristãos, como por exemplo, as Cruzadas, os episódios dos Mártires Cristãos de Córdoba e a queima de livros durante a Santa Inquisição.
Armstrong critica a imagem errônea que os ocidentais têm do Islã e seus seguidores e condena as falsas qualidades que a eles são atribuídas: violentos, opressores das mulheres, vingativos e terroristas.

 

Culpamos a religião da violência, quando na verdade a violência está na natureza humana. As guerras são invenções da civilização e estão presentes em todo tipo de sociedades, muito antes da chegada do monoteísmo.

Nós precisamos da história do Profeta nestes tempos perigosos. Não podemos permitir que os extremistas muçulmanos sequestrem a biografia de Maomé e a distorçam para servir a seus próprios fins.

 

Quando alguma passagem do Corão retirada do contexto é citada para justificar atos terroristas, Armstrong cita passagens das escrituras sagradas do Cristianismo e Judaísmo para comprovar que essas duas religiões também podem ser igualmente violentas, ela assegura também que a Bíblia tem mais passagens violentas que o Corão. Ela diz que a maioria dos ocidentais não é capaz de julgar o Islã de forma justa por ignorância, porque desconhece a cultura muçulmana. Além disso, mostra-se profundamente incomodada com a forma distorcida e equivocada com que os ocidentais se referem ao islã, principalmente quando é mencionado que essa religião é intolerante e fanática. Segundo a autora, os atentados terroristas cometidos por fundamentalistas não podem ser associados a Maomé, porque o profeta foi, na verdade, um homem que gastou parte de sua vida tentando impedir esse tipo de massacre. A palavra Islã, que significa submissão existencial de todo o ser a Deus, está relacionada à paz (Salam), dessa forma o Islã não poderia jamais ser taxado como uma religião agressiva e que insufla a violência já que seu Profeta pregava a harmonia.
Karen Armstrong diz também que no século XII os muçulmanos conviviam harmoniosamente bem com cristãos e judeus na Península Ibérica, que não foram os seguidores do Islã que começaram a brigar por sua fé, mas os cristãos que decidiram quebrar a relação de concórdia e tranquilidade existente entre as três religiões.

 

Finalmente foi o Ocidente, e não o islã, que proibiu a discussão de assuntos religiosos. Na Idade Média, os cristãos só foram capazes de ver o islã como uma versão fracassada do cristianismo e criaram mitos para demonstrar que Maomé fora instruído por um herege.

 

Maomé morreu em 632, mas um pouco antes de sua morte conseguiu unificar a Arábia e as Leis islâmicas. A experiência espiritual pela qual Maomé passou durante esses 23 anos mudou sua vida e de grande parte do povo árabe. O Islã atualmente é seguido por 1,2 bilhão de muçulmanos, um quinto da população mundial.

Eu gostei do livro, principalmente da contextualização histórica, porém não posso deixar de ressaltar que a autora apesar de ter bastante conhecimento sobre o assunto não foi imparcial ao contar a história do profeta. Ela claramente escolheu um lado: o lado dos muçulmanos. Foi uma rasgação de seda o tempo todo. Todas as comparações que Armstrong faz é favorecendo o islamismo em detrimento do cristianismo e judaísmo. Fiquei meio sem entender o porquê… Será que ela teve medo de ofender a comunidade islâmica e ter que passar pela mesma situação que Salman Rushdie passou? O certo é que senti que Armstrong apenas defendeu Maomé, que é mostrado o tempo todo como um homem pacífico, desprovido de defeitos.

 

Maomé foi um pacifista que reuniu as tribos na tomada de Meca.

 


Há também passagens em que Armstrong faz comparações entre Maomé e Jesus e, nesses momentos, o profeta islâmico é sempre colocado em uma categoria superior ao profeta cristão.

 

Nunca lemos sobre Jesus rindo, mas com frequência encontramos Maomé sorrindo e brincando com as pessoas que lhe eram próximas.

Em vez de vagar como extraterrestre pelas montanhas da Galiléia a pregar e a curar, como o Jesus dos Evangelhos, Maomé teve de se engajar numa árdua luta política para reformar a sociedade (…)

 

É impressão minha ou Karen Armstrong chamou Jesus de alienígena? Que bom para ela que os intolerantes cristãos, que ela tanto criticou em seu livro -, não decidiram criar uma fatwa para castigá-la por essa colocação tão fora de lugar. Por muito menos os pacíficos seguidores do Profeta Maomé, que ela tanto defende, teriam distribuído alguns tabefes (rsr) 🙂

Para finalizar, devo dizer que a leitura mais agradou que desagradou, no entanto eu adoraria mesmo saber a opinião sincera de Karen Armstrong sobre a atual situação do povo muçulmano: sobre os Refugiados na Europa, sobre os recentes ataques terroristas em Paris, Londres, Bélgica, Berlim  e Barcelona.

“Se quiserem melhores resultados no século XXI da era cristã, os ocidentais deveriam aprender a compreender os muçulmanos, com quem dividem o planeta.”

Será mesmo, Sra. Armstrong, que a culpa é dos ocidentais e que apenas eles deveriam aprender a compreender e conviver bem com os muçulmanos? Sei não, tenho cá minhas dúvidas!

 

Palestra de Karen Armstrong:

Documentário sobre o Caso Salman Rushdie:

Impressões de leitura #16: A casa das belas adormecidas…

 

” A mais bela das mulheres não poderia, durante o sono, dissimular a sua idade. Um rosto jovem é agradável durante o sono, mesmo que a mulher não seja uma beleza. Talvez não pudesse escolher, naquela casa, senão raparigas agradáveis de ver enquanto dormiam.”

 

casadasbelas3A primeira vez que escutei falar em Yasunari Kawabata foi em dezembro de 2005, naquela época acabava de ser publicado no Brasil o livro “Memória de minhas putas tristes,” do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Muito se falava a respeito desse novo livro, pois foi a partir dele que Gabo colocava fim a um jejum de dez longos anos longe dos romances. Foi nessa onda de novidade e curiosidade que comecei a leitura… Já na orelha da capa fiquei sabendo que Memória de minhas putas tristes havia sido inspirado em A casa das belas adormecidas, do escritor japonês Yasunari Kawabata. García Márquez começa sua história com uma epígrafe retirada da própria história de Kawabata:
“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”
O livro de Gabo não me agradou muito porque seu tema remete à pedofilia, um assunto que me causa repulsa e estranhamento, no entanto, a epígrafe deixou-me curiosa.

Conversando com algumas pessoas acerca dessa leitura frustrada, sugeriram-me ler o livro de Kawabata que, na opinião da maioria, é superior ao de Gabo. Passaram-se os anos e eu acabei descobrindo que García Márquez havia escrito também um conto baseado nesse livro (para ler o conto, clique aqui). Então, outra vez, a vontade de conhecer a história das Belas Adormecidas, voltou. Mas só agora, mais de uma década após aquela epígrafe, eu finalmente encarei o livro do escritor japonês.

A casa das belas adormecidas foi publicado originalmente no Japão em 1961. Li a edição portuguesa com tradução de Luís Pignatelli feita a partir da tradução francesa. Essa edição traz um prólogo estupendo do também escritor e amigo íntimo de Kawabata, Yukio Mishima. Pesquisando mais sobre o escritor, descobri que ele teve uma vida bastante conturbada e marcada por tragédias familiares. Aos dois anos ficou orfão e foi viver com os avós paternos; tempos depois, perdeu a irmã; mais à frente, os avós e, alguns anos mais tarde, seu íntimo amigo, Yukio Mishima, cometeu suicídio. Lendo sobre todas essas situações trágicas pelas quais o escritor passou e pela vida repleta de perdas, não é por acaso que o autor coloca em seus livros tanta melancolia e até um quê de desespero.
Yasunari Kawabata nasceu em Osaka em 1899. Foi cineasta em sua juventude, um leitor voraz tanto dos clássicos como das vanguardas europeias. Foi um solitário durante praticamente toda a vida e uma pessoa torturada pela insônia. Escreveu novelas, contos, romances e é um dos escritores japoneses mais populares dentro e fora de seu país. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1968. A maioria de suas obras está marcada pela solidão e pelo erotismo, se destacam além de A casa das belas adormecidas, também Beleza e Tristeza e País da Neve. Apesar do seu discurso na cerimônia de entrega do Premio Nobel de Literatura ter sido contra o suicídio, Kawabata tirou a própria vida em 1972. 

 

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Yasunari Kawabata

 

A casa das belas adormecidas é um livro bem curtinho, apenas 128 páginas divididas em cinco capítulos. Narrado em terceira pessoa, conta a história de Eguchi, um idoso de 67 anos que, influenciado por um amigo, decide visitar uma casa clandestina, uma espécie de bordel japonês do final do século passado. Nessa casa é possível passar a noite ao lado de meninas jovens, lindas, nuas, virgens e adormecidas por meio de narcóticos. O amigo de Eguchi, Kiga, conta-lhe que os idosos uma vez ao lado dessas jovens passam a sentir-se vivos e vigorosos -, algo bastante incomum na idade em que eles se encontram, pois é justamente nessa altura da vida que a manifestação da morte tende a se repetir de maneira contínua, por isso a casa das belas adormecidas vai servir como uma espécie de refúgio sempre que o desespero de envelhecer se tornar insuportável.

Eguchi teve uma vida aparentemente normal, casou-se, teve filhas e netos e, à sua maneira, foi feliz. Contudo, sua velhice é repleta de melancolia, solidão e nostalgia. As partes que achei mais interessantes são justamente aquelas que remetem às lembranças remotas de sua juventude, lembranças essas que retornam com muita força durante os momentos em que ele permanece ao lado das jovens adormecidas. Mas, apesar de estar na companhia dessas jovens, ainda assim continua a sentir-se solitário, pois não pode compartilhar absolutamente nada com elas. O livro de Kawabata ao mesmo tempo que mostra a realidade de um homem idoso, solitário, inquieto e desprovido de virilidade, concede também ao protagonista um momento de reflexão sobre si próprio, sobre seus sentimentos, sobre sua capacidade de se emocionar e de se comover diante da proximidade da velhice. A realidade do velho Eguchi o incomoda, seu repúdio à situação em que se encontra é visceral, tanto que ele considera-se um ridículo por estar a dormir ao lado de meninas desmaiadas, quase mortas.

 

“E, contudo, poderia haver coisa mais horrível do que um velho que se dispunha  a deitar-se uma noite inteira ao lado de uma rapariga que tinham adormecido por todo esse tempo e que não abriria os olhos? Eguchi não teria por acaso vindo a essa casa para procurar esse absoluto no horror da velhice?”

 

Os idosos, frequentadores assíduos da casa, precisam seguir algumas normas restritas -, dentre essas normas está o fato de que é terminantemente proibido praticar relações sexuais com as meninas e, de forma alguma, é permitido despertá-las: “Não procure acordar a pequena. Porque, faça o que fizer para a acordar, ela nunca abrirá os olhos…” Eguchi, embora também seja um cliente da casa, acha que não faz parte do seleto grupo de ‘homens inativos’ -, aqueles que já não são capazes de satisfazer sexualmente a uma mulher… Ele acredita que apesar de sua idade ainda não está completamente desprovido de masculinidade. A presença das jovens adormecidas desperta em Eguchi pensamentos eróticos, agressivos e violentos, a tal ponto de fazê-lo desrespeitar as normas estabelecidas pelo bordel.

 

“Na esperança de, antes de mais, acordar a rapariga, tratou-a brutalmente.”

 

Para o protagonista, infringir as regras significava vingar os outros velhotes que, segundo ele, passavam pela humilhação de dormir ao lado de meninas drogadas, quase mortas, inanimadas. Além disso, desobedecer poderia ser também uma forma de mostrar que não é ainda um ‘homem inativo’, um ‘não-homem,’ como os outros frequentadores da casa e, assim, comprovar a si mesmo que ainda é capaz de cometer atos viris. Ao decidir manter relação sexual com uma das meninas apercebe-se de que ela ainda é virgem, então chega à conclusão de que a virgindade da menina apenas confirma a incapacidade dos clientes; a virgindade dela corrobora não que os clientes respeitam a ferro e fogo as regras impostas pelo bordel, mas a impossibilidade que eles têm de consumar o ato sexual, por essa razão são chamados pela dona da casa de ‘clientes confiáveis’, ou seja, eram confiáveis pelo simples fato de serem desprovidos de virilidade.
Dormir ao lado de meninas tão jovens leva Eguchi ao caminho da autorreflexão. Ele passa durante as cinco visitas que faz à casa das belas adormecidas a analisar sua própria existência… A presença das jovens, a nudez delas, mas, sobretudo, a juventude delas, faz com que a personagem relembre fatos importantes e marcantes pelos quais passou no decorrer da vida.

 

 

Capa da edição portuguesa:

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imagem da capa: Close-up of a woman sleeping on the bed, por Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892)

 

A casa das belas adormecidas é, a meu ver, um livro triste, incômodo, um livro que causa perturbação e confusão. A presença da morte dá uma aura de tristeza ainda maior à história, além disso, aborreceu-me um bocado ler sobre um homem/idoso que se relaciona com mulheres jovens, nuas, narcotizadas, adormecidas e completamente vulneráveis, desprovidas de todas as suas defesas… meninas à mercê de atos libidinosos.

 

“Está profundamente adormecida e não dá conta de nada. Porque a rapariga dorme de um sono só e do princípio ao fim ignora tudo. Mesmo com quem passou a noite…”

 

Senti, mais uma vez, que a objetificação do corpo feminino é, infelizmente, um tema recorrente. Mais uma vez a mulher é colocada como a responsável pelos atos nefastos cometidos por homens, mais uma vez a mulher é responsabilizada pelos desejos incontidos de homens.

 

“esta era uma jovem que tanto dormida como acordada incitava o homem com tal força que se agora Eguchi violava as regras da casa só ela teria a culpa do delito.”

 

Incomodou-me muito o narrador atribuir às meninas o sentido de algo inanimado, a natureza de um objeto, tratando-as como um brinquedo. Não me causou boa impressão, deveras!

 

“mas tinham feito dela um brinquedo vivo a fim de evitar qualquer sentimento de vergonha a velhotes que já nada tinham de homens. Ou, quem sabe, mais do que um brinquedo, para os velhotes desse tipo ela era a própria vida.  Uma vida que, assim, podia ser tocada com toda a segurança.”

 

Eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve e Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Criei uma antipatia quase repulsiva pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha. Entretanto, o mérito de Kawabata está mesmo na beleza de sua escrita; entre os recursos empregados pelo autor, posso dizer que a descrição cuidadosa que ele utiliza ajuda a dar um toque poético à história… Por exemplo, quando ele fala sobre o vermelho das cortinas refletido nas tezes adormecidas das garotas, a posição em que elas dormem, onde colocam suas mãos, como é o formato de seus seios, a cor de seus cabelos… Sua bela descrição não limita-se apenas ao aspecto físico das meninas, mas também ao aroma delas. Ele fala sobre o cheiro do leite que sente em uma das jovens e que remete às lembranças do passado… Descreve de uma forma muito bonita as cores, a camélia desfolhada, o espaço físico onde se encontra a casa, o barulho do mar quando bate nas falésias… tudo isso acaba por dar uma atmosfera quase lírica ao texto.
Os incidentes registrados pelo autor convergem todos para uma estrutura narrativa cujo ponto de sustentação principal é a solidão, decorrente da senilidade. Essa solidão constitui um estado real e concreto de carência, algo que o protagonista no auge de seu contentamento por usufruir da companhia das jovens, não se dará conta. No entanto, esse contentamento é efêmero, pois no decorrer da história ele perceberá sua decrepitude e tentará resgatar por meio da juventude das meninas sua própria juventude perdida.
A melancolia permeia todo o texto de Kawabata e, ao mesmo tempo que o autor mostra de uma forma bonita os momentos de reflexão da personagem, mostra também um estado de carência afetiva contra a qual o protagonista – apesar de suas limitações – tenta lutar. Contudo, essa luta é inútil, pois para o velho ficará claro o contraste existente entre a juventude das meninas e o horror de sua própria velhice. Ele comparará sua idade à das meninas, e a mocidade delas, ao invés de fortalecê-lo, o fará ter mais certeza de sua debilidade e da efemeridade da vida. Eguchi terá a noção exata de sua própria existência e entenderá, finalmente, que a juventude das moças não poderá retardar a passagem do tempo, apenas comprovará que a morte, nessa altura da vida, é inexorável.

“(…) as próprias belas adormecidas são fragmentos de seres humanos avivando o desejo na sua maior intensidade…”  (Yukio Mishima)

 

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