Impressões de Leitura#21: Os sofrimentos do jovem Werther… (contém spoilers)

“O que pude encontrar da história do pobre Werther reuni com disciplina, e aqui vos apresento, e sei que me agradecereis. Não podeis negar vossa admiração e amor ao seu espírito e seu caráter, e vossas lágrimas ao seu destino. E tu, boa alma, que sentes o mesmo ímpeto que ele, toma como consolo seu sofrimento, e deixa o livrinho ser teu amigo, se não puderes, por destino ou própria culpa, encontrar alguém mais próximo.” — O editor

4F035099-0F65-48C7-9936-953A4691A17EOs sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang Goethe, é um romance epistolar com traços autobiográficos. Escrito em apenas quatro semanas quando Goethe tinha 25 anos, o livro conta a história de um jovem e sua paixão não correspondida por uma mulher comprometida. Foi publicado em 1774, causando furor e rebuliço na sociedade alemã daquela época. O livro de Goethe foi um divisor de águas na literatura alemã, foi justamente esse romance que deu origem à prosa moderna e iniciou o romantismo na Alemanha.
Para melhor compreendermos a importância de Os sofrimentos do jovem Werther na literatura, é necessário conhecermos um pouquinho o contexto histórico no qual a obra está inserida.
O movimento romântico foi um período de vida e arte que compreendeu o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX. Está associado às mudanças sociais e políticas que derivam da Revolução Industrial iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII e a Revolução Francesa de 1789. Com seu tríplice Ideal de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a revolução quebra o império do absolutismo e difunde na Europa um clima favorável à ascensão da burguesia
. O Romantismo coincidiu justamente com essa ascensão econômica/política e expressa os sentimentos das pessoas que viviam insatisfeitas com as novas estruturas e relações sociais. De um lado estava a nobreza que já não desfrutava dos mesmos privilégios de outrora e, por outro, a pequena burguesia que ascendia e ia conquistando seu espaço pouco a pouco.

Na Literatura, o Movimento Romântico foi marcado por três fatos fundamentais. Primeiro, o aparecimento de um novo público leitor, resultado de uma literatura feita de forma simples, com uma linguagem mais popular, totalmente oposta ao neoclassicismo -, que prezava por uma linguagem clássica. Segundo, o surgimento do romance moderno, os conhecidos folhetins, como forma mais difundida e acessível de comunicação literária. E, por último, a liberdade de expressão. Os escritores românticos tinham aversão pelos modelos clássicos e queriam sentir-se livres para escrever da forma que melhor lhes conviessem, deixando para trás as exigências do neoclassicismo e adotando uma narrativa na qual predominasse mais o sentimento, a emoção, a evasão e o sonho. Os românticos preferiam fugir da realidade para um mundo imaginário criado a partir de sonhos e lançavam mão de um sentimentalismo exacerbado, que passou a predominar sobre a razão. Essa liberdade criadora, para os românticos, é um ato de liberdade e desprendimento.
Outro fator que foi muito importante e colaborou para o surgimento dessa nova literatura foi o movimento pré-romântico, conhecido como Sturm und Drang (tempestade e Ímpeto). Esse movimento, surgido na Alemanha, tinha acentuado caráter nacionalista e foi o responsável por desencadear o Romantismo.
Os Sofrimentos do jovem Werther é uma cria do Sturm und Drang, apesar de ter sido escrito e publicado em 1774 é considerado o precursor do Romantismo, embora essa escola literária só tenha iniciado oficialmente alguns anos mais tarde.

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Werther, nosso protagonista, inicia seu relato contando por meio de cartas a Guilherme, um amigo, seu cotidiano em Wahlheim, um pequeno vilarejo na Alemanha, para onde se muda. Durante as primeiras missivas notamos um Werther calmo e alegre. O rapaz sente-se bem em conviver com as pessoas simples do lugar e desfruta de tudo que o rodea. Seu discurso é um turbilhão de sentimentos, um misto de poesia e culto à natureza: cada árvore, cada moita é um ramo de flores, e a gente faria gosto em se transformar num besouro para esvoaçar nesse mar de perfumes e poder sugar todos os seus alimentos.”

Mas eis que Werther conhece Carlota, uma jovem culta e de refinada beleza, que para infelicidade do jovem está comprometida com Alberto, um homem bom e correto, segundo palavras do próprio Werther: “Alberto é um homem honesto e bom, que merece toda a simpatia. É um homem sensível e parece pouco sujeito a maus humores. Não há dúvida de que Alberto é o melhor homem da face da terra.”
Werther desenvolve uma relação de admiração, respeito e amizade por Alberto, apesar disso não consegue controlar os sentimentos em relação à sua noiva. O jovem apaixona-se perdidamente por Carlota, porém quando se dá conta da impossibilidade de a ter para si esse amor se torna um fardo insuportável.

Quando lemos as primeiras cartas de Werther a Guillerme percebemos que o discurso do protagonista é muito bonito, no qual ele faz odes a Carlota, que é vista como uma mulher perfeita, um anjo, quase uma santa. Embora lá no início do romance seu discurso já esteja carregado de expressividade e emotividade, é, ainda assim, leve. Entretanto, os exageros nas seguintes missivas de Werther intensificam-se à medida que o amor de Carlota se torna mais distante e impossível. O amor cortês que Werther sente por sua amada transforma-se claramente em arrebatador e completamente exagerado.

 

Hoje não pude ir ver a Carlota, uma visita inesperada me segurou em casa. Que havia a fazer? Mandei meu criado ao encontro dela, só para ter junto de mim alguém que tivesse estado em sua presença. Com que impaciência o esperei, com que alegria tornei a vê-lo! Não tivesse vergonha e teria me atirado ao seu pescoço e coberto seu rosto de beijos. A lembrança de que o rosto de Carlota havia pousado em seu rosto, em suas faces, nos botões de sua casaca e na gola de seu sobretudo, tornava-o tão querido, tão sagrado para mim! Naquele momento não daria aquele rapaz nem por mil táleres! Me sentia tão bem em sua presença…

 

Werther percebe que existe apenas uma solução para o seu mal de amor: fugir da inalcançável e perfeita Carlota. Nosso protagonista decide partir de Wahlheim sem sequer se despedir de sua amada, pois acredita que a distância o fará esquecê-la. No entanto, mesmo longe, o pobre rapaz continua a se martirizar… e o sofrimento de seu espírito o transforma cada vez mais em uma figura atormentada, um apaixonado à deriva de seus próprios sentimentos, um ser completamente desprovido de esperança.
Quando Werther compreende que o amor que nutre por Carlota não se modificou apesar da distância, decide retornar a Wahlheim… A partir daí, entramos em contato com um Werther completamente diferente daquele do início do romance, um jovem com tendência natural a falar sobre assuntos mórbidos e a enxergar tudo pelo pior lado. Seu pessimismo é cada vez mais e mais evidente, o que acaba por desencadear o desfecho trágico. A forma como o apaixonado discorre sobre o suicídio, sobre a morte por amor e sobre o seu próprio sofrimento nos mostra claramente o seu ímpeto e arrebatamento indomáveis. O jovem Werther transforma-se cada vez mais em um homem ultra-romântico, passional, subjetivo, pessimista e triste. Ele se apega a valores decadentes e tem propensão à melancolia e a sobrevalorizar o amor que sente por Carlota. “Toda minha alma estava presa em sua feição, sua voz, seu aspecto. Ela é sagrada para mim. Todo meu desejo emudece em sua presença.”
O sentimentalismo exacerbado, o pessimismo e a melancolia extrema levam o pobre Werther, o sofredor não correspondido, a buscar saída e subterfúgios para o seu mal de amor, nesse caso, a morte.

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Ao entramos em contato com a biografia de Goethe nos damos conta de algumas similaridades com a história de Werther. Goethe nasceu no seio de uma família burguesa em 1749, em Frankfurt am Main. Estudou direito, história e filosofia em Leipzig. Além de escritor, exerceu também atividades teatrais e artísticas de todo tipo e foi por vários anos diretor da Biblioteca Anna Amalia, em Weimar… Sabe-se também que Goethe na sua juventude foi apaixonado por uma mulher casada, cujo nome era o mesmo que o escritor escolheu para a protagonista de seu livro. Passou-me a impressão de que Os sofrimentos do jovem Werther foi uma espécie de catarse para o escritor, catarse essa que não agradou a todos, principalmente ao casal Carlota/Alberto – amigos do escritor que se viram retratados na obra. O suicídio de Werther também foi inspirado em uma personagem real, Karl Wilhelm Jerusalem, um rapaz que fazia parte do círculo de amizades do escritor e que cometeu suicídio por não ter seu amor por uma mulher casada correspondido. É sabido que Goethe também teve vontade de tirar a própria vida, no entanto, foi mais forte que Werther, pois o escritor só veio a falecer em 1832, em Weimar, aos 82 anos.
O livro de Goethe foi o responsável por uma onda de emotividade e desespero que em muitos casos terminou em suicídio. Essa onda de desespero por partes dos jovens europeus ficou conhecido na Alemanha como Efeito Werther. Isso fez com que o livro de Goethe fosse proibido na Alemanha por muitos anos, tudo por conta da sua conotação negativa e, segundo alguns entendidos da época, porque fazia apologia ao suicídio.

 

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É preciso abraçar a volúpia, fartar-se de prazeres e não ter medo da morte. — Goethe

Livros que li…

É sempre assim… A mesma casa, a mesma escada, o mesmo homem. Mas só porque esse homem ficou mais velho, conheceu outras terras e outras gentes, leu mais livros, a casa e a escada mudaram. E as pessoas da casa também mudaram. —Erico Veríssimo

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Em relação a leituras, 2018 foi um bocadinho melhor que 2017, mesmo assim não consegui voltar a minha rotina de leitura dos anos anteriores. Aliás, nem sei se um dia voltarei… Apesar de não ter lido uma quantidade exorbitante de livros, posso dizer que fiz leituras interessantíssimas e tocantes. Li com atenção e desfrutando cada página o máximo que pude… Fui deixando pelo meio do caminho vários livros inacabados e, pra ser bem sincera, já não me importo mais com isso, se não gostar abandono mesmo e pronto, porque a vida é curta demais para perdermos tempo com livro chato e que não nos toca de alguma forma.

Os livros que li em 2018:

1- Travessuras da Menina Má, Mario Vargas Llosa: conta uma história de amor, mas a meu ver, uma história de amor um tanto estranha. É a história de Ricardo e da Menina Má, uma personagem que vai mudar de nome, profissão e nacionalidade várias vezes no decorrer da narrativa. Ele é um romântico; ela, uma aventureira. Com eles passaremos por Londres, Paris, Tóquio e Madri, cidades essas que serão cenários de alegrias, amores e paixões, mas também de mentiras, tristezas e dores..

2- O Estrangeiro, Albert Camus: com pouco mais de oitenta páginas, esse livro é capaz de causar no leitor um turbilhão de sentimentos variados. Em mim, por exemplo, causou um certo desassossego e uma sensação de estranheza, sobretudo ao perceber a apatia de Meursault, o protagonista. A princípio desenvolvi uma grande antipatia por essa personagem, mas, no fim das contas, entendi que Meursault era nada mais nada menos que um estrangeiro para si mesmo… Ele foi condenado não pelo crime que cometeu, mas por não seguir as convenções sociais, por não seguir à risca a manada. E isso é triste, muito triste!

3- Um amor incômodo, Elena Ferrante: é um livro independente, não tem nada a ver com a tão falada série napolitana. Gostei muito da história que tem uma pegada meio de mistério, de romance policial. Neste livro a escritora retrata também a relação mãe/filha de uma maneira bastante crua. Nada aqui é bonitinho, cor de rosa, engraçadinho… A narrativa, como o próprio título já diz, incomoda.

4- Teoria Geral do Esquecimento, José Eduardo Agualusa: conta a história de uma mulher portuguesa que vive em Luanda na época da Independência do país. Em 1975, aterrorizada com os acontecimentos, constrói uma parede separando seu apartamento do resto do edifício. Vive dessa forma, separada do mundo, durante trinta anos, sobrevivendo aos trancos e barrancos, do jeito que pode. Livro ótimo, com um toque de realismo mágico.

5- O conto da ilha desconhecida, José Saramago: um conto lindo de viver. “…se não sais de ti, não chegas a saber quem és. (…) é necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.”

6- Terra Sonâmbula, Mia Couto: foi o primeiro livro desse escritor que li, lá em meados de 2008… Lembro-me de ter terminado essa leitura emocionada, não apenas pela história propriamente dita, mas pela escrita tão linda e poética… Reli-o agora, em 2018, e com certeza o lerei outras vezes mais.

7- A Cabeça do Santo, Socorro Acioli: achei o início desse livro bastante parecido com o início de “Pedro Páramo,” de Juan Rulfo. Pelo que sei, García Márquez também bebeu da fonte de Rulfo para escrever seu ‘Cem anos de solidão,’ então não é tão descabido assim que Socorro Accioli tenha seguido esse rumo, já que ela foi aluna de Gabo. Passando essa fase inicial, que me incomodou um bocado devido às tantas semelhanças com o livro de Rulfo, Acioli encontrou seu próprio caminho e desenvolveu bem a história assim como suas personagens. O realismo mágico dessa escritora brasileira por si só se sustenta. Gostei!

8- A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana Aleksièvitch: traz relatos reais de mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial. Este livro é diferente de qualquer outro acerca desse tema que eu já li, porque ele mostra a batalha das mulheres, a guerra contada a partir do ponto de vista feminino.

9- A Amiga Genial, Elena Ferrante: o primeiro dos quatro livros da tão falada série napolitana. Terminou deixando um gostinho de quero mais e me fazendo desenvolver uma antipatia nível avançado por Lila, uma das protagonistas.

10- Maomé – uma biografia do profeta, Karen Armstrong: não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou muito, porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente…

11- A casa das belas adormecidas, Yasunari Kawabata: eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve e Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Desenvolvi uma repulsa pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha…

12- Canção de ninar, Leïla Slimani: conta a história de uma babá que assassina as duas crianças que toma conta. Calma, isso não é um spoiler, já no primeiro parágrafo do livro a autora nos conta que as crianças foram mortas. É um livro bom que só!

13- A extraordinária viagem do faquir que ficou preso num armário Ikea, Romain Puértolas: é um livro engraçado, serviu para quebrar a tensão e dar uma descansada na mente depois de tantas leituras pesadas.

14- Vale do Encantamento, Amy Tan: um livro de fôlego, são quase 600 páginas de muitas aventuras na Xangai do início do século XX. Vale do Encantamento conta a saga de três gerações de mulheres e suas lutas para sobreviver em um mundo repleto de preconceitos, desigualdades sociais, machismo e violência.. Pra mim, que vivo em Xangai, foi uma sensação muito boa reconhecer os lugares sobre os quais a autora fala e saber que em algum momento já passei por eles. Gostei de conhecer mais sobre os salões de cortesãs de luxo, muito comuns na Xangai do início do século passado, as relações entre chineses e estrangeiros, o declínio do império chinês e a ascensão da Republica Popular da China. Sem falar na conturbada relação mãe/filha muito bem desenvolvida na história. Gostei, gostei mesmo.

15- A mulher na janela, A. J. Finn: eu demorei um tempão pra concluir essa leitura. Achei Anna Fox uma personagem chata, que enche o saco do leitor com seu monólogo repetitivo. O ambiente de clausura no qual a protagonista vive me incomodou bastante, mas não porque remete a uma atmosfera de medo, típica de livros de suspense, mas pelo fato de ter deixado a narrativa arrastada e enfadonha. Além disso, as semelhanças com a Garota no Trem, de Paula Hawkins, me aborreceram também. A. J. Finn – não sei se intencionalmente ou não – praticamente copiou a personalidade da protagonista do livro de Hawkins: bêbada, irresponsável, meio louca, fora de forma, não confiável e com obsessão pela vida dos vizinhos… Foram semelhanças de mais pra meu gosto, já desde o primeiro capítulo. Enfim, A mulher na janela tinha tudo pra ser um bom livro, o autor tinha dois temas muito atuais para desenvolver, depressão e alcoolismo, mas se perdeu no meio do caminho e não me convenceu.

16- Paula, Isabel Allende: é uma história que toca o leitor de uma maneira tão dolorida que é quase impossível escrever qualquer coisa acerca dela sem deixar cair uma lagrimazinha O livro é melancólico, mas é, ao mesmo tempo, um culto ao amor e, principalmente, à vida.

17- Ratos e Homens, John Steinbeck: apesar de ser um livro bem curtinho, Ratos e Homens não fica a dever NADA a certos calhamaços. Steinbeck tinha como principal objetivo fazer uma crítica ao trabalho precário e mal remunerado que era imposto a alguns trabalhadores braçais durante a depressão dos anos 30 nos Estados Unidos, mas esse tema foi ofuscado por outro mais interessante ainda: o valor da verdadeira amizade.
O autor conseguiu desenvolver essa relação de amizade entre as duas personagens principais de uma forma tão bonita que mesmo aquele final trágico não conseguiu apagar a beleza da narrativa. O texto é triste algumas vezes, mas está, ao mesmo tempo, repleto de amor, companheirismo e esperança.

18- Frankenstein, Mary Shelley: essa leitura deixou-me melancólica. Não lembro nunca ter sentido tanta vontade de ninar uma personagem como tive dessa vez… O ‘monstro’, criação do Doutor Frankenstein -, que causa tanta repulsa e medo mundo afora, nada mais é que um ser carente de amor e afeto. A criatura foi rejeitada e abandonada pelo seu próprio criador apenas por causa de sua aparência física, nem mesmo teve a chance de demonstrar o tanto de amor que carregava no coração. Frankenstein completou 200 anos em 2018, mas continua atual até hoje.

19- Os Maias, Eça de Queirós: foi o livro mais amado e querido dentre todos os que li em 2018. Relerei muitas vezes mais, com certeza! Virou meu mais novo livro do coração. ❤

20- A mulher do viajante no tempo, Audrey Niffengger: pior leitura de 2018, só não abandonei porque era a leitura do mês de dezembro de um grupo de leitura do qual participo. Tentei assistir ao filme pra ver se melhorava, mas desgostei igual. Achei confuso e chato. 😦

21- História do novo sobrenome, Elena Ferrante: segundo volume da série napolitana. Gostei mais deste livro que da Amiga Genial, embora minha antipatia por Lila neste volume só tenha aumentado. Não consigo aturar essa menina que, apesar de muito inteligente, é chata, invejosa e voluntariosa pra caraca. Sobre Lenu, a outra personagem principal e também a narradora da história, muitas vezes tive vontade de sentar a mão na cara para que acordasse e aprendesse a agarrar o bode pelos chifres. 🙂

22- Persépolis, Marjane Satrapi: porque eu sempre tive muita curiosidade em saber mais sobre a cultura persa e também porque achei que iria morar no Irã. A ida para o Irã não deu certo, infelizmente, mas a literatura iraniana de Marjane me agradou bastante. Ah, o filme também é excelente.

23- Outros jeitos de usar a boca, Rupi Kaur: um livro de poesia bem gostosinho de ler, com teor feminista e alguns poemas com uma pegada um tanto quanto erótica.

24- História de quem foge e quem fica, Elena Ferrante: terceiro volume da série napolitana concluído, já me aproximando da reta final da trajetória de Lila e Lenu. Curiosa para conhecer o desfecho, mas deixei o quarto volume pra 2019.

Feliz 2019 a todos… Que seja um ano de muitas leitura boas!

Aquela voz inconfundível…

vo jaimeUma das muitas lembranças que guardo carinhosamente da minha infância é a do meu tio-avô. Lembro-me de sua voz marcante e de seu acentuado sotaque maranhense. O velho Jaime, irmão de minha avó materna, vivia em um povoado chamado São Benedito, embrenhado nos confins do Maranhão. Apesar de nunca ter colocado os pés em dito lugar, quando falo dele parece-me tão familiar que é como se eu o conhecesse, deveras!
Lembro-me que ele ia de sua casa até à casa de minha avó a cavalo. Naquela época, o inverno no Maranhão era uma estação marcada pelas chuvas constantes e pelos rios que se formavam mata adentro… Os caminhos ficavam muito difíceis, por causa disso Vô Jaime tinha que madrugar, atravessar igarapés, viajar praticamente o dia inteiro para chegar a Santa Helena, vilarejo onde vivia minha avó. Mas, quando chegava, quase sempre à noite, ninguém mais dormia, porque ele tinha causos pra contar… Era história pra mais de légua!!
Fosse a hora que fosse, minha avó levantava, acendia o fogão a lenha e preparava um bom rango… E eu sabia que durante os dias em que ele ficasse por lá não haveriam broncas nem castigos. Ahhh, era tão bom ser criança!
Outra coisa que muito me lembra meu tio-avô é murici, uma frutinha miúda, amarela, muito comum no Maranhão, usada para fazer suco, que minha avó chamava, vinho. Vô Jaime chegava com uma carga de murici para felicidade geral da garotada. Até hoje consigo me lembrar com grande exatidão dessa fruta, apesar de nunca mais tê-la provado ainda levo comigo seu sabor e aroma.
Eu não consigo lembrar muito bem quando vi Vô Jaime pela última vez, acho que eu tinha uns 16 anos aproximadamente, em uma das muitas viagens de férias que fiz pra casa de minha avó. A imagem que me vem à memória agora é a dele sentado à mesa, comendo qualquer coisa e tomando café com farinha d’água. Jaime falava, falava e falava… com aquela voz inconfundível, aquela voz que quando ouvia, nas madrugadas de minha infância, levantava correndo. Aquela voz que nunca esqueci e que seria capaz de reconhecer em qualquer lugar, de olhos fechados.
A noite passada sonhei com Jaime, me deu uma saudade imensa de tudo que vivi nos tempos de outrora. Ainda bem que as coisas boas a memória registra e não nos permite esquecê-las. Acordei melancólica e levantei saudosa, me veio à cabeça aquele lindo poema de Casimiro de Abreu, Meus oito anos, que tem tudo a ver com o que estou sentindo hoje: Nostalgia. Nostalgia dos bons tempos, tempos esses que passaram e que, infelizmente, não voltam mais.

 

 

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Murici

 

Um trechinho do poema de Casimiro de Abreu:

 

Oh! Que saudade que tenho,
Da aurora de minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!

Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava as Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonho, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

 

Meus oito anos recitado por Paulo Autran:

A cafeteria da esquina…

Encontre-se com o sabor das conversas, com o paladar das histórias, com o aroma das memórias e aqueça a sua alma, e partilhe. Há momentos que têm de ser vividos em grupos. — (Na parede de uma cafeteria, no Cais do Sodré, Lisboa)

 

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Um entra e sai de pessoas na cafeteria da esquina. Entre sorrisos e burburinhos, mães arrastam crianças recém-saídas da escola ao mesmo tempo que empurram carrinhos de bebês. Escondem-se na cafeteria quentinha e lotada.
O homem da mesa ao lado, compenetrado, rabisca qualquer coisa em um guardanapo. Será poesia? Ou terá tido ele ideia para um grande romance? Olho-o com bons olhos… Serei sempre uma eterna admiradora daqueles que escrevem, daqueles que simplesmente escrevem.
Observo atentamente o vai e vem das pessoas. Anônimas? Nem tanto! São as mesmas caras, as mesmas de todo dia, do café da tarde, na cafeteria da esquina.
Saboreio mais um café au lait enquanto tomo coragem para enfrentar o frio lá fora… Mas que bobagem a minha, um grau negativo nem é tão frio assim.
Já na rua, sorrio para a senhorinha de sobretudo vermelho e canelas à mostra (em um clima desses, canelas à mostra é uma prova de coragem). A senhorinha sorri de volta. Tem algo de mágico no sorriso de um desconhecido, parece que aquece o coração da gente. ❤

Impressões de Leitura#20: Os Maias…

Um clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem pra dizer.

— Italo Calvino

 

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Há livros que não consigo ler de uma sentada só, não porque são ruins ou enfadonhos, mas porque me fascinam e cativam de tal maneira que chega a fazer-me pena conhecer o fim. Os Maias é um livro assim, por essa razão não me é possível escrever sobre ele sem me emocionar.
Por causa dos Maias, habitei vários meses o Ramalhete, lá na Rua de S. Francisco de Paula, no Bairro das Janelas Verdes, naquela Lisboa do final do século XIX.
Desfrutei, incansavelmente, da privilegiada vista do Tejo e do Porto de Santos. Vi, vezes sem conta, Dom Afonso da Maia sentar-se frente à lareira para tomar seu cálice de vinho do Porto ao mesmo tempo que aconselha o apaixonado Pedro da Maia, seu filho, a afastar-se da belíssima Maria Monforte. Usufruí dos bons ares de Santa Olávia, ao pé do rio Douro, e observei, quase sempre com um sorriso no rosto, a infância feliz do pequeno Carlos Eduardo da Maia. Foi então que compreendi o orgulho que Afonso da Maia sentia ao ver seu neto crescer saudável e forte como um touro. Anos depois, não tive vergonha de seguir Carlos Eduardo durante suas longas caminhadas pelas ruas do Chiado, à noite, no auge de sua juventude. Quando apareceu Maria Eduarda, senti também um grande encantamento por sua beleza e elegância. Fui testemunha daquele amor impossível. Com eles ri e chorei… Cheguei, inclusive, a insultar a crueldade do destino.
E sobre João da Ega, o que posso dizer? Que é um rapaz interessante, espirituoso e brincalhão! Dei altas risadas com essa personagem que nada mais é que um alter ego do próprio escritor.

Hoje, um dia frio de novembro de 2018, saio do Ramalhete com o coração tranquilo e transbordando de emoção… Emoção por ter finalmente conhecido os Maias, por ter sido espectadora de suas dores e tragédias, mas, sobretudo, de suas alegrias e conquistas.
Meu exemplar já tem um lugar especial reservado na estante. Então, quando a saudade bater com força revisitarei o Ramalhete. Uma e outra vez. E quantas vezes mais sejam necessárias.

O livro conta a história da família Maia ao longo de três gerações, sendo que a mais importante e mais explorada no romance é a última, que trata do amor incestuoso de Carlos Eduardo da Maia e Maria Eduarda. Eça de Queirós utiliza essa obra para criticar com bastante ironia a sociedade lisboeta da última metade do século XIX. Esse livro introduziu o realismo em Portugal, rompendo de vez com o romantismo. Foi publicado em 1888, quando Eça de Queirós tinha 43 anos.

 

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Eça de Queirós

José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de novembro de 1845, na Póvoa do Varzim, e morreu a 16 de agosto de 1900, em Neuilly, nos arredores de Paris.

 

Os Maias foi adaptado para a televisão brasileira em 2001:

 

Em Portugal, foi adaptado para o cinema em 2014,  por João Botelho:

 

 

As músicas lindas que foram temas da adaptação brasileira:

 

Impressões de Leitura#19:Terra Sonâmbula, Mia Couto

“Se dizia daquela terra  que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho.”    

_terra_sonambulaHouve uma época que quando eu pensava em África as imagens que me vinham à cabeça eram de homens fortes, destemidos e belas mulheres, naturalmente sensuais em suas capulanas coloridas, rodeadas de miúdos felizes e barulhentos, no seu ir e vir pelas bonitas paisagens da savana, banhadas pelos raios de um dourado sol de fim de tarde. Não sei explicar muito bem a razão pela qual eu tinha essa concepção tão romântica e idealizada da África, mas o certo é que todo esse colorido que permeava a minha imaginação acerca desse continente ficou meio desbotado depois da leitura de Terra Sonâmbula, de Mia Couto.
Os tons que permeiam a obra desse escritor moçambicano nada têm de suaves ou coloridos, como eu imaginava. As imagens que Mia Couto compartilha conosco são outras. Ele nos apresenta uma Moçambique cinzenta e poeirenta, marcada pela severidade da guerra, pela pobreza, por sofrimento, abandono e devastação, muita devastação.
Como se sabe, esse país africano foi colônia portuguesa do início do século XVI até 1975. Para além de sofrer horrores com a escravidão e a exploração desenfreada, precisou passar por muitas provações durante a Guerra da Libertação. Foi necessário muito derramamento de sangue numa luta que durou dez anos para que só assim conseguissem se ver livres das amarras de Portugal. No entanto, a Independência de Moçambique não significou o início de uma terra pacífica, tampouco solucionou os problemas da nação. Dois anos após a independência, em 1977, o país mergulha outra vez em uma nova batalha: uma sangrenta guerra civil. A guerra civil em Moçambique durou até 1992. A população viveu quinze anos no meio de conflitos armados que deixaram mais de um milhão de mortos.

 

mia couto
Sou um branco que é africano; um ateu não praticante; um poeta que escreve prosa; um homem que tem nome de mulher; um cientista que tem poucas certezas na ciência; um escritor numa terra de oralidade. — Mia

 

Mia Couto, autor de Terra Sonâmbula, nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. Filho de pais portugueses, é um dos escritores mais importantes em língua portuguesa da atualidade e também o moçambicano mais traduzido. Comprometido com a causa africana, Mia Couto viveu na pele os horrores da guerra: “tenho 42 anos e passei a metade da minha vida em guerra…” Ele retrata em seus livros a realidade de Moçambique por meio de elementos que pertencem ao próprio folclore moçambicano, servindo-se da literatura oral, crenças, mitos, provérbios etc. Ao entrarmos em contato com a escrita de Mia Couto percebemos logo as muitas semelhanças com a literatura brasileira, sobretudo com Guimarães Rosa. Aliás, o escritor não esconde que sua escrita foi altamente influenciada pela literatura desse brasileiro. Recebeu numerosos prêmios, entre eles, o Prêmio Nacional de Literatura em Portugal (1992), o Prêmio Nacional de Literatura em Moçambique (1995), o Prêmio Africa Hoje em Maputo (2002), o Prêmio Eduardo Loureço (2011), o Prêmio Camões (2013) e o prêmio norte-americano NeustadtAlgumas de suas histórias foram levadas ao cinema, como é o caso de Terra Sonâmbula e, mais recentemente, O Voo do Flamingo. Publicou também poesias e contos. Mia Couto vive em Maputo, onde trabalha como biólogo.

 

tuahir
Estou farto de viver entre os mortos — Fala de Muidinga

 

Com dois focos narrativos, Terra Sonâmbula tem como pano de fundo a guerra civil moçambicana. Começa com o velho Tuahir e o menino Muidinga caminhando sem rumo por uma estrada desolada. Encontram no caminho um machimbombo (ônibus) queimado repleto de corpos. Perto desse machimbombo – que será o refúgio do velho e do menino – encontram também outro corpo. Junto desse corpo estava uma mala, dentro da mala havia onze cadernos: eram os diários de Kindzu.
O primeiro foco narrativo relata em terceira pessoa a peregrinação de Tuahir e Muidinga em busca de paz num mundo devastado pela guerra. O segundo, narrado em primeira pessoa,  é o relato dos diários de Kindzu, que conta sua história de vida.
Muidinga é um menino sem memória, foi resgatado pelo velho Tuahir mais morto que vivo, sonha em encontrar seus pais que o abandonaram logo após o nascimento e, assim, conhecer sua verdadeira identidade.
Tuahir é um homem idoso, já viveu e sobreviveu à outra guerra, a guerra da libertação, sonha com um mundo pacífico e luta para resguardar sua vida e a do pequeno Muidinga. 
Ambos caminham como se fossem sonâmbulos à procura de água e comida, mas procuram, sobretudo, preservar a esperança naquele mundo tão desesperançoso… “Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra.”
Kindzu é um jovem idealista – que tenta ir muito além dos desejos comuns, abandonou sua casa em busca da realização do sonho de se tornar um maparama (guerreiro tradicional de justiça que luta contra os fazedores da guerra). Como podemos perceber, as três personagens são impulsionadas pelo desejo de realizar sonhos.

Após encontrar os cadernos Muidinga começa a lê-los em voz alta para o velho Tuahir. À medida que o menino prossegue a narração o leitor mergulha nas duas histórias, que são contadas de forma intercalada: primeiro a história de Tuahir e Muidinga seguida pelos relatos dos diários de Kindzu. A princípio essas duas narrativas parecem bastante diferentes, mas sem demora percebemos os muitos pontos que têm em comum. Elas caminham lado a lado mas, mais à frente, acabam por fundir-se. As histórias serpenteiam entre a realidade e o sonho, sobretudo a de Kindzu, que é uma história mágica, mítica, que bebe no imaginário do povo africano. As lendas e crendices moçambicanas que permeiam os relatos de Kindzu causam um certo estranhamento e, ao mesmo tempo, fascinação.
A narrativa inteira é recheada de sonhos, todas as personagens, cada qual à sua maneira, sonham com alguma coisa. E todas têm o mesmo objetivo, encontrar a paz que há muito tempo havia deixado de existir naquele lugar desprovido de afeto e humanidade. Chamou muito a minha atenção o fato de algumas personagens continuarem a lutar por sobreviver em um mundo tão destroçado e abandonado, mesmo quando o mais fácil seria desistir, deixar de ter esperança. Percebemos isso claramente quando conhecemos o Fazedor de Rios e o Velho Siqueleto, personagens que, como Tuahir, Muidinga e Kindzu, também sonham e acreditam que o melhor ainda está por vir, apesar das adversidades.

 

O que faz andar a estrada? É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.

– Estou a fazer um rio.
– Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um rio, fluviando até ao infinito mar. As águas haveriam de nutrir as muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar onde os homens guardariam, de novo, suas vidas.

 


O conteúdo dos diários de Kindzu modifica a vida de Muidinga. Por meio dessas histórias ele passa a ter contato com o mágico, com o sobrenatural – e o leitor mergulha junto com essa personagem nos contos do menino que vira galo, do boi que vira garça, do morto que levanta e carrega o próprio caixão, do anão que cai do céu, do mar que seca e volta a encher, da relação entre os vivos e os mortos… A visão do menino sobre o mundo modifica-se também, ele passa a presenciar mudanças na paisagem ao seu redor, que acontecem sempre após cada leitura.
Silviano Santiago, escritor brasileiro, disse certa vez: “Ler não é só adquirir conhecimento ou experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário…” É exatamente isso que acontece com Muidinga. Ao ler os relatos de Kindzu o menino, de certa forma, se apropria daquele mundo e o torna seu também. Então, 
nos damos conta do poder de transformação que a leitura tem, é a literatura a transformar o pequeno Muidinga.

 

À volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra, ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos desembocam em outras visões.

 

Outro ponto muito interessante é a história de Faridauma personagem de peso. Kindzu a conhece dentro de um navio encalhado em alto mar. Ela conta sua história para o rapaz e por meio de seu relato ficamos conhecendo um pouco mais das tradições e crendices de Moçambique. Farida nasceu gêmea, isso a coloca imediatamente no papel de mulher rejeitada, já que naquela cultura gêmeos é sinal de imensa desgraça e maldição. Mia Couto coloca nessa personagem toda a emotividade que viria a ser costumeira em suas personagens femininas. As palavras com as quais ele descreve Farida são carregadas de encanto. Com delicadeza e às vezes lançando mão de muita sensualidade, o escritor retrata a mulher de uma forma belíssima, e comprova, mais uma vez, a sensibilidade e habilidade que tem para descrever a alma feminina.

 

A beleza daquela mulher era de fugir o nome das coisas.

 

Mia Couto escreveu Terra Sonâmbula, seu primeiro romance, durante os anos da guerra civil moçambicana e o publicou em 1992, mesmo ano em que os conflitos chegaram ao fim. As histórias que ele retrata neste livro fazem uma denúncia social das crueldades dessa guerra, mas contam também os sentimentos, as dores e dissabores daqueles que sobreviveram a ela, daqueles que ainda sofrem as mazelas e tentam cicatrizar as profundas feridas.
O livro é excelente, a meu ver, mais por conta de sua escrita, pois Mia Couto usa uma linguagem muito particular e tem uma grande capacidade de reinventar a língua portuguesa. Ao criar neologismos e mesclá-los com termos das línguas africanas faz com que seu texto se torne ainda mais bonito e cativante, até mesmo quando o que está a ser narrado é triste. O belo nem sempre é aquilo que ele está a narrar, mas a forma como narra.
Terra Sonâmbula caracteriza-se pela paixão de contar: Kindzu que conta suas histórias nos cadernos, Farida que conta suas penas a Kindzu, Muidinga que conta a história de Kindzu ao velho Tuahir, Siqueleto que conta sua história a Muidinga e Tuahir… Tem sempre alguém a contar algo para outro alguém. Terra Sonâmbula é uma “contação” maravilhosa de histórias.

Pode parecer contraditório afirmar que um livro que narra tanta miséria e tristeza possa ser um livro belo, mas é. Terra sonâmbula para além de ser considerado uma das dez melhores obras africanas do século XX, comprova, mais uma vez, que o ato de contar histórias é um verdadeiro bálsamo para os sofrimentos do ser humano… Porque uma boa história nos ajuda a seguir em frente, nos livra das nossas angústias e preconceitos, nos ajuda a espantar a solidão e nos faz ter esperança.
A escrita de Mia Couto é impecável, o escritor conseguiu fundir em uma mesma obra prosa e poesia de uma maneira ímpar – e nos prova que nasceu mesmo para escrever e é um contador de histórias genuíno. ❤

 

Capas de outras edições de Terra Sonâmbula:

terra1    terra2

terra3    terra4


Entrevista de Mia Couto:

Trailer de Terra Sonâmbula:

Acorda, filha, por favor acorda!

“Neste 8 de janeiro de 1992 escrevo para você, Paula, para trazê-la de volta à vida.”

 

Paula

Paula, da escritora chilena Isabel Allende, é um livro que toca o leitor de uma maneira tão profunda que é quase impossível escrever qualquer coisa acerca dele sem deixar transparecer um quê de emoção… Talvez por eu já conhecer o teor da história tenha ficado por muito tempo com o livro à espera sem coragem de pegá-lo para ler. Quando finalmente decidi que era a hora de mergulhar nessa leitura, fui surpreendida por uma escrita que, embora muito triste e dolorosa, transmite um bocado de esperança.
Isabel Allende começa sua narrativa assim: “Ouve, Paula, vou contar-te uma história para que, quando acordares, não te sintas perdida…”
Paula, uma jovem de apenas 28 anos, padece de porfiria, uma rara enfermidade. Após uma crise, entra em coma e assim permanece por quase doze meses.
Durante o período em que Paula permaneceu em coma, Allende começa a escrever uma carta que, mais tarde, se transformaria neste livro, uma espécie de autobiografia que ela dedica à filha. O processo de escrita do livro ajuda Isabel a vencer seus medos e dúvidas acerca do futuro da filha e também a exorcizar a dor de uma possível perda. Em Paula, Allende intercala a história da doença da filha e a história da sua própria família, que começa no início do século passado quando um imigrante basco, ascendente seu, desembarca na costa do Chile. Conhecemos episódios muito pessoais da vida da escritora, desde o seu nascimento, no Peru, em 1945, até o momento da partida da filha, em dezembro de 1992. Sob o seu olhar entramos em contato com o Chile Pré e Pós-Ditadura do General Pinochet, passando pela Morte do Presidente Salvador Allende, tio da escritora, e o exílio da própria Isabel e sua família na Venezuela… Isabel se abre sem reservas e nos conta, também, como se deu a criação do seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, um dos seus livros mais conhecidos e emblemáticos.
A narrativa de Isabel Allende é de uma sensibilidade ímpar… Em nenhum momento sua escrita é desprovida de dor, no entanto, à medida que avançamos, percebemos que a autora consegue passar de desesperada a resignada, conseguindo em alguns momentos levar o leitor da tristeza ao riso. 
Algumas lágrimas rolaram por aqui, mas valeu muito a pena conhecer a história de Paula e, principalmente, a história de Isabel, uma mulher forte que, apesar de passar por uma das piores situações, a perda de um filho, não perdeu em nenhum momento a esperança.
O livro é melancólico, mas é, ao mesmo tempo, um culto ao amor e, principalmente, à vida.

 


“Se tu resistes, Paula, eu também.”

 

isabel
Isabel Allende

 

** Em dezembro de 1992 morreu Paula. Este livro foi publicado dois anos depois.

Impressões de leitura#18: Fuga do campo 14

“Fugi fisicamente, não fugi psicologicamente.”

 

escape-from-camp-14Fuga do Campo 14, do jornalista americano Blaine Harden, conta a angustiante história de Shin In Geun, um sobrevivente de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte.
Li esse livro há bastante tempo, mas por conta de toda essa confusão entre Coreia do Norte e Estados Unidos e aquele tão comentado encontro entre Trump e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, não é possível ficar indiferente já que somos bombardeados a cada dia por uma enxurrada de novas notícias. Além disso, estou lendo para um grupo de Leitura Compartilhada o livro Para poder viver, de Yeonmi Park, que trata do mesmo tema. Então, senti vontade de recuperar este texto, escrito originalmente no meu antigo blog.

Apesar de ser um livro de poucas páginas, precisei de mais tempo que o habitual para concluir a leitura. Por ser um relato pesado e angustiante fiquei meio anestesiada, com um gostinho amargo na boca. Digerir todos os acontecimentos presentes na história foi uma tarefa árdua, algumas vezes precisei parar e desanuviar a cabeça. Em muitos momentos os olhos marejaram e o coração apertou… Que história tão triste!
Fuga do Campo 14 relata a história do coreano Shin In Geun, nascido e criado como prisioneiro em um campo de concentração na Coreia do Norte, o Campo 14uma prisão para inimigos políticos.
Nesse campo, a execução pública e o medo que ela gerava era tremendo. Os prisioneiros que infringiam as regras mereciam a morte. Qualquer pessoa que era pega fugindo ou apenas tramando uma fuga era fuzilada imediatamente. Não havia perdão.
O que mais me chocou na história de Shin In Geun foi saber que ele precisou pagar pelo “crime” do pai -, crime esse que ele só veio a tomar conhecimento depois de adulto. Seu pai havia sido condenado porque um de seus irmãos desertou para a Coreia do Sul. Isso mesmo, o pai de Shin In Geun virou prisioneiro apenas por pertencer à família de alguém que fugiu do país. E Shin, por sua vez, foi condenado a nascer e viver na prisão pelo mesmo motivo.
Ele cresceu numa atmosfera de medo, aprendeu a confiar em tudo aquilo que os guardas lhe diziam: que não podia fugir, que deveria delatar quem planejasse fugir, quem roubasse comida, quem falasse mal do governo -, isso incluía a todos, inclusive sua própria família.
Da mesma forma que confiava nos guardas, desconfiava de qualquer outra pessoa ao seu redor. Foi instruído desde muito pequeno a delatar seus familiares e colegas, sua recompensa por essa prestação de serviço era uma porção a mais de comida. Além disso, ajudava a surrar outras crianças como castigo e não sentia remorso nenhum por isso, não deixava transparecer emoção… havia sido criado para ser assim: duro e frio.

 

“Eu não sabia o que eram compaixão ou tristeza. Eles nos educavam desde o nascimento para que não fôssemos capazes de emoções humanas normais. Agora que saí de lá, estou aprendendo a me emocionar. Aprendi a chorar. Tenho a impressão de que estou me tornando humano.”

 

Shin ignorava completamente a existência de uma vida fora daquele campo, não imaginava nem em seus mais profundos sonhos o quão diferente e interessante o mundo lá fora podia ser. A história desse rapaz é muito triste, mas é também incrível. Até onde se tem notícia ele foi a única pessoa nascida e criada dentro de um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte que conseguiu fugir. Sua fuga aconteceu no dia 2 de janeiro de 2005 e até onde é possível averiguar ele ainda é o único que teve êxito.
Aos 23 anos estava sozinho, não conhecia ninguém do outro lado da cerca elétrica, e mesmo assim conseguiu chegar a pé à China e sair do inferno que era o Campo 14. No entanto, Shin não conseguiu se desvencilhar totalmente das marcas, seu corpo é um verdadeiro mapa dos sofrimentos que decorrem de se crescer em um campo de trabalho forçado. Da mesma forma que seu corpo, sua mente também foi gravemente machucada com a lavagem cerebral que lhe foi feita desde o nascimento, daí sua dificuldade em aprender inglês, em chorar, em sentir compaixão e empatia pelo próximo. Shin conseguiu dar a volta por cima, mas ainda se martiriza e se culpa por todas suas atitudes durante a época em que vivia no Campo 14, por todas as coisas que precisou fazer para salvar a própria pele e, dessa forma, sobreviver.

 

blaine harden
Shin In Geun e Blaine Harden

Após a leitura, comecei a pesquisar mais sobre o que acontece na Coreia do Norte e fiquei chocada com a situação. Shin In Geun não foi o único a viver como prisioneiro na Coreia do Norte, como ele há muitos, infelizmente. A leitura foi bastante densa, deu um aperto no peito saber que nada posso fazer a respeito, só me resta mesmo desejar que um dia toda essa violência acabe e que todos possam ser finalmente livres, tratados com igualdade e humanidade. 😦
Atualmente Shin In Geun é um ativista dos direitos humanos.

 

Uma palestra de Blaine Harden sobre Shin In Geun:

Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

chinesas


Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Impressões de leitura#17: A trilogia 1Q84…

“Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem.”

 

1Q84Acho que não é mais novidade para ninguém que eu gosto pra caramba do escritor japonês Haruki Murakami. Até agora todos os livros dele que li, de uma forma ou de outra, me agradaram. Por isso, quando escutei falar sobre o lançamento de 1Q84, seu novo livro, fiquei morrendo de vontade de lê-lo.
Quando comecei a leitura eu nada sabia sobre o enredo, evitei até mesmo bisbilhotar resenhas e comentários a respeito para não saber detalhes que pudessem comprometer minha leitura. Por um lado isso foi bom, pois fui surpreendida pelos acontecimentos à medida que me envolvia com os personagens. Mas por outro, foi ruim, já que eu não sabia que a história é longuíssima, que a edição em português está dividida em três volumes e que não é possível lê-los de forma independente. Resulta que fui ficando cada vez mais envolvida com o tema e cada vez mais curiosa para saber o desfecho, mas, para minha surpresa, o primeiro livro terminou deixando um monte de perguntas sem respostas. Então, não teve outro jeito, foi preciso encarar os dois volumes restantes.

A história se passa em Tóquio, em 1984. Logo no início conhecemos os dois personagens principais: Aomame e Tengo. Ela, uma mulher bonita, independente, professora de ginástica e assassina profissional, uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos. Ele, professor de matemática e aspirante a escritor.

 

1Q84 3
É o mundo real, onde os cortes fazem correr sangue real, onde a dor é verdadeira e a dor é dor real. A lua no céu não é de papel. É uma lua real, são duas luas reais.

 

Com uma narrativa fantástica, Murakami cria um mundo paralelo a 1984, o qual chama 1Q84. Esse título é, na verdade, uma homenagem ao livro 1984, do escritor George Orwell. Nesse mundo completamente novo há duas luas – uma grande e outra pequena – flutuando lado a lado no céu. Existe também um tal de Povo Pequeno que domina as pessoas aí nesse mundo paralelo. O Povo Pequeno criou uma crisálida de ar que por sua vez teve sua história transformada em livro por Fuka Eri, uma escritora adolescente e disléxica. O livro de Fuka Eri apesar de ter um enredo envolvente é muito mal escrito; precisa, portanto, ser corrigido para poder participar e ter a chance de ganhar um importante prêmio literário. É aí que entra Tengo, o nosso aspirante a escritor, que tem como principal função reescrever o livro da adolescente disléxica.

A trama criada por Murakami mistura-se àquela criada por Fuka Eri, e todos aqueles componentes fantásticos que bem no início nos pareceram bastante bizarros, começam a fazer mais sentido. 1Q84 tem um enredo que desperta interesse, personagens bem desenvolvidos, sinistros e solitários. Murakami criou um mundo em que a fronteira entre o real e o imaginário é completamente imprecisa. Ele ousa, mistura fatos reais com ficção, tornando assim a narrativa ainda mais instigante e enigmática… E o leitor fica a princípio um bocado confuso, meio sem saber onde e quando acaba o Tóquio de 1984 e começa o de 1Q84.

Há também a relação amorosa entre Aomame e Tengo, que foram colegas de escola quando crianças, mas que ficaram quase duas décadas sem saber nada um do outro. Aliás, a parte mais esperada por mim foi justamente o reencontro deles. Fiquei durante toda a leitura desejando que isso acontecesse para saber o que passaria depois, pois os caminhos de ambos os personagens estão interligados desde o início da história e estão também altamente relacionados com os acontecimentos sinistros do livro. 1Q84 é uma ficção interessantíssima e inteligente que faz com que não tenhamos vontade de parar até sabermos em qual dos mundos os personagens estão de fato a viver.

 

Que sentido faz continuar a viver completamente sozinha num mundo absurdo… um mundo com duas luas, uma grande e uma pequena, e onde seres que fazem parte de um tal Povo Pequeno controlam o destino dos humanos?

 

A leitura foi muito agradável, mas vou confessar pra vocês, depois de dois volumes de quase 500 páginas cada um, comecei a achar que o autor estava a dar voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum. Quando comecei o terceiro volume já estava um pouco cansada, percebi que nada avançava, que o autor estava meio que ‘enchendo linguiça’. No terceiro livro, além dos dois personagens principais, Aomame e Tengo, velhos conhecidos do leitor desde o início da trama, aparece um terceiro personagem, o sinistro e misterioso Ushikawa. Deu-me a impressão de que o autor colocou este personagem extra exatamente para dar uma animada na narrativa, que já havia ficado bastante repetitiva. E foi, de verdade, uma jogada de mestre, porque ele conseguiu recuperar o meu interesse.

O terceiro volume foi de fato o que menos gostei. Apesar de ter gostado do tema, apesar de achar que este escritor tem uma grande capacidade de criar enredos criativos e personagens bem construídos e interessantes, dessa vez o autor esticou a trama além da conta. A história estaria perfeita com apenas dois volumes, porque no final das contas acabaram ficando várias informações completamente perdidas e sem relevância nenhuma para o desfecho. Mesmo assim, com todas as suas imperfeições, esse autor consegue me agradar a cada livro. Gostei!

E Murakami continua narrando exageradamente bem as cenas de sexo, mais explicadinho impossível. Após ler 1Q84 cheguei à conclusão de que o erotismo exacerbado é realmente um tema recorrente na literatura desse japonês fora de série.

 

Sobre o escritor:

 

Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestigio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O’Connor.
Recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Como música também não pode faltar em um livro de Murakami, deixo aqui um vídeo da Sinfonietta de Janácek, canção que o autor menciona bem no comecinho da história. Para mim, virou trilha sonora.