Coisas da China…

Escrevi este texto em 2011, logo após chegar por estas bandas. Hoje, sete anos depois, ainda lembro desse episódio, sobretudo no verão quando saio às ruas e me deparo com milhares de chinesas e suas sombrinhas, apetrechos esses indispensáveis para quem quer camuflar o sol e consequentemente conservar a pele branquinha. Pra mim, usar sombrinha já é habitual, pois até eu saio por aí com a minha. Como diz o ditado, a gente dança conforme a música, né mesmo?! 🙂

chinesas


Todas as vezes que vou ao salão de beleza vem uma funcionária perturbar minha alma me oferecendo tratamentos estéticos. Eu SEMPRE recuso, porque já percebi que ela só quer mesmo garantir alguns trocados. Pra quem não sabe, os chineses de Hong Kong são completamente tarados por dinheiro, o que eles puderem fazer para arrancar alguns dólares a mais do seu bolso, pode ter certeza que farão.

A história que vou contar hoje, apesar de irritante, não deixa de ser também engraçada: estava no salão de beleza para fazer as unhas e, conversa vai conversa vem, quando dei por mim uma funcionária  já estava ao meu lado vendendo seus produtos de beleza.
Começou a tocar no meu rosto, avaliar minhas manchinhas escuras, tocou nas minhas mãos e começou mais uma vez o seu velho discurso, oferecendo seus tratamentos milagrosos e rejuvenescedores. Com a minha recusa, ela lembrou de usar uma tática que não havia utilizado até então. Provavelmente deve ter achado que tocaria no meu emocional e me convenceria a aceitar o tal tratamento de imediato.

Desta vez, a funcionária me garantiu com todas as letras que depois desses tratamentos eu ficaria branquinha. Eu até tentei argumentar, mas não adiantou muito, então preferi calar a boca e esperar que ela terminasse de explicar tudo tintim por tintim.
Depois de todo o seu blábláblá minucioso eu disse educadamente que não queria fazer tratamento nenhum, que estava satisfeitíssima com a tonalidade da minha pele e tal… Mas ela não quis aceitar meus argumentos e puxou logo a calculadora para negociar. Aqui, puxar a calculadora é normal, os chineses sempre tentam negociar o preço com os clientes.
Foi um sacrifício fazer essa mulher entender que eu não faço questão alguma de ser a Branca de Neve, que sou morena e gosto de ser morena, pra espanto dela, que me olhou como se tivesse visto um ET.

– Como assim, no Brasil as mulheres não querem ficar brancas?
– Não. A gente até gosta de curtir uma praia de vez em quando para pegar um bronze!
– OMG! Você PRECISA fazer esse tratamento IMEDIATAMENTE, você vai ficar muito mais BRANCA. (e deu bastante ênfase no branca).

Puxa, depois de tudo que falei ela ainda insistiu nesse assunto de virar branca. Qual parte do eu gosto de ser morena ela não entendeu? Só faltou mesmo desenhar que não tenho a menor intenção de virar o Michael Jackson… (rsr) 🙂
Depois do sufoco em me livrar da funcionária eficiente/pegajosa, fiquei com uma vontade enorme de gargalhar, então pensei cá comigo: eu passo cada perrengue! Mas, pra ser bem sincera, é uma das vantagens de viajar, de morar no país dos outros, de conhecer outras culturas… eu acabo aprendendo, ainda que à força, a conviver e a respeitar as diferenças.

Já em casa, lembrei-me de uma moda que apareceu por aqui no verão passado. Estou até pensando seriamente em me juntar às chinesas que aderiram a ela, tudo apenas para conservar a brancura da pele. 🙂

Abaixo, uma pequena amostra:


Esclarecendo:
 Pessoal, na China as mulheres têm que ter a pele clarinha, quanto mais branca, melhor! Ser branca é sinônimo de ser chique e elegante, de que se tem um alto nível econômico. Só tem a pele queimada de sol as mulheres pobres, aquelas que trabalham no campo, na colheita do arroz.

Ai ai, coisas da China…

 

Impressões de leitura#17: A trilogia 1Q84…

“Não se esqueça do que lhe digo: as coisas não são o que parecem.”

 

1Q84Acho que não é mais novidade para ninguém que eu gosto pra caramba do escritor japonês Haruki Murakami. Até agora todos os livros dele que li, de uma forma ou de outra, me agradaram. Por isso, quando escutei falar sobre o lançamento de 1Q84, seu novo livro, fiquei morrendo de vontade de lê-lo.
Quando comecei a leitura eu nada sabia sobre o enredo, evitei até mesmo bisbilhotar resenhas e comentários a respeito para não saber detalhes que pudessem comprometer minha leitura. Por um lado isso foi bom, pois fui surpreendida pelos acontecimentos à medida que me envolvia com os personagens. Mas por outro, foi ruim, já que eu não sabia que a história é longuíssima, que a edição em português está dividida em três volumes e que não é possível lê-los de forma independente. Resulta que fui ficando cada vez mais envolvida com o tema e cada vez mais curiosa para saber o desfecho, mas, para minha surpresa, o primeiro livro terminou deixando um monte de perguntas sem respostas. Então, não teve outro jeito, foi preciso encarar os dois volumes restantes.

A história se passa em Tóquio, em 1984. Logo no início conhecemos os dois personagens principais: Aomame e Tengo. Ela, uma mulher bonita, independente, professora de ginástica e assassina profissional, uma espécie de justiceira dos fracos e oprimidos. Ele, professor de matemática e aspirante a escritor.

 

1Q84 3
É o mundo real, onde os cortes fazem correr sangue real, onde a dor é verdadeira e a dor é dor real. A lua no céu não é de papel. É uma lua real, são duas luas reais.

 

Com uma narrativa fantástica, Murakami cria um mundo paralelo a 1984, o qual chama 1Q84. Esse título é, na verdade, uma homenagem ao livro 1984, do escritor George Orwell. Nesse mundo completamente novo há duas luas – uma grande e outra pequena – flutuando lado a lado no céu. Existe também um tal de Povo Pequeno que domina as pessoas aí nesse mundo paralelo. O Povo Pequeno criou uma crisálida de ar que por sua vez teve sua história transformada em livro por Fuka Eri, uma escritora adolescente e disléxica. O livro de Fuka Eri apesar de ter um enredo envolvente é muito mal escrito. Precisa, portanto, ser corrigido para poder participar e ter a chance de ganhar um importante prêmio literário. É aí que entra Tengo, o nosso aspirante a escritor, que tem como principal função reescrever o livro da adolescente disléxica.

A trama criada por Murakami mistura-se àquela criada por Fuka Eri, e todos aqueles componentes fantásticos que bem no início nos pareceram bastante bizarros, começam a fazer mais sentido. 1Q84 tem um enredo que desperta interesse, personagens bem desenvolvidos, sinistros e solitários. Murakami criou um mundo em que a fronteira entre o real e o imaginário é completamente imprecisa. Ele ousa, mistura fatos reais com ficção, tornando assim a narrativa ainda mais instigante e enigmática… E o leitor fica a princípio um bocado confuso, meio sem saber onde e quando acaba o Tóquio de 1984 e começa o de 1Q84.

Há também a relação amorosa entre Aomame e Tengo, que foram colegas de escola quando crianças, mas que ficaram quase duas décadas sem saber nada um do outro. Aliás, a parte mais esperada por mim foi justamente o reencontro deles. Fiquei durante toda a leitura desejando que isso acontecesse para saber o que passaria depois, pois os caminhos de ambos os personagens estão interligados desde o início da história e estão também altamente relacionados com os acontecimentos sinistros do livro. 1Q84 é uma ficção interessantíssima e inteligente que faz com que não tenhamos vontade de parar até sabermos em qual dos mundos os personagens estão de fato a viver.

 

Que sentido faz continuar a viver completamente sozinha num mundo absurdo… um mundo com duas luas, uma grande e uma pequena, e onde seres que fazem parte de um tal Povo Pequeno controlam o destino dos humanos?

 

A leitura foi muito agradável, mas vou confessar pra vocês, depois de dois volumes de quase 500 páginas cada um, comecei a achar que o autor estava a dar voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum. Quando comecei o terceiro volume já estava um pouco cansada, percebi que nada avançava, que o autor estava meio que ‘enchendo linguiça’. No terceiro livro, além dos dois personagens principais, Aomame e Tengo, velhos conhecidos do leitor desde o início da trama, aparece um terceiro personagem, o sinistro e misterioso Ushikawa. Deu-me a impressão de que o autor colocou este personagem extra exatamente para dar uma animada na narrativa, que já havia ficado bastante repetitiva. E foi, de verdade, uma jogada de mestre, porque ele conseguiu recuperar o meu interesse.

O terceiro volume foi de fato o que menos gostei. Apesar de ter gostado do tema, apesar de achar que este escritor tem uma grande capacidade de criar enredos criativos e personagens bem construídos e interessantes, dessa vez o autor esticou a trama além da conta. A história estaria perfeita com apenas dois volumes, porque no final das contas acabaram ficando várias informações completamente perdidas e sem relevância nenhuma para o desfecho. Mesmo assim, com todas as suas imperfeições, esse autor consegue me agradar a cada livro. Gostei!

E Murakami continua narrando exageradamente bem as cenas de sexo, mais explicadinho impossível. Após ler 1Q84 cheguei à conclusão de que o erotismo exacerbado é realmente um tema recorrente na literatura desse japonês fora de série.

 

Sobre o escritor:

 

Murakami nasceu em Kioto, em 1949. É um dos autores japoneses de maior prestigio, com grandes vendas tanto no Japão como no exterior. Ganhou vários prêmios, entre eles o Tanizaki, Yomiuri, Franz Kafka e Frank O’Connor.
Recebeu elogios da crítica por todos os seus títulos, entre eles Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Possui um estilo único, sua obra é referência da literatura do século XXI.

 

Como música também não pode faltar em um livro de Murakami, deixo aqui um vídeo da Sinfonietta de Janácek, canção que o autor menciona bem no comecinho da história. Para mim, virou trilha sonora.

 

Todas as cartas de amor são ridículas…

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas (…)” Álvaro de Campos

 

Fernando-Pessoa-Cartas

 

Eu adoro poesia. E quando falo em poesia me vem logo à cabeça Fernando Pessoa e seus heterônimos, porque eles são os meus poetas preferidos. Além disso, adoro biografias, cartas, diários e tudo mais que me permita bisbilhotar detalhes privados da vida dos escritores que gosto. Então, quando vi na vitrine de uma livraria o livro Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz  publicado pela Editora Assírio & Alvim, em 2012, entrei imediatamente para comprá-lo. Fiquei curiosíssima para conhecer os pormenores do romance dos apaixonados.
O livro traz uma compilação de cartas que foram trocadas por Ofélia e Pessoa durante as duas fases do namoro que mantiveram. Agora ficou muito mais interessante ler essas correspondências, porque nos são apresentadas em forma conjunta e obedecendo um critério cronológico. Uma carta é sempre a resposta de outra, assim os assuntos não ficam mais subentendidos, é possível seguir a leitura como se estivéssemos presenciando o diálogo deles realmente.
As cartas de Ofélia, que até bem pouco tempo não haviam sido publicadas em sua totalidade, quando lidas juntamente com as cartas de Fernando permitem-nos perceber que houve sim uma relação amorosa real, que não se tratou apenas de um amor platônico criado pela imaginação fértil do poeta.
O livro é composto de 185 documentos: 51 cartas de Pessoa e 129 de Ofélia, além de alguns telegramas e postais. As correspondências 
foram transcritas a partir de fotocópias dos manuscritos originais, cedidas pelos familiares de ambos os interlocutores. A nota introdutória informa o leitor que foram feitas algumas correções na ortografia para atualizá-la de acordo com o último acordo vigente e também para corrigir alguns pequenos erros. A pontuação, no caso das cartas de Ofélia, foi mantida, só foi mesmo corrigida nos casos em que poderia causar alguma ambiguidade. As datas das cartas, que originalmente são colocadas no final, foram deslocadas para o início para que o leitor pudesse ter uma melhor percepção da sequência cronológica. A edição é bem bonita e caprichada, além disso contém algumas explicações nas notas de rodapé.

 

cartas

 

Nas missivas do início da primeira fase do namoro, que durou de novembro de 1919 a dezembro de 1920, Pessoa mostra-se um homem apaixonado, romântico, em alguns momentos até ridiculamente meloso.

 

Adeus, amor. Beijos, beijinhos, beijões, beijicos, e beijerinzinhos do teu, sempre e muito teu
Fernando

 

Na segunda fase, que durou de setembro de 1929 a janeiro de 1930, percebemos que a correspondência é muito mais da parte de Ofélia que de Fernando… As cartas dele, quando chegam, são curtas e não apresentam mais aquele tom tão romântico e apaixonado do início da relação, o poeta mostra-se mais seco e distante. Já para o fim do relacionamento o discurso de Pessoa muda mais ainda, aquele tom meloso é substituído por um tom mais racional. O poeta, inclusive, escreve cartas para Ofélia e assina como um dos seus heterônimos, o antipático Álvaro de Campos, que ficamos sabendo por meio das cartas que era o heterônimo que Ofélia mais detestava.
Dessa forma, às vezes brincando e outras vezes falando sério, Pessoa decide dar fim ao relacionamento. No entanto, a culpa do término do namoro não foi unicamente dele, mas dos heterônimos que, segundo o escritor, eram muito exigentes.

 

O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que nao permitem nem perdoam.

 

Antes, quando eu lia na internet pequenos trechos das cartas de Pessoa para Ofélia e vice-versa, imaginava que o namoro deles havia sido algo assim meio sem graça, sem paixão. Mas depois de ter lido as cartas em conjunto, entendi que o tal relacionamento foi até bem picante para os parâmetros daquela época. Deu para perceber que o namoro do casal foi além dos olhos nos olhos, pois em seu textos captamos até mesmo pequenos traços de sensualidade e erotismo.

 

Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo… Meu Bebê pra sentar no colo! Meu Bebê pra dar dentadas! Meu Bebé para… Corpinho de tentação.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; Pões tua boquinha contra a boca do Nininho… Vem… Estou tão só, tão só de beijinhos…

Vou-me deitar Nininho, queres vir fazer óó comigo? Isso há-de ser um dia, mas não me chames descarada não?


Eu adoro as poesias de Pessoa, mas devo admitir que as cartas não me agradaram tanto assim. Achei que a maioria delas é bastante boba e infantil, sobretudo aquelas do início da relação. Além disso, senti pena de Ofélia, pois como deu para perceber ela se entregou demasiado a esse amor e sofreu bastante para superar o fim do relacionamento. Pessoa, como pude notar, foi mais direto e racional e, para encerrar o relacionamento, escreveu clara e friamente sobre o fim do amor.

 

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como nao hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que nao são mais que partes da vida? (…) Quanto a mim… O amor passou.

 

Apesar de não ter gostado tanto assim das cartas (achei-as um bocado aborrecidas) valeu a pena a leitura, pois pude comprovar mais um vez que Álvaro de Campos tinha razão quando afirmou em seu poema que Todas as cartas de amor são ridículas.

 

 

Deixo aqui um vídeo com um poema de Álvaro de Campos, o heterônimo que Ofélia tanto detestava:

 

 

*** Texto escrito em 2012, no meu antigo/falecido blog.

Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong…

“É sempre difícil apreciar os livros sagrados de outras culturas.”

 

Baixar-Livro-Maome-Karen-Armstrong-em-PDF-ePub-e-Mobi-ou-ler-online-370x536Não estava em meus planos ler um livro relacionado à religião no momento, mas pelo fato desse tema ter sido escolhido para a leitura do mês de abril no Grupo de Leitura do qual participo, não houve escapatória. Como eu não sou de fugir da raia, encarei. A leitura, ao contrário do que eu esperava, me agradou um bocado, não apenas porque me levou a aprender bastante acerca de uma cultura que eu desconhecia totalmente, mas também porque me deu motivação para começar a ler Salman Rushdie, um escritor que já estava na lista de espera há anosSem falar que eu adoro histórias ambientadas na Idade Média, então colocando na balança os prós e contras, posso dizer que Maomé, uma biografia do profeta, de Karen Armstrong, foi uma leitura boa e informativa.
O livro, publicado originalmente no Reino Unido em 1990 (no Brasil em 2002 pela Companhia das Letras), é interessante a começar pelo prefácio, escrito em 2001, apenas um mês após o atentado às torres gêmeas nos Estados Unidos.
Armstrong nos conta que decidiu escrever a biografia de Maomé em 1989, época em que veio à tona o caso Salman Rushdie.
Salman Rushdie, escritor inglês de origem indiana, escreveu Os Versos Satânicos, um romance que descreve um profeta fundador de uma nova religião. A história desse profeta, que foi supostamente inspirada na figura de Maomé, ocupa apenas 70 páginas do livro de Rushdie, mas ainda assim essas poucas páginas foram suficientes para provocar reações furiosas e violentas entre os muçulmanos. O romance ofendeu a comunidade muçulmana que entendeu que seu Profeta e maior representante da fé islâmica havia sido desrespeitado, por conta disso o autor dos Versos Satânicos foi considerado blasfemo. Sua situação agravou-se mais ainda depois que o Ayatolá Ruhollah Khomeini decretou uma fatwa que condenava o escritor e seus editores à morte. Khomeini induziu uma multidão de muçulmanos a queimar os livros de Rushdie em praça pública, apedrejar livrarias e a editora Penguin, responsável pela publicação do romance.

“Faço saber aos orgulhosos muçulmanos de todo o mundo que o autor de Os Versos Satânicos, livro que vai contra o Islã, o Profeta e o Corão, e todos os implicados em sua publicação que eram conscientes do seu conteúdo, foram condenados à morte. Peço a todos os muçulmanos que os executem onde quer que os encontrem. Caso morram na tentativa serão considerados mártires.” (Mensagem do Ayatolá Khomeini transmitida pela rádio Teerã.)

Dias após a transmissão dessa mensagem o Ayatolá Khomeini ofereceu também uma recompensa de três milhões de dólares para quem matasse Salman Rushdie, esse foi o estopim do caso que levou o escritor inglês a ficar por mais de uma década escondido sob forte proteção policial.
Armstrong conta que depois da fatwa o preconceito contra os muçulmanos aumentou ainda mais. A autora afirma que embora no ocidente não tenhamos tomado conhecimento, a fatwa decretada por Khomeini foi condenada e considerada inválida por 44 dos 45 países muçulmanos que reafirmaram que ela violava as leis islâmicas pregadas por Maomé. Segundo a escritora, a decisão tomada por quase todos os países islâmicos não foi levada em consideração e nem colocada em evidência pelos meios de comunicação. Ou seja, o povo no ocidente continuou a acreditar que todos os muçulmanos clamavam pela morte de Rushdie. Foi no auge de toda essa confusão que Armstrong decidiu escrever a biografia de Maomé. Ela diz ter tido receio de que o ocidente nunca chegasse a conhecer de fato a verdadeira história do Profeta.

 

Escrevi o livro porque lamentava que o retrato de Maomé, apresentado por Rushdie, era o único que a maioria dos ocidentais teria possibilidade de ver.

 

Karen Armstrong é uma escritora britânica nascida em 1945. Foi freira católica durante sete anos, mas atualmente diz não professar nenhuma fé. É bacharel pela Universidade de Oxford e foi também professora de Literatura na Universidade de Londres. Em 1999 recebeu o Muslim Public Affairs Council Media Award. Em 2000 o Islamic Center of Southern California rendeu-lhe homenagem por promover o entendimento entre as três religiões monoteístas. Em 2017 recebeu o Prêmio Princesa de Asturias de Ciências Sociais. Armstrong já é bastante conhecida por seus livros que têm a religião como tema recorrente. Dentre suas obras mais importantes podemos citar Uma história de Deus (1994), Jerusalém, uma cidade, três religiões (2000) e Em nome de Deus (2001).

armstrong

Nesta biografia de Maomé, a autora dedica-se a contar sobre a formação do Islã desde os seus primórdios. Primeiro ela fornece ao leitor milhares de informações geográficas, em seguida faz uma excelente contextualização tanto histórica como política, moral e religiosa -, mostra também como era a Arábia nos tempos que antecederam Maomé, quando os habitantes ainda eram politeístas e adoravam a Caaba (o antigo santuário em forma de cubo situado no centro da cidade de Meca) e as três deusas pagãs: al-Lat, al-Uzza e Manat.
Ela fala sobre as tribos beduínas da Arábia no final do século VI, mostra os conflitos existentes e como eram exercidas as leis naquela época.
Maomé nasceu no ano 570 na tribo dos coraixitas e, de acordo com a autora, desde muito jovem mostrou-se bondoso, dedicado, inteligente, honesto e submisso a Deus. Trabalhou como vendedor/comerciante em caravanas no deserto. Armstrong traça o retrato de um Maomé justo e que luta contra uma sociedade politeísta para tentar consolidar a fé islâmica. 

No ano 610, no topo de uma montanha, na décima sétima noite do mês do ramadã, Maomé recebe por meio do Anjo Gabriel a primeira revelação de Deus. O profeta recebeu durante 23 anos seguidos mensagens que, segundo ele, foram ditadas pelo Deus de Abraão, o mesmo Deus dos cristãos e judeus. Esses versículos revelados a Maomé são chamados pelos muçulmanos de Sura. Mais à frente essas suras foram recolhidas e deram origem ao Corão, o livro sagrado do islã. 

Durante dois anos Maomé guardou segredo sobre as revelações recebidas, foi só no ano 612 que ele começa sua missão. No entanto, não foi fácil introduzir a fé monoteísta a um povo pagão, por isso Maomé acabou perseguido e precisou fugir de Meca. Em 622 ele refugia-se em Medina, mas continua em perigo durante alguns anos mais. Foi apenas em 630, após muitas lutas e batalhas sangrentas, que Maomé regressa e finalmente consegue conquistar Meca.
Nota-se claramente que Armstrong fez uma minuciosa pesquisa para escrever seu livro e contextualizar bem a história. Além disso, por ter se dedicado à vida religiosa por muitos anos e conhecer as escrituras sagradas tanto do Cristianismo quanto do Islamismo, tem bagagem cultural para falar a respeito do assunto. A lista bibliográfica que a autora utilizou é bem extensa, além dos dois primeiros biógrafos de Maomé, consultou também Dante Alighieri, Umberto Eco, William Montgorrey Watt, Wilfred Cantwell Smith, entre outros.

Durante toda a narrativa a autora faz comparações entre o Cristianismo e o Islã, principalmente quando tenta amenizar as atitudes violentas cometidas pelo Profeta nos primórdios da nova religião. Quando Maomé decidiu lutar em Badr e dizimou milhares de pessoas ou quando expulsou e massacrou as tribos judaicas, Armstrong justifica as atitudes do profeta afirmando que, naquela época, as posturas violentas e sangrentas eram necessárias para seguir adiante com os planos. Além disso, ela estabelece um comparativo entre esses atos sangrentos cometidos por Maomé e acontecimentos cristãos, como por exemplo, as Cruzadas, os episódios dos Mártires Cristãos de Córdoba e a queima de livros durante a Santa Inquisição.
Armstrong critica a imagem errônea que os ocidentais têm do Islã e seus seguidores e condena as falsas qualidades que a eles são atribuídas: violentos, opressores das mulheres, vingativos e terroristas.

 

Culpamos a religião da violência, quando na verdade a violência está na natureza humana. As guerras são invenções da civilização e estão presentes em todo tipo de sociedades, muito antes da chegada do monoteísmo.

Nós precisamos da história do Profeta nestes tempos perigosos. Não podemos permitir que os extremistas muçulmanos sequestrem a biografia de Maomé e a distorçam para servir a seus próprios fins.

 

Quando alguma passagem do Corão retirada do contexto é citada para justificar atos terroristas, Armstrong cita passagens das escrituras sagradas do Cristianismo e Judaísmo para comprovar que essas duas religiões também podem ser igualmente violentas, ela assegura também que a Bíblia tem mais passagens violentas que o Corão. Ela diz que a maioria dos ocidentais não é capaz de julgar o Islã de forma justa por ignorância, porque desconhece a cultura muçulmana. Além disso, mostra-se profundamente incomodada com a forma distorcida e equivocada com que os ocidentais se referem ao islã, principalmente quando é mencionado que essa religião é intolerante e fanática. Segundo a autora, os atentados terroristas cometidos por fundamentalistas não podem ser associados a Maomé, porque o profeta foi, na verdade, um homem que gastou parte de sua vida tentando impedir esse tipo de massacre. A palavra Islã, que significa submissão existencial de todo o ser a Deus, está relacionada à paz (Salam), dessa forma o Islã não poderia jamais ser taxado como uma religião agressiva e que insufla a violência já que seu Profeta pregava a harmonia.
Karen Armstrong diz também que no século XII os muçulmanos conviviam harmoniosamente bem com cristãos e judeus na Península Ibérica, que não foram os seguidores do Islã que começaram a brigar por sua fé, mas os cristãos que decidiram quebrar a relação de concórdia e tranquilidade existente entre as três religiões.

 

Finalmente foi o Ocidente, e não o islã, que proibiu a discussão de assuntos religiosos. Na Idade Média, os cristãos só foram capazes de ver o islã como uma versão fracassada do cristianismo e criaram mitos para demonstrar que Maomé fora instruído por um herege.

 

Maomé morreu em 632, mas um pouco antes de sua morte conseguiu unificar a Arábia e as Leis islâmicas. A experiência espiritual pela qual Maomé passou durante esses 23 anos mudou sua vida e de grande parte do povo árabe. O Islã atualmente é seguido por 1,2 bilhão de muçulmanos, um quinto da população mundial.

Eu gostei do livro, principalmente da contextualização histórica, porém não posso deixar de ressaltar que a autora apesar de ter bastante conhecimento sobre o assunto não foi imparcial ao contar a história do profeta. Ela claramente escolheu um lado: o lado dos muçulmanos. Foi uma rasgação de seda o tempo todo. Todas as comparações que Armstrong faz é favorecendo o islamismo em detrimento do cristianismo e judaísmo. Fiquei meio sem entender o porquê… Será que ela teve medo de ofender a comunidade islâmica e ter que passar pela mesma situação que Salman Rushdie passou? O certo é que senti que Armstrong apenas defendeu Maomé, que é mostrado o tempo todo como um homem pacífico, desprovido de defeitos.

 

Maomé foi um pacifista que reuniu as tribos na tomada de Meca.

 


Há também passagens em que Armstrong faz comparações entre Maomé e Jesus e, nesses momentos, o profeta islâmico é sempre colocado em uma categoria superior ao profeta cristão.

 

Nunca lemos sobre Jesus rindo, mas com frequência encontramos Maomé sorrindo e brincando com as pessoas que lhe eram próximas.

Em vez de vagar como extraterrestre pelas montanhas da Galiléia a pregar e a curar, como o Jesus dos Evangelhos, Maomé teve de se engajar numa árdua luta política para reformar a sociedade (…)

 

É impressão minha ou Karen Armstrong chamou Jesus de alienígena? Que bom para ela que os intolerantes cristãos, que ela tanto criticou em seu livro -, não decidiram criar uma fatwa para castigá-la por essa colocação tão fora de lugar. Por muito menos os pacíficos seguidores do Profeta Maomé, que ela tanto defende, teriam distribuído alguns tabefes (rsr) 🙂

Para finalizar, devo dizer que a leitura mais agradou que desagradou, no entanto eu adoraria mesmo saber a opinião sincera de Karen Armstrong sobre a atual situação do povo muçulmano: sobre os Refugiados na Europa, sobre os recentes ataques terroristas em Paris, Londres, Bélgica, Berlim  e Barcelona.

“Se quiserem melhores resultados no século XXI da era cristã, os ocidentais deveriam aprender a compreender os muçulmanos, com quem dividem o planeta.”

Será mesmo, Sra. Armstrong, que a culpa é dos ocidentais e que apenas eles deveriam aprender a compreender e conviver bem com os muçulmanos? Sei não, tenho cá minhas dúvidas!

 

Palestra de Karen Armstrong:

Documentário sobre o Caso Salman Rushdie:

Impressões de leitura #16: A casa das belas adormecidas…

 

” A mais bela das mulheres não poderia, durante o sono, dissimular a sua idade. Um rosto jovem é agradável durante o sono, mesmo que a mulher não seja uma beleza. Talvez não pudesse escolher, naquela casa, senão raparigas agradáveis de ver enquanto dormiam.”

 

casadasbelas3A primeira vez que escutei falar em Yasunari Kawabata foi em dezembro de 2005, naquela época acabava de ser publicado no Brasil o livro “Memória de minhas putas tristes,” do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Muito se falava a respeito desse novo livro, pois foi a partir dele que Gabo colocava fim a um jejum de dez longos anos longe dos romances. Foi nessa onda de novidade e curiosidade que comecei a leitura… Já na orelha da capa fiquei sabendo que Memória de minhas putas tristes havia sido inspirado em A casa das belas adormecidas, do escritor japonês Yasunari Kawabata. García Márquez começa sua história com uma epígrafe retirada da própria história de Kawabata:
“Não devia fazer nada de mau gosto, advertiu a mulher da pousada ao ancião Eguchi. Não devia colocar o dedo na boca da mulher adormecida nem tentar nada parecido.”
O livro de Gabo não me agradou muito porque seu tema remete à pedofilia, um assunto que me causa repulsa e estranhamento, no entanto, a epígrafe deixou-me curiosa.

Conversando com algumas pessoas acerca dessa leitura frustrada, sugeriram-me ler o livro de Kawabata que, na opinião da maioria, é superior ao de Gabo. Passaram-se os anos e eu acabei descobrindo que García Márquez havia escrito também um conto baseado nesse livro (para ler o conto, clique aqui). Então, outra vez, a vontade de conhecer a história das Belas Adormecidas, voltou. Mas só agora, mais de uma década após aquela epígrafe, eu finalmente encarei o livro do escritor japonês.

A casa das belas adormecidas foi publicado originalmente no Japão em 1961. Li a edição portuguesa com tradução de Luís Pignatelli feita a partir da tradução francesa. Essa edição traz um prólogo estupendo do também escritor e amigo íntimo de Kawabata, Yukio Mishima. Pesquisando mais sobre o escritor, descobri que ele teve uma vida bastante conturbada e marcada por tragédias familiares. Aos dois anos ficou orfão e foi viver com os avós paternos; tempos depois, perdeu a irmã; mais à frente, os avós e, alguns anos mais tarde, seu íntimo amigo, Yukio Mishima, cometeu suicídio. Lendo sobre todas essas situações trágicas pelas quais o escritor passou e pela vida repleta de perdas, não é por acaso que o autor coloca em seus livros tanta melancolia e até um quê de desespero.
Yasunari Kawabata nasceu em Osaka em 1899. Foi cineasta em sua juventude, um leitor voraz tanto dos clássicos como das vanguardas europeias. Foi um solitário durante praticamente toda a vida e uma pessoa torturada pela insônia. Escreveu novelas, contos, romances e é um dos escritores japoneses mais populares dentro e fora de seu país. Recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1968. A maioria de suas obras está marcada pela solidão e pelo erotismo, se destacam além de A casa das belas adormecidas, também Beleza e Tristeza e País da Neve. Apesar do seu discurso na cerimônia de entrega do Premio Nobel de Literatura ter sido contra o suicídio, Kawabata tirou a própria vida em 1972. 

 

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Yasunari Kawabata

 

A casa das belas adormecidas é um livro bem curtinho, apenas 128 páginas divididas em cinco capítulos. Narrado em terceira pessoa, conta a história de Eguchi, um idoso de 67 anos que, influenciado por um amigo, decide visitar uma casa clandestina, uma espécie de bordel japonês do final do século passado. Nessa casa é possível passar a noite ao lado de meninas jovens, lindas, nuas, virgens e adormecidas por meio de narcóticos. O amigo de Eguchi, Kiga, conta-lhe que os idosos uma vez ao lado dessas jovens passam a sentir-se vivos e vigorosos -, algo bastante incomum na idade em que eles se encontram, pois é justamente nessa altura da vida que a manifestação da morte tende a se repetir de maneira contínua, por isso a casa das belas adormecidas vai servir como uma espécie de refúgio sempre que o desespero de envelhecer se tornar insuportável.

Eguchi teve uma vida aparentemente normal, casou-se, teve filhas e netos e, à sua maneira, foi feliz. Contudo, sua velhice é repleta de melancolia, solidão e nostalgia. As partes que achei mais interessantes são justamente aquelas que remetem às lembranças remotas de sua juventude, lembranças essas que retornam com muita força durante os momentos em que ele permanece ao lado das jovens adormecidas. Mas, apesar de estar na companhia dessas jovens, ainda assim continua a sentir-se solitário, pois não pode compartilhar absolutamente nada com elas. O livro de Kawabata ao mesmo tempo que mostra a realidade de um homem idoso, solitário, inquieto e desprovido de virilidade, concede também ao protagonista um momento de reflexão sobre si próprio, sobre seus sentimentos, sobre sua capacidade de se emocionar e de se comover diante da proximidade da velhice. A realidade do velho Eguchi o incomoda, seu repúdio à situação em que se encontra é visceral, tanto que ele considera-se um ridículo por estar a dormir ao lado de meninas desmaiadas, quase mortas.

 

“E, contudo, poderia haver coisa mais horrível do que um velho que se dispunha  a deitar-se uma noite inteira ao lado de uma rapariga que tinham adormecido por todo esse tempo e que não abriria os olhos? Eguchi não teria por acaso vindo a essa casa para procurar esse absoluto no horror da velhice?”

 

Os idosos, frequentadores assíduos da casa, precisam seguir algumas normas restritas -, dentre essas normas está o fato de que é terminantemente proibido praticar relações sexuais com as meninas e, de forma alguma, é permitido despertá-las: “Não procure acordar a pequena. Porque, faça o que fizer para a acordar, ela nunca abrirá os olhos…” Eguchi, embora também seja um cliente da casa, acha que não faz parte do seleto grupo de ‘homens inativos’ -, aqueles que já não são capazes de satisfazer sexualmente a uma mulher… Ele acredita que apesar de sua idade ainda não está completamente desprovido de masculinidade. A presença das jovens adormecidas desperta em Eguchi pensamentos eróticos, agressivos e violentos, a tal ponto de fazê-lo desrespeitar as normas estabelecidas pelo bordel.

 

“Na esperança de, antes de mais, acordar a rapariga, tratou-a brutalmente.”

 

Para o protagonista, infringir as regras significava vingar os outros velhotes que, segundo ele, passavam pela humilhação de dormir ao lado de meninas drogadas, quase mortas, inanimadas. Além disso, desobedecer poderia ser também uma forma de mostrar que não é ainda um ‘homem inativo’, um ‘não-homem,’ como os outros frequentadores da casa e, assim, comprovar a si mesmo que ainda é capaz de cometer atos viris. Ao decidir manter relação sexual com uma das meninas apercebe-se de que ela ainda é virgem, então chega à conclusão de que a virgindade da menina apenas confirma a incapacidade dos clientes; a virgindade dela corrobora não que os clientes respeitam a ferro e fogo as regras impostas pelo bordel, mas a impossibilidade que eles têm de consumar o ato sexual, por essa razão são chamados pela dona da casa de ‘clientes confiáveis’, ou seja, eram confiáveis pelo simples fato de serem desprovidos de virilidade.
Dormir ao lado de meninas tão jovens leva Eguchi ao caminho da autorreflexão. Ele passa durante as cinco visitas que faz à casa das belas adormecidas a analisar sua própria existência… A presença das jovens, a nudez delas, mas, sobretudo, a juventude delas, faz com que a personagem relembre fatos importantes e marcantes pelos quais passou no decorrer da vida.

 

 

Capa da edição portuguesa:

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imagem da capa: Close-up of a woman sleeping on the bed, por Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892)

 

A casa das belas adormecidas é, a meu ver, um livro triste, incômodo, um livro que causa perturbação e confusão. A presença da morte dá uma aura de tristeza ainda maior à história, além disso, aborreceu-me um bocado ler sobre um homem/idoso que se relaciona com mulheres jovens, nuas, narcotizadas, adormecidas e completamente vulneráveis, desprovidas de todas as suas defesas… meninas à mercê de atos libidinosos.

 

“Está profundamente adormecida e não dá conta de nada. Porque a rapariga dorme de um sono só e do princípio ao fim ignora tudo. Mesmo com quem passou a noite…”

 

Senti, mais uma vez, que a objetificação do corpo feminino é, infelizmente, um tema recorrente. Mais uma vez a mulher é colocada como a responsável pelos atos nefastos cometidos por homens, mais uma vez a mulher é responsabilizada pelos desejos incontidos de homens.

 

“esta era uma jovem que tanto dormida como acordada incitava o homem com tal força que se agora Eguchi violava as regras da casa só ela teria a culpa do delito.”

 

Incomodou-me muito o narrador atribuir às meninas o sentido de algo inanimado, a natureza de um objeto, tratando-as como um brinquedo. Não me causou boa impressão, deveras!

 

“mas tinham feito dela um brinquedo vivo a fim de evitar qualquer sentimento de vergonha a velhotes que já nada tinham de homens. Ou, quem sabe, mais do que um brinquedo, para os velhotes desse tipo ela era a própria vida.  Uma vida que, assim, podia ser tocada com toda a segurança.”

 

Eu já conhecia a literatura de Kawabata por País da neve e Beleza e tristeza, livros muito bons e que me agradaram bastante. No entanto, A casa das belas adormecidas deixou-me com um gostinho amargo na boca. Criei uma antipatia quase repulsiva pela personagem principal, provavelmente por conta da carga psicológica que a acompanha. Entretanto, o mérito de Kawabata está mesmo na beleza de sua escrita; entre os recursos empregados pelo autor, posso dizer que a descrição cuidadosa que ele utiliza ajuda a dar um toque poético à história… Por exemplo, quando ele fala sobre o vermelho das cortinas refletido nas tezes adormecidas das garotas, a posição em que elas dormem, onde colocam suas mãos, como é o formato de seus seios, a cor de seus cabelos… Sua bela descrição não limita-se apenas ao aspecto físico das meninas, mas também ao aroma delas. Ele fala sobre o cheiro do leite que sente em uma das jovens e que remete às lembranças do passado… Descreve de uma forma muito bonita as cores, a camélia desfolhada, o espaço físico onde se encontra a casa, o barulho do mar quando bate nas falésias… tudo isso acaba por dar uma atmosfera quase lírica ao texto.
Os incidentes registrados pelo autor convergem todos para uma estrutura narrativa cujo ponto de sustentação principal é a solidão, decorrente da senilidade. Essa solidão constitui um estado real e concreto de carência, algo que o protagonista no auge de seu contentamento por usufruir da companhia das jovens, não se dará conta. No entanto, esse contentamento é efêmero, pois no decorrer da história ele perceberá sua decrepitude e tentará resgatar por meio da juventude das meninas sua própria juventude perdida.
A melancolia permeia todo o texto de Kawabata e, ao mesmo tempo que o autor mostra de uma forma bonita os momentos de reflexão da personagem, mostra também um estado de carência afetiva contra a qual o protagonista – apesar de suas limitações – tenta lutar. Contudo, essa luta é inútil, pois para o velho ficará claro o contraste existente entre a juventude das meninas e o horror de sua própria velhice. Ele comparará sua idade à das meninas, e a mocidade delas, ao invés de fortalecê-lo, o fará ter mais certeza de sua debilidade e da efemeridade da vida. Eguchi terá a noção exata de sua própria existência e entenderá, finalmente, que a juventude das moças não poderá retardar a passagem do tempo, apenas comprovará que a morte, nessa altura da vida, é inexorável.

“(…) as próprias belas adormecidas são fragmentos de seres humanos avivando o desejo na sua maior intensidade…”  (Yukio Mishima)

 

Outras capas de edições em português:

 

 

 

Impressões de leitura#15: Os Miseráveis…

“Enquanto existir, fundamentada nas leis e nos costumes, uma condenação social que crie artificialmente, em plena civilização, verdadeiros infernos, ampliando com uma fatalidade humana o destino, que é divino; enquanto os três problemas deste século, a degradação do homem no proletariado, o enfraquecimento da mulher pela fome e a atrofia da criança pela escuridão da noite, não forem resolvidos; enquanto, em certas regiões, a asfixia social for possível; em outros termos, e sob um ponto de vista ainda mais abrangente, enquanto houver sobre a terra ignorância e miséria, os livros da natureza deste poderão não ser inúteis.”                

 

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Ler ‘Os Miseráveis’ foi minha meta literária de 2013. Comecei a leitura no início de julho daquele ano, mas só consegui concluí-la mais de dois meses depois. A obra, publicada em 1862, é sensacional, mesmo assim não foi uma leitura que eu fiz de uma sentada, não por ter uma linguagem difícil ou por ser enfadonha, mas porque foi necessário tempo e dedicação já que se tratam de três volumes que somam quase 1500 páginas (eu li a edição publicada em 1981 pela já inexistente Círculo do Livro).

Os Miseráveis narra a história da personagem Jean Valjean e sua luta para redimir-se. O protagonista, um ex-prisioneiro das Galés, após ficar mais de vinte anos na prisão apenas por roubar um pedaço de pão para alimentar a família, está endurecido e amargurado pelas circunstâncias da vida, de modo que quando ele finalmente consegue a liberdade é um outro homem, completamente distinto daquele que entrou: bruto, revoltado e desonesto. Mas eis que Jean Valjean conhece o bispo Myriel, uma personagem bondosa, pura e generosa. É justamente esse bispo que vai fazer com que Jean Valjean decida transformar-se em um homem melhor e, sobretudo, em um homem disposto a ajudar aqueles que necessitam. Contudo, seu passado estará sempre batendo à sua porta, Jean Valjean será perseguido durante praticamente toda a vida, seu perseguidor responde pelo nome de Inspetor Javert, o antagonista da história. Javert não é totalmente mau, mas é severo e tem obsessão por Valjean, pois ele acredita que alguém que cometeu delitos no passado não tem o direito de refazer a vida e não pode transformar-se em uma pessoa boa, por isso dedica-se a fazer a vida do protagonista impossível.

Além da história de Jean Valjean, conhecemos também a história de Fantine, uma jovem de origem humilde que, grávida, se vê abandonada pelo namorado. Conhecemos também Cosette, a filha de Fantine, que ainda menina é deixada a cargo da família Thérnadier, porque sua mãe não tem condições financeiras  para criá-la. Fantine precisa trabalhar em tempo integral para poder enviar dinheiro para que Cosette seja sustentada na casa dos Thérnadier.

A história se desenrola em torno de Jean Valjean e Cosette que em um dado momento têm suas vidas entrelaçadas. Além dessas personagens principais, conhecemos também Marius, o namoradinho de Cosette, o pequeno Gavroche, uma personagem surpreendente, e os Thérnadier, um casal desonesto e odioso.

O enredo é interessantíssimo, no entanto teria lido mais rápido se Victor Hugo tivesse contado apenas a história das personagens principais: sobre o incrível Jean Valjean, sobre a vida tão curta e miserável de Fantine, sobre o persistente Javert e sobre o lindo e inocente amor de Cosette e Marius. Mas o autor além de narrar a vida miserável de suas personagens, junta à história fictícia acontecimentos políticos de um período decisivo da história da França. Ele traça um retrato da sociedade parisiense da época (Século XIX) e faz uma descrição minuciosa da cidade: a pobreza existente, os personagens maltratados, condenados e injustiçados e, à medida que os anos vão passando, vai modificando essa mesma cidade aos olhos do leitor, muitas vezes fazendo digressões para comparar a cidade atual, decrépita e miserável -, àquela de outrora, feliz e opulenta.

 

“Estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que seja apenas para evitá-las. As contrafações do passado tomam nomes falsos e gostam de chamar-se o futuro. Esta alma do outro mundo, o passado, costuma falsificar o seu passaporte. Precavenhamo-nos contra o laço, desconfiemos dele. O passado tem um rosto, que é a superstição, e uma máscara, que é a hipocrisia. Denunciemos-lhe o rosto e arranquemos-lhe a máscara.”

 

O livro está recheado de personagens fortes, muito bem caracterizados, humanos, reais. O autor faz questão de colocar em evidência a luta do oprimido contra o opressor, sua vontade de revolucionar, de lutar por ideais, de lutar por bem-estar e por uma vida sem privações. Victor Hugo leva o leitor a fazer uma reflexão sobre os problemas daquela época e também sobre questões transcendentais do bem e do mal. Os Miseráveis é, a meu ver, um livro atemporal, porque se pararmos para pensar chegaremos à conclusão de que a pobreza, o maltrato e as injustiças continuam assombrando nossas vidas até hoje.

A história de Jean Valjean, Fantine, Javert, Marius e Cossete é sem dúvida o que mais prende o leitor… é interessante, é importante, mas não mais que os acontecimentos históricos que ocorrem ou ocorreram no país, isso nos fica bem claro durante toda a leitura. Algumas vezes precisamos ler muitas páginas seguidas apenas sobre esses acontecimentos, como por exemplo, sobre Napoleão Bonaparte e a Batalha de Waterloo e sobre a Revolução Estudantil e suas barricadas… Ah, então por isso foi chato e você demorou tanto para concluir a leitura? Não, demorei porque quis fazer pausas, desanuviar a mente, intercalar com outras leituras e também porque quis procurar mais informações acerca daquilo que o autor estava falando para melhor compreender o contexto histórico no qual a obra está inserida.

O fato de Victor Hugo misturar a história das suas personagens fictícias com personagens e acontecimentos reais faz com que seu livro seja mais interessante ainda. O autor não apenas entretém o leitor, mas o instrui também. As informações históricas que ele nos dá durante toda a narrativa são importantes e relevantes. Victor Hugo praticamente estimula aquele leitor mais curioso a correr atrás de mais e mais informações. Além disso, o escritor faz questão de mencionar várias vezes durante a narrativa que o conhecimento é mesmo a salvação da lavoura, que não somos nada se não nos informamos, se não procuramos aprender e se não buscamos alimento para nosso intelecto.

 

O crescimento intelectual e moral  não é menos indispensável que a melhora material. Saber é um viático; pensar é de primeira necessidade; a verdade é tão alimentar como o fermento. Uma razão jejuna de ciência e sabedoria fenece. Lastimemos, como se fosse, estômagos, os espíritos que não comem.
Se existe alguma coisa mais pungente que um corpo agonizante pela falta de pão, é uma alma que morre de fome de luz.

 


Sobre o autor:

 

Victor Hugo foi um político, poeta, dramaturgo e romancista francês. Nasceu em 1802 e morreu em 1885. Entre suas obras mais conhecidas podemos citar: Os Miseráveis, O Corcunda de Notre Dame e Os Trabalhadores do Mar.

Deixo aqui duas adaptações para o cinema. Ambas as adaptações foram inspiradas na peça que, por sua vez, foi inspirada no livro de Victor Hugo:

 

*** Escrevi este texto em 2013 no meu antigo blog.

 

 

 

Impressões de leitura#14: A guerra não tem rosto de mulher…

“Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma.” (Svetlana Aleksiévitch)”

rosto de mulher2018 começou bem, já no primeiro mês do ano tive o prazer de fazer uma ótima leitura: A guerra não tem rosto de mulher da escritora Svetlana Aleksiévitch, livro publicado originalmente em 1985. No Brasil foi publicado em 2016 pela Companhia das Letras.
A guerra não tem rosto de mulher traz relatos reais de mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial.
Este livro é diferente de qualquer outro acerca desse tema que eu já li, porque ele mostra a batalha das mulheres, a guerra contada a partir do ponto de vista feminino.
Bem no início, ficamos sabendo que a União Soviética enviou aproximadamente 1 milhão de mulheres para lutar na Segunda Guerra Mundial, o dobro que a Alemanha enviou, por exemplo. Então, o que Svetlana faz é nos apresentar algumas dessas mulheres, permitindo-nos conhecer a história de vida de cada uma delas.

A autora dedicou-se durante anos a colher depoimentos de ex-combatentes – não sem muitas dificuldades – pois muitas delas mesmo quase quarenta anos após o fim da guerra não se sentiam à vontade para falar abertamente sobre o assunto. Quando elas começam a contar, Svetlana percebe que narram uma história completamente distinta da história masculina: elas falam de violência, de dor, de sangue,  de lágrimas, mas falam também acerca do amor, da amizade, de sabores, de cores, de música, de flores… Na guerra, apesar de lutarem, exercerem atividades militares perigosas, apesar de usarem roupas de homem e corte de cabelo masculino, o feminino delas está sempre lá, camuflado, mas sempre presente.

 

“Eram necessários soldados… Mas também queríamos ser bonitas.”

 

Chama muito a atenção o fato de que essas mulheres não se sentiam cômodas o suficiente para falar abertamente sobre a guerra. A autora diz que os relatos delas variavam e dependiam muito de quem estava presente no momento em que contavam suas memórias. As próprias mulheres assumiram que os maridos não permitiam que elas chorassem, eles diziam que elas não podiam “florear” a história. Elas afirmaram também que na noite anterior ao encontro com a autora receberam aulas de História e Geografia para que pudessem falar o que de fato ocorreu, ou seja, para que elas pudessem contar a guerra deles, a guerra dos homens, a que eles consideravam verdadeira e relevante… Elas só conseguiram se libertar do tabu que a guerra se transformou quando se perceberam longe dos olhares masculinos.
Alguns homens também sentiram-se ofendidos e diminuídos por Svetlana ouvir  e contar a história das mulheres, por isso questionaram:

 

“Por acaso falta homem para isso? Para que você quer essas histórias de mulher? Fantasias de mulher…
Guerra é coisa de homem. O que foi, por acaso tem pouco homem sobre quem escrever no seu livro?”
Os homens tinham medo de que elas não contassem direito a guerra.

 

O livro é triste não apenas por tratar de um tema que dói, mas porque percebemos que essas mulheres, que foram de suma importância para sua pátria, não tiveram seu valor reconhecido e valorizado. Os homens quando voltaram da guerra foram recebidos como heróis, foram ouvidos, puderam falar à vontade, contar suas experiências e seus feitos heróicos. Já as mulheres, porém, foram obrigadas a calar. Seu trabalho, tão importante para o desfecho da batalha, não foi valorizado como deveria. Elas sofreram preconceitos pelos veteranos de guerra quando chegaram no campo de batalha e sofreram preconceitos quando deixaram a batalha, até mesmo pelas próprias mulheres, que achavam que elas haviam ido para a guerra para se prostituir, por isso precisaram silenciar para não envergonhar a família. A vida delas foi triste no decorrer da guerra e para muitas continuou triste depois.

 

“Fique calada! Fique calada! Não confesse!

 

A guerra para essas mulheres foi algo com o qual elas sempre conviveram. Desde crianças ouviram histórias de grandes batalhas, viram seus pais, tios e irmãos se preparando para lutar, portanto, cresceram com o desejo de também defender a pátria. A guerra não tem rosto de mulher é um livro que retrata muito bem o “ser patriótico,” como a própria autora diz, os soviéticos consideravam-se todos “Filhos da Vitória.”

O livro de Svetlana tem a guerra como pano de fundo, mas ela diz escrever, sobretudo, sobre a história da alma humana, a história dos sentimentos… e é exatamente isso que lemos nessas 392 páginas: a história dos sentimentos dessas mulheres, a história da alma dessas mulheres, percebemos que elas humanizam a guerra, pois seus relatos, de uma certa forma, aproximam e igualam todos os seres vivos, até mesmo aqueles que embora alheios aos acontecimentos também sofriam os horrores da guerra.

 

“Lembro como as pessoas gritavam… As vacas gritavam… As galinhas gritavam… Eu achava… Eu achava que todos gritavam… Eu achava que todos gritavam com voz de gente. Tudo o que era vivo.”

 

Antes de ler o livro de Svetlana eu tinha uma ideia bastante equivocada sobre as mulheres que foram enviadas para o campo de batalha. Sempre achei que elas receberam incumbências mais compatíveis com o gênero feminino, como por exemplo, enfermeiras, cozinheiras, lavadeiras, médicas. Mas não, elas foram enviadas para exercer também atividades consideradas masculinas, como soldados de infantaria, francoatiradoras, comandantes de canhão antiaéreo, pilotos, atiradoras de fuzil, tanquistas, sapadoras… A autora diz, inclusive, que durante a guerra houve até um problema linguístico, pois naquela época não haviam termos que designassem essas profissões no gênero feminino; ela conta que foi durante a guerra que esses termos surgiram.

Outro ponto interessante é saber que nem todas as mulheres foram convocadas oficialmente, a maioria delas foi pelo simples fato de desejar servir a Pátria. Algumas, inclusive, fugiram de casa para se alistar, meninas muito jovens, adolescentes entre 16 e 18 anos.

O que Svetlana busca nos mostrar com esses relatos não é apenas como essas mulheres venceram, quais foram os seus feitos heróicos, quantas medalhas e condecorações receberam, quais foram as estratégias utilizadas e quantos inimigos cada uma conseguiu abater. O que ela compartilha conosco é o sentimento mais genuíno dessas mulheres, o que elas sentiram e ainda guardam dentro de si. A autora nos mostra que apesar de tudo elas não perderam a capacidade de se comover, de se emocionar… e falam, a todo momento, sobre o amor e o respeito que se deve ter em relação ao ser humano.

 

“O caminho é um só: amar o ser humano. Compreendê-lo pelo amor.”

 

Svetlana conseguiu dar voz a essas mulheres que, de igual pra igual, lutaram na mesma batalha que os homens, mas que após a vitória foram preteridas, condenadas ao papel de coadjuvantes.

A leitura é muito forte e dolorida, não é um livro que eu li de uma sentada, precisei fazer pausas e mais pausas para poder digerir o assunto e aliviar o coração. É uma leitura que perturba e fica martelando dentro da gente.

 

Sobre a autora:
Svetlana Aleksiévitch é uma jornalista e escritora nascida na Ucrânia em 1948. Recebeu o Nobel de Literatura em 2015.

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Impressões de leitura #13: O livro dos abraços

“Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada.”

 

abrazos2O Livro dos abraços enganou-me com seu belo título que, de uma doçura sem igual, levou-me a pensar que se tratasse de uma novela romântica, meio água com açúcar. Engano mesmo, minha gente, pois o que Galeano oferece ao leitor é muito mais que isso… ele nos brinda com pequenos relatos que se encarregam de contar grandes histórias: histórias de dores, histórias de lutas, histórias de amores e de sobrevivência. Embora a maioria desses relatos esteja relacionado à política na época da ditadura no Uruguai, eles discorrem também sobre o amor, sobre a velhice, sobre o medo, sobre religião e sobre amenidades da vida.

O autor nos presenteia ainda com casos de sua própria vida na época em que ficou exilado na Espanha, mas fala também acerca de outras pessoas: famosas ou anônimas, queridas ou odiadas, admiradas ou ignoradas e, cada uma delas, à sua maneira, é relevante e pertinente para a obra.

Não é por Galeano tratar de assuntos sérios que sua escrita é seca, ao contrário, a cada pequeno relato tive a sensação de ser abraçada… abraçada por sua sensibilidade em enxergar beleza nas pequenas coisas, abraçada por sua capacidade de ver a vida a partir de diferentes ângulos, abraçada por sua escrita tão certeira, tão firme e, ao mesmo tempo, tão poética e linda.

Poderia ficar por horas mencionando os sentimentos variados que O Livro dos Abraços me proporcionou, no entanto, prefiro citar este trecho da obra – que diz muito mais que qualquer coisa que eu pudesse escrever aqui:

 

O mundo é isso, um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

Sobre o autor:
Transcrevo um relato do livro no qual ele mesmo se apresenta:

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“Assino Galeano, que é meu sobrenome materno, desde os tempos em que comecei a escrever. Isto aconteceu quando eu tinha dezenove anos, ou talvez apenas alguns dias, porque chamar-me assim foi um modo de nascer de novo.

Antes, quando era garoto e publicava desenhos, assinava Gius, por causa da difícil pronúncia espanhola de meu sobrenome paterno (meu tataravô galês se chamava Hughes, e aos quinze anos fez-se ao mar no porto de Liverpool e chegou ao Caribe, à República Dominicana, e tempos depois ao Rio de Janeiro, e finalmente a Montevidéu. Em Montevidéu atirou ao arroio Miquelete seu anel de maçom, e nos campos de Paysandú cravou as primeiras cercas de arame farpado e fez-se dono de terras e gentes, e morreu há mais de um século, enquanto traduzia Martin Fierro para o inglês).

Ao longo dos anos escutei as mais diferentes versões sobre essa questão de meu sobrenome escolhido. A versão mais boba, que ofende a inteligência, me atribui uma intenção antiimperalista. A versão mais cômica supõe fins de conspiração ou contrabando. E a versão mais fodida me converte na ovelha vermelha da família: inventa para mim um pai inimigo e oligárquico, no lugar do pai real que tenho, que é um sujeito bacana que sempre ganhou a vida com o trabalho ou com a boa sorte que tem na loteria.

O pintor japonês Hokusai mudou de nome sessenta vezes para celebrar seus sessenta nascimentos. No Uruguai, um país formal, teria sido enjaulado como louco ou perverso simulador de identidades.”

Uma lenda chinesa…

“Jingwei aterra o mar”

JingweiO deus Sol tinha uma filha muito amada, Nüwa, tão linda que até mesmo o Imperador Amarelo era cheio de admiração por ela. Quando o deus Sol não estava em casa, Nüwa brincava sozinha. Porém, ela queria muito que o pai a levasse consigo em suas viagens para o mar do Leste, onde o sol nasce.
O deus Sol, entretanto, estava todos os dias muito ocupado dirigindo o curso da aurora, a cada manhã, até ele se pôr, à noite, e não podia levar a filha consigo.
Um dia, Nüwa remou secretamente atrás do pai, num barco, mas infelizmente uma tempestade se levantou e ondas do tamanho de montanhas viraram a pequena embarcação. Nüwa foi engolida pelo cruel mar, para nunca mais voltar.

Seu pai foi tomado de tristeza, incapaz de mandar que os raios de sol brilhassem sobre ela e a trouxessem de volta à vida, ele foi deixado sozinho para prantear a sua perda. Entretanto, Nüwa renasceu como um pássaro de cabeça listrada, garras vermelhas e bico branco. Foi-lhe dado o nome de Jing-Wei, por causa de seu choro lamentoso: jingwei, jingwei.

Jingwei não conseguiu perdoar a crueldade do mar por ter lhe arrebatado sua jovem vida e prometeu vingança. Ela aterraria o mar e o transformaria em terra seca. Jingwei começou a catar seixos com o bico, voando de um lado para o outro, entre sua casa na montanha de Fajiu e o mar do Leste. Incontáveis vezes ela fez a viagem, carregando   um seixo ou um graveto por vez, voejando sobre as ondas irregulares e chorando lamentosamente, então deixando cair o que fosse que houvesse trazido. O mar encapelava-se e ribombava derramando escárnio sobre os esforços de Jingwei.

 

Pequeno pássaro, desista! Mesmo se trabalhar por um milhão de anos você nunca vai me transformar numa planície deserta!
Mas Jingwei respondia, lá do alto do céu: Mesmo que eu leve dez milhões de anos ou cem milhões de anos, até o final do mundo, vou tratar de aterrá-lo e fazer de você terra seca!
Por que me odeia tanto?, perguntou o mar.
Porque você roubou minha jovem vida e vai fazer o mesmo com outros jovens inocentes. Vou continuar pelo tempo que for necessário, até terminar meu trabalho.

 

E lá se foi ela para o alto gritando jingwei, jingwei, e dirigiu-se à montanha Fajiu para buscar mais seixos e gravetos. Para lá e para cá ela voou incansável, derrubando mais e mais gravetos no mar. Meses e anos se passaram até que um dia uma andorinha-do-mar apareceu. Ela ficou estupefata com o que o outro pássaro estava fazendo. Mas quando ouviu a história de Jingwei, a andorinha-do-mar comoveu-se com sua persistência. Eles se casaram e chocaram uma bela ninhada de filhotes – os machos puxaram o pai andorinha-do-mar, enquanto as fêmeas puxaram à mãe, Jingwei, e juntaram-se a ela na interminável tarefa de buscar seixos e gravetos para aterrar o mar.

Os chineses respeitam enormemente Jingwei por seu altruísmo, sua determinação férrea e sua força de vontade. Tao Yuamming, poeta da dinastia Ming, celebrou em versos a brava luta daquele pequeno pássaro contra as ondas do oceano, e a história se tornou sinônimo de idealismo invencível e de empenho árduo. A admiração das pessoas simples por Jingwei pode ser vista em vários monumentos a ela dedicados, que levam inscrições como “Jingwei aterra o mar”, que ainda podem ser vistos em vários locais às margens da costa leste da China.

** História retirada de Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida, da escritora Xinran. Livro tristíssimo que me fez chorar um bocado.
Desejo que em 2018 tenhamos todos pelo menos um pouquinho da persistência e força de vontade de Jingwei. 🙂
 

Os livros que li…

“O verdadeiro analfabeto é aquele que saber ler, mas não lê.”
— Mario Quintana

mafaldaFaltam ainda doze dias para terminar 2017, mas eu já sei que não lerei mais nada até o último dia do ano. Assim sendo, posso dizer que não consegui finalizar a meta que sempre determino para mim: ler pelo menos doze livros no decorrer do ano.
2017 foi muito conturbado, cheio de responsabilidades, grandes decisões e problemas maiores ainda. Por conta disso, faltou cabeça para a leitura. Eu consegui, aos trancos e barrancos, finalizar apenas onze livros. Mesmo assim, posso dizer que gostei de tudo que li.

Quatro desses onze livros foram releituras:
Meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos: um queridinho capaz de me fazer rir e chorar todas as vezes que entro no universo do menino Zezé.
El Cruzado de Stephen Rivelle: um livro que já me fez viajar várias vezes de Provença a Jerusalém naquela que teria sido a Primeira Cruzada, lá nos primórdios do século XII.
Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez: porque a triste história dos Buendía e de Macondo mora no meu coração.
História de uma serva  de Margaret Atwood: um livro excelente, mas que serviu também para me fazer perceber que uma série de tv inspirada em um livro pode ser às vezes até melhor que o próprio livro. Leiam o livro, mas quando puderem assistam também à série, é mesmo ótima.

Sobre as leituras novas:
Iracema de José de Alencar: porque fiquei tocada com o samba-enredo que a Beija-Flor de Nilópolis levou para a avenida no carnaval passado. Decidi encarar a leitura e terminei amando a história da virgem dos lábios de mel. (Obrigada Sergio e Silvania por terem me levado à Sapucaí… foi tudo tão bonito! )
Passaporte para a China: porque é de Lygia Fagundes Telles e pra mim tudo o que ela escreve vale a pena ser lido.
Diário de um louco de Lu Xun: porque foi-me apresentado pelo meu filho… e eu não podia ignorar um indicação literária de meu filho, né?! Fui conhecer esse escritor chinês e gostei.
A filha perdida de Elena Ferrante: é um livro que incomoda, por causa dessa leitura tive vontade de ler a Série Napolitana, que todo mundo por aí já leu, menos eu.
Um gato de rua chamado Bob de James Bowenfoi a primeira leitura do ano, se puder escolher uma palavra para defini-lo é: fofo.
As Miniaturas de Andreia del Fuego: posso dizer que essa mulher escreve bem pra caraca, mas eu não consegui perceber muito bem o que ela quis dizer. Esse livro é um bocado perturbador e pede uma releitura em um momento de mais tranquilidade. (Obrigadinha sobrinha Claudia Pacheco pelo presente )
Por último, À sombra da Figueira de Vaddey Ratner: foi de grande ajuda para a viagem que fiz para o Camboja, em novembro. Pude entender muita coisa a respeito do povo cambojano que, apesar de sua triste história, não se deixa abater tão facilmente. É um livro triste que só. Dói na alma.

Espero que 2018 seja um ano muito melhor, melhor em todos os sentidos, com mais literatura e menos perrengues.