Impressões de leitura#15: Os Miseráveis…

“Enquanto existir, fundamentada nas leis e nos costumes, uma condenação social que crie artificialmente, em plena civilização, verdadeiros infernos, ampliando com uma fatalidade humana o destino, que é divino; enquanto os três problemas deste século, a degradação do homem no proletariado, o enfraquecimento da mulher pela fome e a atrofia da criança pela escuridão da noite, não forem resolvidos; enquanto, em certas regiões, a asfixia social for possível; em outros termos, e sob um ponto de vista ainda mais abrangente, enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis.”                (Hauteville-House, 1 de janeiro de 1862)

 

miseraveis again

Ler ‘Os Miseráveis’ foi minha meta literária de 2013. Comecei a leitura no início de julho daquele ano, mas só consegui concluí-la mais de dois meses depois. A obra, publicada em 1862, é sensacional, mesmo assim não foi uma leitura que eu fiz de uma sentada, não por ter uma linguagem difícil ou por ser enfadonha, mas porque foi necessário tempo e dedicação já que se tratam de três volumes que somam quase 1500 páginas (eu li a edição publicada em 1981 pela já inexistente Círculo do Livro).

Os Miseráveis narra a história da personagem Jean Valjean e sua luta para redimir-se. O protagonista, um ex-prisioneiro das Galés, após ficar mais de vinte anos na prisão apenas por roubar um pedaço de pão para alimentar a família -, está endurecido e amargurado pelas circunstâncias da vida, de modo que quando ele finalmente consegue a liberdade é um outro homem, completamente distinto daquele que entrou: bruto, revoltado e desonesto. Mas eis que Jean Valjean conhece o bispo Myriel, uma personagem bondosa, pura e generosa; é justamente esse bispo que vai fazer com que Jean Valjean decida transformar-se em um homem melhor e, sobretudo, em um homem disposto a ajudar aqueles que necessitam. Contudo, seu passado estará sempre batendo à sua porta, pois Jean Valjean será perseguido durante praticamente toda a vida; seu perseguidor responde pelo nome de Inspetor Javert, o antagonista da história. Javert não é totalmente mau, mas é severo e tem obsessão por Valjean, pois ele acredita que alguém que cometeu delitos no passado não tem o direito de refazer a vida e não pode transformar-se em uma pessoa boa, por isso dedica-se a fazer a vida do protagonista impossível.

Além da história de Jean Valjean, conhecemos também a história de Fantine, uma jovem de origem humilde que, grávida, se vê abandonada pelo namorado. Conhecemos também Cosette, a filha de Fantine, que ainda menina é deixada a cargo da família Thérnadier, porque sua mãe não tem condições financeiras  para criá-la; Fantine precisa trabalhar em tempo integral para poder enviar dinheiro para que Cosette seja sustentada na casa dos Thérnadier.

A história se desenrola em torno de Jean Valjean e Cosette que em um dado momento têm suas vidas entrelaçadas. Além dessas personagens principais, conhecemos também Marius, o namoradinho de Cosette, o pequeno Gavroche, uma personagem surpreendente e os Thérnadier, um casal desonesto e odioso.

O enredo é maravilhoso, no entanto teria lido mais rápido se Victor Hugo tivesse contado apenas a história das personagens principais: sobre o incrível Jean Valjean, sobre a vida tão curta e miserável de Fantine, sobre o persistente Javert e sobre o lindo e inocente amor de Cosette e Marius. Mas o autor além de narrar a vida miserável de suas personagens, junta à história fictícia acontecimentos políticos de um período decisivo da história da França. Ele traça um retrato da sociedade parisiense da época (Século XIX) e faz uma descrição minuciosa da cidade: a pobreza existente, os personagens maltratados, condenados e injustiçados e, à medida que os anos vão passando, vai modificando essa mesma cidade aos olhos do leitor, muitas vezes fazendo digressões para comparar a cidade atual, decrépita e miserável -, àquela de outrora, feliz e opulenta.

 

“Estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que seja apenas para evitá-las. As contrafações do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, costuma falsificar o seu passaporte. Precavenhamo-nos contra o laço, desconfiemos dele. O passado tem um rosto, que é a superstição, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e arranquemos-lhe a máscara.”

 

O livro está recheado de personagens fortes, muito bem caracterizados, humanos, reais. O autor faz questão de colocar em evidência a luta do oprimido contra o opressor, sua vontade de revolucionar, de lutar por ideais, de lutar por bem-estar e por uma vida sem privações. Victor Hugo leva o leitor a fazer uma reflexão sobre os problemas da época e também sobre questões transcendentais do bem e do mal. Os Miseráveis é um livro atemporal, porque se pararmos para pensar, chegaremos à conclusão de que a pobreza, o maltrato e as injustiças continuam assombrando nossas vidas até hoje.

A história de Jean Valjean, Fantine, Javert, Marius e Cossete é sem dúvida o que mais prende o leitor, é interessante, é importante, mas não mais que os acontecimentos históricos que ocorrem ou ocorreram no país, isso nos fica bem claro durante toda a leitura. Algumas vezes precisamos ler muitas páginas seguidas apenas sobre esses acontecimentos, como por exemplo, sobre Napoleão Bonaparte e a Batalha de Waterloo e sobre a Revolução Estudantil e suas barricadas… Ah, então por isso foi chato e você demorou tanto para concluir a leitura? Não, demorei porque quis fazer pausas, desanuviar a mente, intercalar com outras leituras e também porque quis procurar mais informações acerca daquilo que o autor estava falando para melhor compreender o contexto histórico no qual a obra está inserida.

O fato de Victor Hugo misturar a história das suas personagens fictícias com personagens e acontecimentos reais faz com que seu livro seja mais interessante ainda. O autor não apenas entretém o leitor, mas o instrui também. As informações históricas que ele nos dá durante toda a narrativa são importantes e relevantes. Victor Hugo praticamente estimula aquele leitor mais curioso a correr atrás de mais e mais informações, além disso, o escritor faz questão de mencionar várias vezes durante a narrativa que o conhecimento é mesmo a salvação da lavoura, que não somos nada se não nos informamos, se não procuramos aprender e se não buscamos alimento para nosso intelecto.

 

O crescimento intelectual e moral  não é menos indispensável que a melhora material. Saber é um viático; pensar é de primeira necessidade; a verdade é tão alimentar como o fermento. Uma razão jejuna de ciência e sabedoria fenece. Lastimemos, como se fosse, estômagos, os espíritos que não comem.
Se existe alguma coisa mais pungente que um corpo agonizante pela falta de pão, é uma alma que morre de fome de luz.

 


Sobre o autor:

 

Victor Hugo foi um político, poeta, dramaturgo e romancista francês. Nasceu em 1802 e morreu em 1885. Entre suas obras mais conhecidas podemos citar: Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame e Os Trabalhadores do Mar.

Deixo aqui duas adaptações para o cinema. Ambas as adaptações foram inspiradas na peça que, por sua vez, foi inspirada no livro de Victor Hugo:

 

*** Escrevi este texto em 2013 no meu antigo blog.

 

 

 

Anúncios

Impressões de leitura#14: A guerra não tem rosto de mulher…

“Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma.” (Svetlana Aleksiévitch)”

rosto de mulher2018 começou bem, já no primeiro mês do ano tive o prazer de fazer uma ótima leitura: A guerra não tem rosto de mulher da escritora Svetlana Aleksiévitch, livro publicado originalmente em 1985. No Brasil foi publicado em 2016 pela Companhia das Letras.
A guerra não tem rosto de mulher traz relatos reais de mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar de tratar sobre guerra, este livro é diferente de qualquer outro acerca desse tema que eu já li, porque ele mostra a batalha das mulheres, contada a partir do ponto de vista feminino.
Bem no início, ficamos sabendo que a União Soviética enviou aproximadamente 1 milhão de mulheres para lutar na Segunda Guerra Mundial, o dobro que a Alemanha enviou, por exemplo. Então, o que Svetlana faz é nos apresentar algumas dessas mulheres, permitindo-nos conhecer a história de vida de cada uma delas.

A autora dedicou-se durante anos a colher depoimentos de ex-combatentes – não sem muitas dificuldades – pois muitas delas mesmo quase quarenta anos após o fim da guerra não se sentiam à vontade para falar abertamente sobre o assunto. Quando elas começam a contar, Svetlana percebe que narram uma história completamente distinta da história masculina: elas falam de violência, de dor, de sangue,  de lágrimas, mas falam também acerca do amor, da amizade, de sabores, de cores, de música, de flores… Na guerra, apesar de lutarem, exercerem atividades militares perigosas, apesar de usarem roupas de homem e corte de cabelo masculino, o feminino delas está sempre lá, camuflado, mas sempre presente.

 

“Eram necessários soldados… Mas também queríamos ser bonitas.”

 

Chama muito a atenção o fato de que essas mulheres não se sentiam cômodas o suficiente para falar abertamente sobre a guerra. A autora diz que os relatos delas variavam e dependiam muito de quem estava presente no momento em que contavam suas memórias. As próprias mulheres assumiram que os maridos não permitiam que elas chorassem, diziam que elas não podiam “florear” a história e que, na noite anterior ao encontro com a autora, receberam aulas de História e Geografia para que pudessem falar o que de fato ocorreu, ou seja, para que elas pudessem contar a guerra deles, a guerra dos homens, a que eles consideravam verdadeira e relevante… Elas só conseguiram se libertar do tabu que a guerra se transformou quando se perceberam longe dos olhares masculinos.
Alguns homens também sentiram-se ofendidos e diminuídos por Svetlana ouvir  e contar a história das mulheres e questionaram:

 

“Por acaso falta homem para isso? Para que você quer essas histórias de mulher? Fantasias de mulher…
Guerra é coisa de homem. O que foi, por acaso tem pouco homem sobre quem escrever no seu livro?”
Os homens tinham medo de que elas não contassem direito a guerra.

 

O livro é triste não apenas por tratar de um tema que dói, mas porque percebemos que essas mulheres, que foram de suma importância para sua pátria, não tiveram seu valor reconhecido e valorizado. Os homens quando voltaram da guerra foram recebidos como heróis, foram ouvidos, puderam falar à vontade, contar suas experiências e seus feitos heróicos. Já as mulheres, porém, foram obrigadas a calar e seu trabalho, tão importante para o desfecho da batalha, não foi valorizado como deveria. Elas sofreram preconceitos pelos veteranos de guerra quando chegaram no campo de batalha e sofreram preconceitos quando deixaram a batalha, até mesmo pelas próprias mulheres que achavam que elas haviam ido para a guerra para se prostituir, por isso precisaram silenciar para não envergonhar a família. A vida delas foi triste no decorrer da guerra e para muitas continuou triste depois.

 

“Fique calada! Fique calada! Não confesse!

 

A guerra para essas mulheres foi algo com a qual elas sempre conviveram. Desde crianças ouviram histórias de grandes batalhas, viram seus pais, tios e irmãos se preparando para lutar, portanto, cresceram com o desejo de também defender a pátria. A guerra não tem rosto de mulher é um livro que retrata muito bem o “ser patriótico,” como a própria autora diz, os soviéticos consideravam-se todos “Filhos da Vitória.”

O livro de Svetlana tem a guerra como pano de fundo, mas ela diz escrever, sobretudo, sobre a história da alma humana, a história dos sentimentos… e é exatamente isso que lemos nessas 392 páginas: a história dos sentimentos dessas mulheres, a história da alma dessas mulheres, percebemos que elas humanizam a guerra, pois seus relatos, de uma certa forma, aproximam e igualam todos os seres vivos, até mesmo aqueles que, embora alheios aos acontecimentos, também sofriam os horrores da guerra.

 

“Lembro como as pessoas gritavam… As vacas gritavam… As galinhas gritavam… Eu achava… Eu achava que todos gritavam… Eu achava que todos gritavam com voz de gente. Tudo o que era vivo.”

 

Antes de ler o livro de Svetlana eu tinha uma ideia bastante equivocada sobre as mulheres que foram enviadas para o campo de batalha. Sempre achei que elas receberam incumbências mais compatíveis com o gênero feminino, como por exemplo, enfermeiras, cozinheiras, lavadeiras, médicas. Mas não, elas foram enviadas para exercer também atividades consideradas masculinas, como soldados de infantaria, francoatiradoras, comandantes de canhão antiaéreo, pilotos, atiradoras de fuzil, tanquistas, sapadoras… A autora diz, inclusive, que durante a guerra houve até um problema linguístico, pois naquela época não haviam termos que designassem essas profissões no gênero feminino; ela conta que foi durante a guerra que esses termos surgiram.

Outro ponto interessante é saber que nem todas as mulheres foram convocadas oficialmente, a maioria delas foi pelo simples fato de desejar servir a Pátria e querer ser útil. Algumas, inclusive, fugiram de casa para se alistar, meninas muito jovens, adolescentes entre 16 e 18 anos.

O que Svetlana busca nos mostrar com esses relatos não é apenas como essas mulheres venceram, quais foram os seus feitos heróicos, quantas medalhas e condecorações receberam, quais foram as estratégias utilizadas e quantos inimigos cada uma conseguiu abater, o que ela compartilha conosco é o sentimento mais genuíno dessas mulheres, o que elas sentiram e ainda guardam dentro de si. A autora nos mostra que apesar de tudo elas não perderam a capacidade de se comover, de se emocionar… e falam, a todo momento, sobre o amor e o respeito que se deve ter em relação ao ser humano.

 

“O caminho é um só: amar o ser humano. Compreendê-lo pelo amor.”

 

Svetlana conseguiu dar voz a essas mulheres que, de igual pra igual, lutaram na mesma batalha que os homens, mas que após a vitória foram preteridas, condenadas ao papel de coadjuvantes.

A leitura é muito forte e dolorida, não é um livro que eu li de uma sentada, precisei fazer pausas e mais pausas para poder digerir o assunto e aliviar o coração. É uma leitura que perturba e fica martelando dentro da gente.

 

Sobre a autora:
Svetlana Aleksiévitch é uma jornalista e escritora nascida na Ucrânia em 1948. Recebeu o Nobel de Literatura em 2015.

svetlana

Impressões de leitura #13: O livro dos abraços

“Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.”

 

abrazos2O Livro dos abraços enganou-me com seu belo título que, de uma doçura sem igual, levou-me a pensar que se tratasse de uma novela romântica, meio água com açúcar. Engano mesmo, minha gente, pois o que Galeano oferece ao leitor é muito mais que isso, ele nos brinda com pequenos relatos que se encarregam de contar grandes histórias: histórias de dores, histórias de lutas, histórias de amores e de sobrevivência. Embora a maioria desses relatos esteja relacionado à política na época da ditadura no Uruguai, eles discorrem também sobre o amor, sobre a velhice, sobre o medo, sobre religião e sobre amenidades da vida.

O autor nos presenteia ainda com casos de sua própria vida na época em que ficou exilado na Espanha, mas fala também acerca de outras pessoas: famosas ou anônimas, queridas ou odiadas, admiradas ou ignoradas e, cada uma delas, à sua maneira, é relevante e pertinente para a obra.

Não é por Galeano tratar de assuntos sérios que sua escrita é seca, ao contrário, a cada pequeno relato tive a sensação de ser abraçada… abraçada por sua sensibilidade em enxergar beleza nas pequenas coisas, abraçada por sua capacidade de ver a vida a partir de diferentes ângulos, abraçada por sua escrita tão certeira, tão firme e, ao mesmo tempo, tão poética e linda.

Poderia ficar por horas mencionando os sentimentos variados que O Livro dos Abraços me proporcionou, no entanto, prefiro citar este trecho da obra que diz muito mais que qualquer coisa que eu pudesse escrever aqui:

 

O mundo é isso, um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Sobre o autor:
Transcrevo um relato do livro no qual ele mesmo se apresenta:

20a13-eduardo-galeano

 

“Assino Galeano, que é meu sobrenome materno, desde os tempos em que comecei a escrever. Isto aconteceu quando eu tinha dezenove anos, ou talvez apenas alguns dias, porque chamar-me assim foi um modo de nascer de novo.

Antes, quando era garoto e publicava desenhos, assinava Gius, por causa da difícil pronúncia espanhola de meu sobrenome paterno (meu tataravô galês se chamava Hughes, e aos quinze anos fez-se ao mar no porto de Liverpool e chegou ao Caribe, à República Dominicana, e tempos depois ao Rio de Janeiro, e finalmente a Montevidéu. Em Montevidéu atirou ao arroio Miquelete seu anel de maçom, e nos campos de Paysandú cravou as primeiras cercas de arame farpado e fez-se dono de terras e gentes, e morreu há mais de um século, enquanto traduzia Martin Fierro para o inglês).

Ao longo dos anos escutei as mais diferentes versões sobre essa questão de meu sobrenome escolhido. A versão mais boba, que ofende a inteligência, me atribui uma intenção antiimperalista. A versão mais cômica supõe fins de conspiração ou contrabando. E a versão mais fodida me converte na ovelha vermelha da família: inventa para mim um pai inimigo e oligárquico, no lugar do pai real que tenho, que é um sujeito bacana que sempre ganhou a vida com o trabalho ou com a boa sorte que tem na loteria.

O pintor japonês Hokusai mudou de nome sessenta vezes para celebrar seus sessenta nascimentos. No Uruguai, um país formal, teria sido enjaulado como louco ou perverso simulador de identidades.”

Uma lenda chinesa…

“Jingwei aterra o mar”

JingweiO deus Sol tinha uma filha muito amada, Nüwa, tão linda que até mesmo o Imperador Amarelo era cheio de admiração por ela. Quando o deus Sol não estava em casa, Nüwa brincava sozinha. Porém, ela queria muito que o pai a levasse consigo em suas viagens para o mar do Leste, onde o sol nasce.
O deus Sol, entretanto, estava todos os dias muito ocupado dirigindo o curso da aurora, a cada manhã, até ele se pôr, à noite, e não podia levar a filha consigo.
Um dia, Nüwa remou secretamente atrás do pai, num barco, mas infelizmente uma tempestade se levantou e ondas do tamanho de montanhas viraram a pequena embarcação. Nüwa foi engolida pelo cruel mar, para nunca mais voltar.

Seu pai foi tomado de tristeza, incapaz de mandar que os raios de sol brilhassem sobre ela e a trouxessem de volta à vida, ele foi deixado sozinho para prantear a sua perda. Entretanto, Nüwa renasceu como um pássaro de cabeça listrada, garras vermelhas e bico branco. Foi-lhe dado o nome de Jing-Wei, por causa de seu choro lamentoso: jingwei, jingwei.

Jingwei não conseguiu perdoar a crueldade do mar por ter lhe arrebatado sua jovem vida e prometeu vingança. Ela aterraria o mar e o transformaria em terra seca. Jingwei começou a catar seixos com o bico, voando de um lado para o outro, entre sua casa na montanha de Fajiu e o mar do Leste. Incontáveis vezes ela fez a viagem, carregando   um seixo ou um graveto por vez, voejando sobre as ondas irregulares e chorando lamentosamente, então deixando cair o que fosse que houvesse trazido. O mar encapelava-se e ribombava derramando escárnio sobre os esforços de Jingwei.

 

Pequeno pássaro, desista! Mesmo se trabalhar por um milhão de anos você nunca vai me transformar numa planície deserta!
Mas Jingwei respondia, lá do alto do céu: Mesmo que eu leve dez milhões de anos ou cem milhões de anos, até o final do mundo, vou tratar de aterrá-lo e fazer de você terra seca!
Por que me odeia tanto?, perguntou o mar.
Porque você roubou minha jovem vida e vai fazer o mesmo com outros jovens inocentes. Vou continuar pelo tempo que for necessário, até terminar meu trabalho.

 

E lá se foi ela para o alto gritando jingwei, jingwei, e dirigiu-se à montanha Fajiu para buscar mais seixos e gravetos. Para lá e para cá ela voou incansável, derrubando mais e mais gravetos no mar. Meses e anos se passaram até que um dia uma andorinha-do-mar apareceu. Ela ficou estupefata com o que o outro pássaro estava fazendo. Mas quando ouviu a história de Jingwei, a andorinha-do-mar comoveu-se com sua persistência. Eles se casaram e chocaram uma bela ninhada de filhotes – os machos puxaram o pai andorinha-do-mar, enquanto as fêmeas puxaram à mãe, Jingwei, e juntaram-se a ela na interminável tarefa de buscar seixos e gravetos para aterrar o mar.

Os chineses respeitam enormemente Jingwei por seu altruísmo, sua determinação férrea e sua força de vontade. Tao Yuamming, poeta da dinastia Ming, celebrou em versos a brava luta daquele pequeno pássaro contra as ondas do oceano, e a história se tornou sinônimo de idealismo invencível e de empenho árduo. A admiração das pessoas simples por Jingwei pode ser vista em vários monumentos a ela dedicados, que levam inscrições como “Jingwei aterra o mar”, que ainda podem ser vistos em vários locais às margens da costa leste da China.

** História retirada de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, da escritora Xinran. Livro tristíssimo que me fez chorar um bocado.
Desejo que em 2018 tenhamos todos pelo menos um pouquinho da persistência e força de vontade de Jingwei. 🙂
 

Os livros que li…

“O verdadeiro analfabeto é aquele que saber ler, mas não lê.”
— Mario Quintana

mafaldaFaltam ainda doze dias para terminar 2017, mas eu já sei que não lerei mais nada até o último dia do ano. Assim sendo, posso dizer que não consegui finalizar a meta que sempre determino para mim: ler pelo menos doze livros no decorrer do ano.
2017 foi muito conturbado, cheio de responsabilidades, grandes decisões e problemas maiores ainda, por conta disso, faltou cabeça para a leitura. Eu consegui, aos trancos e barrancos, finalizar apenas onze livros. Mesmo assim, posso dizer que gostei de tudo que li.

Quatro desses onze livros foram releituras:
Meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos: um queridinho capaz de me fazer rir e chorar todas as vezes que entro no universo do menino Zezé.
El Cruzado de Stephen Rivelle: um livro que já me fez viajar várias vezes de Provença a Jerusalém naquela que teria sido a Primeira Cruzada, lá nos primórdios do século XII.
Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez: porque a triste história dos Buendía e de Macondo mora no meu coração.
História de uma serva  de Margaret Atwood: um livro excelente, mas que serviu também para me fazer perceber que uma série de tv inspirada em um livro pode ser às vezes até melhor que o próprio livro. Leiam o livro, mas quando puderem assistam também à série, é mesmo ótima.

Sobre as leituras novas:
Iracema de José de Alencar: porque fiquei tocada com o samba-enredo que a Beija-Flor de Nilópolis levou para a avenida no carnaval passado. Decidi encarar a leitura e terminei amando a história da virgem dos lábios de mel. (Obrigada Sergio e Silvania por terem me levado à Sapucaí… foi tudo tão bonito! )
Passaporte para a China: porque é de Lygia Fagundes Telles e pra mim tudo o que ela escreve vale a pena ser lido.
Diário de um louco de Lu Xun: porque foi-me apresentado pelo meu filho… e eu não podia ignorar um indicação literária de meu filho, né?! Fui conhecer esse escritor chinês e gostei.
A filha perdida de Helena Ferrante: é um livro que incomoda, por causa dessa leitura tive vontade de ler a Série Napolitana, que todo mundo por aí já leu, menos eu.
Um gato de rua chamado Bob de James Bowenfoi a primeira leitura do ano, se puder escolher uma palavra para defini-lo é: fofo.
As Miniaturas de Andreia del Fuego: posso dizer que essa mulher escreve bem pra caraca, mas eu não consegui perceber muito bem o que ela quis dizer. Esse livro é um bocado perturbador e pede uma releitura em um momento de mais tranquilidade. (Obrigadinha sobrinha Claudia Pacheco pelo presente )
Por último, À sombra da Figueira de Vaddey Ratner: foi de grande ajuda para a viagem que fiz para o Camboja, em novembro. Pude entender muita coisa a respeito do povo cambojano que, apesar de sua triste história, não se deixa abater tão facilmente. É um livro triste que só. Dói na alma.

Espero que 2018 seja um ano muito melhor, melhor em todos os sentidos, com mais literatura e menos perrengues.

Da saudade…

“Não importa que a tenham demolido: a gente continua morando na velha casa [em que nasceu].”     (Mario Quintana)

saudadeJá ouvi dizer que ser saudosista é algo negativo, que sentir saudades de épocas passadas é sentir-se incapaz de ser feliz com o presente. Há quem diga que a pessoa saudosista costuma revisitar o passado na esperança de encontrar nele aquilo que não encontra na vida atual. Não sei se concordo muito com isso, pois embora contente com meu presente sou uma saudosista por natureza.

Saudade é uma palavra tão linda, tão carregada de sentimentalidade e que, dizem os entendidos, só existir na doce língua portuguesa; já ouvi dizer, inclusive, que nenhum outro idioma é capaz de dar a essa palavra a conotação tão forte e significativa que lhe é de direito… não sei se isso é realmente verdade, só sei que pra mim os sentimentos mais doces são justamente aqueles inspirados pela saudade: de uma pessoa querida, de um lugar, de uma época, de uma música, de um cheiro… das memórias saudosistas que tenho, só guardo aquelas que de alguma forma me arrancam um sorriso.

Dia desses, peguei-me “saudadeando” sobre quando eu era moleca, quando ia de férias à casa de minha avó, a Santa Helena, no Maranhão. Naquela época, essa cidade nada tinha de moderna, era um lugar pacato como tantos outros do nordeste brasileiro.
Santa Helena não tinha cinema, não tinha shopping, não tinha praia, mas ainda assim lembro-me com muito carinho daquele tempo: o tempo das brincadeiras, das despreocupações, dos cabelos soltos ao vento, dos banhos de rio e das carreiras pelas ruas sem carros. Era o tempo de pular elástico, de jogar pedrinhas na calçada e brincar de roda. Era o tempo de milho assado, de bolo de macaxeira e fogueira de São João.

Lembro-me tão bem da casa de minha avó, ou melhor, de várias casas nas quais ela morou. Porém, a que mais forte ficou na memória era ali, na Rua Doutor Paulo Ramos. Sua casa era a última da rua, depois dela apenas floresta, que nós, crianças, chamávamos “mato”.
A casa de minha avó não era tão grande, mas tinha espaço suficiente para abrigar quantas pessoas passassem e precisassem ficar por lá: parentes e conhecidos que vinham de longe. Um dos sinais de que se tinha visita em casa era o monte de redes penduradas e a cangalha na janela… Ah, como eu me lembro da famosa cangalha na janela!

O quintal era gigante, parecia um mundo, mas pensando melhor, depois de tantos anos a memória pode ter me enganado, quiçá fosse gigante apenas na minha concepção de criança. Sei, no entanto, que havia de tudo no quintal de minha avó: bananeiras, mangueiras, laranjeiras, limoeiros, cajueiros e um pé de melão. Um único pé de melão, cuidadosamente plantado ao lado da janela da cozinha.

 

– Que fruta é essa? – Perguntavam os vizinhos.
– Fruta de gente rica! – dizíamos em uníssono.
Quase ninguém em Santa Helena comia melão. Éramos uns privilegiados.

 

A Santa Helena daquela época, localizada à margem direita do rio Turiaçu, era tranquila, sua gente simples, suas paisagens naturais e bonitas. Pelas ruas era comum vermos os velhos sentados num mocho, à porta de casa, consertando a tarrafa. Escutávamos familiarizados por volta do meio dia a famigerada buzina (feita em uma garrafa com o fundo vazado) que servia para avisar a população de que alguns pescadores tinham chegado da pesca e que havia peixe à venda.
As carroças circulavam sem parar de um lado para o outro fazendo mudanças, servindo de táxis, vendendo frutas e miúdos de animais. Os cachorros soltos nas ruas brincavam no meio da garotada, mas também nos assustavam quando saía a conversa de que tinha cachorro doido à solta. Cachorro doido, fui saber anos mais tarde que nada mais era que cachorro com raiva por falta de vacina… e eu morria de medo de cachorro doido!

As crianças corriam livremente, brincavam de pega-pega, esconde-esconde e empinavam pipas, que lá chamávamos “papagaio”. Crianças inocentes que éramos, se bem que naquela época também fazíamos pequenas maldades, colocávamos arapucas e esperávamos que algum passarinho caísse na armadilha… Pensando bem, nem tão inocentes assim, naquele tempo também sabíamos ser cruéis.
As mulheres saíam de manhã cedinho para um dia de trabalho duro, voltavam à tardinha com um cofo na cabeça cheio de coco babaçu que elas passavam o dia inteiro quebrando. Vendiam o coco na quitanda da esquina e lá mesmo já compravam o querosene pra lamparina.

Apesar de toda a simplicidade, o lugar também tinha seu dia de glamour, o dia da Festa de Santa Helena, a santa padroeira que dá nome à cidade. Nesse dia a cidadezinha  inteira se vestia de gala, as mulheres com seus vestidos de cetim brilhoso e mangas bufantes, cada uma querendo se “amostrar” mais que a outra.
Nesse dia, chegava um parque de diversão à cidade, trazendo uma única roda gigante e algumas barquinhas de madeira. Sentávamos nessas barcas, segurávamos numa corda e puxávamos com muita força para fazê-las balançar de um lado para o outro. E elas balançavam – pra lá e pra cá – lá nas alturas.

A cidade inteira se levantava, as crianças se divertiam, as velhas vendiam doces e mingau de milho, a música tocava alto e contagiante, o povo dançava, ria, aproveitava. A festa acabava, a cidade dormia… e acordava outra vez na mesma monotonia.

Eu sinto uma saudade enorme dessa monotonia e naturalidade. Tempo bom esse, quando as pessoas saíam sem medo de voltar tarde da noite. Quando ficávamos sentados à porta de casa até altas horas contando as estrelas do céu. Quando o único medo que nós, crianças, tínhamos, era de amanhecer chovendo e não podermos ir às ruas brincar.

Ah, mas isso foi naquele tempo. Há muito, muito tempo.

Impressões de Leitura#12: Mudanças

“Um grande vilão tem sempre algo de heróico, e um grande herói tem sempre algo de vil.”

mudançaHá tempos eu tinha vontade de ler algo de Mo Yan, o escritor chinês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2012. Como para mim ele era um mero desconhecido, acabei por escolher um livro ao acaso.
Decidi-me por Mudança, que não foi o primeiro livro que ele escreveu mas que veio bem a calhar com o que eu estava buscando: conhecer mais a fundo o escritor assim como o país no qual ele vive. 🙂

Mudança é um livro bem fininho, entretanto, suas poucas páginas se encarregam de contar um pouco sobre a trajetória de Mo Yan e de como ele enveredou pelo caminho da literatura.
O autor se dispõe a relatar de forma relaxada e bem-humorada, baseada em memórias de sua vida privada, as grandes transformações ocorridas na China ao longo das últimas três décadas.

Mo Yan vivia em um vilarejo, estudava em uma boa escola, uma das melhores da província de Shandong – e da qual foi expulso quando era apenas um estudante da quinta série. Trabalhou em uma fábrica de algodão e tempos depois entrou para o exército porque achava que apesar de difícil era muito mais fácil que ser admitido em uma universidade. Ele conta como foi colocar os pés na capital Pequim, mesmo naquela época a cidade não sendo nem um décimo do que é hoje, ainda assim já lhe parecia monstruosa e assustadora. Relata sua visita ao mausoléu do Presidente Mao e da emoção que sentiu na ocasião de seu falecimento, pois ele e grande parte dos chineses acreditavam que com sua morte seria o fim da China. Porém, alguns anos após esse acontecimento, era possível constatar que a China não apenas havia sobrevivido, mas melhorava e crescia dia após dia. Além disso, após o desaparecimento do Presidente Mao, proprietários de terra deixaram de ser estigmatizados, agricultores passaram a ter mais grãos em casa e até as universidades mudaram seu sistema educacional, passando a adotar o exame de admissão, facilitando assim a vida daqueles que desejavam estudar. Tudo o que o autor conta ilustra muito bem como as coisas mudaram na China e continuam mudando.

Eu, particularmente, acredito que este livro não mostra claramente como é de fato a literatura de Mo Yan, seria preciso ter contato com sua escrita ficcional também, mas reconheço que foi uma boa introdução, foi a porta de entrada para conhecer o caminho que ele trilhou até ser considerado e reconhecido como um escritor de sucesso. Ademais, pude perceber um pouquinho mais as peculiaridades da China – este país gigantesco, enigmático e tão cheio de nuances.

Sobre o autor:


Mo-Yan

Mo Yan nasceu na província de Shandong, China, em 1956. É autor de romances, novelas e contos. Ganhou vários prêmios literários nacionais e é o escritor chinês mais elogiado de sua geração. Mo Yan é seu pseudônimo, que significa “não fale”, um nome bastante curioso para alguém que se dedica a escrever e criar vozes para debater acerca de diversos assuntos.

Impressões de leitura#11: Fama

“Uma novela em nove histórias”

famaEu adoro descobrir novos nomes da literatura. Gosto de pegar dicas com amigos, ler indicações e resenhas em revistas literárias e, sempre que possível, leio livros de escritores completamente desconhecidos.
A verdade é que não costumo limitar minhas leituras a um gênero ou autor específico, claro que tenho meus escritores preferidos, mas sou também muito curiosa e aberta a novas leituras. Por conta dessa minha curiosidade, já conheci escritores sensacionais.
O escolhido da vez é Daniel Kehlmann, um escritor alemão muito talentoso que me conquistou desde o primeiro momento que entrei em contato com seus escritos. Talvez para muita gente Kehlmann não seja mais novidade nenhuma, mas pra mim, que nunca tinha escutado falar nada sobre ele, foi um achado surpreendente.
Conheci esse escritor fuçando informações em uma rede social sobre literatura, acabei chegando em seu livro Fama (Ruhm, no original) e fiquei encantada com seu estilo de escrever.

Fama é composto de nove relatos. No primeiro, o leitor entra em contato com uma personagem que decide por primeira vez adquirir um telefone celular; assim que começa a utilizá-lo começa também a receber ligações que seriam para outra pessoa: uma celebridade, um astro de cinema muito solicitado por mulheres e com uma vida bastante interessante. Essa primeira personagem passa, então, a adotar a identidade dessa celebridade.
Mais adiante o leitor conhece outra personagem, um ator muito famoso que de uma hora para outra deixa de receber ligações, deixa de ser solicitado para trabalhos e também por mulheres. Por causa disso, ele começa a duvidar do seu talento e da importância de sua carreira.

À medida que avançamos vão sendo-nos apresentados outras personagens: um escritor brasileiro que escreve livros de auto-ajuda, vive em um enorme e luxuoso apartamento no Rio de Janeiro, sofre de depressão e encontra no suicídio a solução para seus problemas; uma mulher de quase 70 anos que ao descobrir que tem câncer decide viajar para a Suíça e se internar em uma clínica que pratica a eutanásia; uma escritora de novelas policiais que se perde na Ásia, fica com o celular descarregado sem poder entrar em contato com ninguém para pedir ajuda; um blogueiro que sonha em ser protagonista de uma novela e, por último,  um diretor de uma grande companhia telefônica que leva uma vida dupla e se entrega a autodestruição.
Com muita ironia, Kehlmann toma a história de cada uma dessas personagens e vai montando sua trama. Ele constrói uma espécie de novela em que os nove episódios se entrelaçam, mas sem criar um protagonista.

 

“Uma novela sem personagem principal! Compreendes? A composição, as conexões, o arco narrativo, mas sem nenhum protagonista, nenhum herói que recorra todo o livro”.

 

Na verdade, todas as personagens – de uma forma ou de outra -, acabam tendo algum tipo de relação entre si. Histórias que se entrelaçam, personagens que se misturam, se relacionam, que desaparecem de um relato para reaparecer em outro, mais adiante. Kehlmann monta um enredo que tem como pano de fundo a sociedade atual, a tecnologia, o mundo virtual e a globalização. Ele fala de situações e objetos da vida moderna, como por exemplo, aparelhos celulares, computadores, baterias descarregadas, telefonemas equivocados, linhas cruzadas, encontros inusitados etc. Retrata situações em que celulares e computadores, objetos tão comuns e práticos nos dias atuais, que servem (ou pelo menos deveriam servir) para facilitar a vida, podem ser capazes de gerar problemas e mal-entendidos gravíssimos.
Fama trabalha temas como suicídio, desaparecimento, traição, eutanásia, verdades, enganos e a perda da identidade.

O livro tem uma narrativa muito agradável e flui maravilhosamente bem, é uma excelente mistura de ficção e realidade. Um livro com poucas páginas, mas com a incrível capacidade de prender o leitor do princípio ao fim. Eu gostei tanto que fui atrás de saber mais sobre o autor. As informações que encontrei por aí dizem que Fama, entre os livros de Kehlmann, é um dos mais fracos. Então fiquei aqui pensando, se este que não é considerado assim tão bom me agradou, já posso imaginar a delícia que será ler aquele que a crítica especializada considera o melhor. Até já coloquei aqui na minha lista outros títulos desse escritor.

Sobre o autor:
daniel-kehlmann-3
Daniel Kehlmann nasceu em Munich, em 1975. Reside atualmente em Viena e Berlim. Sua obra recebeu vários prestigiosos prêmios, como o Prêmio de Literatura da Fundação Konrad Adenauer, o Prêmio Kleist e o Prêmio Thomas Mann. Sua novela “A medida do mundo”, traduzida para mais de quarenta línguas, é um dos maiores êxitos da recente literatura alemã. Entre outros títulos cabe destacar também “Eu e Kaminski.”
Vale a pena ler. Kehlmann é ótimo!

Impressões de leitura#10: Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida…

“Toda mulher que já teve um bebê sentiu dor, e as mães de menininhas têm o coração cheio de tristeza.”

mensagem de uma maeLogo que terminei a leitura de Xu Xiaobin, A Serpente Emplumada, quis dar continuidade a minha empreitada de conhecer mais a fundo a literatura chinesa. Pesquisei sobre vários livros e decidi ler Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, de Xinran. A história tocou-me bastante, provavelmente por trazer relatos reais de mulheres chinesas que devido aos percalços da vida precisaram abandonar suas filhas à própria sorte. Os depoimentos são tão reveladores que não tem como lê-los sem sentir um nó na garganta, sem imaginar como reagiríamos caso fosse conosco. Não tem como não nos colocarmos no lugar dessas mães e sofrermos com elas. Confesso que por vezes chorei… É triste, muito triste!

Xinran começa nos explicando o porquê de haver na China tantas meninas orfãs. Ela diz que isso acontece, “em primeiro lugar, porque é um costume arraigado na cultura do povo, pois desde os tempos antigos bebês do sexo feminino são considerados inferiores e abandonados em comunidades rurais do oriente; em segundo lugar, porque há uma combinação de ignorância e liberdade sexual; e por último, por causa da existência da política do filho único.”

Nas zonas rurais, onde os habitantes tiravam o sustento de métodos mais primitivos como a agricultura e a pesca, a preferência por crianças do sexo masculino era mais comum; por causa de sua força física e capacidade para trabalhos pesados elas eram mais desejadas. Além disso, a tradição que diz que apenas o filho homem tem o direito de herdar o nome do clã, que apenas ele pode dar continuidade a linhagem familiar e acender o incenso no altar dos ancestrais, fez com que algumas pessoas, sobretudo aquelas com pouca ou nenhuma instrução, começassem a abandonar ou asfixiar a criança logo após o nascimento, caso fosse menina.
Eu já tinha escutado falar sobre a desvalorização da criança do sexo feminino na China, mas a verdade é que nunca havia entrado em contato com histórias que me revelassem de fato como tudo acontece. Todas as vezes que tomei conhecimento de algum caso de abandono de menininhas, achava que os pais faziam isso por falta de compaixão, por falta de amor propriamente dito; hoje, após ler o livro de Xinran e conhecer as circunstâncias que levaram muitas mães ao ato de abandonar suas meninas, compreendi que elas agiram assim mais por falta de opção que por falta de amor.

Muitas mães, por conta do abandono de suas filhas, acabaram tristes, deprimidas, algumas enlouqueceram, outras se suicidaram. Após ler todos esses relatos, o sentimento que restou é o de completa tristeza.
A autora de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida recebeu inúmeras cartas de meninas que foram adotadas por famílias estrangeiras; essas meninas têm suas vidas repletas de dúvidas, por isso muitas mães adotivas aproximaram-se da literatura de Xinran em busca de respostas para os questionamentos das filhas. Dentre todas as perguntas que foram feitas à Xinran, a mais recorrente foi: Por que minha mamãe chinesa não me quis? No livro, a autora tenta responder à pergunta e mostrar para essas meninas chinesas – que perderam suas mães biológicas – o quanto essas mães sofreram e o quanto elas as amavam.

No final, a autora ainda pergunta: com todas as dramáticas mudanças pelas quais a China passou, será que as mulheres que pela tradição foram forçadas a abandonar suas menininhas terão algum dia a chance de abraçá-las novamente?
Adoraria acreditar que sim!

 

“Uma mulher era como um seixo desgastado e arredondado pela água e pelo tempo. Nossa aparência externa é alterada pelo destino que nos cabe na vida, mas água alguma poderia alterar o coração da mulher chinesa e seus instintos maternos.”

 

Sobre a autora:

 


xinran

 

Xinran é uma jornalista e escritora chinesa. Nasceu em Beijing, em 1958. Em 2004 fundou uma ONG, The Mother’s Bridge of Love, que busca auxiliar órfãos chineses e estreitar a compreensão entre Ocidente e China.

Impressão de leitura#9: A sul da fronteira, a oeste do Sol.

 

murakami1Este foi o terceiro livro de Haruki Murakami que li. O primeiro foi Minha Querida Sputnik, logo depois li também Norwegian Wood, ambos muito bons, diga-se de passagem. Entrei em contato com os livros de Murakami em 2009, desde então não deixei de admirar cada vez mais este escritor japonês.
Assim como Norwegian Wood,  A sul da fronteira tem também como título o nome de uma famosa canção:
South of the Border, de Nat King Cole.
O enredo, apesar de simples, consegue ser bastante instigante, além disso não é nada previsível.
Murakami retrata o Japão da primeira metade do século XX, conta a história de Hajime, um menino de 12 anos que ainda criança se encanta com a graça de Shimamoto, uma menina da mesma idade. Entre eles nasce uma amizade sincera, e à medida que percebem as inúmeras coisas que têm em comum, a amizade fica ainda mais forte. Separam-se na juventude e por muitos anos não voltam a saber nada mais um do outro.

Hajime segue sua vida e começa a fazer suas descobertas: namora uma menina aqui, outra ali, magoa mais uma acolá e assim segue… Tempos depois, já dono de um conhecido clube de jazz, casado e pai de duas filhas, reencontra Shimamoto e atração renasce.
Completamente encantado com a reaparição dessa mulher – agora madura e misteriosa – seus desejos, outrora reprimidos, desabrocham com maior intensidade. Embora contente de reencontrar Shimamoto, Hajime fica indeciso entre a vida tranquila com a família e a possibilidade de recuperar os sentimentos que acreditava perdidos.

No decorrer da narrativa, o autor mostra as transformações pelas quais o protagonista passa, desde sua infância/adolescência até chegar à idade adulta, e o leitor torna-se cúmplice de suas dúvidas, de sua melancolia, de sua nostalgia e compartilha suas afeições, culpas e remorsos.
É uma história sobre a adolescência e suas descobertas, sobre perdas e renúncias, sobre amores perdidos e recuperados e sobre a importância de dar ou não uma nova oportunidade a esses amores interrompidos.

A Sul da Fronteira tem algumas semelhanças com as outras duas obras de Murakami que li. Neste livro há também triângulos amorosos e muita referência musical; o texto de Murakami está recheado de artistas, como por exemplo, Rossini, Beethoven, Nat King Cole e Bing Crosby.
O autor, também conhecido por suas pitadas de erotismo, neste livro utiliza muito mais que apenas toques eróticos. De repente dá uma louca e o narrador começa a descrever cenas sexuais que deixaria qualquer um de queixo caído. Confesso que até gosto quando o autor ousa um pouquinho, mas, neste caso, Murakami exagerou na dose; são páginas e mais páginas narrando um ato sexual e seus pormenores. E ele conta tudo, tudinho mesmo, não deixa nada pra imaginação do leitor.
Eu prefiro quando o autor aborda esse tema com cuidado, até pode revelar, mas sem ser tão explícito. Na minha opinião, esse erotismo exacerbado nada acrescentou à história, apenas aumentou o número de páginas.

Apesar desse pequeno detalhe negativo, é um bom livro. Gostei.

Sobre o autor:

murakami foto

 

Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestígio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O,Connor. Murakami recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

Deixo aqui a música South of the Border, de Nat King Cole, que dá título ao livro: 


Deixo também Pretendoutra canção que Hajime e Shimamoto escutavam:

 

 

“Pretend you’re happy when you’re blue. It isn’t very hard to do.”